domingo, 31 de janeiro de 2010

O Leitor - Bernhard Schlink

A leitura como testemunho de um amor inexplicável, intenso e estranho. Um jovem de 15 anos que lê em voz alta para uma mulher de 36, que ama ardorosamente. Um adolescente sonhador e uma mulher bela mas autoritária. Uma personalidade em formação e um espírito enigmático, formado num passado misterioso e agora plasmado no silêncio de quem ouve ler.
Para Hanna, o amor carnal é uma forma de assegurar um presente fugaz, refúgio de quem vive perdida no passado; “a tua vida inteira numa hora”…
Todo o enredo se constrói em torno de um tema complexo e marcante para a Alemanha da segunda metade do século XX: a justiça para os criminosos de guerra, um dos grandes dilemas éticos do pós-guerra. Este livro comprova até que ponto o Holocausto nazi está ainda presente na consciência alemã de uma forma profunda e intranquila.
Para a geração do Leitor, não se tratava apenas de julgar criminosos, mas sim de julgar toda a geração dos próprios pais. Hitler, responsável pela morte e tortura de milhões de pessoas havia sido eleito e apoiado pela maioria dessa geração que agora é julgada; essa tinha sido a geração que executara as ordens de Hitler. Até que ponto, no entanto, é legítimo julgá-los? Até que ponto se trata de vontade de praticar a justiça ou apenas exorcizar a culpa e apaziguar a consciência?
Compreender a geração dos pais torna-se incompatível com a necessidade de julgar e condenar. E Hanna representa a geração dos pais. Amá-la ou julgá-la? É a grande questão.
Apontar o dedo aos culpados não liberta, não apaga a culpa colectiva. Mas torna o sofrimento e o remorso mais suportáveis.
Na segunda parte do livro, um novo dilema: o Leitor conhece um segredo de Hanna que a pode salvar. Mas, bem ao jeito da literatura alemã, Schlink coloca-nos perante um este dilema ético: até que ponto é legítimo revelar um segredo contra a vontade da própria pessoa que, com essa revelação pode ser salva? Poderá esse gesto “salvador” compensar a invasão da dignidade e da liberdade do ser humano?
Se bem que de leitura agradável e fluente, este livro deixa um tom nostálgico no final. O remorso prevalece. A culpa é insuperável. Amar ou castigar não eliminam a culpa nem acalmam a consciência. Culpa por ter amado; culpa por ter castigado.
No final, a grande mensagem parece ser esta: punir é uma tentativa vã de libertar a consciência. A culpa sobrevive. Não se elimina de uma geração para a outra, apenas se transfere. Os acusadores tornam-se vítimas da própria acusação.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

Um escritor vesgo, Bartolomeu, que lutava por se desamordaçar. Uma cantora, Kianda, cuja música era a linguagem dos Astros, uma modelo, ex-miss, que um dia caiu do céu. Angola, 2020. Um mundo em harmonia que, segundo Kepler, se expressa em música triste e lamentosa; a Terra chora; e continua a chorar, a terra angolana…
Um homem que morre lentamente depois de ver morrer a filha; uma esposa que não sabe se o há-de abraçar ou matar; - Abraça-o, diz a irmã, que morto já ele está. Bartolomeu vai morrendo mas lutando. Amores que se cruzam e descruzam e rancores que podem ser mais fortes que amores. E Pascal Abide exemplo extremo, real, do oportunismo que destrói a terra angolana: empresário das telecomunicações, senhor controla-tudo, traficante de armas, corrupto, criminoso, traficante de drogas, premiado pelo governo, íntimo da Senhora Presidente, embaixador de Angola no Vaticano.
O temor reverencial, doutra forma dito o medo, paralisante, monstro simpático que convida ao sossego, à harmonia da conivência, à paz da hipocrisia. Uma mulher com sinais no corpo, há que ler os sinais ou ser devorado. E a miséria de um povo nos subterrâneos dos prédios, nas catacumbas da vida.
Mas há sempre o sossego; há pessoas que são sempre lugares. Há sempre Lulu, o marido fiel de Kianda, o refúgio, o ultimo reduto, pessoa que é lugar. Sim, porque o amor é um lugar seguro e há pessoas que são assim: apenas um lugar seguro de onde nunca poderemos nem quereremos escapar. Como Luanda suja, miserável, corrupta, irresistível.
Por todo o lado, a magia do saber africano, a fantasia, o encanto da terra e dos seus fantasmas, refúgio, um lugar para onde se escapa a revolta. O lugar de onde a riqueza não sai nem entra, riqueza de um povo, de almas que não participam no jogo do poder. Apenas um povo ingénuo e sábio que sabe falar chuva, falar vento e conversar com o capim.
Mas em Luanda é preciso não falar; calar e seguir as pisadas do poder. Submissão. E Tata Ambroise, o feiticeiro do governo, o torturador, alma santa que cura desvalidos, ignorância ao serviço do poder. A boca voraz do monstro.
Kianda e Núbia, as mulheres que parecem existir para preencher os sonhos dos homens, mulheres que dão vida à existência. A exaltação do feminino, a beleza mais pura num mundo de podridão.
Em suma, um livro escrito na nostalgia, triste, às vezes apocalíptico, sem nunca perder a capacidade de sorrir, talvez o sorriso do desprezo. Uma visão pessimista mas também encantada de Angola que talvez se estenda à vida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Opinião - Afinal o tamanho é importante?


