sexta-feira, 11 de abril de 2014

Estórias Abensonhadas - Mia Couto



Sinopse:
Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Se o romance deste autor moçambicano nos transportou para o universo trágico da guerra, estas breves histórias são flagrantes do renascer do país, depois da assinatura do Acordo de Paz. Reúnem-se aqui contos, alguns já publicados em jornal, em que se inscreve o mesmo estilo e a mesma capacidade de sonhar já consagrados em anteriores obras (Vozes Anoitecidas, Cronicando, Cada Homem é uma Raça, Terra Sonâmbula). Os contos já publicados foram, no entanto, revistos e alterados para publicação em livro. Em todas as estórias se reconhece o trabalho profundamente pessoal de recriação da linguagem, o aproveitamento literário da fala popular moçambicana e o pleno exercício da poesia.
In wook.pt

Comentário:
Antes de mais nada, o título: duas palavras magníficas. O termo “estórias” é uma palavra que gostava de ver mais usada quando nos referimos a literatura de ficção. “Abensonhadas” é uma palavra que exemplifica bem a poesia e a criatividade da escrita de Mia Couto.
Já poucos adjetivos me sobram para comentar uma obra deste grande escritor moçambicano. Resta-me talvez dizer que, na minha opinião, é o melhor escritor vivo da língua portuguesa.
Tal como acontece em todas as suas obras, também em Estorias Abensonhadas, Mia Couto brinca com a Língua Portuguesa de forma hábil e divertida; e nesses trocadilhos há uma poesia por vezes genial, como quando do sorriso de uma mulher se diz que “nem água fosse mais cristalinda”. É raro encontrarmos uma beleza como esta na língua portuguesa.
E depois há aquele toque de maravilhoso, de mágico, como no conto “O Cego Estrelinho”, em que o guia do cego, o miúdo Gigito, lhe inventa um mundo maravilhoso, se bem que todo ele inventado. No entanto, para que serve a realidade se podemos inventar mundos muito mais belos?
De notar que estas estórias foram escritas no final da guerra civil que assolou Moçambique. Mas é para lá da guerra que Mia Couto escreve; e para lá da guerra há a terra. A terra maravilhosa, imortal, a terra “perfumegante que semelha a mulher”; a terra sobre a qual cai a chuva que lava o sangue; a terra que é a “mãe das mães”. E o apelo da terra é tão forte que o velho Felizbento, que tem de ser deslocado por causa da guerra, não sai sem levar consigo a árvore da sua terra.
Uma referência para o conto “A Guerra dos Palhaços”. Trata-se de uma bela alegoria da guerra: dois palhaços simulam uma briga e a partir daí provocam uma verdadeira guerra na cidade; e depois de recolherem os seus lucros, vão provocar a mesma guerra noutra cidade…
Finalmente, um destaque muito especial para o último conto: cheio de uma inexcedível e singela beleza…

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