domingo, 11 de maio de 2014

Encontro em Jerusalém - Tiago Rebelo


Sinopse:
Francisca e Afonso são um casal de repórteres de guerra que se conheceu na Terra Santa, em dias pautados pelo ruído dos Scuds iraquianos, a que o autor poeticamente chamou «dias de pólvora». Mas os clarões que em 1991 incendiavam os céus de Jerusalém e de Bagdad perdiam todo o seu fulgor perante a luminosidade quase incandescente da paixão que unia os dois repórteres. Muitos outros cenários de guerra testemunhariam o amor, o entendimento pleno que os tornava tão íntimos e felizes. Mas a proverbial inveja dos deuses não tolera uma felicidade em estado puro, e a sua intervenção não se fez esperar. Francisca e Afonso iriam ter pela frente a mais dura prova à intensidade da sua paixão. Com o sugestivo título "Encontro em Jerusalém", o mais recente livro de Tiago Rebelo conquista-nos de forma imediata e incondicional através de uma narrativa que concilia autenticidade e arrebatamento na justa medida, e que nos deixa absolutamente rendidos ao seu subtil poder de encantamento. Baseado nas experiências das reportagens de guerra do escritor, nomeadamente em dois dos conflitos que mais marcaram a década de 90 — a Guerra do Golfo e a Guerra da Bósnia —, "Encontro em Jerusalém" surpreende-nos pela extraordinária riqueza e verosimilhança dos cenários, de um rigor documental, e das personagens que neles se movem, e revela-nos ainda o conhecimento profundo que o autor tem dos ambientes socio-políticos descritos.
in www.wook.pt

Comentário:
É complicado fazer um comentário a este livro. O motivo é aparentemente simples: na minha opinião há neste livro dois polos opostos, como se estivéssemos a falar de duas obras diferentes: uma crónica de viagens e uma história de amor. Na verdade, como crónica de viagens e, ao mesmo tempo, como memória histórica, é excelente. Já como estória de ficção redunda numa narrativa linear, simples, enfim, a estória já mil vezes contada dos repórteres que se apaixonam num cenário de guerra e que acabam casados mas desunidos pelas feridas que a guerra deixou, para tudo terminar no mais belo e banal final feliz, típico das mais eficazes novelas cor de rosa.
E não vale a pena falar mais deste livro como obra de ficção.
O grande mérito deste livro é a sua dimensão jornalística; é o testemunho realista e muito bem escrito, com essa objetividade típica da escrita jornalística, que nos presenteia com uma excelente síntese do conflito israelo-árabe, da primeira e segunda guerra do golfo, do drama da Faixa de Gaza, com o interminável confronto entre palestinianos e israelitas, com os EUA a desempenhar o seu papel de manobrador de marionetes. No entanto, é sobre o conflito nos Balcãs que o autor consegue o seu melhor desempenho, dando ao leitor pouco informado um quadro muito claro do que foi esse terrível conflito que marcou a reta final do século XX. Aí, o drama dos civis inocentes, dizimados pelas armas de cobardes encondidos atrás de difusas ideias políticas, testemunham o que de mais pérfido há na natureza humana: precisamente o desprezo pelo seu semelhante. E, mais uma vez, a hipocrisia cobarde dos poderosos, dos "donos do mundo" assistindo impávidos ao horror.
Por outro lado, Francisca, a repórter fotográfica testemunha essa tirania da imagem, em que a humanidade parece ter mergulhado: tudo se faz por uma imagem, mesmo que isso implique sofrimento e morte.
Enfim, um livro que me marcou profundamente pela abordagem clara e objetiva de assuntos muito sérios mas que fica aquem das expetativas como obra de ficção. 
Mesmo assim, é um livro que se recomenda vivamente.

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