domingo, 4 de agosto de 2013

Marquesa de Alorna - Maria João Lopo de Carvalho

Sinopse:
Leonor, Alcipe, condessa d’Oeynhausen, marquesa de Alorna - nomes de uma mulher única e invulgarmente plural. Chamei-lhe Senhora do Mundo. Poderia ter-lhe chamado senhora dos mundos. Dos muitos mundos de que se fez senhora. Inconfundível entre as elites europeias pela sua personalidade forte e enorme devoção à cultura, desconcertou e deslumbrou o Portugal do séc. XVIII e XIX, onde ser mãe de oito filhos, católica, poetisa, política, instruída, inteligente e sedutora era uma absoluta raridade. 
Viveu uma vida intensa e dramática, mas jamais sucumbiu. Privou com reis e imperadores, filósofos e poetas, influenciou políticas, conheceu paixões ardentes, experimentou a opulência e a pobreza, a veneração e o exílio. Viu Lisboa e a infância desmoronarem-se no terramoto de 1755, passou dezoito anos atrás das grades de um convento por ordem do Marquês de Pombal e repartiu a vida, a curiosidade e os afectos por Lisboa, Porto, Paris, Viena, Avinhão, Marselha, Madrid e Londres. 
Marquesa de Alorna, Senhora do Mundo é uma história de amor à Liberdade e de amor a Portugal. A história de uma mulher apaixonada, rebelde, determinada e sonhadora que nunca desistiu de tentar ganhar asas em céus improváveis, como a estrela que, em pequena, via cruzar a noite.

In wook.pt

Comentário:
Aqui está um romance histórico que é muito mais “histórico” do que “romance”. Na verdade, o esforço da autora para não fugir à verdade histórica faz com que a obra se aproxime um pouco da biografia, deixando os adeptos do romance um pouco desencantados com uma certa “aridez” dos factos. O livro inicia-se com uma (mais uma, ufa!) descrição do terramoto de Lisboa e a autora não consegue escapar ao estafado cliché da menina sobredotada que deteta os sinais do terramoto antes deles surgirem. A partir daí, Maria João Lopo de Carvalho arranca para uma triunfal epopeia de louvor à Marquesa de Alorna. Ninguém duvida da enorme importância histórica desta notável mulher, mas é claro que, como ser humano, tinha as suas limitações e defeitos. No entanto, a autora encaminha todo o enredo no sentido de um “endeusamento” da protagonista, mesmo quando veste a pele da aristocrata conservadora.
Comecei este meu comentário pelos aspetos que menos me agradaram mas eles são também compensados por outros que me levaram a empreender a leitura com algum prazer. Na verdade estamos perante um livro que se lê com prazer, quer pelo encanto que, de facto, rodeia a personagem principal, quer pelo estilo leve, claro, puro, da autora. Com frases curtas, pouca adjetivação e algum sentido de humor, a vida da Marquesa é exposta de forma bastante agradável ao leitor.
Por outro lado, este livro não deixa de ter um notável valor pedagógico; é com obras como esta que, realmente, se promove a História de Portugal.
No entanto, esse valor pedagógico acaba por ser prejudicado por um outro pecadilho muito comum neste tipo de abordagens: a autora não consegue (ou não quer?) fazer uma leitura isenta da figura do Marquês. Ele é visto sempre no seu lado mais nefasto, apresentando-se como uma figura quase diabólica. Fica por abordar todo o lado positivo e progressista da sua governação. Por outro lado, a nobreza de Portugal, representada pelas suas famílias aristocráticas nunca é referida como causa (que foi real) do conservadorismo e de parte do atraso económico em que o país mergulhou, para além das graves injustiças sociais a que estiveram associadas.
Mesmo assim, podemos afirmar em abono da autora que apenas se pretendeu realçar a figura, magnífica, sem dúvida da marquesa de Alorna. Ela foi uma “Madame Stael” portuguesa, defensora do progresso, das ciências, da cultura e não uma simples feminista antes do feminismo. Um aspeto histórico poucas vezes notado quando se fala desta época, entre o auge já passado da Inquisição e a austeridade burguesa de costumes que marcará o século XIX, é uma verdadeira fase de libertação da mulher, pelo menos ao nível intelectual. O próprio Marquês de Pombal (em mais uma das suas contradições) foi um impulsionador das ideias iluministas em Portugal, que defendiam a igualdade de oportunidades, se bem que de uma forma muito titubeante.
Como se vê, trata-se de uma obra que encerra algumas contradições; alguns motivos para a considerar um livro de grande importância para o conhecimento da época e divulgação da personagem principal, mas uma obra que não escapa a alguns preconceitos ideológicos.
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