terça-feira, 23 de novembro de 2010

Silêncio - Shusaku Endo

Shusaku Endo, falecido em 1996 foi um dos mais conceituados escritores japoneses do século XX. Nesta obra, Silêncio, aborda um tema polémico e profundo, que tem muito a ver com a nossa história: o trabalho dos missionários portugueses no Japão, nos séculos XVI e XVII. O livro narra a história do Padre Rodrigues, um jesuíta português que partiu para o país do sol nascente procurando um outro missionário, o padre Ferreira de quem se dizia ter apostatado, ou seja, renegado a fé cristã.
A época era de intolerância; enquanto em Portugal e noutros países cristão se perseguiam e queimavam judeus nas fogueiras da Inquisição, no Japão eram os cristãos vítimas de perseguição impiedosa por parte das autoridades locais, que pretendiam manter o povo fiel ao Xintoismo e ao Budismo vigentes.
Mais interessados no negócios do que no cristianismo, os japoneses começaram por aceitar benevolamente a presença portuguesa, tendo os jesuítas, liderados por S. Francisco Xavier, conseguido converter milhares de japoneses. Mas no século XVII tudo se modificaria, em parte pela influência que os holandeses ingleses (protestantes e rivais dos portugueses) moveram junto das autoridades japonesas. Inicia-se então um período de intensa e cruel perseguição, em que os padres missionários e os fiéis eram punidos com castigos arrepiantes e submetidos a torturas inacreditáveis.
No entanto, a questão fundamental não radicava apenas na falta de tolerância. A questão fundamental que Endo coloca ao narrar a incrível história do Padre Rodrigues é a incapacidade que os seres humanos revelam para enquadrar as crenças num espaço cultural próprio, sem o qual elas se revelam inférteis. Como afirma um samurai japonês, o cristianismo era como uma árvore transplantada para um terreno infértil. Impor, mesmo que por benevolência, uma determinada crença é um acto institucional, mais do que de consciência. A Igreja como Instituição nunca conseguiu compreender devidamente este fenómeno: o conceito de BEM, por mais universal que possa ser, não é compatível com normas institucionais que se pretendem universalizar.
Nessa medida, a obra de Endo não perde actualidade nos nossos dias; vemos com frequência governos actuais tentando impor o nosso conceito de bem, de democracia, de liberdade sem ter em conta as realidades culturais diversas com que nos deparamos. E nós, no nosso quotidiano, quantas vezes não recorremos a argumentos como estes: “isto é bom para ti”, sem ter minimamente em conta a realidade do outro? Até que ponto o nosso conceito de “bem” ou de “bom” deixa de ser uma ideia subjectiva?
Enfim, um livro que foi para mim uma excelente surpresa, pela sensibilidade que revela sobre um assunto tão complexo e intemporal. O estilo, bastante claro e acessível, faz deste livro um verdadeiro manual de tolerância universal.
Aguarda-se para breve a adaptação deste livro ao cinema pela mão do conceituado Martin Scorcese.
Acima, além da capa da edição portuguesa da D. Quixote, incluo a da edição francesa pela sua magnífica qualidade gráfica.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Estorvo - Chico Buarque

Há uns tempos, Chico Buarque dizia que quando escreve procura sentir a música das palavras. Músico genial, ele expressa nesta obra, através das palavras, toda a musicalidade que lhe vai da alma à caneta. As letras volteiam em frases de melodia melancólica; a escrita em si, as palavras simples e sentidas são, por si só prazer em estado puro para quem lê.
Para quem, como eu, havia lido Budapeste há pouco tempo, este livro é uma agradável surpresa. A dimensão poética da escrita transforma o acto de ler num exercício de prazer, mau grado toda a melancolia, toda a tristeza que estas letras exprimem.
Em Budapeste, Buarque construiu um enredo com o qual pretendeu ilustrar as suas ideias; em Estorvo, Buarque deixa fluir essas ideias, sem se preocupar com grandes tramas narrativas.
Conta-se a história de um homem só na grande cidade, desintegrado de um meio onde predomina a exterioridade, a vaidade e o materialismo. A futilidade das classes superiores, da alta burguesia a que a sua família pertence, contrasta com a miséria que alimenta o crime. Entre uma família fútil, de corações entorpecidos pela fortuna e uma horda de criminosos com os quais se envolve, o nosso personagem deambula na solidão, na incerteza, na falta de identidade.
Ele vive em permanente equilíbrio precário entre o sonho e a vigília, o real e o pesadelo, a inquietação e o medo, sempre na margem do mundo. Vítima da modernidade, ele narra-nos os seus dramas submetendo a eles todo o percurso narrativo, num monólogo interior em que narrador, personagem e autor se misturam.
Perde-se o sentido da vida; perdem-se as raízes do ser…
A cidade transforma-se num imenso deserto, onde tudo perdeu o sentido.
Podemos dizer que este livro é a expressão máxima da solidão humana.
Sem dúvida um livro cheio de beleza literária onde faltará, porventura, uma estrutura narrativa capaz de enredar o leitor naquilo que a maioria de nós procura num livro: uma estória. Estorvo não é uma estória: é a alma de um homem que é estorvo no mundo. Ou melhor, a estória de um mundo que é estorvo para um homem.
E para todos os que, como eu, idolatram o GÉNIO que enfrentou a ditadura com as letras, aqui fica uma das coisas mais GENIAIS alguma vez escrita e cantada:

terça-feira, 9 de novembro de 2010

After Dark, Os Passageiros da Noite - Haruki Murakami

Fascinante.
Maravilhoso.
Alguém escreveu há tempos uma frase que define na perfeição esta obra de Murakami: “Um livro magnificamente estranho”. Impossível definir melhor esta viagem pela noite e pelo maravilhoso mundo das personagens fascinantes do grande mestre japonês.
A calma e o fascínio da noite que escondem mistérios impenetráveis… a noite de Van Gogh… Mari e Takahashi vagueiam na noite de Tóquio confrontando-se com sensações únicas, acontecimentos inauditos, dramas silenciosos: uma prostituta agredida violentamente, um funcionário exemplar mas envolvido no crime, uma banda misteriosa em que Takahashi toca trombone. E do outro lado da noite está Eri, a irmã de Mari. Eri dorme profundamente; um televisor ligado absorve-a no sonho; uma câmara de filmar guia-nos no pesadelo de Eri; tudo é possível na noite, até mesmo o sonho. Até mesmo a fuga para dentro de nós mesmos, como Eri.
Murakami tem esta fascinante capacidade de escrever a paz entre o drama, de exprimir a vida atordoante dos nossos tempos entre o misticismo envolvente do espírito japonês. A magia da calma, da paz, entre os dramas mais violentos. E por todo o lado, a música, essa paixão de que Murakami não prescinde; os sons calmos que acompanham a noite.
No início do livro, uma lenda japonesa dá o tom: três irmãos, perdidos numa ilha desabitada, preparam-se para subir uma montanha à procura de um local para se fixarem; um Deus ordena-lhes que transportem um rochedo. Um fica junto do rio onde há imenso peixe; outro fica a meio da montanha onde dispõe de frutos e algum peixe. Mas nenhum deles poderá ver o mundo. O terceiro sobe até ao topo da montanha; aí terá dificuldade em arranjar alimento mas verá o mundo por inteiro. Estas são as opções da vida. Nós, a maioria, preferimos a segurança do sopé. Poucos transportam o rochedo para o alto. Alguns, como Mari e Takahashi vivem para ver e viver o mundo do alto da montanha; outros, como Eri, dormem e sonham.
Em suma, mais um livro maravilhoso de Murakami, cheio de mistério e encanto. Um livro que se lê sem esforço e que penetra fundo na nossa alma.
Ninguém permanece igual depois de ler Murakami. A sua escrita mexe-nos na alma e deixa-nos impávidos perante o fascínio de uma simplicidade transcendente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Disco de Jade - Os Cavalos Celestes - José Frèches

