terça-feira, 8 de abril de 2014

Quincas Borba - Machado de Assis

Sinopse:
Ao ceticismo distanciado de Memórias Póstumas de Brás Cubas segue-se, seis anos depois, em Quincas Borba a credulidade romântica de Rubião, humilde professor tornado rico por herança de filósofo e perdido no Rio de Janeiro e na Corte em busca de emoções. Rubião é fascinado por Sofia e enganado pelo marido desta, Cristiano Palha, que transforma a mulher em instrumento da sua ascensão burguesa. Mas Sofia não tem a audácia de uma Bovary, nem sequer a desenvoltura da Luísa de O Primo Basílio e Rubião naufraga nas esperanças perdidas.
Se Memórias Póstumas de Brás Cubas deixa um rasto de lúcida diversão que evita a tragédia, Quincas Borba mergulha na irreversível loucura do seu personagem. Rubião parece destinado a ilustrar a teoria do filósofo Quincas Borba, resumida na frase: ao vencedor, as batatas. Neste romance cuja acção decorre entre 1867 e 1870 são visíveis os reflexos dos acontecimentos da época, desde a guerra do Brasil com o Paraguai ao esplendor e queda de Napoleão III, com quem Rubião se identificaria.
Comentário:
Misturando um pessimismo ontológico com uma narrativa marcadamente realista, resulta daqui uma obra notável pelo seu simbolismo mas também por uma história agradável e bem humorada. É este, em minha opinião, o mérito maior de Machado de Assis: o de combinar de forma genial o pessimismo com uma escrita agradável e bem humorada.
O nosso herói, tal como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, está morto. Machado de Assis mata-o logo nas primeiras páginas do livro. Tratar-se-á de uma metáfora sobre a vida, que não se esgota com a morte? De Quincas Borba ficam duas coisas notáveis que marcarão todo o enredo: o cão com o mesmo nome do dono e a sua filosofia original: o humanitismo.
Rubião é o herói do livro; ele herda três coisas do seu amigo Quincas: o cão, a filosofia com todos os seus efeitos e uma fortuna enorme.
Mas Rubião, ao longo do livro, vai-se “coisificando”. É aqui que entra o pessimismo do autor perante os destinos do ser humano; Rubião há de cair nas garras de uma mulher, Sofia, que o levará à loucura. E de um homem, o marido de Sofia, Cristiano Palha, que o ajudará a esfarrapar a fortuna.
Não estou com isto a revelar segredos sobre o enredo porque para o leitor há surpresas a rodos ao longo do livro; se o destino de Rubião é a loucura, isso qualquer leitor adivinha a meio do livro; no entanto, como Rubião lá chega, isso sim, é a marca do artista Machado de Assis.
Não é por acaso que muitos leitores consideram Machado de Assis um concorrente direto de Eça de Queirós; tal como o génio português, também o escritor brasileiro deixa bem marcado o seu espírito crítico, nomeadamente sobre aquela aristocracia anacrónica, diletante e oca de ideias que se limita a vegetar em torno de quem tem poder e dinheiro. Dessa vida vegetal à política vai um pequeno passo. A ambição do ser humano não reside no enriquecimento pessoal ou ético, mas no poder e estatuto social.

Quanto ao elemento feminino, nem aí Assis deixa os seus créditos por mãos alheias: as atitudes de Sofia perante a paixão proibida de Rubião representarão alguma acusação a uma atitude provocatória típica do sexo feminino? Será Sofia, a mulher fatal, causa de todas as desgraças? Se é este o intento de Machado de Assis, não sei, mas assim parece ao modesto leitor.

6 comentários:

Joaquim Martinho disse...

boas tardes, devo-lhe dizer que encontrei o seu blog por acaso e desde logo me cativou. O conteúdo para o conhecimento literário é absoluto e isso é essencial para estimular os nossos gostos cada vez mais desmoralizados no nosso país. Também tenho um blog de contos e gostaria imensamente que tivesse oportunidade de ir ler (nunca se sabe o que podemos encontrar). Deixo aqui em baixo o endereço, obrigado .http://voznocapitulo.blogspot.pt/

Manuel Cardoso disse...

Olá Joaquim.
Obrigado por essas palavras. Se este modesto cantinho tem alguma utilidade na divulgação da leitura fico imensamente feliz.
Claro que vou visitar o seu sítio. Depois direi qualquer coisa.
Abraço

Carlos Faria disse...

De Machado Assis ainda só li D. Casmurro e achei-o divertidíssimo, pelos vistos uma característica transversal às obras dele.

Heyrovsky Torres Rodrigues disse...

Bom dia!

Teu blog é fascinante!
Também sou apaixonado por livros (tenho uma biblioteca no quarto.
São neles que me encontro em todos os momentos que preciso.
Parabéns pelo Blog

Heyrovsky Torres Rodrigues disse...

Bom dia!

Teu blog é fascinante!
Também sou apaixonado por livros (tenho uma biblioteca no quarto.
São neles que me encontro em todos os momentos que preciso.
Parabéns pelo Blog

Carlota Wahnon disse...

Que regalo para os olhos este blog. Vim aqui parar por acaso depois de ler o Hóspede de Job, à procura de opiniões. Gostei muito do livro, pois além de retratar uma realidade que me era totalmente desconhecida, está, pois claro, muito bem escrito.
Partilho o seu gosto pela leitura, e gosto também de escrever. Escrevo histórias de quando em vez no meu blog, deixo aqui o convite para o visitar:
http://meetmein-dreamland.blogspot.pt/

Boas leituras!