quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Livro dos Homens sem Luz - João Tordo

Este é o primeiro romance de João Tordo, publicado em 2004 e reeditado recentemente pela D. Quixote. Trata-se de uma obra que surpreende pelo mistério mas também pela originalidade, principalmente ao nível da estrutura do romance.
Histórias cruzadas de pessoas infelizes…
Um homem vive em Londres, sozinho e o seu trabalho é contabilizar acidentes que não acontecem; mais tarde seguirá pessoas pelas ruas, sem saber porquê…
Joseph é padeiro em Londres durante a segunda guerra mundial; juntamente com Helena, é soterrado num abrigo durante um bombardeamento…
Um rapaz trabalha numa biblioteca e sofre de insónias; a sua vida é a tortura da solidão…
Estas e outras personagens, todas enigmáticas e errantes cruzam-se em episódios aparentemente dispersos, num tom de cinzento carregado.
Na contracapa desta edição pode ler-se: “Com ecos de Kafka e Auster…”. Na verdade são nítidos os elementos kafkianos: a “metamorfose” de Joseph no último capítulo; a monotonia, a rotina, como alienação; o absurdo da vida. E de Auster é notório o desespero das personagens na procura da sua própria identidade e a luta sempre inconsequente contra a solidão como se esta fosse um desígnio incontornável da existência humana.
Mas este livro é muito mais do que um repositório de influências, sejam elas de Poe (de quem também julgo descortinar alguns traços), de Auster ou de Kafka. É um livro brilhante pela construção e pela estrutura do enredo: as “pontas soltas”, largadas ao longo do livro, são depois unidas num trabalho conjunto do autor e do leitor, num esforço permanente mas que envolve um aspecto lúdico para o leitor atento. Tudo se passa como se o enredo fosse um enorme puzzle, cujas peças o leitor vai colocando no lugar, tanto no que se refere às personagens como nos múltiplos tempos narrativos. As personagens vão encontrando pontos de contacto entre si, o que surpreende constantemente o leitor, numa espécie de jogo que nos envolve até à última página.
Sem dúvida um livro belíssimo e surpreendente.
Avaliação Pessoal: 8,5/10
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