Ainda pouco conhecido entre nós, José Frèches é um escritor francês que se iniciou na ficção aos 52 anos, com uma trilogia (O Disco de Jade) em que este volume (Os Cavalos Celestes) é o primeiro número.
Surpreendente é o melhor adjectivo para caracterizar esta narrativa. Emocionante, exótica, bem escrita, num estilo por vezes poético, outras filosófico mas sempre objectivo, com um ritmo narrativo excelente, que prende o leitor até à última página e deixa “água na boca” para os números seguintes.
Trata-se de uma história colossal, que se desenrola no misterioso mundo oriental, mais exactamente durante a afirmação do reino de Qin que viria a dar origem à actual China, no séc. III a. C.
Narra-se a vida de Lubuwei, um mercador de cavalos muito rico que compra por preço exorbitante um magnífico disco de jade que, julga ele, lhe trará a fortuna e a imortalidade. A partir daí o destino de Lubuwei cruza-se com a vida das grandes senhores de Qin, o rei, a família real, os nobres e altos funcionários, os eunucos que procuravam controlar a corte e uma miríade de personagens que procuram a qualquer preço alcançar o poder. O reino de Qin passava por uma dramática escassez de cavalos e o nosso herói encontra assim terreno fértil para se afirmar como personagem de vulto naquela teia intrincada de interesses devoradores.
Ao longo de todo o livro é notório o confronto permanente entre as tradições confucionistas e taoistas que moldaram a mentalidade daquele povo e a superioridade cultural chinesa. De facto, numa altura em que a Europa vivia mergulhada na economia rural pré-romana, emergia o embrião do gigante chinês.
O filósofo gago Hanfeizei, por sua vez, encarna uma terceira força: uma sabedoria independente das crenças religiosas, em que se baseará, afinal, o poder político do Grande Império emergente. A sua teoria política, o legalismo, viria a ser a base do sistema imperial. O segredo do sucesso baseia-se na capacidade deste sistema legal para dominar os grandes interesses feudais, algo que poucos sistemas políticos conseguiram até à época contemporânea. Numa interpretação um pouco “livre”, esta concepção legalista do poder faz lembrar esse teórico pioneiro dos sistemas políticos modernos que foi Maquiavel, cerca de 1700 anos depois: o homem não é, na sua base, virtuoso, pelo que só reage mediante prémios ou castigos. Daí a necessidade de justificar um poder político autoritário e personificado num líder.
Aos poucos o legalismo vai superando a predominância da tradição taoista: o reforço do poder político justifica-se pela necessidade de dominar os interesses particulares, egoístas e obscuros. Mas, no reverso da medalha, ao perseguir o Tao, o poder está a roubar aos pobres (que sempre constituíram a maioria silenciada) aquilo que lhe restava: a paz interior.
A admiração do autor pela civilização chinesa nascente manifesta-se também noutros aspectos, como a arquitectura das cidades, predominantemente funcional mas também com padrões estéticos requintados, a música com toda a sua envolvência mística e o erotismo de um povo que aprendeu a cultivar o corpo como complemento da mente e da alma.
Num romance palaciano como este não podiam faltar as intrigas e traições, os jogos de interesses e maquinações diabólicas, que o autor manobra com mestria, prendendo o leitor num enredo bem urdido.
Curioso o papel que Frèches reserva à mulher. As mulheres têm sempre um papel decisivo no jogo político. Os homens controlam mas, no fundo são sempre controlados por elas, através dos seus jogos sensuais e da sedução.
Está de parabéns a editora Bertrand por nos oferecer este magnífico livro a um preço sensacional (cerca de dez euros). Fica a pergunta: se é possível publicar livros como este por este preço, como se justificam alguns "saques" que vemos por aí?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A melhor leitura do mês - Outubro

Outubro foi um mês de maior qualidade do que quantidade.
Pelas mãos, pela vista e pela mente passaram-me:
- Um decepção bem grande com um clássico frustrante: Nossa Senhora de Paris, do grande Victor Hugo que aqui se revela mais filósofo e historiador do que romancista; por mim, prefiro guardar do corcunda a imagem que me ficou da Disney :)
- Uma decepção de quase mil páginas: um livro que quis ser manual de História e romance ao mesmo tempo e do qual resultou uma caricatura do Guerra e Paz: A Queda dos Gigantes, de Follett.
- Uma surpresa agradável: A Arte de Morrer Longe de Mário de Carvalho. Um livro divertido que vai dizendo umas coisas sérias pelo meio. Um escritor que merece mais atenção por parte da opinião pública.
- Uma revelação: Ana Cristina Silva em As Fogueiras da Inquisição. Um livro triste, revoltante, profundo. Uma autora que pode vir a ser um caso sério se aprimorar melhor a vertente ficcional.
- Uma confirmação: o génio de Mia Couto, um escritor que não faz obras-primas mas anda sempre por perto.
E TRÊS LIVROS MAGNÍFICOS de 9.5 na escala de 0 a 10:
- O livro mais divertido do ano: Royal Flash de George MacDonald Fraser. Este segundo volume da Odisseia de um Cobarde consegue ser ainda mais hilariante que o primeiro.
- O topo (até agora) da carreira de José Luís Peixoto, com o Livro.
- A confirmação de um génio da nova literatura portuguesa: Valter Hugo Mãe com o formidável A Máquina de Fazer Espanhóis.
Perante isto... como escolher o melhor livro do mês...
A tarefa revela-se árdua.
No entanto...
Decidido "sobre a linha da meta"... the winner is...



:)

domingo, 31 de outubro de 2010

Nossa Senhora de Paris - Victor Hugo

(Leitura conjunta no Blogue Destante)
Victor Hugo inicia o romance enunciando um propósito bem claro, típico de qualquer escritor Romântico: o elogio da Idade Média, mais exactamente da arquitectura gótica. Trata-se de uma crítica ao racionalismo renascentista e iluminista que marcou o século anterior ao de V. Hugo.
A narrativa inicia-se com o episódio da “Festa dos loucos”. Trata-se de uma festa popular realizada no dia de Reis, em que o povo efectua uma autêntica catarse, vociferando, gritando contra tudo e todos: padres, doutores, juízes, etc. Tal como acontece no final do primeiro volume, aquando do castigo público de Quasimodo, é visível a opinião de Hugo sobre o povo: vítima da sua própria ignorância que é lamentável e descaradamente cultivada pelos mais poderosos. A festa dos loucos e um chicoteamento público são oportunidades quase únicas que o povo tem de se expressar, da mesma forma que a arquitectura é quase a única forma de expressar o pensamento do homem medieval.
O povo parece ser visto, por Hugo, como algo de exótico, algo multicolor, como se as pessoas fossem actores exóticos, estranhos mas cativantes pelo insólito. É como se Hugo pretendesse mostrar-nos a História como uma espécie de caleidoscópio ou de espectáculo circense.
Quem está habituado a ouvir falar desta obra pela adaptação ao cinema infantil surpreende-se ao ler este livro; os seus propósitos estão muito longe de se restringir a uma estória divertida para as crianças.
Podemos dizer que a catedral de Notre Dame é o personagem mais importante do primeiro volume. O sineiro Quasimodo, criança e jovem disforme, renegado pelos pais e por toda a sociedade, não é mais do que uma extensão da própria catedral. Há uma espécie de fusão entre estes dois personagens, um de carne e osso e o outro de pedra. Quasimodo confunde-se com essas pedras. Também ele é um produto da sociedade; o monstro que os outros vêm nele é o monstro que esses outros criaram.
A partir daqui, Hugo parte para uma espécie de ensaio sobre a arquitectura como expressão artística. Victor Hugo admira a arquitectura gótica, considerando-a o expoente máximo da arte da pedra.
Ao longo do segundo livro, ganha forma um retrato idílico de Esmeralda, a bela cigana que despertará amores inesperados e impossíveis: Quasimodo e Claude Frollo, o sineiro corcunda e o padre alquimista disputarão os impossíveis favores do coração de Esmeralda. Obviamente, amor e tragédia caminharão de braço dado ao longo desta aventura.
Esmeralda é jovem, bela, pura, ingénua, bondosa, alegre e inteligente. Que mais poderiam desejar um corcunda e um padre? Mas nem tudo (ou quase nada) são rosas na vida da bela cigana: a presença de uma cabra inteligente como companhia inseparável, a sua condição de cigana com todos os preconceitos e ódios que isso acarreta fazer de Esmeralda uma candidata permanente à (in)justiça popular, eclesiástica e civil. Sem culpa formada, ela será sempre perseguida.
Na minha opinião, neste segundo volume e talvez mesmo em toda a obra, o personagem mais importante é Claude Frollo, o arcediago de Notre Dame. Ele é um clérigo que representa a tentativa de conciliação da ciência com a mais profunda superstição medieval – ele procura a grande quimera dos tempos medievais: fabricar ouro por processos químicos. Por outro lado, Frollo representa um clero retrógrado que nunca soube conciliar a religião com a bondade e compaixão que a deveriam caracterizar. É pregando a Bíblia que Claude pratica as mais atrozes injustiças, permitindo as torturas de Quasimodo e Esmeralda. Mau grado o amor que sente por Esmeralda, mau grado o afecto paternal por Quasimodo, Frollo é impiedoso na forma como permite os seus sacrifícios públicos, preferindo pactuar com a injustiça “oficial”. Victor Hugo exprime, através deste personagem toda a sua aversão ao Clero, bem como à maldade e ignorância que representa.
Depois de permitir que Esmeralda fosse torturada e condenada à morte, depois de tentar assassinar o seu apaixonado, Claude faz uma arrebatada e inacreditável declaração de amor. É o culminar de uma hipocrisia que não é só sua; é de uma mentalidade e de uma sociedade baseadas no abuso da desigualdade, da injustiça e da ignorância.
Comentário mais desenvolvido aqui e aqui.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe

