segunda-feira, 21 de março de 2011

A Senhora de Avalon - Marion Zimmer Bradley

Como já tenho afirmado, não gosto de literatura fantástica. Não que não lhe reconheça méritos, mas porque entendo a literatura como uma forma de expressão da vida em todas as suas dimensões e não apenas no aspecto onírico.
No entanto, gostei muito deste livro. Talvez porque ultrapassa em muito a literatura fantástica. Aliás, penso que poucas vezes se misturou história, mitologia e ficção de forma tão feliz e genial.
Segundo a crença, foram os antepassados da Atlântida que construíram os círculos de pedras a que hoje chamamos cromeleques (como o famoso monumento megalítico de Stonehenge). Curiosamente, essa crença explica da mesma forma os primeiros monumentos proto-cristãos. Isto é muito significativo porque aponta, desde logo, para a universalidade do pensamento religioso: a concepção das forças do Bem como forças universais, independentemente dos nomes atribuídos aos deuses. Por oposição, este livro apresenta-nos o nascimento da ortodoxia católica, autêntico travão à tolerância religiosa, em percurso contrário à crescente tolerância manifestada pelo Império Romano.
Por outro lado, este livro é também um importante testemunho histórico; ele divide-se em três partes que acompanham três momentos fundamentais da história do ocidente: o momento de afirmação do Império Romano, no primeiro século da era cristã; o nascimento do chamado Império Britânico, com o Imperador Caráusio e, finalmente, o tempo das invasões bárbaras com o estertor do Império e o terror imposto por Saxões, Anglos e outros povos germanos que viriam a provocar a mescla de povos das actuais ilhas britânicas.
Intrinsecamente ligadas a este percurso histórico, o mítico povo de druidas e feiticeiras de Avalon surge como o reino maravilhoso onde a história se alicerça na mitologia céltica. Mito e História, crença e realidade, sonho e tragédia, guerra e misticismo, são os elementos com que se compõe esta maravilhosa narrativa, capaz de nos fazer sonhar e reflectir sobre os destinos que a humanidade impõe a si própria.
Mas o âmago do maravilhoso é o que está para além de toda a realidade: é o misticismo de uma mitologia baseada na natureza, na terra-mãe. Uma mitologia onde o mundo é Deus e Deus é a Terra, o vento e o mar; onde o Bem emana da terra; onde a paz está ao alcance do espírito.
Avaliação Pessoal: 9/10
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