quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os Olhos do Faraó - Boris de Rachewiltz e Valentí Gómez i Oliver

Sinopse:
Egito Antigo, ano de 2200.
Durante o declive do Antigo Império, que marcará o fim do Império Médio, Neferkara Pepi, que durante quase um século reinou sobre as "duas terras", está prestes a morrer.
O reino encontra-se numa situação dramática, o povo está à beira da sublevação, mas os cortesãos ocultaram esta situação do faraó. No entanto, o sacerdote e tesoureiro Ipwer, o homem com o coração honesto, irrompe no salão do trono para revelar ao soberano a dramática situação em que o reino vive.
O profundo dramatismo do relato de Ipwer comove profundamente o ânimo do faraó, que revive o seu passado, desde que subiu ao trono, com seis anos de idade.
As intrigas da nobreza para conseguir o poder, a rivalidade entre as cidades de Mênfis e Tebas, as disputas religiosas derivadas da crescente implantação do culto monoteísta de Horus e Amon-Ra, alternam com imagens de jardins exóticos, eclipses lunares, gatos mágicos, pigmeus dançantes e fantasmagóricas festas na margem do Nilo.
in livroseautores.blogspot.pt

Comentário:
Se não fosse por outra razão, valia bem a pena ler este livro por nos explicar como se deu a domesticação dos gatos, pelos egípcios antigos. Para quem não sabe, o gato foi domesticado no país dos faraós há cerca de 4000 anos, vários milénios depois, por exemplo, da domesticação do cão. Para os egípcios, depressa o gato, com toda a imponência da sua personalidade e o seu ar misterioso se tornou um animal sagrado.
Mas este é apenas um dos aspetos da encantadora e misteriosa civilização egípcia, construída nas margens do sagrado rio Nilo e onde toda a natureza era sagrada.
Grande parte do encanto deste povo deveu-se à sua extraordinária relação de respeito e veneração pela natureza. A própria religião, com todos os seus rituais e crenças submete-se totalmente às forças naturais: os astros, por exemplo, conduziam a vida dos egípcios, anunciando presságios e augurios a partir dos quais eram tomadas as decisões mais importantes da vida individual e coletiva. Mas era o rio que comandava de forma mais vincada a vida deste povo. Era o rio que trazia a abundância, com as suas cheias que fertilizavam os solos ou então a fome, quando a inundação não era suficiente ou era excessiva. Daí a sacralização do rio.
Depois há todo aquele misticismo das pirâmides, da crença na reencarnação, da importância do embalsamamento, como garante da passagem à vida eterna.
Também em termos culturais este povo marcou de forma indelével os alvores da civilização; ainda hoje é difícil compreender como foi possivel construir aquelas gigantescas pirâmides. Um dos pontos altos deste livro é o momento em que os autores nos explicam que, afinal, há uma justificação objetiva para a lei da frontalidade, aquele estilo de pintura que tão estranho nos parece, em que as personagens são representadas com o rosto de perfil e o tronco de frente.
No fundo, o grande valor deste livro reside na verdadeira visita guiada que ele nos propicia ao Egito Antigo, mais exatamente ao reinado de Pepi II, o sexto rei da sexta dinastia, no século XXIII antes de Cristo. Aqui estão as intrigas políticas, as injustiças sociais, enfim, todas as misérias mas também todo o encanto da corte do faraó.
Onde o livro, de facto, falha, é na tentativa de construir um romance histórico. Na verdade, a narrativa de ficção é pouco interessante, deixando pouco espaço para a criatividade na construção de um enredo minimamente emocionante. Falta aquele elemento de imprevisto, aquele toque de ficção que normalmente envolve o leitor.

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