António Silva, 84 anos, espera no hospital que Laura, companheira de toda a vida, recupere. Sente a velhice como morte lenta… a de Laura e a sua… à medida que avançamos na idade é como se fossemos morrendo para certas coisas… para o trabalho, para os filhos… talvez para tudo excepto para o amor. Mas quando o amor enfrenta a morte, a solidão é um tormento insuportável.
António Silva, no lar, aguarda agora a sua morte, adiada pelo absurdo supremo: a solidão absoluta entre outros seres solitários, outras mortes que se adiam. Uma solidão onde o futuro é um paradoxo, uma miragem ou menos que isso porque não existe.
Por entre a melancolia mórbida daquele depósito de velhos com o irónico nome de lar da feliz idade, sobressai a espaços um humor refinado nas conversas, baseado naquele saber de experiência feito, mas também naquela capacidade de rir e brincar que só as crianças e os idosos têm – traquinices pueris sobra a qual se vai construindo uma felicidade que só existe à superfície mas é real.
E, lentamente, António Silva vai descobrindo que, afinal, a amizade existe. No meio daquele resto de vida, onde os idosos enganam um resto de solidão, foi também onde António encontrou um resto de amizade; uma espécie de sol de fim de tarde…
Aquelas conversas quase felizes são momentos únicos naquelas vidas à espera do ocaso, momentos únicos em que se esquecem as memórias que enegrecem o coração, mais do que alegram.
E nas horas más volta a solidão, impiedosa. E as lembranças da ditadura, da injustiça, da tradição católica salazarista beata, de um Salazar que alimentava a ignorância e o medo. Nunca deixamos de ser um povo dependente de um ser que imaginamos superior, protector, que nos deixe na comodidade da obediência servil. É assim também que encaramos Deus – um vigilante supremo que garanta à sociedade que todos somos vigiados e controlados.
Por entre as conversas diletantes dos idosos, Valter Hugo Mãe vai deixando, em jeito de saraivada, a crítica mordaz à sociedade em que vivemos: a futilidade daqueles que apenas lêem pasquins, revistas cor de rosa ou jornais desportivos; o culto das ilusões, que vai da glória fantasiada do Benfica à adoração apenas ostentadora de um Deus contra o qual se peca por sistema; o fascismo que nos está entranhado na alma, que se vê na forma ainda idolatramos políticos com pés de barro, ao mesmo tempo que esperamos por um qualquer D. Sebastião salvador e redentor; o sistema capitalista-pedante feito de xicos-espertos que continuam a sugar o sangue e o suor do povo.
Valter Hugo Mãe deixa bem claro o seu sentido crítico perante este Portugal que ainda conserva os males e vícios da velha ditadura, onde ainda há um Salazar em cada família. É por isso que Portugal (“esta coisa a tombar para o mar”) é uma máquina de fazer espanhóis – cada vez há mais portugueses a lamentar esta independência inútil, como o velho louco que se diz Português de Badajoz!
Perante isto, haverá ainda quem teime em pensar que acabaram em Portugal os escritores de causas?
Esta é a verdadeira escrita de intervenção!
Esta é a voz que é urgente ouvir nos livros portugueses!

domingo, 24 de outubro de 2010

A Arte de Morrer Longe - Mário de Carvalho

Em jeito de conversa com o leitor, Mário de Carvalho exibe uma escrita agradável, descontraída, divertida mesmo.
A história é extremamente simples: um casal em processo de divórcio (Bárbara e Arnaldo) divide pacificamente os bens mas era preciso decidir quem ficava com a tartaruga porque nenhum deles a queria. O destino do animal é assim a maior incerteza deste enredo. O que acontecerá à pobre e solitária tartaruga?
O destino do pequeno réptil constitui assim uma bela metáfora da vida.
Esta situação, tão simples e ingénua é o ponto de partida para uma história divertida, que nos é contada de forma muito agradável. O estilo algo barroco de Mário de Carvalho, brincando com as palavras, mostra que nem sempre é necessário um enredo muito elaborado para prender a atenção do leitor.
Iniciada a leitura, dificilmente se consegue interromper, tão agradável ela se torna.
Que incríveis problemas podem acontecer a quem apenas quer dar destino a uma tartaruga! A vida é feita de coisas tão fortuitas, tão banais e ao mesmo tempo tão decisivas para o curso do destino! Este livro não fala de coisas prodigiosas; fala de coisas simples que acontecem na vida de pessoas simples. Tudo nos soa tão familiar que nos faz ler o livro com um sorriso permanente. Porque a nossa vida não é mais do que o destino de uma tartaruga presa num aquário, debatendo-se contra paredes de vidro, à espera que algo ou alguém nos conceda a liberdade.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As Fogueiras da Inquisição - Ana Cristina Silva

Mais do que um romance, este livro constitui um testemunho histórico impressionante. As perseguições aos judeus, tanto pela tenebrosa Inquisição como pelo não menos cruel preconceito arreigado nas convicções populares, constituem algumas das páginas mais negras e brutais do nosso passado.
O Império que então se construía (reinados de D. Manuel I e D. João III) fazia de Portugal o país mais rico da Europa; no entanto, essa riqueza era um disfarce para a fome que ainda se passava no nosso país e, acima de tudo, a ignorância que grassava.
O Estado, na sua ânsia de justificar os erros de má governação, não só tolerava como incentivava o ódio aos judeus para sobre eles fazer recair as culpas de todas as desgraças.
Por outro lado, o Estado perseguia os judeus com a intenção de se apropriar dos seus bens. No entanto, até nesse aspecto se revelou a má governação que parece ser um traço comum de quase toda a nossa história: ao perseguir os judeus apropriou-se de algumas fortunas mas, ao mesmo tempo, provocou a saída para os países nórdicos (mais liberais) de muitas outras famílias endinheiradas.
Mas estes dramas políticos não se podiam comparar aos inenarráveis dramas humanos que a intolerância provocava.
A vida de Ester (avó de Sara que espera a morte na prisão) alerta o leitor para uma realidade muitas vezes esquecida: o monstro da Inquisição não se limitou aos milhares de mortos nas fogueiras; foram muitos mais os que se viram destruídos por torturas cruéis e muitos outros ainda que viveram tolhidos pelo medo, aterrorizados por uma absoluta maldade, praticada com requintes de crueldade, em nome de Deus.
Que Deus é esse que permite crimes tão hediondos? É uma pergunta que ficará eternamente por responder. No entanto, estes não foram os crimes de Deus; foram crimes de homens cegos pelo fanatismo e pelo egoísmo de quem se julga dono de verdades que, de tão absurdas, só a eles podiam convencer.
Notável é também o esforço da escritora para compreender o espírito do Inquisidor (D. João de Bragança). É difícil compreender como a crueldade e mesmo a maldade mais sádica pode esconder-se por detrás da convicção de que se está a praticar o bem.
Uma nota curiosa mas fundamental: ao longo de todo o enredo, são as mulheres que transportam os maiores sofrimentos e, ao mesmo tempo, o maior heroísmo. Se a História de Portugal está cheia de injustiças, foram sempre as mulheres as maiores vítimas. Por isso, serão sempre elas as maiores heroínas.
E no fim de tudo, por maior que seja a desgraça, há sempre uma luz triunfante que está para lá de qualquer dor: “haverá sempre uma luz que brilhará para lá da noite”.
Em suma: um livro triste, revoltante, mas que vale a pena ler porque a maldade tem de ser lembrada. Os maiores erros e crimes do passado assentavam na ignorância, na cegueira que Saramago tanto denunciou. E hoje, será diferente? Já não há fogueiras, mas seremos nós capazes de vencer as trevas do preconceito?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Royal Flash, A Odisseia de um Cobarde - George MacDonald Fraser

