sábado, 12 de março de 2011

Nação Crioula - José Eduardo Agualusa

Mais um belo livro deste grande escritor, narrador e “poeta” do encanto africano.
O título é herdado de um navio que existiu realmente, um barco negreiro que transportava escravos capturados em Angola para os canaviais brasileiros.
Nesta obra, Agualusa recupera essa magnífica personagem criada por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão que é Fradique Mendes, imaginando-o a escrever uma série de cartas ao próprio Eça, à sua madrinha Madame Jouarre e à mulher amada, a encantadora negra ex-escrava Ana Olímpia. É através dessa correspondência que Fradique, um abolicionista bon-vivant viajante e humanista, descreve as “façanhas” dos pérfidos comerciantes negreiros que ainda prosperavam em Angola nos anos 70 e 80 do século XIX.
Num tema que Agualusa desenvolve em outros livros, fala-se da miscigenação em Luanda; dos portugueses que lá foram parar como desterrados, condenados pela justiça lusa e acabaram por encontrar em Angola terreno fértil para grandes oportunidades de enriquecimento, à custa do sangue, suor e lágrimas dos negros. Fala-se também dos negros que aproveitaram para trair o seu povo colaborando com estes oportunistas. E fala-se, sempre, desta estranha atracção por África, onde a missão civilizadora que os brancos defendiam não é mais do que um acto de dominação, oportunista e cruel. Diz Fradique: “Desgraçadamente, Portugal espalha-se, não coloniza. Somos assim, enquanto nação, uma forma de vida mais rudimentar que o bacilo de Koch. Pior: uma estranha perversão faz com que os portugueses, onde quer que cheguem, e temos chegado bastante longe, não só esqueçam a sua missão civilizadora, isto é, colonizadora, mas se deixem eles próprios colonizar, isto é, descivilizar, pelos povos locais.” (página 130).
Fala-se ainda da aberração histórica que foi a escravatura, abençoada por Deus, ou melhor, por quem as suas vezes quis fazer; e no meio de tudo isto a paixão de Fradique Mendes por Ana Olímpia.
Em suma, um belo livro, que se lê sem nenhum esforço, numa linguagem simples e por vezes divertida, por mais trágico que seja o assunto. Talvez esta aparente descontracção no tratar do tema se explique pela familiaridade com que o povo africano se habituou a lidar com o sofrimento e a injustiça, numa História de Portugal que, neste aspecto, mais não é do que a história da injustiça e da crueldade.
Imagem retirada daqui
Avaliação Pessoal: 9/10
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