domingo, 18 de maio de 2014

Bornal de Narrativas - José Fernandes da Silva

Numa vistosa e cuidada edição Calígrafo e com um magnífico texto de apresentação da autoria de José Manuel Mendes, José Fernandes da Silva voltou à narrativa curta. Em boa hora, digo eu, modesto e interessado leitor. Poeta por excelência, músico por paixão, professor por ganha-pão, este minhoto (de gema e orgulho) passeia pelas letras como se nascido entre as linhas de um qualquer tratado da arte de bem escrever.
Na verdade, um dos aspetos que mais impressiona o leitor é o cuidado na escolha das palavras, o esmero na adjetivação equilibrada, escapando sem esforço à verbosidade barroca que tanto por aí pulula. Por outro lado, é nítido o respeito pela linguagem popular. E também aí é interessante verificar como o autor escapa à armadilha da brejeirice: o seu sentido de humor é delicado, irónico e eficaz sem cair na facilidade da palavra atrevida.
Este humor delicado e refinado está, também ele, pejado de humanismo: a maioria das centenas de personagens do livro são dotadas de uma simplicidade e mesmo bondade humana, não escapando mesmo o meliante, o sacana que foge à lei mas que não passa do desastrado "pilha-galinhas" ou do hilariante trapaceiro mal sucedido. No prefácio a esta obra, o escritor Fernando Pinheiro atribui-lhe um tom moralista; eu não iria tanto por aí; esse moralismo talvez não seja mais do que a expressão dessa crença na bondade humana, num certo tom de Rousseau moderno.
Em termos formais, as narrativas que este livro nos apresenta têm o condão de manter as linhas do conto tradicional, linear, muitas vezes com final aberto que convida o leitor a imaginar desfechos, outras vezes com remates finais surpreendentes e outras vezes ainda com desfechos hilariantes como o da bela Liberata no conto Coisas da Natureza. O autor foge sempre, com mestria, daqueles finais inesperados, milagrosos, que retiram o tom realista à narrativa. Aqui tudo é natural como a própria vida; tudo é simples como os campos e os rios, os perfumes da erva acabada de cortar ou da água pura do riacho que dá vida a homens e bichos.
Esta estrutura de conto tradicional é servida por uma linguagem tremendamente visual: as descrições criam imagens claras na mente de quem lê e a sequência narrativa obedece sempre a uma lógica do "acontecível" que reforça o tremendo realismo dos cenários e das estórias.
Tudo isto leva o leitor a encarar estes contos de uma forma perfeitamente natural, como se de crónicas se tratasse.
Finalmente, uma referência a esse traço distintivo da obra deste autor: a ruralidade. Para José Fernandes da Silva, esta admiração pelo universo rural é a expressão do culto das raízes, dos valores ancestrais mas sem aquela sensação de perda e desencanto que carateriza muita da literatura sebastianista, "passadista" que por aí se encontra. Esta ruralidade é a expressão do caminho para a realização do ser humano que tenta escapar a este materialismo capitalista e selvagem em que nos encontramos mergulhados. O campo de outros tempos é o contraponto da cidade mergulhada na tirania dos mercados que hoje nos tenta subjugar.

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