Neste segundo episódio da saga Flashman, a Odisseia de um Cobarde, o nosso anti-herói enfrenta duas figuras reais da hiostória europeia do século XIX: a bela e efervescente (em vários sentidos) Lola Montez bem como o terrível e temível Otto Bismark, famoso político alemão. Na verdade, Lola foi uma famosa actriz e bailarina. No entanto, não foi por esses dotes que ficou na História mas sim por ter sido amante de grandes e famosos personagens históricos como o rei Luís I da Baviera e o músico Franz Liszt. Fraser descreve-a e forma de caricatura, expondo os seus modos exuberantes, a sua personalidade extrovertida, ambiciosa e… louca. Flashman que o diga, que foi vítima das suas garras e de um penico voador que quase o matou.
Quanto a Bismark é descrito como um autêntico rufia, capaz de tudo para atingir os seus fins. O grande construtor da Alemanha moderna é neste livro o grande inimigo de Flash (acredito que Fraser não tenha adquirido muitos amigos na Alemanha depois de publicar este livro).
As hilariantes mas dramáticas aventuras vividas pelo nosso herói arrancam-nos gargalhadas contínuas transformando este livro numa saudável e arrebatadora diversão.
O sucesso de Flashman talvez se explique porque todos nós temos um pouco dele. Mais ainda: todos gostaríamos de ser como ele: ter sucesso, tornar-se um herói ao mesmo tempo que escapa de todos os perigos e responsabilidades. E não é só sorte: Flashman é um verdadeiro artista da cobardia; ninguém como ele sabe fugir, utilizando as mais variadas estratégias. Ele é o testemunho vivo da virtude da covardia. Sem os cobardes creio até que a humanidade não teria sobrevivido ao longo da evolução: fugir é uma arte!
A habilidade do autor é notável, ao utilizar um estilo simples, objectivo, muito atractivo e de fácil leitura. Um aspecto curioso: Fraser criou um personagem, o sorumbático e birrento sogro, que tendo uma personalidade contrastante com Flash faz realçar no leitor todo carácter extravagante de Flashman.
A editora Saída de Emergência está também de parabéns pelo notável aspecto gráfico e criatividade com que concebeu uma capa a condizer com a obra.
Em suma, um livro que nos deixa com água na boca em relação ao terceiro episódio. Flashman é, seguramente, um dos personagens mais divertidos e mais habilmente construídos da literatura contemporânea. Uma trilogia a não perder por quem gosta de rir com os livros.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Queda dos Gigantes - Ken Follett

Há muito tempo não encontrava um livro que tentasse de forma tão declarada cruzar a realidade histórica com a ficção. O risco que Follett correu foi enorme. A História, ainda mais numa época tão polémica como a da Primeira Guerra Mundial dificilmente se compadece com esta miscelânea de factos e estórias.
A ideia base faz lembrar o eterno Guerra e Paz. No entanto, nem a ficção se aproxima da criatividade e simbolismo de Tolstoi nem a análise histórica faz sombra à clarividência e profundidade do mestre russo.
Ao longo de quase mil páginas, Follett parte para esta abordagem com um enquadramento de cinco famílias em locais estrategicamente significativos:
- A família do jovem mineiro Billy, em Gales, que representa a grande massa anónima que faz as guerras, faz a História e alimenta o mundo; Billy, a irmã Ethel, “guerreira” pela causa sufragista e o pai sindicalista simbolizam a classe operária explorada e, no entanto, triunfadora na entrada da modernidade que o século XX viria anunciar.
- A família de Fitz, inglês, representa a aristocracia tradicional, conservadora e arreigada ao preconceito, alimentando-se da injustiça social.
- A família de Walther, alemão, alto funcionário governamental, envolve o mais tacanho tradicionalismo alemão, representado pelo pai, Otto, em contraste com as ideias modernas, democráticas de Walther.
- A família Pechkov, na Rússia acompanha todo o processo conturbado de derrube do regime czarista e de instauração do bolchevismo soviético. Grigori é o revolucionário convicto, vítima das maiores atrocidades por parte do czarismo e Lev é o irmão oportunista que envereda pela trafulhice mais pérfida como forma de afirmação pessoal e vingança perante um passado de injustiça.
- Nos Estados Unidos da América, Gus, assistente do presidente Wilson é a imagem da América como a terra prometida dos tempos modernos, o país cor de rosa em que todos os sonhos são possíveis.
Por detrás da história de ficção, Follett apresenta-nos uma análise histórica que, em alguns aspectos, se revela muito interessante e inovadora:
Os destinos do mundo, por vezes, dependem de conveniências pessoais; veja-se como alguns personagens são contra a guerra porque estão apaixonados; outros são a favor do conflito por egoísmo, vaidade ou por conveniência pessoal.
Também a Guerra civil na Rússia, como outras guerras, é movida por interesses. Aliás, um dos méritos deste livro reside na atenção dada a um aspecto que a historiografia tem desprezado: o apoio (absurdo em termos ideológicos) da Alemanha ao bolchevismo e da Inglaterra às forças contra-revolucionárias.
O autor opta por aproximar perigosamente os personagens ficcionais aos reais, causando situações pouco verosímeis, como a conversa do soldado Grigori com Kerenski ou de Lenine com os conservadores alemães.
A tentativa de fidelidade histórica é por vezes obsessiva, o que retira interesse à narrativa ficcional. Follett procura, até à exaustão, ser rigoroso historicamente; isso leva-o a descrições demasiado pormenorizadas, principalmente da situação política na Rússia.
Pelo contrário, despreza por completo os inúmeros combates que se deram nas colónias, principalmente em África. Nem sequer refere esse aspecto, o que constitui uma lacuna grave.
O autor cai também em alguns exageros, como a importância da aviação na primeira guerra mundial (estava nos primórdios), a importância dos submarinos e o apoio financeiro (pouco verosímil) dos conservadores alemães a Lenine.
No final da guerra fica a ideia de um certo idealismo em relação aos EUA – o país onde um politico pode casar com uma jornalista anarquista; o país da liberdade e da prosperidade. No entanto, esse é também o país onde Lev se torna o criminoso triunfante.
Como curiosidade, gostava de realçar o desprezo total pela participação portuguesa na guerra. Portugal só é referido uma vez e em termos muito depreciativos: o delegado português à Conferência da Paz intervém uma vez para solicitar que o texto final inclua uma referência a Deus, sendo por isso alvo de chacota por parte dos outros delegados. Afinal de contas nada de estranho se considerarmos que Follett é inglês…
No final da obra sobressai a grande ideia que se assume como uma espécie de lição de moral: o fim da Primeira Guerra Mundial lança o início da segunda; os vencedores da guerra procuraram cobrar à Alemanha todas as despesas e prejuízos, numa atitude de arrogância vingativa que acabou por alimentar o grande monstro chamado Nazismo.
E o mundo pagaria caro por essa arrogância.
A quem interessar esta temática aconselho o filme baseado na obra magnífica de Erich Maria Remarque, "A Oeste Nada de Novo". Algumas cenas do filme:

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Venenos de Deus, Remédios do Diabo - Mia Couto

“A zanga é a nossa jura de amor”. Assim falava Munda Sozinha, companheira de vida do velho Bartolomeu Sozinho. Ele, velho mecânico de navios onde outrora calcorreou mares, agora não se limita a ficar em casa; ele é a casa; “depois de tantos anos, deixamos de viver em casa e passamos a ser a casa onde vivemos”. Depois de uma vida inteira no mar, só a casa lhe dá o ser; ou melhor, o quarto, a sua Nação, onde governa, gere a dívida externa e exonera administradores.

Um dos aspectos mais encantadores desta obra é o peculiar sentido de humor, simples e ingénuo, vindo da alma do povo e carregado com a sabedoria ancestral.
Fumando a tristeza, Bartolomeu sonha enquanto espera a morte. Sidónio, médico português voluntário, espera Deolinda. A vila inteira, Vila Cacimba, espera o futuro que tarda. Todos, sem futuro, brincam com o presente, como se a única alegria se fizesse nas partidas que ainda podem pregar à vida.
No meio da espera, o amor parece ser um ponto perdido no tempo; um alvo abstracto de todas as vidas, um final de enredo que apenas se antevê, apenas se sonha.
O amor, por vezes, é mesmo um lugar estranho. O amor e o sonho, ditos pelos homens soam por vezes com nome de pecado e crime: violação, incesto, infidelidade… muitos venenos, ou remédios? Coisas de Deus ou do Diabo? Cura ou castigo? Pouco importa… pouco importa, também, quem se alimenta desses venenos ou remédios com que se engana o tempo, porque para a vida não há remédio.
Apenas a espera, não necessariamente da morte. Talvez de um renascer para mais tarde remorrer…

Pintura de Malangatana, pintor Moçambicano, retirada daqui.

