quarta-feira, 25 de maio de 2011

Os Cus de Judas - António Lobo Antunes

Encurralado entre o arame farpado das lágrimas e o muro frio da raiva, Lobo Antunes, mergulhado no terror das memórias ainda incandescentes de África, leva-nos em visita guiada ao horror, ao medo, à solidão e à revolta da guerra que é passado mas sobrevive, estrebuchando mas nunca morrendo, em todas as suas obras.
Olhares macabros, memórias de terror, tristeza de quem viveu algo que ainda resiste na alma, este é um retrato angustiado e revoltado. O narrador, nunca nomeado, podia ser Lobo Antunes. Médico como ele, sofreu a dor dos outros, camaradas na desgraça, vítimas de um regime assassino. Passadas as dores do corpo, permanecem as da alma, as mais duras de viver.
São estas memórias da grande noite de Angola que o narrador desfia perante uma mulher, também ela, só. Numa esplanada, depois num apartamento solitário e cinzento, sonhando com um sexo sem riso que provavelmente tentaria redimir-lhe o passado. Ilusões de futuro, para quem o passado é uma espécie de morte lenta, por consumar.
E a guerra depois da guerra que é a solidão. E o homem que a guerra não fez homem, afinal, apenas uma alma revolta no deserto, sem sonhos nem esperança, apenas uma memória negra de morte ou vermelha de sangue. Um homem só, pássaro ferido que um dia quis voar. Agoniza. À sua frente um futuro que nada lhe oferece. Atrás de si um passado que o persegue e absorve. Devora. Devagar… sadicamente devagar, como na agonia do soldado que morre com as tripas na mão.A espaços emerge a violência; a violência da guerra colocada nas letras carregadas, numa caneta que rasga o papel como as metralhadoras rasgavam as carnes inocentes dos soldados, esventrados por causa de uma mentira chamada Pátria.
Também o amor toma parte neste festim de horrores; as saudades e a mágoa do amor perdido de Sofia, um amor roubado pela PIDE. Um amor que se mistura com o prazer triste da sua interlocutora; um prazer magoado porque é impossível fugir da memória.
Solidão, poesia, violência, amor e morte. É assim nos Cus de Judas, ou seja, nos confins de Angola ou nas profundezas da alma de ALA.

Avaliação pessoal: 9.5/10

8 comentários:

Anónimo disse...

Li pouca coisa do Lobo Antunes, mas este livro já li e gostei muito.
Já li por aí que é dos melhores.
Não sei, terei que ler mais.
Tenho uns quantos, mas estão num qualquer monte à espera de vez...

Um abraço
Isabel

Manuel Cardoso disse...

Olá Isabel
mas Lobo Antunes deixa uma certa nostalgia, até uma tristezazinha, não é?
Mesmo assim, é magnífico.

Duarte disse...

Este livro foi a minha 1ª incursão num verdadeiro romance de Lobo Antunes. Já o li há imenso tempo, após conhecer a excelência das suas crónicas. É pesado, cruel, mas espelha uma realidade que o escritor viveu, descrevendo-a com revolta. Faz muita citações o que torna, para um leigo como eu, a leitura difícil e algo enfadonha. Mas a culpa deverá ser minha.

Manuel Cardoso disse...

Não me parece que seja uma questão de "culpa tua", Duarte. Aliás, deste-me uma ideia para um novo post...

Céu Gonçalves disse...

Sobre o livro "Os cus de Judas", que li a aproximadamente à 20 anos, fiquei, (sem prejuizo de considerar um bom livro), com a ideia de que o uso de palavrões muitas vezes foi usado, de forma gratuita, na medida em que muitas das vezes, quando usado, não transmitia o reforço dos sentimentos transcritos pelo o autor.
Talvez a idade não me tivesse ajudado!

Manuel Cardoso disse...

É verdade, Céu; concordo que ALA abuse um pouco dos palavrões; mas temos de contextualizar isso. A Guerra Colonial deixou à beira da loucura milhares de homens; o palavrão é, em ALA, um grito de desespero. Mas talvez pudesse ter sido um pouco mais moderado, sim.
Um abraço e apareça sempre :)

José Alexandre Ramos disse...

Olá Manuel!

Posso citar no site/blog? Obrigado.

Manuel Cardoso disse...

Claro, Alexandre, está à vontade.
Um abraço