Os dois melhores livros que li até hoje (D. Quixote e Os Irmãos Karamazov) são absolutamente monstruosos (mais de 1500 páginas nas edições que usei). Outros livros considerados obras-primas da literatura mundial são do mesmo quilate: Guerra e Paz, Os Miseráveis, Ana Karenina, Doutor Jivago, etc. Isto leva-me a pensar no seguinte: o que distingue, de facto, uma obra-prima? Se é a análise aprofundada do comportamento humano, então, não tenhamos dúvidas, o homem é um ser tão complexo que não se consegue ir às profundezas da alma sem se fazer um “tratado” capaz de funcionar como arma de arremesso se nos assaltarem a casa.
Por outro lado, há livros fantásticos que se lêem numa única insónia: Madame Bovary, A Metamorfose, Inventar a Solidão, O Estrangeiro, De Profundis, A Morte de Ivan Ilich, ou o recente e maravilhoso Firmin.
Mas… poderão estas últimas ser consideradas obras-primas? Não serão apenas leituras e interpretações parcelares da vida e alma humanas?
Esta reflexão leva-nos a uma outra questão: afinal, o que queremos dos grandes livros? Que nos analisem profundamente ou que nos ofereçam belas histórias? Que nos ocupem longos serões e nos obriguem a memorizar centenas de nomes ou então que nos distraiam apenas?
Será o nosso tempo tão pouco valioso que nos possibilite utilizar centenas de horas para ler três ou quatro obras?
Evidentemente tenho as minhas respostas a estas questões. No entanto, gostava que os meus amigos pensassem no assunto…

domingo, 17 de janeiro de 2010

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

Kafka à Beira-Mar é uma obra magnífica por conseguir aliar um intenso ritmo narrativo a uma caminhada reflexiva capaz de nos fazer, por várias vezes, voltar a página atrás e parar para reflectir. A linguagem, cheia de simbolismo, cativa o leitor pela ironia e acima de tudo pela fantasia. O interior do ser humano é analisado em detalhe, à luz da sabedoria oriental, num meio irremediavelmente ocidentalizado como é o Japão moderno.
O enredo aborda o percurso de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que foge de casa e um homem idoso, o interessante Nakata, que fala com os gatos, faz chover sanguessugas ou peixes, depois de ter sido vítima de um estranho acidente, na sua juventude. Ao longo do seu atribulado percurso de fuga, Kafka parece fugir de si próprio; amaldiçoado por uma negra profecia lançada pelo pai, foge de quê? É este o coração do livro: de que foge o ser humano?
Em primeiro lugar, desde as primeiras páginas, Murakami transmite a ideia de uma acentuada crença na bondade natural do ser humano; a maioria dos personagens são naturalmente bons, o que vem, pelo contraste, reforçar a maldade atroz do pai de Kafka.
Nakata, velho e bom, encarna a ausência de conhecimento como fonte de felicidade; o velho que fala com os gatos ficara estúpido mas não sabendo o que são recordações, não sabe o que é o sofrimento.
Ao longo da obra, principalmente na primeira parte, Murakami evidencia todo o seu fascínio pelo conhecimento clássico, nomeadamente dos Gregos antigos. Na vida, como em Aristófanes, o ser humano parece destinado a procurar a sua “metade perdida”, com a qual se completará. Estabelece também um paralelismo com o teatro grego, na relevância que dá ao destino, como uma espécie de desígnio incontornável sobre a vida humana, nomeadamente a tragédia. Na vida humana a tragédia parece ser consequência das virtudes e não dos defeitos ou problemas.
Realce também, nesta primeira parte da obra, para a valorização dos conhecimentos tradicionais da cultura japonesa, como por exemplo o conto de Genji, na explicação dos “espíritos vivos”.
Mas o tema central deste livro é, sem dúvida, o destino. Numa espécie de luta interior, Kafka luta pela sua própria identidade, tentando conciliar o destino com o livre arbítrio. A fuga é antes de mais uma tentativa desesperada de escapar ao destino. No entanto, como afirma o seu amigo Oshima, “podes fugir mas não te podes esconder”. E, assim, a vida será sempre uma luta. Ao longo dessa luta, é fundamental a imaginação; aqueles que não a usam tornam-se ocos, desprovidos de conteúdo. É essa imaginação que permitirá ao ser humano lutar e triunfar contra o destino. O destino é poderoso mas não é invencível.
Quando Kafka foge, afinal, foge para onde? Inicialmente para a biblioteca, depois para a floresta: são esses os locais onde ele se pode encontrar. É a eterna procura do “eu”! No entanto, é dentro dele que se encontram as respostas. O seu “eu interior”, personificado pelo “rapaz chamado corvo” funciona como a sua consciência, a sua voz interior.
Ao longo da obra parece notar-se um certo corte com o conhecimento enquanto caminho para a felicidade; o verdadeiro conhecimento é precisamente aquele que provém do “eu interior”. É nesse sentido que Nakata, o velho, considerando-se “estúpido” porque esqueceu tudo o que aprendera na escola, é o mais sábio porque encerra todo o conhecimento místico que dará luz a todos os mistérios que o enredo encerra. A própria biblioteca não é vista como local de conhecimento mas de solidão; é aí que o espírito pode encontrar a verdade, não nos livros mas em si mesmo.
Em conclusão, trata-se de uma obra de grande alcance filosófico e místico, cheia de simbolismos e onde o mistério e a fantasia resumem todo o lado não racional do ser humano, lado esse que é fundamental na procura da identidade e do verdadeiro sentido da vida.
Imagem: Salvador Dali, Swans Reflecting Elephants

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Opinião - Abaixo o pedantismo


