quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Carta de Abraão Forjaz a propósito d’O Conde de Abranhos


Solicita-me o caríssimo amigo parecer sobre o convite que recebeu para o honroso cargo de Secretário da Junta de Freguesia. Diz-se hesitante. Receoso mesmo.
Pois que medrosa hesitação vem a ser essa, caro comparsa? Olhe para o futuro, meu caro! Olhe em frente! Vossemecê tem, o dom! O magnífico e proveitoso dom da política! E se o cargo de Secretário da Junta lhe parece modesto, acredite que daí a Presidente vai um passinho apenas; e da Junta à Câmara é um saltinho. Pois daí lhe digo eu que não ficará longe o tachinho de deputado da Nação. E pode acreditar que tem estofo para isso.
Se duvida das suas capacidades, lembre-se desse negócio brilhante que teve a bondade de me descrever há tempos e que agora lhe recordo: mantinha o meu amigo uma manada de vacas quando lhe ocorreu essa brilhante ideia de pedir um subsidio a fundo perdido, desses que caíram desse céu chamado Comunidade Europeia. Era um subsidiozinho bem gordo para investir numa vara de porcos, lembra-se? E recorda-se o amigo como recebeu o graveto e em vez de comprar os porcos decidiu reforçar o seu investimento naqueles apartamentos que tem a arrendar na vila? Negócio de génio, meu caro! Mas se a memória não me atraiçoa, maior génio o meu amigo revelou quando, dois anos depois, arrebanhou um segundo subsídio para abater os porcos. Pois se nunca os teve, pouco lhe custou a matança e o negócio rendeu-lhe mais uns investimentozinhos imobiliários!
Ora diga-me lá agora se ainda não está convencido dos seus dotes políticos.
Objecta o caro amigo que tem apenas a quarta classe do ensino primário. Pois em boa verdade lhe digo que também isso não é problema nenhum: pois inscreva-se num desses cursos nocturnos onde distribuem canudos desde que saiba contar até dez e escrever o abecedário. Ou, melhor ainda, declare-se desempregado, terá direito a um curso profissional e ainda lhe pagarão um subsidiozinho para as despesas.
Então, ainda não está convencido? Pois então olhe lá para cima e diga-me se os que nos governam porventura são mais dotados que vossa senhoria!
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