domingo, 6 de março de 2011

O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón

Depois de A Sombra do Vento, neste livro, Zafón volta à Barcelona dos anos 20 para nos contar a história de Daniel Martin, um jovem escritor a quem um misterioso editor (Corelli) encomenda um livro que pretende fundar uma nova religião. Mas a encomenda será apenas o ponto de partida para uma intrigante sequência de descobertas e mistérios em que Martin se vê envolvido. A intriga leva-o de novo ao encantador Cemitério dos Livros, um locar de refúgio dos livros perdidos que já nos tinha sido apresentado em A Sombra do Vento.
A par desse enigma, o nosso herói defronta um desafio terrível: o seu protector e amigo (Don Pedro Vidal que o tirara da miséria) apaixona-se pela sua amada. O romance não podia faltar e Zafón não resiste ao cliché. Mas não se pense que a intriga romântica retira interesse ao livro; pelo contrário, a escrita jornalística e cinematográfica de Zafón agarra-nos até ao fim do livro mau grado as suas 570 páginas.
Embora não seja um livro de grandes ideias ou reflexões, é uma obra que nos presenteia com alguns aspectos muito interessantes: o enigmático personagem Andreas Corelli é-nos apresentado como um ser ambivalente, uma espécie de anjo que tanto pode ser negro como branco; Deus ou o Diabo, duas faces da mesma moeda.
Outro aspecto interessante desta obra é que o suspense, o mistério, reside mais nas atitudes e na dimensão mental dos personagens do que em acções do acaso ou de circunstância; tudo se passa como se o mundo dependesse apenas das interpretações que fazemos do real e não do real em si. A vontade humana e as suas interpretações do mundo comandam, em última análise, todo o desenrolar dos acontecimentos.
Tal como acontece em A Sombra do Vento, tudo se desenrola em torno dos livros. É a escrita de um livro que despoleta todos os mistérios, se bem que, mais uma vez, Zafón deixa que o enredo vá desembocando invariavelmente em crimes sangrentos, dando à obra algum aspecto de “dramalhão” que, a meu ver, não a beneficia.
O aspecto mais original e interessante desta obra é, na minha opinião, o toque de fantástico que Zafón dá ao enredo. Pessoalmente, não sou adepto da literatura fantástica. Mas aqui o fantástico é integrado na perfeição nos comportamentos e atitudes humanas e não retira humanismo ao enredo. Pelo contrário: o misticismo e a fantasia são determinados pela mente humana; pelos seus dramas e medos; pelos sonhos, em última análise.
Em suma, trata-se de uma obra que se lê com facilidade, que diverte. Afinal de contas, que mais podemos pedir a um livro?
Avaliação Pessoal: 8.5/10
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