sábado, 2 de outubro de 2010

Livro - José Luís Peixoto

José Luís Peixoto é já um caso sério na literatura portuguesa. Este Livro é a prova definitiva da sua maturidade literária; diria mais, da sua afirmação como o melhor escritor português da actualidade a par de António Lobo Antunes.
Livro é uma obra claramente dividida em duas partes, bem distintas. Na primeira narra-se a saga de Ilídio e Adelaide, num ambiente rural que atravessa os míseros anos da ditadura salazarista. Tempos de miséria e de fome. Fome de pão mas também de liberdade. Para Ilídio e Adelaide a felicidade era proibida pelo preconceito, pelo medo, pela pobreza de pão e de espírito.
Por todo o lado, a PIDE, o medo, a fome e a ignorância.
Neste reino de injustiça e obscurantismo a emigração ilegal para França, estimulada pelo fantasma de uma guerra colonial (que ninguém entendia) surge como a ponte para a salvação. Uma ponte de esperança mas também envolta em medos e perigos.
Ao longo destas páginas, vamos vivendo a luta permanente destes heróis da miséria e sorvendo com emoção a sensibilidade que Peixoto transpõe para as palavras. Mau grado o ambiente negro que se vivia, Peixoto consegue povoar a narrativa com um sentido de humor discreto mas encantador, que não encontramos nas suas obras anteriores. Talvez este seja o livro em que Peixoto melhor consegue encaixar a poesia que o caracteriza numa narrativa cheia de emoção e incerteza para o leitor.
Na segunda parte do Livro, todo o tom da narrativa se modifica: a esperança renasce; a vida adquire tons mais vivos; o mundo ilumina-se. E o marco dessa mudança é o 25 de Abril. O amor de Ilídio e Adelaide ressurgirá finalmente; a vida passa a ser escrita na cor da esperança. O autor do livro brinca com o narrador e com o leitor, em jogos de palavras e de enredo que encantam quem lê, como se diz na contracapa do livro, “onde se ultrapassam as fronteiras da literatura”.
Nesta segunda parte, a qualidade literária da escrita e a sensibilidade do autor foram capazes de fazer estremecer de emoção e assombro este modesto leitor.
Faltam os adjectivos para descrever esta emoção.
Mais do que cativante, mais do que genial, a escrita de Peixoto é absolutamente mágica. Há episódios que me provocaram um arrepiante estado de deslumbramento que nunca sentira em qualquer outro livro. A não ser talvez esse profundo Voyage au but de la nuit que o próprio José Luís Peixoto tão abundantemente refere nesta obra, mas sem cair nos tons negros, quase apocalípticos de Celine.
Em suma, Livro é O Livro! Talvez o melhor livro escrito em Portugal após o Memorial do Convento e Ontem não te vi em Babilónia.
E termino este comentário com a sensação de que faltam palavras; tudo o que poderia escrever seria insuficiente para exprimir a onda de emoção que este livro me provocou.
Obrigado, José Luís Peixoto!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A melhor leitura do mês - Setembro

Dos dez livros lidos neste mês, houve de tudo; desde um barrete chamado O Toque da Morte, até uma descoberta sensacional que foi O Físico, passando por uma pequena maravilha de oração em forma de livro (Morreste-me), uma fantasia encantadora (A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho) e dois Auster's antiguinhos e magníficos.
Na hora de escolher o melhor, desta vez, não tive dúvidas: o eleito é O Físico, pela profundidade e fidelidade da abordagem histórica bem acompanhada por uma narrrativa apaixonante. Um livro cheio de conhecimento mas também de criatividade.
9.5 pontos (em 10) para Noah Gordon, logo seguidos dos dois livros de Paul Auster: Palácio da Lua e Da Mão Para a Boca. Auster é, na minha opinião, o génio mais consistente da literatura contemporânea: um autor que nunca escreveu um verdadeiro clássico mas seguramente será incapaz de alguma vez escrever um mau livro; nem sequer um livro apenas bom :)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caderneta de Cromos - Nuno Markl

Ora aí está, definitivamente, o livro que todos os trintões e quarentões deveriam ler. E os outros “ões”, já agora, também. Quer dizer, definitivamente não, porque será com ansiedade, com uma quase angústia que esperarei uma segunda Caderneta de Cromos, assim queira a memória do Nuno Markl.

E porque é que eu afirmo que todos os “ões” deviam ler? Porque este livro é muito mais que uma colecção de memórias. É um exemplo de vida. É uma filosofia. Quase um culto. Eu explico: estou um bocado farto de saudosistas… bem, dita assim a coisa até parece um contrasenso; estará porventura o leitor a pensar: “mas este tipo é doido ou faz-se?”. Não é o caso (ainda). Não estou é a explicar bem. Segunda tentativa: o saudosismo é uma coisa tristíssima; deprimente, mesmo, porque agarra no passado e diviniza-o. Os saudosistas passam o tempo a gemer: “ai no meu tempo é que era!”. O Nuno Markl não é assim e este livro mostra-o bem: o passado tem de ser apenas o tempo em que aconteceram coisas com piada. Mesmo coisas que possamos encarar como más mas que, com o devido toque de sentido de humor, se tornam autênticas anedotas. Por exemplo: havia brincadeiras, que o Markl aqui descreve, que eram autênticas torturas, como o jogo do alho (também conhecido como jogo da mosca) em que saltávamos desalmadamente uns para cima dos outros até que a pilha não se aguentasse; os primeiros a cair iriam depois servir de “base” à pilha seguinte. Isto é violento. Isto é sado-masoquismo. E o Nuno Markl confessa que era dos piores da escola dele a jogar isto; ou seja, levava sempre com os outros todos em cima. Pois então onde está a tal “filosofia” disto? Está na forma estóica como o autor confessa isto; como se fosse a melhor piada do mundo. E o certo é que se trata mesmo de uma bela piada: poucas coisas há de mais hilariante do que um caixa de óculos levar com uma porrada de gandulos em cima, sem dó nem piedade.

Mas os motivos para rir vão muito mais longe: desde as figurinhas tristes que todos fazíamos a jogar ao quarto escuro na vã tentativa de apalpar algo de jeito, até às batalhas de pedradas e fisgadas com que enchíamos as nossas tardes de fim de semana na aldeia.

Depois há o sempre infalível recordar das velhas marcas comerciais que atravessaram a nossa infância: as Bom-bokas com que pintávamos a cara; as canetas Bic que usávamos como canhões para expelir balas de papel previamente mastigado, as pastilhas Pirata que deviam ser fabricadas com algum derivado de petróleo misturado com cimento e açúcar, os Estrumfes, o Cubo mágico, etc etc. Enfim, um elenco de heróis míticos da nossa infância onde não falta, obviamente, o José Cid, o Sandokan, os Cinco, a Abelha Maia e até esse autêntico manual de iniciação sexual para adolescentes solitários que era a revista Gina.

Este livro só vem reforçar uma convicção que tenho há muito tempo: a de que o Nuno Markl, quando nasceu não chorou; riu. O diacho do homem não diz nem escreve nada que não me ponha a rir. E esta é ou não uma grande filosofia de vida?

Bem haja, pois, o homem que mordeu o cão e venha de lá a segunda caderneta.

sábado, 25 de setembro de 2010

A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho - Mário de Carvalho

Um homem sobe num elevador que se “esquece” de parar no andar correcto e ruma ao céu sem aviso nem propósito.
Dois frades enterram os seus irmãos, mortos de misteriosa maleita; um deles desaparece depois, no espaço. O frade sobrante, esse, será disputado por Deus e pelo Diabo.
No dia em que a mulher do funcionário Teles saiu de casa para escrever poemas, tudo lhe correu de forma trivialmente anormal: monstros em casa, luzes misteriosas e relâmpagos parados em cima do Tejo. Anormalidades banais!
Estes são três exemplos dos contos que compõem este livrinho fantástico. Contos do fantástico que é a vida. Contos de sonho ou pesadelo mas sempre reais.
E a pérola maior: o conto que dá titulo ao livro: uma horda de mouros invade Lisboa e vê-se rodeada de automóveis. Uns de espada em punho à procura de cristãos para degolar. Outros, impávidos perante a invasão. Cavalos, espadas e turbantes mouros misturam-se com automobilistas apressados. E nem a Polícia de Intervenção, nem os blindados do exército, conseguirão pôr termo à confusão.
E que sarilho seria se a deusa Clio não acordasse de repente para voltar a pôr tudo no seu devido tempo.
Este conto é uma fantástica alegoria da estupidez da guerra, da irracionalidade que os homens trazem ao mundo.
Foi o primeiro livro que li de Mário de Carvalho. E, por sinal, será o primeiro de muitos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Conjura - José Eduardo Agualusa

