sábado, 11 de junho de 2011

C - Tom McCarthy

Serge é um jovem entusiasmado pelas comunicações, na Inglaterra do inicio do século XX. Estávamos num dos períodos de maior progresso técnico de toda a história europeia; por todo o lado viviam-se as consequências da segunda revolução industrial, marcada por duas novas e poderosas fontes de energia: o petróleo e a electricidade.
Neste contexto, a Inglaterra afirma-se, em definitivo, como a nação mais poderosa do mundo. No entanto, começam a soprar os ventos de guerra, que tornam as comunicações (essencialmente telégrafo e rádio) um alvo preferencial dos investimentos e do encanto dos curiosos, como era o caso do pai de Serge. É nesse ambiente que Serge e a irmã descobrem um mundo de inovação, de encantamento perante o futuro. Se bem que a guerra se aproximava, vivia-se num mundo de optimismo em que a ciência e a técnica prometiam a felicidade suprema. Era a chamada Belle Epoque.
Trata-se de uma obra em que se distinguem com clareza três partes bem definidas. No primeiro capítulo, a meninice e primeira juventude de Serge Carrefax, o autor presenteia-nos com um extraordinário sentido de humor em torno das diabruras das crianças (Serge e sua irmã). Serge e Sophie brincavam com o fogo. Literalmente. Para nós, pais do século XXI é inconcebível imaginar crianças de 10 anos que faziam experiencias a partir de um livro chamado “Ciência a brincar” que ensinava a fabricar pólvora. O pai de Serge é responsável por uma escola de surdos-mudos e na festa anual dos alunos, Sophie usa explosivos para criar os “efeitos especiais” que acompanham a representação teatral. Até que um dia a tragédia acontece. Inevitavelmente. No entanto, a tragédia da morte de uma criança é encarada com uma naturalidade que a nós, um século depois, nos arrepia. Sophie, uma inteligência rara, daquelas que fazem mover o mundo, uma personagem magnífica, morrerá vítima da ciência. A ciência que dá e leva a vida das pessoas.
Serge vai crescendo e apaixona-se pelas comunicações de rádio. O autor apresenta-nos estas experiências com um notável sentido de humor. O ser humano tem uma autêntica compulsão pela comunicação. No entanto, o que distingue Serge é o facto de ele ser um dos pioneiros. É a homens como ele que devemos a aldeia global em que o mundo se transformou; o lado bom do nosso mundo, aliás. Às vezes parece que a história do mundo (e da nossa vida) é um longo combate contra a solidão. Serge procura algo nas transmissões de rádio; talvez algo que o ligue ao mundo após a perda da irmã.
Aproxima-se a guerra. Serge é internado numa clínica onde encontrará a cura mas também o amor. O amor nas vésperas da guerra. Na clínica há pessoas doentes de vários países da Europa: as pessoas como os países: doentes.
Depois Serge irá para a geurra; o livro evolui para um lado sombrio do qual já não sairá. Um dos grandes desencantos desta obra é precisamente este: a partir de certa altura o contexto político impõe ao desenrolar dos acontecimentos um tom cinzento que torna a leitura menos agradável sem que a riqueza do livro fique a ganhar com tal derivação. Serge alista-se na força aérea. A tecnologia entra ao serviço da guerra; o contacto com a morte torna-se vulgar. Serge caminha agora por caminhos obscuros, já não a fugir da solidão mas da morte; a droga entre a coragem e a loucura; caminhos tenebrosos… a guerra foi um motor de progresso, mas à custa de muito sangue…
Na parte final do livro, Serge C (C de Carrefax mas também do Carbono, o elemento mais essencial da vida) trabalho no Egipto, nos confins do Império Britânico. Aliás, no Egipto onde morrerá o Império. E Serge. Sem honra nem glória.
É por isso que este livro é uma homenagem aos heróis anónimos que construíram o nosso mundo. Um livro encantador, que perde muito do ritmo narrativo na parte final mas que não deixa de ser uma obra notável, aliás que só foi superada pelo magnífico “A Questão Finkler” na conquista do Man Booker Prize 2010.
Avaliação Pessoal - 8.5/10
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