Num intervalo de leitura de um brilhante Murakami (Kafka à Beira-mar) faço uma investida pela Internet e deparo com algumas ideias que me deixam perplexo.
Eu sei que todo o ser humano tem direito à sua opinião. Sei e respeito.
No entanto, esse respeito não me impede de ficar indignado.
Eu sei que "é bem" dizer que se gosta de escritores obscuros mesmo que não se goste; "é bem" dizer-se amante de música clássica mesmo que lá em casa se oiça a Ágata; "é bem" decorar uns títulos de programas do Canal2 mesmo que, no esconderijo doméstico, se vejam apenas telenovelas da TVI e, quando muito, o concurso do gordo.
Tudo bem, se "é bem" que seja. Mas eu tenho direito à minha indignação e julgo ter motivos sérios para ficar indignado.
Não gosto do fado de Amália Rodrigues, dos livros de Paulo Coelho, da literatura Light em geral, de escritores elitistas e pseudo-intelectuais. Mas nunca direi ou escreverei que essas pessoas são estúpidas, incompetentes e inúteis. Por uma única razão: porque eles contribuem para a felicidade de muitos seres humanos! Por isso, tenho motivos para ficar indignado quando deparo com certas "modas" como considero pedantes, como a de considerar frívola e menor a (abusivamente denominada) literatura de auto-ajuda e desdenhar de determinados escritores apenas porque são populares e acessíveis como Paul Auster e este espectacular Murakami.
Aqui fica pois a minha indignação: uma obra prima não tem de ser um calhamaço duro de ler nem um escritor de génio tem de ser uma mente tortuosa e atormentada.
Sinceramente, cada vez que leio opiniões como as que referi acima, mais me apetece dedicar-me à tal literatura light! Venham daí as Nora Robert's, as Danielle Sttele's e até o velhinho Konsalik. A leitura tem de ser diversão; abaixo o intelectualismo pedante!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Amante - Marguerite Duras

“O Amante” é um dos maiores sucessos desta escritora que marcou a literatura francesa do século XX. Trata-se de uma obra de cariz auto-biográfico, o que, desde logo, revela a enorme coragem da escritora, tendo em conta o enredo do livro.
A protagonista é uma jovem francesa de quinze anos que se apaixona por um magnate chinês na Indochina (antiga colónia francesa que incluía o Camboja, Laos e Vietname). A jovem, a quem a autora não atribui nome próprio, envolve-se de imediato numa intensa relação amorosa e sexual. Trata-se, obviamente, de um relacionamento considerado “escandaloso” para uma jovem europeia.
Também o relato da vida familiar da jovem é absolutamente chocante: a mãe, antiga professora primária arruinada, viúva, é uma pessoa amargurada, gravemente afectada por distúrbios mentais, recorrendo com frequência a violentos castigos corporais sobre a filha “pecadora” e sobre o irmão mais novo, que acaba por morrer. De toda a família, ele é o único que, no livro, tem nome próprio (Paul). O irmão mais velho, dependente da droga e do crime, é uma pessoa violenta que se alia à mãe no exercício da repressão. Ambos, personificam a maldade e a violência.
Além disso, a miséria material, a pobreza quase extrema, acompanha este quadro absolutamente dramático mas descrito de uma forma chocante pelo realismo.
Trata-se de uma obra que, pelo seu dramatismo, exige do leitor um certo distanciamento em relação às emoções que, inevitavelmente, acaba por despertar. É uma obra marcada pela tristeza, pela revolta.
As mulheres são, em geral, vistas como seres solitários, dependentes e emocionalmente frágeis. E é essa fragilidade, essa solidão, que conduz a jovem até à relação intensa mas efémera com o amante. Este é visto como um ser algo superior, inacessível, porque pertence a “outro mundo”, o da elite endinheirada e poderosa. Mas, ao mesmo tempo ele é desesperadamente frágil por não ser capaz de assumir qualquer compromisso, permanecendo sempre submisso ao poder e ao sistema em que se encontra inserido. Além disso, é notório o choque cultural que afasta o amante chinês da jovem francesa.
Ela não se entrega por amor nem sequer por atracção, mas sim por revolta e solidão. Entrega-se e esvazia-se; a relação não a liberta. Pelo contrário, é a sua paixão pela amiga do reformatório, Hélène, que a realiza, que a gratifica, mesmo não passando de uma paixão platónica e fugaz.
A linguagem, poética e sentida, muitas vezes desesperada, é um dos maiores atractivos deste pequeno romance. Uma leitura que se recomenda com a advertência do necessário afastamento emocional, defesa indispensável a um leitor mais sensível.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A Terceira Rosa - Manuel Alegre

Trata-se de uma das raras obras em prosa deste que é um dos grandes poetas da língua portuguesa. Neste livro, Manuel Alegre relata-nos uma sofrida história de amor, entre Xavier e Cláudia, na fase final do Estado Novo português.
Os encontros e desencontros, as euforias e os dramas da paixão vão acompanhando a agonia de um regime pérfido mas moribundo que, no entanto, continua a dilacerar vidas e almas. Xavier e Cláudia, divididos pelo fascismo, separados por mundos opostos num mesmo mundo, vítimas dos outros mas também da insatisfação humana que eles próprios representam no teatro da paixão.
Numa admirável, cuidada e emocionada prosa poética, Alegre passeia pelas palavras enquanto nos guia pelos caminhos da solidão que o amor não apaga. Um amor sem tempo, ou melhor, com um tempo que é desde sempre e sem fim.
Fabulosa a descrição dos mecanismos da paixão, que “passa e não passa”. Assim é o amor: morre mas não morre. E um “também eu” que é frase de quem ama e se repete nesse tempo que não acaba, nesse passar que não passa.
Uma prosa escrita com ardor, sem artificialismo, apenas alma, apenas o som que vem do peito. Sem descrições inúteis, que tantas vezes enfadam e destroem grandes enredos. Trata-se da escrita mais pura e magnificamente simples que se pode criar.
Dispensável, talvez o estafado paralelismo entre o amor e os toiros de morte.
Genial, talvez a leitura da alma humana que, de tanto amar, destrói. Xavier amou até à exaustão.
Genial, também, os caminhos paralelos do amor e da Liberdade; o 25 de Abril que nasceu para não morrer, um amor que terminou sem morrer. A esperança que sobrevive, Cláudia e a Liberdade, a eternidade das paixões. Cláudia que dizia a Xavier “eu não quero morrer de ti” é, afinal, eterna.
Curioso título do livro: referência a um belo poema de E. E. Cummings em que a rosa vermelho-escura aparece como símbolo da morte:
(…)
If there are any heavens my mother will (all by herself) have
one. It will not be a pansy heaven nor
a fragile heaven of lilies-of-the-valley but
it will be a heaven of blackred roses
(…)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Intervalo - Feliz 2010

