domingo, 27 de abril de 2014

Augusto Abelaira - Outrora Agora

Sinopse:
Um homem e três mulheres: o masculino pulverizado nos seus avatares femininos, espelhados em três dimensões temporais que se entrecruzam e se sobrepõem, explorando intensamente as possibilidades da linguagem, da ficção, dessa outra ficção que é a vida. Um círculo que se fecha em torno de um homem que puxou talvez depressa demais o fio do destino. Será afinal esse cerco de seduções, a implacável dança das Parcas?
 Mas porque detrás deste fascinante microcosmo de palavras - com a sua perturbadora carga de realidade - se encontra um arquiteto jocoso, este é também um romance em que os grandes temas, as grandes interrogações, mas sem as grandes palavras, se deduzem de conversas banais. Um romance admirável.
in www.presenca.pt

Comentário:
Poucas vezes um escritor terá conseguido com tanto brilhantismo aliar a expressão do pensamento ao discurso direto do protagonista. Jerónimo fala, ouve e pensa. A expressão desses atos é como que uniformizada, transformada num discurso único. Afinal de contas, é assim que todos procedemos: falamos, ouvimos e pensamos em dimensões que caminham em conjunto, interferindo umas com as outras.
Esta mescla entre o falado e o pensado é, portanto, muito mais do que uma questão formal, é o realismo máximo na passagem do plano psicológico para a expressão oral do personagem e escrita do romancista. Brilhante, sem dúvida.
Se em termos de estilo estamos perante uma obra brilhante, o certo é que também no que se refere ao tempo do livro, deparamos com uma abordagem notável da vida humana; de como os diferentes tempos da vida se misturam, de como as diferentes realidades confluem para um tempo real, o presente, resultado de múltiplos percursos, mas também múltiplas perceções que, no fundo, confluem para uma única realidade.
Jerónimo amou Cristina como, trinta anos depois, haveria de amar a Filomena. No entanto, Cristina e Filomena parecem ser a mesma mulher em tempos diferentes.
No fundo, todas estas realidades diversas entrecruz-am-se por ação do pensamento. Aqui deparamos com uma profunda questão filosófica: a do primado do pensamento. Afinal, o mundo parece só ser real na medida em que foi (e é) pensado.
Na crise dos sessenta anos, Jerónimo revive no reencontro com Cristina toda a luta face ao regime fascista. No entanto, em plenos anos 90, a censura que outrora era exercida pelo regime parece ser agora exercida na mente de Jerónimo pelo seu próprio pensamento. Mais uma vez, o primado do pensamento! Neste caso, o pensamento como incómodo, como as moscas que Lutero entendia como criações do demónio para o impedir de meditar.
Em conclusão: estamos perante uma obra cheia de talento, de um escritor criativo, inteligente e, acima de tudo, profundamente reflexivo sem, no entanto, adormecer o leitor com considerações abstratas; o que está em causa é a vida e a natureza do pensamento humano. Um livro notável, um escritor notável que só agora descobri.
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