sábado, 5 de abril de 2014

O Décimo Terceiro Conto - Diane Setterfield

Sinopse: O Décimo Terceiro Conto narra o encontro de duas mulheres: Margaret, jovem, filha de um alfarrabista, biógrafa amadora, e Vida Winter, escritora famosa, que, sentindo aproximar-se o final dos seus dias, convida a primeira para escrever a sua biografia.
Na sua casa de campo, a escritora decide contar a verdadeira história da sua vida, revelando um passado misterioso e cheio de segredos. As duas vão partilhar vivências profundas, resgatando velhas memórias e confrontando-se com fantasmas há muito adormecidos.
Sem que pudessem inicialmente prever, acabam por entrelaçar as suas vidas de forma tão intensa, que o resultado não poderia ser outro que não uma inesquecível história de amor, amizade e solidão.
in www.presença.pt


Comentário:
Uma autora praticamente desconhecida até agora, revela neste livro uma habilidade narrativa notável. Estamos perante um livro com uma arquitetura muito bem estruturada, uma narrativa complexa mas imaginativa e desenvolvida de forma original. Ao mesmo tempo, vai-se mantendo um mistério que só se revela na última fase do livro, de forma surpreendente. Aliás, este é o aspeto mais polémico do livro. Se, por um lado há um certo suspense que se desfaz de forma surpreendente, por outro lado o leitor pode sentir uma certa deceção porque esse elemento que vem desfazer o mistério tinha sido ocultado pela autora desde o início da narração.
Desde o início é nítida a abordagem da importância da educação por um lado e da força dos laços de sangue por outro, nos destinos individuais. No entanto, para lá dessas duas forças parece haver algo mais, uma espécie de força maior, algo misteriosa e inexplicável que transforma o fantástico no "acontecível".
Um dos aspetos mais notáveis deste livro é a abordagem dos limites ténues entre a realidade e a ficção; Vida Winter, a protagonista do livro, é uma escritora de sucesso. A sua própria vida, no entanto, acaba por confundir-se com esse mundo ficcionado, numa interdependência constante. Se é a vida que imita a arte, como dizia Oscar Wilde ou se, pelo contrário é a arte a imitar a vida, ficamos sem saber e talvez seja isso o menos importante. O que realmente é uma verdade incontornável é que a ficção e a fantasia fazem parte da vida. Neste livro, há um fantasma; mas um fantasma real. Em vários aspetos, a escrita de Diane Setterfield faz lembrar o realismo mágico de Garcia- Márquez ou Isabel Allende. Mas aqui a fantasia é real e verdadeira. Acontecível, como diria Mia Couto. Aliás esse foi outro nome que me veio à memória ao ler este livro. A narrativa do escritor moçambicano é também marcada por esse fantástico que emerge sempre do real, do concreto que há na vida e na mente do ser humano.
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