Na impossibilidade de visitar os blogs de todos quanto partilham comigo esta paixão pelos livros, aqui deixo o meus sinceros votos de um 2010 cheio de alegria, com muitas e  boas leituras.
A propósito, em jeito de recomendação para o novo ano, os sete livros que me marcaram no "Ano Velho":
A Saga de um Pensador, de Augusto Cury
O Monte dos Vendavais, de E. Bronthë
Cemitério de Pianos, de José Luis Peixoto
Firmin, de Sam Savage
O Doente Inglês de M. Ondaatje
Frankenstein de M. Shelley
A Estrada, de Cormac MacCarthy

Então fiquem com uma coisinha gira da minha infância ;)
http://www.youtube.com/watch?v=dcLMH8pwusw

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Permitam-me imitar o blog http://adasartesleituras.blogspot.com e citar uma passagem absolutamente fantástica desta obra:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Não tenho dúvidas em afirmar que José Luís Peixoto é um dos escritores contemporâneos cuja escrita mais me fascina. Com nítidas influências de Lobo Antunes e, principalmente de Faulkner, adopta a técnica de multiplos narradores que confere à escrita uma intemporalidade encantadora. O tempo sai claramente vencido. Avô, pai e filho, uma mesma vida; as mesmas angustias, que são as da gente simples, as de todos nós. "Eramos perpétuos uns nos outros", afirma o filho de Francisco.
A obra baseia-se na vida de um maratonista português que morreu, dramaticamente, ao quilómetro 29 da maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Carpinteiro de Profissão, Francisco Lázaro era filho e neto de carpinteiros. Nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a suceder ao seu filho.
Memórias de vidas repetidas formam circulos concêntricos, fazendo-nos olhar a vida como um carrossel de factos que, imperiais, dominam o destino e subjugam a existência. Ao longo de toda a obra, predomina a beleza que só a tristeza pode dar às palavras. O sentir da gente simples, os prazeres e as dores de quem vive à procura da música nunca encontrada dos pianos avariados. A vida como cemitério da música. E um maratonista que corre até à exaustão em busca de um sentido (que não existe) para os círculos concêntricos.
Maria, operária fabril, passava horas lendo romances de amor no cemitério de pianos (espécie de arrecadação onde se guardavam pianos que ficaram por consertar). Maria procura nos livros o sonho que não existe. Mas procura e assim vive; entre sonhos perdidos e musica que não sai dos pianos; esperanças adiadas que não perdidas. Sonhos que são o conforto e o alimento da vida. Maria lê; e quem lê foge sempre de algo; talvez do medo, talvez das memórias, talvez de alguém. Mas vive; refugiando-se num mundo novo, mas mantendo a esperança.
Sempre a esperança do maratonista que corre como vive: à procura do sentido da vida e em fuga; fuga da culpa e do medo, os grandes inimigos da vida: ninguém vive só a sua vida; vive também a dos outros porque as suas atitudes os afectam e condicionam.
No meio de tudo isto, que interessa quem vive e em que tempo? O momento presente encerra todo o passado. É Francisco quem o diz na primeira pessoa: "todo o tempo, anos e décadas que vivi, que não vivi, que viverei e que não viverei, existem neste momento" (página 225). Passado, presente e futuro num único e poderoso agora.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Boneca de Luxo - Truman Capote

“Boneca de Luxo” é a história de uma jovem actriz, Holly Golightly (Lulamae de seu nome verdadeiro), que foge de um passado sofrido para o luxo e a luxúria de Nova Iorque. “Em viagem” é a frase que coloca na sua caixa de correio; de facto, ela procura na vida uma eterna viagem que a leve até ao âmago da existência, por caminhos incertos mas iluminada por um objectivo: a realização pessoal, a sua afirmação como pessoa.
Boémia e mundana, Holly envolve-se numa existência povoada de vícios, com uma conduta que a sociedade carimba de devassa e imoral. No entanto, ela nunca deixa de expressar os seus valores morais. Ao longo da narrativa, é visível a superficialidade das relações humanas na grande cidade e a futilidade daqueles que a procuram em nome do corpo e da satisfação do prazer.
No entanto, Joe Bell e George Peppard, o escritor fracassado, são diferentes. Eles alimentam por Holly uma amizade profunda e verdadeira, talvez aquele amor que a cidade lhe recusa. Este amor, que nada tem de carnal, dispensa qualquer erotismo e mesmo a própria presença física. É Joe Bell quem define este amor, de forma eloquente e terrivelmente bela:
“Podemos amar uma pessoa sem ser dessa maneira. Mantemos as distâncias, é uma pessoa amiga que não deixa de nos ser estranha.”
Peppard segue os passos de Holly e caminha sempre ao seu lado, ao contrário da grande cidade que apenas a admira e utiliza nos seus desejos fúteis. No entanto, Holly permanece fiel ao seu passado; Doc, o ex-marido resgatara-a da miséria e a ele se unira com tenra idade. Para Holly, ele mantém-se o verdadeiro dono do seu afecto. Neste aspecto, as amarras do passado são intransponíveis.
“Mas, Doc, eu já não tenho catorze anos nem sou a Lulamae. (…) Mas o pior é que sou mesmo”.
Nessa quase infância, Doc libertara-a da miséria mas aprisionara-lhe os sentimentos; e Holly era como um animal selvagem que ele pretendeu enclausurar. Na grande cidade, procurou libertar-se desses grilhões, no entanto, apenas encontrou o desprezo vil da soma de egoísmos a que chamamos sociedade ou civilização.
Para Holly restou a necessidade de continuar “em viagem”.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Firmin - Sam Savage

