terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler


O Último Cabalista de Lisboa baseia-se num acontecimento verídico, um grande massacre de cristãos-novos e judeus ocorrido em Lisboa no reinado de D. Manuel, em 1506, na Páscoa judaica. A fome e a peste atingiam a capital sem piedade e o povo, fanatizado pelas pregações anti-semitas dos frades dominicanos, encarando os judeus como responsáveis pela ira de Deus, levou à morte milhares deles. O rei, pouco corajoso, foi complacente com os acontecimentos, permitindo inclusivamente grandes fogueiras no rossio, onde muitos judeus foram queimados.
Na ficção de Zimler, Abraão Zarco é morto nesse dia mas por um cristão-novo. Berequias Zarco, o sobrinho de Abraão é o herói da nossa estória e levará a cabo uma investigação emocionante e recheada de perigos.
Trata-se de um livro bastante negro: é visível a amargura com que Zimler descreve este terrível fenómeno histórico que é o anti-semitismo. Uma das grandes manchas negras da história da humanidade, que se mantém até ao século XX e com reflexos ainda na realidade actual.
Mas nem tudo é sombrio neste livro: um dos aspectos mais interessantes deste livro é o facto de o maior amigo de Berequias, Farid, ser um muçulmano. A amizade entre os dois é muito intensa e é visível a boa convivência entre judeus ou cristãos-novos (aqueles que haviam sido forçados à conversão) e os mouros, em oposição ao fanatismo e violência insana dos cristãos.
Se bem que se trate de uma obra de ficção, é bom que se diga que o ambiente retratado tem, infelizmente, uma grande base de realidade: a porcaria dos corpos e das almas grassava em Portugal: o fanatismo, a estupidez, a barbárie total. De todos os problemas do reino eram atribuídas culpas aos judeus. O ódio reinava e a própria Igreja Católica alimentava-o. Por medo ou pró convicção, o povo transformava o ódio na violência mais absurda que se possa imaginar. Muitos destes judeus tinham sido expulsos de Castela, em 1492 de onde o Rei Fernando (cognominado O Católico) os havia expulsado. Mas não é a paz que eles encontram em Portugal. É a insanidade total de um ódio tão cego quanto inexplicável.
Um livro triste, chocante, mas também emocionante e que nos faz pensar. E até ter uma certa vergonha de sermos “filhos” desta nação e desta cultura de raiz cristã que nos moldou…
Avaliação Pessoal: 9/10

9 comentários:

Tiago M. Franco disse...

Também gostei bastante do livro.
Antes do o ler não tinha a noção das atrocidades que se tinham passado no nosso pais no século XVI. A reconstituição histórica é fantástica. Julgo que só lhe falta uma coisa, contemporaneidade, há passagens no livro que ainda hoje são actuais, na minha opinião o autor não as explora. Por exemplo, em “O Memorial do Convento”, Saramago consegue transformar um romance histórico num livro que questiona a sociedade actual.
Pequenos pormenores à parte, na categoria de romances históricos, este é um dos melhores livros que li até hoje.

Patrícia disse...

Eu gosto tanto dos livros do Zimler. Curiosamente este, o primeiro livro dele, foi um dos últimos que li (há bem pouco tempo). E adorei. Estou desejosa de ler a "sétima porta" e o "goa, ou o guardião da aurora".
Aprendi imenso com este livro. E também me envergonhei.

Jacqueline' disse...

Nunca li nenhum livro de Zimler, ainda que seja um autor que quero ler há muito tempo. No entanto, gosto muito de história e percebo perfeitamente o que dizes sobre esta época do nosso passado. É curioso como numa altura em que estávamos no auge, conseguíamos ser também tão retrasados ao ponto de não perceber que os judeus eram uma fonte de riqueza e sabedoria para o nosso país. D Manuel ainda o reconhceu minimamente, pois não cumpriu as ordens dos reis católicos à risca, agora o filho... Pergunto-me várias vezes o que seria de Portugal se os judeus não tivessem tido de fugir para a holanda e afins..

Anónimo disse...

Olá Jackeline!
Ainda nao li este livro, mas concordo contigo, seriamos um país muito mais rico a todos os niveis, pois admiro muito o povo judeu.
Natalia

Bruno disse...

Eu adorei, foi o meu 1º deste autor, mas ficou-me na memoria, que grande livro. Excelente narrador.

José Júlio Gonçalves Antunes disse...

Li o livro e fiquei chocado. Já conhecia os acontecimentos de 1506. Aqui em Torres Novas, os seus judeus, cristãos-novos, marranos, também foram reduzidos ao silêncio. Hoje nada resta dessa memória. Alguns historiadores locais estão a desenterrar o que encontram nos arquivos nacionais, nos processos da inquisição. Hoje tenho 58 anos sem qualquer religião. Renunciei ao catolicismo quando tinha 16 anos por via da vergonha que senti em pertencer a uma instituição que assassinou e reduzíu ao silêncio muitos milhares de portugueses durante três séculos.As minhas perguntas não foram respondidas. Daqui cresceu a minha curiosidade pela questão judaica em Portugal e em Torres Novas. Muitos torrejanos são descendentes de cristãos-novos.Estou à procura do elo perdido...

Manuel Cardoso disse...

Obrigado pelo seu testemunho, caro José Júlio.
Eu fui educado na religião católica mas muitas vezes senti essa vergonha. E muita mais vergonha sentiria hoje se continuasse a ser praticante de uma religião que condena as outras crenças, ainda hoje, acusando-as de fanatismo. Acusar o fanatismo com fanatismo é um grave crime ético, a meu ver...
Se procura essas raízes, aconselho-o a procurar o contacto do autor deste livro; não o conheço pessoalmente mas sei que é uma pessoa muito acessível e aquilo a que nós chamamos uma boa pessoa.
Um abraço

C.Miranda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
C.Miranda disse...

Boa Tarde,

Gosto bastante do livro, sou de uma zona para foram enviados os novos cristãos, mais conhecidos por marranos na época.
Engraçado que ainda hoje se diz regularmente marrano como termo depreciativo, há coisas que perduram na história, e são tantas.
Este livro foi muito importante para mim pois aprendi e procurei mais sobre uma história não contada na escola e segundo sei o pouco que sei claro, raramente se fala dela. Mas há um momento do livro que para mim é maravilhoso, o da descrição da alheira e da sua origem, pois nunca me esquecerei que a primeira vez que contei a história em terra de Mouros, mas Portugueses como eu, acharam que era invenção, e só a contei porque tinha um judeu de Israel a minha frente, que ficou bastante curioso e atento ao inverso de outras pessoas que provavelmente são descendentes de judeus. Pois lá está uma boa característica é a vontade de saberem o seu passado e raízes de forma a construírem melhor o futuro, atenção é apenas uma opinião global sobre esta nação/comunidade judaica, que tem coisas más e coisas boas como todas as outras. Lamento a minha pequena dose de sarcasmo, mas este povo tem uma coisa extraordinária quer aprender o passado, aproveitar o presente e criar o futuro, com o conhecimento, talvez não seja informação tendenciosa? Mas há vontade... aprender o bom dos outros pode ser uma boa lição.No conhecimento reside a evolução e ele não vem apenas sobre a forma de registo escrito, pode ser também sobre a forma oral.