Até ler este livro só conhecia Agualusa desse fantástico “Barroco Tropical”. Este livro, no entanto, é completamente diferente. O enredo decorre entre finais do século XIX e inícios do século XX, até à proclamação da República em Portugal. Tudo se passa em Luanda, entre a comunidade lusa na capital de Angola, em contraste com a gente humilde nativa.
Estávamos no tempo de uma nova vaga de colonização em que, após o fim da escravatura se procurava explorar nas colónias as matérias primas para as indústrias nascentes. Esta corrida às colónias levara a intensas disputas entre as nações europeias e Portugal deparava-se com as exigências de supremacia britânica. N Conferência de Berlim, onde as fronteiras das colónias africanas foram traçadas a régua e esquadro, Portugal foi praticamente humilhado pelos ingleses que não aceitaram a proposta portuguesa, o famoso “mapa cor-de-rosa” em que exigíamos a posse de todos os territórios entre Angola e Moçambique.
Perante isto, a colónia portuguesa em Angola começa a desacreditar a própria monarquia e surgem as primeiras vozes republicanas e independentistas.
Angola era, naquele tempo a colónia onde Portugal “despejava” muitos dos seus condenados ao degredo, que acabavam por se misturar com a população nativa. A prática do degredo era mais uma expressão do desprezo com que eram encaradas as colónias; Portugal era já visto como o colonizador injusto e explorador, tanto pelos negros como por parte da elite branca luandense. O governo de Lisboa, não raras vezes, incentivava mesmo o racismo, procurando convencer esta elite da inferioridade do negro, encarando-o como um inimigo.
Esta análise histórica de Agualusa aborda um lado do colonialismo que, a meu ver, tem sido algo depreciado pelos historiadores: as relações entre os administradores brancos e a população nativa, em confronto com as decisões e recomendações do governo central. Estes brancos de Luanda encontravam-se sempre a meio caminho entre os dois pólos, umas vezes seguindo a agradável posição do poder outras vezes aliando-se aos nativos na defesa da autonomia que também desejavam. A nação fomentava o nacionalismo; no entanto, muitos deles já se sentiam mais angolanos que portugueses. Era este o drama de quem tinha tanto a ganhar como a perder: arriscar um dos lados era uma tentação. Mas também um perigo. Se os angolanos lutavam pela autonomia que lhes sorria como uma bela perspectiva de libertação, por outro lado Lisboa oferecia um certo ideal de civilização que imitavam nos costumes e lhes prometia a eternização do poder.
Quando o comerciante Carmo Ferreira pretende casar com a bela negra Josefina, vem, ao de cima todo o preconceito racista que deixava esta elite a meio caminho entre o progresso e o obscurantismo; entre a liberdade que a República prometia e o racismo empedernido.
Mas o escritor e zoófilo Severino, um mulato, não desiste da sua luta. Ele sonha com a independência e luta por ela. Ele compreende como ninguém o espírito de Angola. Pelo contrário, os brancos de Angola não queriam uma verdadeira independência; queriam Angola independente mas governada por portugueses.
Pelo meio surgem as primeiras catástrofes: as primeiras matanças da luta pela libertação; o surgir de um movimento pela liberdade que viria a durar quase um século e milhares de mártires.
Em suma, uma obra que vale pelo testemunho de uma época de charneira na história do povo angolano; uma análise histórica interessante, envolvida numa ficção que torna a leitura agradável e fluida.

sábado, 18 de setembro de 2010

Inês de Portugal - João Aguiar

Nunca a história de D. Inês de Castro e de D. Pedro I foi contada com tanta sensibilidade.
Nesta obra, maiores do que os factos são os sentimentos: o amor intenso de Pedro e Inês, a malvadez interesseira dos irmãos de Inês, a frieza e insensibilidade do rei Afonso IV, o sentido de justiça de D. Pedro e o amor do povo por este rei injustiçado mas justiceiro e apaixonado, também, pelo povo.
João Aguiar revela nesta obra toda a sua enorme vocação para narrar os acontecimentos de forma quase cinematográfica: uma linguagem concisa e precisa, emocionante na narração, objectiva nas descrições e precisa nos factos históricos fundamentais.
Aguiar aborda os acontecimentos com uma profundidade na análise psicológica que vai muito além do amor trágico de Pedro e Inês. Por exemplo: a maioria dos historiadores relegam para segundo plano uma situação que, numa abordagem preconceituosa deixaria pouco favorecida a imagem do rei justiceiro: a amizade “colorida” que nutria pelo escudeiro Afonso Madeira, uma amizade a que o próprio cronista Fernão Lopes se referia nestes termos: “que o amava muito mais do que aqui se deve dizer”.
Outro pormenor que Aguiar desenvolve com perspicácia é a importância da opinião pública no desenrolar dos acontecimentos: ontem como hoje, a maledicência parece ter tido um papel fundamental na decisão trágica de Afonso IV de mandar decapitar Inês: os murmúrios da corte, as intrigas palacianas e até o típico maldizer popular, que manchavam o amor com os fantasmas hipócritas do pecado. Ontem como hoje, foi o triunfo da mais antiga e estúpida tradição nacional: a maledicência.

Em conclusão: um livrinho que se lê com imenso prazer, sem esforço, com emoção e que faz justiça àquele que foi um dos personagens mais brilhantes da História de Portugal: D. Pedro I, o rei que foi homem, que amor e odiou, que foi cruel mas justiceiro, impiedoso mas capaz de trazer sempre o povo no coração.
O livro serviu de guião ao filme de José Carlos de Oliveira, com Cristina Homem de Mello no papel de Inês e Heitor Lourenço como D. Pedro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Da mão para a boca - Paul Auster

Depois de ler quase toda a obra ficcional de Paul Auster, é curioso ler pela primeira vez um livro autobiográfico como este “Da Mão Para a Boca”. Quando escreveu este livro (1996), Auster já era a estrela que é hoje mas relata a sua juventude e as primeiras e penosas experiências literárias. Depois de sair de casa dos pais, ainda muito jovem, Auster foi marinheiro, argumentista de cinema, tradutor, dramaturgo de peças mal sucedidas, empregado de vários serviços mal pagos, etc. desesperado com a falta de dinheiro para sobreviver (ele e a família) chegou a encarar a hipótese de fazer criação de minhocas na cave de casa, tentou sem sucesso escrever folhetins pornográficos e tentou desesperadamente vender um complexo jogo de cartas em que tentava imitar um jogo de basebol. O seu primeiro livro (policial) foi um fracasso mas acabou por lhe render uma pequena quantia que lhe possibilitou lançar-se nas verdadeiras aventuras literárias. Acabou por encontrar o sucesso no momento em que se encontrava à beira do desespero total, curiosamente após a morte do pai. Foi nessa altura que escreveu o brilhante “Inventar a Solidão” e a genial “Trilogia de Nova Iorque”. Auster termina este livro neste ponto da sua vida, com a frase “Chegava de escrever livros por dinheiro. Chegava de me vender”. Tinha na altura cerca de 32 anos.
Regressando a este livro, podemos concluir que Auster foi sempre um homem à procura da sua identidade. Nesta fase da sua vida revela-se um aventureiro, mergulhado na incerteza e no limite do desespero. A literatura, como todas as artes, constrói uma reduzida elite de super-estrelas, milionários famosos como hoje é Auster em contraste com uma miríade de “proletários da escrita”, como ele próprio foi durante tantos anos. Estes limitam-se a trabalhar para sobreviver, como qualquer operário mal pago. Entre os escolhidos pela fortuna e estes trabalhadores da escrita (os que escrevem “da mão para a boca”) há um fosso enorme. Auster conhece os dois lados.
Para quem conhece a obra de Auster é fascinante descobrir neste livro que as características típicas da maioria dos seus personagens principais não são mais que as características da personalidade do próprio Auster: ambicioso mas generoso, aventureiro, crítico, desprendido, sonhador, livre mas, acima de tudo, detentor de uma sensibilidade humana peculiar, um lado humano e solidário que se sobrepõe a todas as ambições e objectivos materiais.
Este humanismo é, a meu ver, a qualidade maior de Auster como escritor e como ser humano.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Toque da Morte - Stephen Booth

