sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Braço Esquerdo de Deus - Paul Hoffman


Algures num contexto medieval, entre brumas negras de mistério e terror, um castelo tenebroso onde vivem umas dezenas de clérigos loucos que escravizam umas centenas de pobres criancinhas. Os rapazes, esfomeados e esfarrapados, são maltratados brutalmente pelos clérigos (os Redentores) que os preparam para uma misteriosa guerra. Comem uma coisa horrível a que chamam pés-de-morto. São espancados brutalmente todos os dias e por qualquer motivo. Cale é uma dessas crianças e uma qualquer justificação que o leitor não conhece de início faz com que Cale seja ainda mais maltratado que os outros. 
O livro avança e o horror acentua-se. Descobre-se que alguns Redentores cometem crimes horríveis com... raparigas!
Chega-se a um ponto em que o leitor imagina o escritor aflito porque já não tem mais adjectivos para qualificar a desgraça de Cale e daquelas pobres criancinhas. Thomas Cale já era o mais desgraçado que se podia imaginar e o leitor já sorri de tanta desgraça acumulada.
Tudo neste livro é negro e tenebroso: desde as vestes pretas dos Redentores, até ao pensamento das crianças. Ali não há esperança nem redenção. Não há um raio de sol ou de vida. Tudo o que Paul Hoffman nos oferece é um quadro horrível, uma pintura de Bosh mas sem qualquer genialidade; apenas o Mal na sua expressão máxima.
Um dia Cale foge e é admitido por uma outra comunidade que, vem a saber-se depois, são os donos de um grande império, os Materazzi. Estes são menos brutais que os Redentores. E haverá uma guerra entre Materazzi e Redentores. Só no final se saberá que Cale estava no centro do conflito. A verdade revelada nas últimas páginas era para ser terrível não se desse o caso de se tornar óbvia para o leitor ao longo da leitura, até porque o título do livro já revela metade do mistério. Mas creio que Hoffman não previu isso e para um leitor atento, o final soa como banal e previsivelmente absurdo. O leitor já esperava esse limite entre a fantasia e o absurdo, que este tipo de literatura muitas vezes ultrapassa.
Devo dizer que não é uma leitura desagradável; lê-se com fluidez, num estilo simples e concreto, sem grandes considerações filosóficas, sem muitas descrições inúteis, com um apreciável ritmo narrativo. O problema deste livro é que não traz nada de novo. Num género em que a imaginação é fundamental, Hoffman refugia-se em clichés, em lugares comuns próprios do género e não sai daí.
Fez sucesso e vendeu muito. Era isso que se pretendia. Mas mais nada que isso.
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