Firmin, o rato, é o mais novo de uma ninhada de treze, filhos de uma ratazana bêbada. Fraco, por falta de teta disponível, é o renegado da vida.
Terminada a leitura, não posso deixar de admitir que, se fosse um rato como Firmin, teria devorado literalmente o livro depois de o ter “devorado” em poucas horas. Trata-se de uma fábula magnífica.
Este livro deveria ser lido atentamente por todos aqueles que não compreendem a paixão pelos livros.
Vítima de “biblobulimia”, Firmin alimenta-se de livros: ele , come e vive os livros. Vivendo numa livraria de bairro, ele observa as pessoas e vai aprendendo a viver com elas. A livraria (na primeira parte do livro) e a casa de Jerry (na segunda parte) são o seu refúgio – o mundo lá fora é horrível e decadente. Os livros e o sonho comandam a sua vida.
No entanto, Firmin, o devorador de livros, não consegue comunicar com os humanos, essa espécie incompreensível e egoísta. Jerry, o homem que queria consertar o mundo, escritor modesto e vagabundo no destino, é o único que o compreende; o seu único amigo. Jerry é pobre e desprezado. É feliz. Como o Falcão de “A Saga de um Pensador”, ele vive do outro lado do mundo; não acima nem abaixo; apenas numa linha paralela à vida dos “normais”; ele e Firmin; eles e os livros. No entanto, é nesse caminho paralelo que encontram a felicidade, bem perto da vida, não num mundo irreal ou afastado dos outros. Firmin como nós, os que amamos os livros, não vivemos noutro mundo; apenas do outro lado – aquele lado a que alguns chamam da loucura.
No entanto, Firmin, o rato, carrega consigo a solidão. Mas graças ao afecto (ou amizade, ou amor, tanto faz) por Jerry e pelos livros, essa solidão não deixou nunca de ser apenas uma palavra que apenas vagueou com ele pela vida.
Firmin teve a coragem suficiente para vencer o medo e procurar o sonho. Foi um rato renegado mas feliz.
Um livro fantástico; uma fábula inesquecível.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Arquipélago da Insónia - António Lobo Antunes

Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…
Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.
E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…
Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.
Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…
O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adeleide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…
E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…
E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?
Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.
E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).
Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.
E um livro sem beleza.
De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Doente Inglês - Michael Ondaatje

A solidão que é a soma de quatro almas. Quatro pessoas, quatro vidas disformes, moldadas pelo infortúnio. A solidão e um livro magoado que exala tristeza, uma obra triste como a guerra e como a soma de quatro solidões. Um doente horrivelmente queimado, uma enfermeira dedicada que sacrifica a vida por ele, um soldado indiano que a guerra fez autómato revoltado e Caravaggio, velho soldado espião e ladrão, perigoso, perdido na vida como o pintor italiano.
A segunda guerra mundial e a respectiva desgraça humana como pano de fundo: um mundo destroçado porque o mundo é feito de corpos e almas, agora dilaceradas pelo monstro que o homem inventou e a que chamam ódio. Quatro seres que já não procuram explicações nem futuro; apenas talvez a paz que um refúgio num velho mosteiro pode ainda trazer.
O Inglês esqueceu tudo, queimado por dentro e por fora, tudo para ele são sombras disformes excepto Katharine e o deserto. Nada mais faz sentido senão o deserto mapeado pelo velho Heródoto, ultimo e primeiro a compreender o mundo, e o amor. Katharine, a imagem da vida, da morte e do amor, enfim, talvez seja tudo a mesmo coisa.
Kip, uma vida de submissão do colono indiano à velha senhora, a Inglaterra, um passado de humilhação e revolta abafada disfarçado na coragem do sapador heróico, desarmando bombas que por todo o lado desfazem outras vidas.
Hanna, perdida e vítima da vida, desterrada do belo Canadá para os intestinos do mundo, a Europa, a velha Europa onde se morre apenas. E Hanna sobrevive porque ainda existe essa réstia heróica de vida – o amor. Um amor difuso, talvez pelo doente, talvez por Kip ou Caravaggio, talvez por ela própria ou pela humanidade, pouco importa.
Caravaggio, perdido no mundo, à procura de Hanna ou do que possa sobrar da vida.
Para lá de uma Itália dilacerada, um deserto africano que preenche memórias de vida. Porque “só no deserto há Deus. (…) fora dali apenas havia comércio e poder, dinheiro e guerra.”
Sentimentos fortes e paixões profundas acabam por unir os quatro personagens da obra, como forças superiores e tirânicas. O amor leva-os a viajar pela vida: Londres, Cairo, o deserto ou a India; não existe amor sem viagens por onde os espíritos vagueiam.  O amor... esse lugar estranho que fica onde as almas solitárias se completam.
Uma obra magnífica, magistral, escrita a sangue e lágrimas, onde ler é uma viagem pela melancolia e pela tristeza. Um livro belissimamente triste. Sim, porque a tristeza pode ser bela.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Cabana - WM. Paul Young

