quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Guarani - José de Alencar


Sinopse:
José de Alencar, um dos grandes patriarcas da literatura brasileira, pelo volume e mensagem de sua obra, deu à ficção produzida no século XIX, um tratamento monumental. Escritor romântico, enfocou os mais importantes aspetos da nossa realidade: o índio e o branco; a cidade e o campo; o sertão e o litoral. A presente obra, que lhe granjeou popularidade ao ser lançado em folhetim, era lido avidamente, até nas ruas, à luz dos lampiões. O romance conta a história de amor entre o índio Peri e a moça branca Ceci, tendo como cenário o Brasil do século XVII.

Comentário:
Ler José de Alencar é regressar ao mais genuíno romantismo literário oitocentista. “Está cheio de clichés”, poderá afirmar o leitor desprevenido; no entanto, aquilo a que hoje chamamos clichés da literatura romântica eram, naquela época, o segredo do sucesso: as paixões exacerbadas e a tragédia a que muitas vezes conduziam; tragédia ou felicidade suprema; a supervalorização do meio natural… Não havia lugar a meios-termos nem meias tintas.
A maior parte do livro é dominada por um tom bastante benévolo perante, por um lado, a bondade cristã dos colonizadores portugueses e a bondade natural dos Guaranis. Mau grado a existência de personagens realmente maléficos como o italiano e ex-frade Loredano, eles são sempre vistos como exceções à regra; uma espécie de ovelhas tresmalhadas. Assim, na maior parte do enredo, o leitor deixa-se levar por descrições idílicas, paixões supremas e uma exemplar figura do fidalgo português que preza a honra acima de tudo. D. António Mariz e aqueles de quem se rodeia são figuras de grande valor literário por representarem essa honradez aristocrática que começava a perder-se no tempo em que Alencar escreveu.
No entanto há um certo tom escatológico que confere à obra, na sua parte final uma aparência de dramalhão, contrastando com o espírito jovial e encantado que domina a primeira parte do livro.
Por todo o livro reina a beleza fantástica e majestosa da natureza; as cores, os sons e até os perigos da floresta amazónica são-nos apresentados de forma realmente idílica, como se de quadros vivos se tratasse. Mas estamos longe das fastidiosas descrições dos escritores realistas; o tom é sempre poético e agradável.
Um dos personagens principais, Peri, o índio Guarani, representa nesta obra o bom selvagem de Rousseau: Alencar partilha da crença no índio puro e bom. Aqueles que se revoltaram contra os portugueses e que, na verdade, eram tremendamente cruéis, não fizeram mais do que defender a sua própria terra, perante o colonizador português que, curiosamente, também é visto de forma positiva por Alencar. Ou seja: não há “maus”; não há personagens pérfidos a não ser essa figura terrível que escapa a toda a moral (seja divina ou natural), que é Loredano; ele é uma espécie de encarnação do demónio.
Um dos aspetos mais marcantes em Alencar é uma religiosidade profunda, ingénua, que mesmo assim não deixa de envolver um admirável espírito de tolerância perante as crenças e a cultura dos indígenas.
“O pensamento é a arma mais poderosa que Deus deu ao homem, e que com ela se abatem os inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força irresistível e providencial que manda ao espírito dominar a matéria.”

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Como melómano, só tenho ouvido falar desta obra pela existência de uma ópera homónima de António Carlos Gomes baseada no livro. Mas daquela só conheço excertos e do livro nada.

Manuel Cardoso disse...

Olá Carlos
Não se pode dizer que seja um livro fabuloso, mas como nunca tinha lido nada de Alencar, optei por este por ter lido algures que foi o seu primeiro grande sucesso.
Nesse sentido, como marco fundamental do romantismo, é também um marco na literatura do país-irmão.
A ópera não conheço...