segunda-feira, 14 de abril de 2014

A sul da fronteira, a oeste do sol - Haruki Murakami



Sinopse:
Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz as vezes de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa «início». Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são. Nos seus tempos de rapazinho faz amizade com Shimamoto, também ela filha única e rapariga brilhante na escola, com quem reparte interesses pela leitura e pela música. Juntos, têm por hábito escutar a colecção de discos do pai dela, sobretudo «South of the Border, West of the Sun», tema de Nat King Cole que dá título ao romance.
Mas o destino faz com que os dois companheiros de escola sejam obrigados a separar-se. Os anos passam, Hajime segue a sua vida. A lembrança de Shimamoto, porém, permanece viva, tanto como aquilo que poderia ter sido como aquilo que não foi. De um dia para o outro, vinte anos mais tarde, Shimamoto reaparece certa noite na vida de Hajime. Para além de ser uma mulher de grande beleza e rara intensidade, a sua simples presença encontra-se envolta em mistério. Da noite para o dia, Hajime vê-se catapultado para o passado, colocando tudo o que tem, todo o seu presente em risco.  
in www.wook.pt
Comentário:
Esta é uma das obras aparentemente mais simples e linear deste génio da literatura japonesa. A fantasia oriental, o encanto exótico e a sensualidade misturam-se de forma genial com uma crítica social e política bem marcada.
Os gatos e a música são elementos aparentemente secundários que parecem fazer parte de todo o universo literário de Murakami e este livro não é exceção. O título, encantador, baseia-se mesmo num tema musical de Nat King Cole. A música e a literatura num todo coeso que é a arte. É música que vai testemunhando todos os momentos fulcrais da vida do protagonista, Hajime, talvez caraterizado com alguns traços autobiográficos.
No entanto, o aspeto mais marcante do livro é a importância das fronteiras que o ser humano traça na sua vida.
Há fronteiras em tudo quanto constitui a nossa vida; e algumas dessas fronteiras são bem difíceis de reconhecer; é o caso da eterna separação possível entre o Bem e o Mal. Hajime tenta ser uma pessoa honesta, frontal, coerente. No entanto, sem que dê por isso, acaba sempre prejudicando alguém com as suas opções. O Mal é inevitável.
Outra fronteira fundamental e quase sempre impossível de reconhecer é a que separa a nossa juventude da vida adulta; toda a vida de Hajime ficou marcada pela dificuldade em reconhecer essa fronteira e pela forma como a sua infância determinou o seu destino. Afinal, a infância não é demarcável por uma linha de fronteira.
E, finalmente, a mais importante e a mais fatal das fronteiras: aquela como que delimitamos o nosso mundo concreto, rotineiro e banal, isolando o nosso sonho. O sul. A sul da fronteira há um destino de sonho; um mundo só acessível àqueles que arriscam deixar para trás o comodismo, o materialismo, o mundo pequenino do concreto e trivial. O problema é que a segurança está no trivial. Até quando poderá Hajime suportar o apelo do sonho que vem do sul da fronteira?
Aqui, o sul, o mundo do sonho é representado pelo elemento feminino de forma muito bela; ao longo da vida Hajime irá confrontar-se com os ecos de uma infância e adolescência onde se haviam semeado os sonhos; e eles têm nomes concretos: Shimamoto e Izume, as suas paixões juvenis.
A partir de meados do livro a narrativa evolui para um caminho algo diferente, onde os mistérios se adensam e vem ao de cima o aspeto mais encantador da escrita de Murakami: a naturalidade com que as coincidências surgem, como se o impossível não existisse. Assim, emerge aquele toque de fantasia poética que tanto embeleza a narrativa deste génio nipónico.
Perante um mundo capitalista que o oprime mas que lhe dá segurança, Hajime vai ser confrontado com o grande dilema: a felicidade só se consegue com a perda dessa segurança. Há um certo paralelismo entre esse conforto que o ser humano (a medo) procura e o mundo capitalista em que vivemos mergulhados. O capitalismo é visto como o mundo do comodismo, da imobilidade, mas também da exploração e da ausência de ética. Um mundo obscuro, cinzento, mas envolto numa aparência de felicidade. Terá Hajime a força para lhe resistir?
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