quinta-feira, 17 de abril de 2014

Misery - Stephen King



Sinopse:
Paul Sheldon é um famoso escritor de romances cor-de-rosa, tornado célebre pela personagem principal das suas obras, Misery Chastain. Porém, Sheldon entendeu que estava na hora de virar a página e decidiu «matar» Misery.
É então que sofre um terrível acidente de viação e é socorrido por Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que o leva para sua casa para o tratar. O que Paul não sabe é que Annie, a sua salvadora, é também a sua maior fã, a mais fanática e obcecada de todas — e está furiosa com a morte de Misery.
Ferido e incapaz de andar, totalmente à mercê de Annie, Paul é obrigado a escrever um novo livro para «ressuscitar» Misery, como uma Xerazade dos tempos modernos nas mãos de uma psicopata tresloucada que há muito deixou de distinguir a realidade da ficção.
Repleto de complexos jogos psicológicos entre refém e captor, Misery é uma obra de suspense e terror no seu estado mais puro.

Comentário:
Durante muito tempo resisti à leitura deste autor por não gostar do género. No entanto, aconselhado pela Andreia do Clube de Leitura Bertrand de Braga, decidi dar esta chance ao S. King. Terminei a leitura com um sentimento contraditório: por um lado confirmou-se o meu receio – é mesmo terror de faca e alguidar; por outro lado, é muito mais que isso.
Comecemos por aquilo que me desagradou: uma perna decepada à machadada; um polegar decepado por uma faca elétrica; um corpo despedaçado a golpes de machado… e o velho cliché da personagem que nunca mais morre, mesmo com a coluna vertebral desfeita…este cenário de talho e carniceiros não me agradou mesmo nada.
No entanto, este livro tem outro lado, esse sim, muito meritório: em grande parte, este livro pode ser entendido como um grito de lamento de um escritor de sucesso que está condenado a ser… um escritor de sucesso! Escrever grandes livros, de qualidade, não é possível simplesmente porque o público não quer. Se o escritor opta por uma obra em profundidade, uma reflexão séria e cuidada, o leitor comum rejeita porque apenas quer emoção e drama. Então, o que leva os escritores a optar pelo sucesso fácil não é só o lucro: é a pressão do próprio público que aqui é personificada de forma simbólica pela louca Annie Wilkes.
Outra das razões que me levou até este escritor foi o facto de ele ter sido o autor do argumento de um dos meus filmes de culto: Shinning. Pois nesse aspeto confirma-se a genialidade de King: o terror vai muito além das meras cenas de faca e alguidar; para além do que é vulgar neste tipo de literatura (a abordagem dos limites da mente insana) esta obra coloca-nos perante uma questão muito importante: até onde pode chegar o poder dos leitores. Nesta sociedade neoliberal, onde o consumo impera, estará o escritor condenado a uma espécie de escravidão do mercado? Parece que sim. Obviamente, o leitor comum não violenta o escritor como fez Annie, mas exerce um certo poder em forma de chantagem: se queres ter sucesso, escreves o que nós queremos. És livre para escrever boa literatura mas, provavelmente, ninguém te vai ler.
No entanto, parece também certo e seguro que os verdadeiros génios da escrita conseguem escapar a esta chantagem. Mas esses são em número muito reduzido. E S. King não está entre eles.
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