quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Riso de Deus - António Alçada Baptista


Sinopse
Ao acompanhar a vida de Francisco, o personagem central deste romance, ao longo das suas escolhas, da sua procura, ao acompanhá-lo ao longo das suas deambulações pelo mundo, pela história, ao sabor dos acasos e encontros e, muito especialmente , da intimidade de algumas mulheres cúmplices da mesma procura, o autor instaura uma forma de questionamento radical. Radicalidade que decorre do facto, inédito na sua escrita, de ser toda uma vida que é posta em balanço, tendo por contraponto esse limite que é a morte. Deus? Possivelmente. Mas um deus que ri, joga, um deus apaixonado pela pura alegria de existir.

Comentário:
Francisco é o seu nome. Com ele viajamos às profundezas do espírito humano. Mais fundo, mais longe da superfície, mais distantes desta crosta a que chamamos vida, Alçada Baptista encaminha-nos para dimensões tão reais quanto estranhas.
Tão grande é a profundidade da análise da alma humana que tudo quanto se possa dizer deste livro soará sempre a uma enorme superficialidade. O que aqui escreverei não passará, portanto, de uma pequena coleção de impressões pessoais sobre os mundos distantes a que o autor nos conduz.
Deus está sempre presente, mesmo que disfarçado, nas viagens interiores de Francisco. Esta preocupação do autor e do personagem torna-se mesmo obsessiva. Deus e os outros e uma imensidão de questões. Poderá Deus transportar-nos para longe do mundo, conduzir-nos ao abandono ou, pelo contrário, encontrar-se-á ele precisamente entre os outros?
Ao contrário do que a sinopse do livro afirma, não me parece que o riso de Deus a que Alçada Batista se refere seja um riso de alegria; parece-me mais tratar-se de um riso sádico de quem, lá de cima, observa o ser humano perdido no mundo, uma barata tonta que não encontra o melhor buraco onde se refugiar. O homem sente-se perdido, sente-se um joguete nas mãos de deus, que ri altivamente e quase de forma egoísta.
Resta ao homem a liberdade. Mas uma liberdade que de pouco lhe serve; ele próprio constrói as suas prisões ao longo da vida. Francisco é livre, pelo menos tanto quanto a sua independência financeira lhe permite. Mas… e o que os outros esperam de nós? Uma servidão permanente ao trabalho e às correntes que nos prendem aos outros…
Mais do que um relato da vida, mais do que um conjunto de reflexões sobre o mundo humano, este livro é um manancial de questões às quais teimamos em não saber nem querer responder. O nosso cérebro encarrega-se de construir a nossa própria escravidão, ignorando essa grande verdade que a Rita do romance nos ensina: as coisas são sempre mais simples do que aquilo que o nosso cérebro nos mostra.

Rita é o raio de luz numa leitura algo tenebrosa da alma humana que o autor nos proporciona na pessoa de Francisco. Todo este pessimismo filosófico, toda esta viagem infindável do autor pela alma humana leva-me a colocar esta tão simplista mas pertinente questão: faz sentido gastar a vida a pensar?
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