Desde os tempos do grande Mestre Sir Arthur Connan Doyle, já há mais de cem anos, a literatura policial tem sido um género quase estafado, tal é o número de romances do género que todos os anos são publicados. Esta abundância, explicada por uma procura constante e entusiasmada, exige cada vez mais inovação. Já não é possível ficar pelas sessenta paginazinhas da colecção Vampiro. Daí que, escritores com alguma ambição, como é o caso deste, procuram adornar as suas histórias com temas de intervenção política, ecológica, social, etc. É o que se passa com este livro: uma miscelânea estranhíssima, uma espécie de sopa da pedra, constituída por uma investigação do tipo CSI rural, onde não falta a detective jovem e bonita, ao lado do polícia ultra-honesto, solteirão e desarrumado, à mistura com uma estória de crime e mistério, onde se fala também da caça e dos crimes ou “crimes” que envolve, a comercialização de carne de cavalo e até a espionagem do tempo da guerra fria e o medo do holocausto.
De tudo isto resulta um enredo pastoso, onde o suspense se perde no meio de tantas páginas de diálogos inúteis, considerações secundárias, descrições desnecessárias e, a cereja em cima do bolo, um final previsível.
Na verdade, cada vez é mais verdade que comprar um livro porque é novidade, porque tem uma capa apelativa ou porque foi muito bem propagandeado pela editora constitui um verdadeiro jogo de roleta russa com o dinheiro e o tempo que se gasta a ler.
Um livro absolutamente dispensável. Perante esta obra só me ocorre pensar em tantos escritores portugueses que certamente passam desapercebidos às grandes editoras e com uma qualidade indubitavelmente superior a este “Toque da Morte”.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Morreste-me - José Luís Peixoto

Escrito como quem reza, sentido como uma oração, lido e sofrido com uma lágrima hesitante, Morreste-me é uma pequena e bela obra de arte. Bela e triste. Isto leva-me a pensar numa velha questão de filosófica: “pode a beleza ser triste”? Pode, digo eu. Talvez a beleza não esteja na coisa em si, neste caso na escrita, mas no admirável espelho da nossa alma. Um sentimento, uma dor de alma, um sofrimento atroz, são coisas belas quando, admirados, sentimos o nosso próprio espírito abalado. Talvez a arte seja tudo aquilo que mexe connosco. É nesse sentido que Morreste-me é uma belíssima obra de arte.
As palavras de J. L. Peixoto não são feitas de letras. São desenhadas com os átomos da tristeza. São partículas de dor que se juntam para formar dores de alma que irrompem destas páginas e nos invadem o espírito sem piedade.
Peixoto é um génio. Porque escreve bem? Não. Muitos escrevem bem. Mas poucos conseguem escrever a alma. E muito poucos conseguem escrever na alma do leitor. Peixoto invade-a; toma-a de assalto; escraviza-a e tortura-a. Ao ler esta tristeza, o leitor maravilha-se com a própria dor. Como será isto possível? Que estranho prazer é este de sofrer? Ou será apenas a beleza em tons de negro? Expor a dor, partilhá-la com o leitor, mergulhar na escuridão para depois a transportar até quem lê, será essa a beleza destas palavras?
Seja como for, ler Peixoto não é apenas um exercício estético. É descobrir a beleza da escuridão, da dor mais atroz; mas é também vivê-la e revivê-la porque este livro não pode ler-se apenas uma vez.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Palácio da Lua - Paul Auster

Marco Fogg é um jovem que nunca conheceu o pai e perdeu a mãe na infância. Abandonado no mundo é protegido por um tio que, também ele, desaparece bastante cedo da sua vida. Fogg partirá assim, antes dos vinte anos, numa viagem por vezes obscura e absurda, ao interior de si próprio, em confronto com um mundo não menos complexo e absurdo.
Fogg herdou do tio Victor 1492 livros; um numero que corresponde ao ano da descoberta de Colombo. Esse era também o nome da sua universidade: Columbia. Assim, a vida de Fogg transformar-se-á numa intensa procura de um novo mundo; o mundo dos seus sonhos, da sua identidade.
Confrontando-se com as imposições da vida, nomeadamente a falta de recursos materiais, Fogg vai vendendo os livros. À medida que se separa deles, perde sempre um pouco mais do tio Victor. E de si mesmo. No entanto, vendeu os últimos livros no dia em que o homem pisou a lua pela primeira vez. A mudança impunha-se; novos mundos nasceriam na vida de Marco Fogg.
Este é um dos primeiros livros de Auster. No entanto, já aqui se revelem algumas das inquietudes que povoam toda a produção ficcional deste escritor genial: a solidão humana, a procura da identidade e um intenso afecto por Nova Iorque e pela generosidade dos nova-iorquinos. Quando, na miséria absoluta, Marco vive no Central Park, como um vagabundo, é admirável a forma como os nova-iorquinos revelam generosidade e compreensão perante a miséria. No entanto, a vida de Fogg transforma-se na imagem da solidão, bem no coração da maior cidade do mundo.
Mais tarde, ao serviço de Effing (um idoso paralítico e cego), Fogg é o intermediário entre o velho e o mundo; paulatinamente, Effing vai revelando a sua função neste livro: ele é o exemplo de um homem que percorreu toda a vida à procura de uma identidade, de um sentido, uma razão para viver. Ele viveu sob dois nomes, à procura do seu lugar na vida. Uma das tarefas de Fogg é escrever o obituário de Effing, que este lhe vai ditando – nada menos que doze blocos de apontamentos. Uma vida que, afinal, cabe num obituário!
Só houve dois momentos na longa vida de Effing em que ele se sentiu realizado e em paz consigo mesmo: o primeiro momento é quando passa um ano como eremita, pintando no meio do deserto, sem a pressão dos outros, sem contas a prestar. Mas nem aí haveria futuro…
O segundo momento é como que o culminar da sua viagem de vida: quando distribui dinheiro pelas ruas de Nova Iorque. A seguir, foi a morte. A seguir foi a morte. Mais uma vez, não havia futuro… mas, dessa vez, houve redenção; o círculo fechou-se no sentido da vida…
Para lá do tom melancólico de muitas páginas de Auster, o escritor revela uma intensa simpatia para com o ser humano, de tal maneira que o leitor é levado a simpatizar com todos os personagens. Por exemplo, Charlie era um louco. Apenas por ter sido vítima da suprema maldade que um ser humano é capaz de construir: a guerra.
Na parte final do livro as personagens principais cruzam-se numa sucessão de incríveis coincidências. Tudo se passa como se, na verdade, o destino dos homens fosse determinado por misteriosas forças de atracção. Talvez a vida humana seja mesmo comandada por um qualquer Palácio da Lua. Como se a vida fosse uma imensa teia, cujos fios por vezes seguem paralelos e outras vezes se cruzam, seguindo caminhos diferentes e irreconciliáveis.
Fogg conservava na carteira uma frase de um bolinho da sorte encontrado no Palácio da Lua (restaurante): “O Sol é o passado; a Terra o presente e a Lua o futuro”. Talvez apenas a Lua seja o futuro. Porque tudo é efémero excepto a mudança. Só a mudança é permanente. As fases da vida, como as da Lua, talvez sejam apenas apeadeiros da mudança… a vida como uma enorme viagem…
Sem dúvida uma dos melhores livros do melhor escritor da actualidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos - Alves Redol

Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos é um livrinho ingénuo, puro, transparente, apaixonado. Alves Redol, um dos maiores vultos da literatura portuguesa do século XX apresenta-nos aqui um dos exemplares mais puros do neo-realismo português, no seu estado mais puro e naif.
Constantino é um menino como qualquer outro. Frequenta a escola primária, é inteligente mas prefere contar ninhos em vez de saber de cor os afluentes do Mondego ou do Guadiana. O único afluente que lhe interessa é o Trancão, que no seu sonho o levará ao Tejo e ao grande Mar. Constantino guarda vacas como quem guarda sonhos, transportando-os numa alma risonha que encara o futuro com aquela nuvem de sonhos que só a infância nos pode oferecer.
Para quem, como eu, cresceu no campo, ler este livrinho é uma bela viagem à infância; ou melhor, ao que de mais belo tem a infância no campo: os ninhos que se contam e cujo segredo se guarda como tesouro, o trepar às árvores como quem do alto vê o futuro, as aventuras no rio onde se aprende a nadar à custa de sustos e goladas de água, as travessuras nos quintais e, acima de tudo, aquele viver irmanado com a natureza, com os pássaros, as plantas, os animais domésticos, etc.
Nem a impiedosa palmatória, nem as más condições da vida no campo, impediam Constantino de ser feliz. Porquê? Porque ele tinha um sonho. Não interessa se o realizou; não interessa sequer se era realizável; o importante é que o guardou. Assim, por detrás de uma narrativa aparentemente ingénua, Alves Redol transmite-nos uma mensagem que devemos reter e recordar sempre: o sonho é que nos guia; o sonho é que nos faz viver.
Em resumo, um livrinho imperdível, de leitura muito agradável, numa linguagem simples do povo que somos nós; um testemunho cristalino das raízes mais profundas de onde todos nascemos: da terra-mãe.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Físico - Noah Gordon

