segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lavínia - Ursula K. Le Guin


Sinopse:
Como leitora da Eneida, de Virgílio, Ursula Le Guin escolheu esta figura silenciosa, a segunda mulher de Eneias, para protagonizar este romance, que é a sua homenagem à epopeia de Virgílio. Lavínia passa a narradora deste romance, contando-nos a sua infância e juventude idílicas, num mundo pré-helénico e pré-romano, cheio dos mitos e dos ritos que o sagravam, fala-nos dos homens que a cortejaram até que Eneias chegasse e, como em Tróia por Helena, uma guerra começasse, por ela. Um romance de uma rara qualidade poética que tem tanto de histórico como de mítico.
in www.presenca.pt

Comentário:
A literatura fantástica está na moda, mas ao depararmos com livros como este somos levados a pensar que sempre esteve na moda. Este livro, publicado pela primeira vez em 2008, é uma obra notável no domínio da fantasia. Isto porque um excelente livro não pode nunca restringir-se a um género ou a um rótulo. Portanto, este Lavínia é muito mais que uma obra de literatura fantástica.
Antes de mais, parte de uma ideia notável: continuar e como que "terminar" a Eneida que se diz ter ficado incompleta. Na verdade, agarrando as réstias de verdade história que ainda pode haver sobre os tempos nebulosos situados antes da fundação de Roma, Ursula Le Guin preenche essas lacunas com a encantadora história do imortal Virgílio e com a sua própria imaginação. Lavínia, mulher de Eneias, não teve direito a toda a sua história na Eneida. O poeta não terá tido tempo de completar a sua vida no imortal poema épico. A autora envereda então por um caminho narrativo verdadeiramente peculiar: coloca o próprio Virgílio dentro de livro, seguindo os passos da personagem que ele próprio criou, Lavínia, interagindo no próprio enredo. Criador e criatura num mesmo plano. A ideia é genial e resulta numa narrativa peculiar, cheia de emoção e, acima de tudo, muito bem escrita. A prosa de Ursula Le Guin tem um tom poético que embala quem lê, num percurso pelas florestas encantadas do passado mítico de Roma. Nesta escrita "lê-se" a paixão da autora pelo tema, a emoção de quem escreve com prazer, deleitando quem lê.
Sabinos, Etruscos, Latinos, bem como os estrangeiros troianos e gregos preenchem um mosaico encantador, envolvidos numa névoa de misticismo, nas míticas florestas do Lácio. Todo o livro vem perfumado de uma religiosidade natural, de um tempo em que os Deuses comandavam os destinos dos homens e não o inverso, como a partir de certa altura pareceu tornar-se comum. Aqui são os oráculos e os presságios que determinam o destino das personagens e dos povos. Mas esta religiosidade envolve um respeito e uma veneração pela própria natureza que nos faz sentir angustiados perante a relação tirânica que o homem, no decorrer do processo histórico, parece ter implantado em relação a esse mesmo ambiente natural.
O que realmente há de mágico neste livro é a sensação de que a personagem principal, Lavínia, tem consciência que a sua vida é pura imaginação do poeta; como se a realidade passasse a existir como fruto da própria ficção. É esta magia que torna este livro único. O que lhe falta para ser uma obra-prima? Talvez alguma incerteza no desenrolar e no desfecho da narrativa; algum "suspense". Mas nem por isso deixa de ser uma obra genial.
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