segunda-feira, 7 de março de 2011

Manhãs Gloriosas - Diana Peterfreund

Myzon.tv é um canal da grelha digital da Zon. É o canal zen da Zon. A programação é algo peculiar: uma câmara filma uma paisagem natural, por exemplo uma praia deserta numa ilha tropical onde nada acontece a não ser o soprar do vento e um ou outro pássaro de passagem. O telespectador pode escolher, para acompanhar a imagem, uma música relaxante, os sons naturais ou um texto zen lido numa voz suave. O livro Manhãs Gloriosas fez-me lembrar este canal de televisão. Porquê? Porque nada acontece. Nada.
Não se deduza da comparação que acabo de fazer que o referido canal da tv cabo é uma inutilidade sem interesse. Pelo contrário; o que se pede a um canal zen é que seja mesmo assim: feito de paz e sossego. Mas a um livro pede-se exactamente o contrário: que perturbe os espíritos, que transmita ideias inquietantes e faça o coração bater mais depressa. Neste livro não acontece nada disso; apenas páginas e mais páginas de diálogos estéreis, acontecimentos banais e ideias ocas. Ia dizer que o enredo está cheio de clichés. Ia dizer asneira. A verdade é que o livro todo é um imenso cliché. Um lugar-comum gritante, feito da história mil vezes contada da jornalista incompreendida que é despedida injustamente, sendo posteriormente contratada por outra empresa onde faz um sucesso enorme, após ter enfrentado colegas invejosos e traições de telenovela. Para completar o ramalhete não podia faltar a paixão assolapada pelo jovem brilhante e encantador, o príncipe encantado das estórias cor-de-rosa.
Trata-se de um romance tipicamente americano, escrito para entreter pessoas pouco exigentes na leitura, que exijam coisas bem simples e lineares. Não há uma única ideia original, não há um único traço que distinga este livro dos mais vulgares romances de cordel. Antes de virar cada página podemos facilmente tentar adivinhar o que vai acontecer a seguir e acertamos sempre.
No entanto, nem tudo é mau neste livro: ele tem uma qualidade muito apreciável como entretenimento; lê-se sem qualquer esforço e muito depressa. Podemos até distrair-nos durante várias páginas que voltamos a “apanhar o fio à meada” sem qualquer dificuldade. Este livro pode até ser muito útil naquelas fases em que precisamos de descansar o espírito. Aqui chegado o meu raciocínio até descubro que, no fundo, pode cumprir a mesma função do canal zen; podemos ler o livro como quem vê uma paisagem agradável. Porque no fundo a “paisagem” do livro até é engraçada: conseguimos imaginar uma mulher bonita que produz um programa de televisão, apresentado por uma outra mulher bonita com um encantador mau génio e um jornalista da velha guarda que imaginamos como uma espécie de Mário Crespo. O problema é que não saímos disto a não ser no final feliz que todos prevemos e esperamos desde as primeiras páginas.
Avaliação Pessoal: 5/10
Mais opiniões na leitura conjunta do Destante, aqui
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