sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desgraça - J. M. Coetzee

Este é um dos livros de maior sucesso de Coetzee. Publicado em 1999, recebeu o Booker Prize e contribuiu para o Nobel da Literatura atribuído em 2003.
É sem dúvida uma obra de qualidade excepcional. Para o leitor comum, o maior elogio que se pode fazer é este: abordando assuntos verdadeiramente negros é, ao mesmo tempo, uma leitura extremamente agradável.
Trata-se da história de David Lurie, um professor de 52 anos, que se apaixona por uma aluna com cerca de vinte anos. Mau grado a maioridade e a colaboração da aluna, este relacionamento provoca um verdadeiro furacão de reacções moralistas, hipócritas e radicais que conduzirão à verdadeira desgraça em que se transformará a vida de David.
Ela é adulta e seduz David. No entanto, os moralistas entram em campo e ele é “crucificado”. A sociedade moderna, que cultiva a imagem e a hipocrisia, compraz-se com a desgraça alheia, como se a vida fosse uma batalha em que é necessário espezinhar os outros. A desgraça de alguém torna-se terreno fértil para a imposição de padrões de comportamento que não são mais do que instrumentos destinados à encenação de processos inquisitoriais, totalmente hipócritas.
É a sociedade a inventar limites às liberdades individuais. A liberdade é inimiga da sociedade.
A vida no campo, onde se refugiara Lucy, a filha de David, envolve os animais numa espécie de imitação da sociedade humana; eles são castigados, como os homens, por obedecerem a instintos e vontades. Mas o campo é também mais um dos palcos da violência humana. A violência é a marca do Império do Homem; sobre os animais e sobre os outros homens; o Império da morte e do esquecimento.
Na segunda parte do livro, o sexo é apresentado como, também ele, uma expressão da violência. O lado instintivo do ser humano é agora servo de um “deus” maior: o do ódio, da maldade extrema.
Afinal, tudo conduz à servidão humana.
Nesta segunda parte, reina a violência mais atroz. Coetzee oferece-nos aqui o testemunho de um país pós-apartheid, onde o desregramento social reforça toda uma concepção pessimista da condição humana, que dera o tom a toda a obra.
Lucy, a filha, representa a capacidade de adaptação como forma de resistência e até fonte de felicidade. Uma acomodação, uma certa apatia, garante a Lucy uma réstia de esperança que resiste a toda a desgraça.
Em suma, estamos perante um livro brilhante pela forma como consegue levar o leitor à reflexão sobre assuntos tão sérios como a natureza das paixões e o “encaixe” social dessas mesmas paixões, num mundo de hipocrisias, ódios e violência. Um livro genial, muito próximo, a meu ver, da categoria de “obra-prima”.
Avaliação Pessoal: 9.5/10
Este livro foi recentemente adaptado ao cinema, com o sensacional John Malkovich no papel de David Laurie:

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