terça-feira, 1 de abril de 2014

O diário oculto de Nora Rute - Mário Zambujal



Sinopse
Nora Rute é uma personagem de romance e, ao escrever o seu diário, vai escrevendo, no desconhecimento do que virá a seguir, o seu próprio romance. Ao mesmo tempo, acrescenta-lhe o registo de acontecimentos e usos que marcaram um ano (1969) desde a chegada do Homem à Lua à moda da minissaia, das manifestações estudantis a guerras em África, aos bares e cafés de Lisboa.
Narrativa de marcada originalidade, O Diário Oculto de Nora Rute coloca os leitores no caminho irrequieto de uma jovem que desafia as regras, as de uma sociedade machista de um pai austero. Predominam as personagens que são membros da família, não só uma misteriosa tia Nanda, a prima Mé mas um quase desconhecido que parece ter conquistado, em definitivo, o amor de Nora Rute. E um primo ribatejano que lhe revelará o reverso das luzes e sombras da cidade.
Ao colocar-se na sua mente de uma forma travessa, Mário Zambujal, sem abandonar o seu estilo próprio de escrita, incorpora-o no espírito e na conduta de uma jovem que descreve no seu diário a agitação dos seus dias.
In wook.pt

Comentário:
Está aqui toda a insustentável leveza da escrita de Mário Zambujal. Fiel ao seu estilo ultra-objetivo, direto e sintético, este simpático jornalista e escritor é uma das pessoas que, em Portugal, melhor convence o leitor que ler é divertido.
Está ali todo o seu talento para nos fazer sorrir, toda a leveza de uma crónica de (sempre) bons malandros. Está ali também a vida como ela é, simples, mesmo que vivida sob o jugo da ditadura e de uma falsa primavera marcelista: a vida de gente comum, mesmo quando nascida no seio da alta burguesia. Nora Rute é filha da burguesia mas anseia, como a maioria dos jovens daquela época, por uma sociedade mais justa e, acima de tudo, menos sujeita aos hipócritas espartilhos morais que a ditadura e a mentalidade mesquinha da velha geração ainda mantinham vivos.
A luta de Nora Rute não é apenas a luta por uma felicidade pessoal mas sim por um país melhor. E é esse sentido do social ou mesmo do “humano” que talvez se tenha perdido no tempo; e talvez seja por isso que se vislumbra, nas entrelinhas de Zambujal, alguma melancolia, perdida entre o humor e a leveza da sua escrita.
No entanto, se adjetivei esta leveza como “insustentável” foi porque, no final do livro, fica esta sensação desagradável de insatisfação pela modéstia da obra. Trata-se do diário de uma jovem durante o ano de 1969. Foi um dos anos mais fascinantes do século XX. Em Portugal, o fascínio da chegada à Lua ou do Woodstock foi acompanhado pela falsa esperança da primavera marcelista e pelos indícios, ainda que ténues, de uma mudança que se adivinhava como inevitável na História de Portugal. Mas Mário Zambujal, para desespero do leitor, limita-se a tocar ao de leve todos estes acontecimentos. Esta limitação é inerente ao estilo de Zambujal, bem sei, mas o modesto leitor não deixa de pedir mais…
Um dos aspetos mais interessantes do livro e que Zambujal poderia ter desenvolvido um pouco mais é a abordagem que faz à alta burguesia, no papel do pai de Nora Rute, empresário ligado ao regime mas hesitante e desconfiado em relação ao mesmo.

Enfim um livro agradável que se lê de um fôlego, exigindo atenção máxima em virtude da escrita “económica” de Zambujal, um livro divertido, agradável mas não se espere deste autor obras de fundo ou reflexões para as quais ele não está, decididamente, voltado.
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