quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Ciganita - Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes, esse enorme génio literário, não escreveu só esse livro intemporal que é o D. Quixote. Da sua obra destacam-se doze narrativas curtas, as Novelas Exemplares, onde podemos encontrar este A Ciganita.
Logo na primeira página, deparamos com afirmações polémicas  e mesmo chocantes: com todas as letras, Cervantes afirma que os ciganos são um povo de ladrões e que essa é a única forma de vida que conhecem.
Obviamente, isto haveria de provocar diferentes leituras. Alguns, mais simplistas, encaram esta afirmação como uma constatação lógica, alimentando uma perspetiva xenófoba que Cervantes partilharia. Outros, no entanto, lêm esta afirmação num contexto de ironia. O certo é que, a meu ver, esta segunda perspetiva é confirmada pela leitura do livro; os ciganos de Cervantes não são apenas os ladrões que ele próprio enuncia. Esta aparente contradição faz parte de toda a lógica de Cervantes enquanto escritor e que viria a desenvolver magistralmente no D. Quixote: a arte da caricatura social. Estes ciganos são ladrões mas também amantes da natureza, da justiça natural, da igualdade de direitos entre os indivíduos e, acima de tudo, construtores de uma sociedade sem grupos sociais, sem desigualdades, ao contrário da sociedade "civilizada" da Espanha do século XVII. O roubo é encarado apenas como um modo de vida, fruto de uma sociedade (já naquele tempo) marcada pela injustiça social.
Obviamente, A Ciganita é também uma estória de amor e talvez tenha sido com essa intenção única com que foi escrita; portanto, é um livrinho pouco ambicioso que não tem qualquer comparação possível com o D. Quixote. É um livrinho agradável, que se lê  num par de horas mas que pode convidar o leitor desperevenido a interpretações apressadas e algo perigosas.
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