sábado, 24 de novembro de 2012

Húmus - Raúl Brandão




Penso que nunca me foi tão difícil comentar um livro; talvez porque este livro seja “inclassificável”. Diferente. Não é um romance nem um ensaio. Não é um diário embora esteja escrito nesse formato. Não é poesia porque escrito rem prosa. Aliás, alguém disse que o livro não teve o sucesso merecido porque na época foi classificado como poesia em prosa. Eu não entendo muito bem isso na medida em que considero que um dos seus maiores méritos, o que faz dele um libro belo é o facto de ser precisamente poesia em prosa.
Antes de mais convém dizer que ao ler “Húmus” nos apercebemos imediatamente que estamos perante um marco na história da literatura portuguesa, de tal maneira é nítida a sua influência em escritores posteriores como Agustina Bessa Luís, Vergílio Ferreira ou António Lobo Antunes.
A escrita de Raúl Brandão carateriza-se por uma força notável, na forma de transmitir a melancolia e o drama da alma humana na busca de um sentido para a vida. NA vila onde se desenrola a ação “não andam só os vivos”. Estes por vezes vivem como mortos; recusam a vida enquanto momento de descoberta, de ação, de procura. Este tom faz-nos lembrar o existencialismo português; uma espécie de existencialismo antes do existencialismo, entenda-se. Percursor de Vergílio Ferreira, sem dúvida.
Um dos aspetos mais importantes da mensagem de Raúl Brandão ó o drama da existência ou não de Deus. Para o protagonista do livro, Deus não existe mas, mesmo assim, condiciona toda a sua existência. Talvez pouco importe saber se Ele existe ou não. A sua presença, mesmo que virtual, é marcante. É decisiva. É revoltante. Consoladora, às vezes. Depois, coisa bem diferente, a Consciência. Outro fantasma; outro monstro que condiciona, sempre, a vida humana. E a vida transforma-se, aos poucos, nessa longa, interminável, reflexão. A vida foge e os dramas ficam; as incertezas; a procura de algo que, desgraçadamente, mal sabemos definir.
Perante tanto conteúdo, é difícil perceber porque é que este livro não obteve a receção pública de outros. A resposta é bastante simples: a sua leitura não é fácil nem agradável. Por vezes chega a ser uma experiência dolorosa tão profundos são os dramas apresentados pela alma atormentada do personagem principal e, quiçá, do autor.
No entanto, o esforço é largamente compensado; este é um livro que nos faz pensar e mesmo sofrer. Mas também, e principalmente, aprender. Uma obra magnífica.
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