Pouco tempo depois do ano 1000, em Londres, a infância de Rob é verdadeiramente catastrófica: o pai morre de doença e a mãe num parto. Os filhos, pequenos, são entregues a estranhos e separa-se uns dos outros.
Rob J. é aceite como ajudante de um barbeiro, ele também saído de uma infância desgraçada (pais mortos pelos Vikings num contexto de guerra atroz entre ingleses, Vikings e Dinamarqueses, em finais do séc. X).
Como ajudante de barbeiro começa a adaptar-se à vida de cirurgião ambulante com apenas 9 anos. O barbeiro revela-se um excelente educador, castigando duramente em caso extrema mas usando também o elogio como forma de fazer progredir o rapaz. Mostra-se amigo e justo.
Rob J. vai-se tornando malabarista para atrair os clientes. Revela grandes talentos; acima de tudo uma imensa capacidade de aprendizagem.
Depois revela-se o “dom” – sentir a morte nas mãos dos pacientes: uma mistura curiosa de superstição, sensibilidade e intuição. Na ausência do conhecimento cientifico são estas as alternativas na Europa Medieval, mergulhada cada vez mais num conservadorismo católico que fomenta a ignorância e a superstição.
A Inglaterra tinha acabado se sair de uma fase de invasões sucessivas e reinados ruinosos. A época era de miséria mas também de esperança: o novo século, acompanhando o novo milénio, seria o momento do arranque da Inglaterra como potência europeia. O enredo situa-se exactamente nesse importantíssimo ponto de viragem que foi o reinado de Canuto, aquele que lançou as bases da modernização agrícola inglesa.
O instinto de violência e o próprio prazer que esta por vezes envolvia era algo perfeitamente aceite na sociedade, ao contrário do que se passa hoje: o culto da violência persiste nos nossos tempos mas é camuflado. No século XI, pelo contrário, as lutas, de homens ou de animais, eram os espectáculos mais apreciados, em todas as classes sociais.
Após a morte do barbeiro, Rob segue um físico judeu e estabelece o seu grande objectivo de vida: tornar-se físico. É imediatamente atraído pela grande sabedoria e tradição judaica na medicina; os judeus eram, de facto, os melhores.
É com os judeus que Rob empreende a grande viagem, atravessando a Europa e o Médio Oriente. É nessa viagem que conhece Mary, com quem viria a casar.
O médico judeu fala-lhe do grande Avicena e da escola médica do oriente, dos muçulmanos. Rob começa a ver a ciência como algo que une os homens, ao contrário da religião. Cristãos, judeus e mouros odeiam-se mutuamente; mas a ciência é a mesma.
[Parêntesis curioso: um judeu descrevendo os camelos - “longas pestanas que lhe davam uma estranha aparência feminina J.]
Toda a obra revela uma valoração muito positiva dos judeus: puristas nos costumes e tradições, fiéis às leis religiosas, solidários, honestos. Das 3 religiões descritas, só nesta os preceitos são rigorosamente cumpridos. Será mesmo assim ou estaremos perante uma visão subjectiva do escritor? Os judeus não pecam? Não cedem às tentações da violência, do sexo e do egoísmo?
Por exemplo em relação aos cruzados (guerreiros cristãos) a descrição é nua e crua: bêbados, violadores e ladrões.
No entanto, realce-se a convivência pacífica entre judeus e muçulmanos (quando Rob é já aprendiz de físico na Pérsia). Se observarmos o que se passa hoje só podemos chegar a uma triste conclusão: foi a política que os desuniu.
Já na Pérsia Rob testemunha os rigores da religião muçulmana; disfarçado de judeu, ele observa costumes violentos, castigos terrivelmente severos destinados a garantir o funcionamento do sistema social. Ou apenas culto da violência? Ontem como hoje…
Durante a estadia na Pérsia Rob depara com a peste; a mesma peste bubónica que devassou a Europa medieval. Perante o perigo declarado de contágio, é extraordinário como as pessoas de dispunham a acompanhar os moribundos, sem medo da morte. Mas é esta a realidade histórica: a morte era algo familiar, algo comum que as pessoas temiam muito menos que hoje.
Um dos momentos altos do livro: um homem agoniza com peste. Três estudantes de medicina rezam. Um, cristão, reza a Jesus; outro, hebreu, reja a Iavé; outro, muçulmano, reza a Alá. O homem cura-se. Os três estudantes dão graças. Cada qual ao seu Deus.
Mais adiante no livro, um outro exemplo magnífico de tolerância religiosa: o judeu Mirdin, amigo de Rob, explica que as diferentes religiões são como diferentes pontes para atravessar um rio que separa os homens de Deus. Se alcançarmos Deus, será importante saber por que ponte passámos?
A história de Rob é um verdadeiro hino ao conhecimento científico. Por exemplo: todas as religiões proíbem a dissecação de cadáveres mas Rob não hesitará em fazê-las. É o triunfo do saber sobre a superstição. É com esse “crime religioso” que Rob desvenda o enigma da terrível e mortal “dor do lado direito”: aquilo a que hoje chamamos apendicite. Outro exemplo: Rob descobre que o álcool é mais eficaz que os óleos para desinfectar ferimentos, ao contrário do que diziam os mestres tradicionais.
Mas, para além do elogio da ciência há também nesta obra um claro elogio do amor: só ele é capaz de despertar uma coragem a toda a prova, como casa com uma cristã, disfarçado de judeu, numa terra de muçulmanos; um exemplo curioso é o descaramento com que Rob pratica o Kama Sutra com a esposa do grande Mestre dos Físicos, correndo risco de morte perante a implacável justiça religiosa.
Em suma, uma obra magnífica, muito rigorosa em relação aos factos históricos como a escola médica de Ibn Sina (conhecido no mundo cristão como Avicena, o maior médico do antiguidade). Milhares de páginas terá lido o autor para escrever este livro! Um livro que merece ser lido e relido, tal é a riqueza e o encanto das narrativas e tão eloquente é o elogio da ciência, da tolerância entre povos e do amor.

A Melhor Leitura do Mês

Neste mês a escolha foi bastante difícil.
Dos doze livros lidos destaco quatro:
 O Outono do Patriarca - Gabriel Garcia Márquez
 As Cidades Invisíveis - Italo Calvino 
 Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto
 Norwegian Wood - Haruki Murakami
Ou seja, três monstros sagrados da literatura mundial e um jovem escritor português.
Os livros de Márquez e de Calvino são marcos históricos. São clássicos do século XX. O de Murakami foi a obra que o lançou no firmamento dos melhores do mundo.
No entanto, o prazer de ler não é determinado pelas marcas da história.
Por isso, a minha escolha do melhor do mês vai para José Luís Peixoto.




quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Kikia Matcho - Filinto de Barros

Kikia Matcho pode ser traduzido do crioulo como “Mocho Macho”, um animal símbolo da desventura, da desgraça.
Este livro surpreendente, de um escritor guineense pouco conhecido entre nós, fala-nos, numa liguagem simples, do povo simples da Guiné, de um recém-licenciado na Europa, Benaf, que regressa à Guiné aquando da morte de um tio, ex-combatente. Fala-nos também de Papai, outro ex-combatente; ele é a voz da saudade e do lamento; da tradição e do desengano.
A narrativa lentamente se transforma numa profunda reflexão sobre as consequências da guerra colonial e as desilusões que se seguiram. No fundo trata-se simplesmente de dar conta da miséria de um povo escravizado por antigos e novos colonizadores; os “tugas” mas também os novos senhores, porta-vozes de um sistema político que depressa esqueceu o povo. Um povo que foi vítima da História, ou dos homens que a fizeram.
A luta contra o “tuga”, o português colonizador tinha unido os povos africanos. Guineenses e cabo-verdianos juntos no PAIGC de Amílcar Cabral, tinham no inimigo comum um traço de união. No entanto, a independência trouxe a desunião; começara o assalto ao poder!
Neste livro é bem patente o lamento perante a nova realidade da Guiné: o poder político desprezou os combatentes e a nova geração esqueceu a Luta e os seus heróis.
Por outro lado, a desilusão perante Portugal: os novos democratas de Lisboa convidam os africanos a emigrar para depois os instalarem em bairros de lata, sem condições de trabalho, condenados à miséria e à criminalidade.
Na Guiné, entretanto, o povo vai tentando esquecer estas desgraças do “progresso”; o saber tradicional, a cultura do povo guineense é misturada com novas influências e despersonalizada; as tradições são consideradas pelos novos como superstição; é o caso do jovem licenciado Benaf, que não compreende a alma africana porque se ausentou dela e se aculturou perante o “branco”.
Em suma, trata-se de uma leitura agradável e muito importante para compreender o fenómeno da descolonização e dos problemas por que passam os países lusófonos de África. É a visão do africano perante as desgraças que a colonização e a descolonização precipitada provocaram. Para nós, portugueses, esta crua realidade que Filinto de Barros descreve é e será ainda uma ferida aberta na consciência portuguesa e europeia.