sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Os Passos Perdidos - Alejo Carpentier


Sinopse
Um livro estimulante, quase mítico. Representativo daquilo a que o próprio Alejo Carpentier chamou "o real maravilhoso americano", este romance constitui uma busca das origens, a procura de uma Idade de Ouro perdida. A personagem central dispôe-se a subir Orenoco, na Venezuela, em busca de um tempo primordial, tentando assim alcançar as raizes da vida. Desfilam nesta obra os mineiros dos campos de petróleo, os padres missionários, os vaqueiros, os astrólogos, as prostitutas em busca do El Dorado, os índios dos lugares visitados, os espirítos, os rituais, as histórias e os mitos de um tempo em que um homem branco ainda não pisara o continente americano. Para Carpentier, a América é um repto de um "novo mundo" apressadamente entrevisto por viajantes e poetas, poucas vezes correctamente apreendido.
In wook.pt
Comentário:
 Este livro foi, para mim, a maior surpresa dos últimos meses. Nunca tinha ouvido falar do autor e, logicamente, nunca tinha lido nada dele. Peguei nele mais por curiosidade do que por aposta numa leitura agradável e, confesso, por ter lido na contracapa que foi um autor a quem recusaram a atribuição do prémio Nobel por motivos ideológicos.
Mas, no fundo, a ideologia é o que menos se encontra neste livro. Pelo contrário, uma imensa qualidade literária está por todo o lado.
As primeiras páginas podem afastar um leitor mais ávido de enredos emocionantes e narrativas fluidas. Carpentier tem um estilo muito pessoal, muito reflexivo e profundamente artístico. Musical, é o adjetivo que me ocorre para caraterizar esta escrita fluida, ritmada, belíssima. Os olhos percorrem as palavras, as linhas, os enormes parágrafos e o cérebro passeia pela cadência ritmada das frases, a que não é alheia uma excelente tradução da editora Saída de Emergência (ainda por cima com a capa belíssima que vemos acima).
O protagonista, nunca nomeado, descreve na primeira pessoa uma incursão quase heroica pela selva sul-americana, a partir da Venezuela. Trata-se de um estudioso da música, à procura das sonoridades dos instrumentos índios. Mas o objetivo profissional é a apenas o pretexto para uma verdadeira fuga, à procura de algo muito mais importante: a eterna busca da identidade, o exorcizar dos demónios modernos e a procura do mito do Novo Mundo que encantara os seus antepassados. Pelo meio, o protagonista encontrará na expedição diversas ocasiões para reorientar a sua vida amorosa; ou melhor, para dar de caras com todos os seus sonhos e pesadelos. Só a selva lhe permitirá encarar de frente todo o paraíso e todo o inferno.
A América mais profunda é descrita por Carpentier como o Novo Mundo, a terra prometida do ouro e dos diamantes. O homem continua a ser o explorador da natureza, a ave da rapina a que nada pode escapar. A selva, como a vida amorosa do protagonista é a materialização de uma incerteza permanente; um desafio a que o ser humano procura impor-se mas em que, a todo o momento, se transforma em vítima. Insatisfeito, o homem, neste caso o protagonista, procura a paixão de forma desenfreada. Ruth, depois Mouche, depois Rosário… sonhos prometidos, desilusões repetidas. Afinal de contas, o homem será sempre o elo mais fraco, perante a natureza ou o destino, por mais senhor do universo que se considere.
No final, o livro revela-se como uma imensa lição de humildade perante a natureza. Porque só o medievalismo dos conquistadores poderia justificar tamanhas vontades de poder.
E pelo meio fica uma aventura magnífica, sem vitórias mas com imensas lições. Rosário, a mulher saída da terra índia personifica de forma magistral esse poder que imana do Novo Mundo, incompreensível e indomável. Tentando aliar a melodia à palavra, o protagonista almeja a um ideal ainda maior: aliar a sua própria vida ao pulsar da terra. Sonhos que se revelariam quimeras…


2 comentários:

C. disse...

Adorei este livro!
Capentier neste livro não facilita a vida ao leitor. Debruça-se sobre vários aspectos e certamente há ainda aqueles que possivelmente escapam numa primeira leitura.
Da primeira à última página há um ritmo característico, musical, sim sem dúvida, ou não fosse Carpentier um melómano.
a questão da identidade- a influência de uma educação europeia por oposição à vivência local, ao quotidiano, o civilizado e o “simples”, o primitivo.
a questão cultural, articulada com a questão da identidade- adorei a forma como ele foi aos textos fundadores- a Bíblia e Odisseia (acho que não me engano no Homero, mas se não for este é o outro) para dar uma perspectiva histórica e para pensar a criação de uma cultura hispano-americana, que olha ou deve olhar para dentro de si mesma, e não tentar copiar os exemplos de fora. Sobretudo neste campo considero este livro fundamental e o curioso é que Gabo foi beber a este texto e “Cem Anos de Solidão” tem passagens que são reflexo disso mesmo. se não me equivoco este texto “está na origem” do realismo-mágico
Continuação de Boas Leituras :D

Manuel Cardoso disse...

Esqueci-mede incluir no meu comentário a referência a Homero. Na realidade, ele parece encontrar um certo paralelismo entre três dimensões: a Odisseia, a colonização europeia e a própria procura da identidade, ou do sentido da própria vida do protagonista, na sua incursão (real e simbólica) na selva sul-americana.
De resto, como é óbvio, concordo com o que dizes. É um livro que afasta, logo nas primeiras dezenas de páginas, o leitor mais sedento de narrativas emocionantes mas que premeia de forma muito bela quem tem a coragem de procurar algo mais num livro.
Não tive a curiosidade de ver as datas de publicação dos grandes ícones do realismo mágico, como Marquez, Allende ou Borges, mas tem toda a lógica que este Carpentier esteja a montante :)
Um abraço!