Uma criança raptada e brutalmente assassinada. Um pai destroçado. Uma família arrasada. À raiva junta-se a revolta perante a (in)justiça divina. Mack, o pai, abandona-se à depressão que o devora, possuído pela Grande Tristeza. Quatro anos mais tarde um bilhete na caixa de correio, assinado por Deus, convida Mack a regressar à cabana onde a filha tinha sido assassinada. Aí, desenrola-se o encontro com Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo.
Confrontado com Deus, Mack terá oportunidade de o confrontar com o destino cruel que este traçara para a sua filha.
No entanto, aquilo que Mack encontra é muito mais do que a oportunidade de desabafar; é a possibilidade de compreender todo o seu passado, presente e futuro. Ao fim e ao cabo, este livro conduz-nos à tentativa de compreensão de qualquer acontecimento, por mais trágico que seja, à luz de algo muito mais global do que o facto em si. A vida não tem passado, presente nem futuro; o tempo, tal como o encaramos, esconde uma realidade global que tudo explica. Dessa forma, mesmo as manifestações mais tenebrosas do mal, são enquadradas numa construção humana da qual Deus parece ter-se demitido; no entanto, as manifestações do mal não são mais do que o preço a pagar pela liberdade dos homens.
O sucesso desta obra parece demonstrar a debilidade espiritual de um mundo de onde se ausentaram muitos dos princípios éticos que o cristianismo, como muitas outras religiões, sempre advogaram. Curioso o facto de esta mensagem espiritual coincidir no essencial com as ideias de vários outros escritores que pouco ou nada têm a ver com o cristianismo: Weiss, Cury, Trevisan, Tolle, Sharma, etc.
Em suma, trata-se de uma obra capaz de despertar o sentido de humanismo e de transcendência que parece escassear neste mundo dominado pelo capitalismo frio e egoísta, pela falta de leveza de espírito que nos conduz a uma constante luta pelo poder. No entanto, chega-se ao final da obra com algum sentimento de decepção pelo carácter apologético, pela ausência de inovação e pela repetição de uma mensagem que, mesmo assim, nunca será fastidioso enfatizar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frankenstein - Mary Shelley

A história é contada através de quatro cartas dirigidas por R. Walton a sua irmã. Walton encontra-se numa expedição nos mares gelados no Norte. É um corajoso aventureiro mas, acima de tudo, uma pessoa de carácter profundamente humano que encontra em Victor Frankenstein, o viajante perdido no gelo, um amigo que com ele partilhará a sua incrível história.
É nas cartas à irmã que Walton revela toda a desventura daquele cientista, desesperado por reencontrar nos gelos do Norte o monstro que criara.
Desde cedo, Victor é atraído pelo conhecimento do corpo humano, encantado pelas maravilhas da ciência moderna, própria da época em que o livro é escrito (inícios do séc. XIX). Na verdade, é uma época de triunfo da ciência e da tecnologia; a era da tecnologia do vapor, fruto da Revolução Industrial. Ao nível da química e das ciências naturais, vivia-se uma fase de intenso progresso, na sequência da afirmação do método experimental, com as descobertas de Newton e aos estudos de Lavoisier que deram a conhecer, por exemplo, a composição do ar e da água.
É essa nova atmosfera que leva Frankenstein às suas incríveis experiências, conseguindo dar vida a um ser feito de pedaços de cadáveres que recolhia nos cemitérios. Victor demonstra uma certa “personalidade dupla”, levando-o a assumir um “lado negro”, que o impele para as suas terríveis descobertas, em confronto com o seu lado humano, sentimental, profundamente ligado à família e à sua grande paixão, Elisabeth. Neste sentido, a ciência é vista como uma espécie de fatalidade, como se Victor fosse vítima da própria ciência e não o seu construtor. Quando Victor descobre o segredo da geração da vida, esse saber é visto como perigoso, como se constituísse uma espécie de condenação. Victor será assim a vítima da sua ciência.
Curioso o facto de o título original da obra ser “Frankenstein or the Modern Prometeus”. Prometeu teve uma condenação perpétua porque roubou o fogo aos Deuses para dar superioridade aos homens. Foi vítima da sua inteligência. Como Frankenstein.
Mas a grande surpresa desta obra reside na visão que a autora nos dá do “mostro”. Antes de ser corrompido pela “humanidade”, ele revela um carácter puro e bom. Nos seus primeiros contactos com o mundo, aprende em primeiro lugar a sentir a beleza e o amor. Os primeiros seres humanos que encontra depressa se transformam na sua “família” e chega a ser enternecedor o amor que começa a sentir por eles. Nesta fase, a descrição do “monstro” parece corresponder à imagem do “bom selvagem”, divulgada em França por Jean-Jacques Rousseau, cerca de 50 anos antes da publicação desta obra. Curiosamente, Rousseau era natural de Genebra, tal como Frankenstein (coincidência apenas? Não me parece). Tal como acontece na teoria de Rousseau, o “monstro” nasce naturalmente bom. É a sociedade que o corrompe.
De facto, a ausência de sentimentos negativos só se mantém até ele iniciar o convívio com os seres humanos. Aí, ele aprende a odiar; descobre a maldade. Da mesma forma que Victor encontrara a infelicidade ao adquirir conhecimento cientifico, a sua criatura torna-se infeliz quando adquire o conhecimento do ser humano. Quando este contacto se inicia, o próprio aspecto físico, aos olhos dos humanos, é suficiente para desvalorizar por completo toda a sua bondade natural. Nessa altura como hoje, na ficção como na realidade: a imagem prevalece sobre o ser e o sentir. Ser “feio” é desde logo infinitamente mais significativo do que ser “bom”.
Os homens ensinaram o monstro a praticar o mal; a partir daqui entra-se na espiral do ódio, alimentado por um verdadeiro monstro, o preconceito: socialmente, a criatura é uma aberração. Também vítima do preconceito, Victor revela-se insensível, incapaz de compreender o sofrimento da criatura; responde ao ódio com o ódio e a violência acentua-se. A vontade de vingança de Victor acentua a mesma vontade no monstro. O ódio destrói. Afinal de contas, o ódio é uma característica humana. Desgraçadamente humana.
Em conclusão: a criatura é um monstro odioso e admirável; selvagem mas humano; que odeia e que ama. Como os homens. Como todos nós. No entanto, é na pureza dos sentimentos humanos que se encontra a paz e a felicidade; no coração mais que na inteligência.



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Tigre Branco - Aravind Adiga

O Tigre Branco é um dos livros mais corajosos e inteligentes da última década. O autor, indiano radicado nos EUA, descreve o percurso de vida de Balram, um jovem indiano, pobre nascido entre os mais pobres. No entanto, Balram desde cedo revela a inteligência e a ambição que o levarão a galgar os degraus do sucesso até se tornar um empresário de sucesso na “nova” Índia.
O livro está escrito em forma de cartas ao primeiro-ministro chinês, reforçando desde o início o paralelismo entre as duas grandes potências emergentes no novo quadro geo-político e económico mundial.
Inacreditável é a palavra que mais vezes me assomou à consciência enquanto lia esta obra. De facto, a Índia que Adiga nos descreve é absolutamente dominada pela injustiça social e pelo inacreditável reinado da corrupção. Uma sociedade apodrecida pela ganância que vai acentuando as diferenças entre aquilo que o autor considera serem as “duas Índias”: a da Escuridão, onde os pobre se digladiam por uma sobrevivência precária e a da Luz, onde a ganância domina a vida de uma classe capitalista sem escrúpulos.
As antigas tradições daquela velha Índia, daquele mundo encantador de Deuses que convivem em paz e harmonia com os homens, parecem ter desaparecido. No espírito do autor, todo esse misticismo não passa de folclore para mostrar aos ocidentais.
Para subir na vida, para chegar à Luz, Balram teve de penetrar no mundo da corrupção desenfreada, da hipocrisia e da desonestidade mais descarada, até ao ponto de assassinar o patrão, de quem tinha uma imagem bastante positiva. Assim, Balram é apresentado como um personagem moralmente contraditório, que valoriza a humanidade do ser e os valores éticos que o ligam por exemplo, à família, em descarada contradição com uma capacidade de adaptação ao mundo da corrupção e da desonestidade, indispensável para atingir a “Luz”.
Assim, a Índia é-nos apresentada como uma potência emergente mas cujo poder económico assenta na desigualdade e na exploração. Tudo se passa como se o velho sistema de castas tivesse encaixado no espírito capitalista que acentua esse fenómeno de desigualdade e de segregação.
O estilo bem humorado, profundamente sarcástico de Adiga acentua o carácter chocante da obra. O autor não hesita em utilizar uma linguagem crua, cáustica e por vezes violenta para caracterizar uma sociedade onde todos os valores morais parecem irremediavelmente perdidos. A própria família é já dominada por este espírito de luta, pela ambição material, mesmo ao nível dos mais desfavorecidos.
Em suma, um livro chocante, descarado, que nos leva a reflectir sobre a natureza do progresso. As potências emergentes, como a China e a Índia, baseiam o seu crescimento na desigualdade. Perturba-nos este caminho. Até que ponto será este o caminho a seguir por esta humanidade? Até que ponto o progresso poderá ainda ser algo que beneficie, de facto, a humanidade?

domingo, 15 de novembro de 2009

O Monte dos Vendavais - Emily Brontë


Ler o Monte dos Vendavais é uma aventura. É uma viagem alucinante ao interior do espírito humano e aos mecanismos que desencadeiam as paixões. No mundo da literatura, poucas vezes o confronto entre o amor e a vida foi tão dramaticamente abordado, como nesta obra magnifica de Emily Brontë.
O aspecto mais sublime desta obra tem a ver com a forma como os personagens principais representam tipos de comportamento complexos e, no fundo, profundamente humanos. É como se eles nos representassem a todos nós, nos aspectos mais profundos da nossa personalidade. À primeira vista, dos três personagens principais, dois deles (Catherine e Heathcliff) são figuras pouco adequadas àquilo que nós apelidaríamos de “pessoas normais”. Os seus comportamentos são, na maior parte dos casos, estranhos ao homem do século XXI. No entanto, o encanto desta obra está precisamente em mostrar que aqueles comportamentos também são nossos, também nos representam.
Edgar Linton é, aparentemente, o mais “normal”, aquele que mais se aproxima do arquétipo do homem comum. E isto porquê? Porque Edgar representa o “socialmente correcto” que é, ao fim e ao cabo, o factor que mais condiciona a nossa vida. Todos nós, no quotidiano, adoptamos atitudes que se destinam, em primeiro lugar, a cumprir deveres e regras mais ou menos impostas pela sociedade, pela tradição, pelas leis e por aquilo a que chamamos “moral”. Uma moral tantas vezes atrofiante e castradora, representada de forma sublime pelo criado Joseph.
No extremo oposto a Edgar, encontramos Heathcliff, um homem dominado pelas paixões. No entanto, essas paixões não se limitam ao amor por Catherine; um amor inexplicável à luz da razão, mas também a um conjunto de atitudes e traços de personalidade determinados pelas emoções e sentimentos. Heathcliff é amor mas também ódio e medo. Heathcliff representa tudo quanto há de instintivo na alma humana. E aí, no mais profundo da alma, amor e ódio misturam-se invariavelmente, em permanente luta. E o medo é a face visível dessa luta. Heathcliff inspira medo como expira paixão.
Catherine é a personagem intermédia, perdida entre o racional, o conveniente, de Edgar e a tempestade de paixões, o mundo do irracional, que é Heathcliff.
No final, qual destes lados triunfa? Isso é o que menos importa; o ser humano estará sempre condicionado por estes dois pesos que avassalam a alma. Poderemos algum dia encontrar um compromisso entre eles? Provavelmente não. E a felicidade a que Catherine aspirava, tal como qualquer ser humano, poderá encontrar-se em algum destes lados? Ou será a vida um longo caminho, uma longa procura rumo a esse compromisso?
Em jeito de conclusão, poderei afirmar que a resposta a estas perguntas será o grande desafio da vida de qualquer ser humano. E. Bronthë teve o enorme mérito de representar as nossas maiores angústias e medos. De nos mostrar os verdadeiros fantasmas da nossa alma. Cabe a cada um de nós descobrir que a literatura não é mais que um espelho da vida. Por mais incrível que nos pareça.



Intervalo na Leitura - Fado do Encontro - Tim e Mariza








Ao longe,
Distante,
Fica o mar no horizonte
É nele, por certo
Onde a minha alma se esconde...



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Saga de um Pensador - Augusto Cury

Um grande livro não precisa necessariamente de ter um estilo virtuoso, ou um enredo fantástico, muito menos exige uma linguagem simbólica e enigmática. Um grande livro tem que, isso sim, mexer com a alma. E, nesse sentido, este é um grande livro. Enorme.
É impossível ficar indiferente a esta viagem ao coração. A Saga de um Pensador é a nossa vida em livro. Augusto Cury revela-se o verdadeiro mestre na arte de nos apontar o dedo acusador: somos nós, os “normais” que não vemos a verdade, porque vivemos afundados nessa “normalidade” de autómatos. No entanto, só é cego aquele que não quer ver. E Marco Polo, o explorador da vida e protagonista principal do livro (jovem aluno de medicina e depois psiquiatra) mostra-nos como é possível ser feliz abraçando o mundo, em vez de o olharmos como um meio onde pululam inimigos e problemas.
E é entre os miseráveis, na rua, que Marco Polo aprende a arte de ser feliz. Rindo e amando a vida. É ele que nos ensina que as coisas mais importantes da vida são simples e fáceis de adquirir. Que os outros são, também eles, nossos companheiros nessa procura; que a natureza é o mundo de Deus; que a essência do ser está em nós e não no mundo exterior.
Ao longo do seu percurso académico e profissional, Marco Polo enfrenta os maiores e mais temíveis desafios: a ignorância, o egoísmo e a ambição. Mas há uma solução para todos os males: a liberdade. Em grande parte, este livro é um hino à liberdade que podemos encontrar dentro de nós. Como em quase tudo na vida, a solução está na alma.
Essa liberdade é talvez o factor mais importante na construção da felicidade; as correntes que nos prendem ao mundo exprimem-se em três formas de escravatura da alma: a sobrevalorização da opinião dos outros, a criação de necessidades e a recusa do tempo presente, ao sobrevalorizar o passado e ao ter medo do futuro. Ninguém consegue ser livre sem se libertar destas três amarras. No fundo, os grandes problemas da existência derivam das suas maiores qualidades: pensamos, mas fazemo-lo em demasia. Esta sobrevalorização do intelecto leva-nos muitas vezes a desvalorizar o que é simples e belo.  Extrapolamos, inventamos fantasmas e adiamos decisões em nome do nosso intelecto. Em nome do pensamento esquecemos essa arma que todos possuímos: a imaginação. Dentro de nós é possível construir mundos de paz, de harmonia, de felicidade. Só a leveza das emoções, a abertura da alma à beleza simples do mundo nos pode dar essa luz que a mente intelectualizada se esforça por apagar.
Em conclusão: este livro não é uma obra-prima da literatura mundial; no entanto é um dos livros mais fascinantes que alguma vez se escreveram; nele encontramos caminhos que, de tão óbvios, nunca conseguimos vislumbrar. Trata-se de um verdadeiro manual de felicidade individual e colectiva. Que mais pode um livro dar a um ser humano?
Este livro no Viajar Pela Leitura

terça-feira, 20 de outubro de 2009

As Pessoas Felizes - Agustina Bessa-Luís

O pano de fundo de “As pessoas felizes” é o Porto burguês dos últimos tempos do Estado Novo. A cidade e a região são dominadas socialmente por uma burguesia de carácter forte, tradicionalista, aparentemente aberta mas profundamente marcada pelas regras de um conservadorismo que situa a meio caminho entre a base rural e um formalismo urbano anacrónico. No entanto, o formalismo é imprescindível à manutenção de um cosmos social rígido e que se procura perpetuar. Os tempos são de crise, as dificuldades económicas e as convulsões sociais parecem abalar esta sociedade petrificada mas esta sobrevive num estertor de desespero e resistência.
As convenções enleiam as pessoas numa teia dentro da qual elas procuram ser felizes. Mas trata-se de uma felicidade bem delimitada por essa mesma teia: tudo se passa como se o mundo burguês fosse um microcosmos onde nenhuma emanação do espírito pode penetrar. A vida interior é algo que a personagem principal (Nel) traz para esse mundo mas é precisamente essa vida interior que não lhe permite fazer parte desse conjunto de pessoas felizes. O mundo da aparência tem de triunfar, mesmo que isso signifique a castração do ser humano enquanto ser pensante e individual. Por isso, Nel é a ameaça à estabilidade da família; ela representa os tempos perigosos que se aproximam (o enredo desemboca nos inícios dos anos 70) e não apenas a mulher desprezada na sua qualidade de ser desprovido de senso. A exclusão de Nel é a exclusão do individualismo, do espírito crítico, do pensamento autónomo. Ser mulher é, neste enquadramento mental, por si só, um factor de exclusão a não ser que ela se enquadre num esquema hierárquico onde assuma um papel de sevícia ou de idolatria: a mulher só pode ser respeitada se inspirar admiração ou viver na submissão. Qualquer existência individual que escape a esta concepção hierárquica da sociedade, é rejeitada.
Num estilo profundo, trabalhado e comprometido, Agustina transpõe para este livro o sentimento de uma mulher “do Norte”, tão encantada quanto desiludida perante a beleza de uma região e a altivez de uma sociedade desprovida daquela dimensão humana que permitiria a sobrevivência do ser individual e autónomo.
É esta a impressão que me fica deste livro: um intenso lamento perante uma elite social de coração empedernido, acomodada a valores anacrónicos e defensora de paradigmas mais velhos que o vinho que fez a prosperidade da região.
Não é um livro fácil porque a alma humana nada tem de fácil; e porque não é uma estória que Agustina nos conta; é uma reflexão sentida e complexa de uma escritora genial. Nobel, diria eu.