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domingo, 19 de abril de 2015

Gunter Grass partiu e nós continuamos a tocar tambor


Na semana que hoje termina faleceu um grande escritor; um génio chamado Gunter Grass.
Infelizmente, só li um livro dele, pelo que não sou a pessoa ideal para fazer grandes considerações em torno da sua obra. Mesmo assim, atrevo-me a dizer algo que me parece vir bem a propósito.
Li O Tambor (O Tambor de Lata no Brasil) há alguns anos. Se bem me recordo, o livro conta a estória de um jovem de nome Óscar, em plena segunda guerra mundial. A mensagem que me ficou do livro, ainda que vista à distância de vários anos, foi esta: Hitler tentava arrasar a Europa, chacinava os judeus, ambicionava dominar o mundo, causava uma guerra que resultou em vinte e tal milhões de mortos e, enquanto isso, Óscar tocava tambor. E parecia que toda a Alemanha tocava tambor enquanto Hitler e seus pares cometiam as maiores atrocidades.
A ideia que me fica hoje é que, no ano em que Gunter Grass nos deixou, muitos de nós continuam a tocar tambor…
É por isso que a Literatura é uma grande arte: há sempre atualidade nos grandes mestres, mesmo depois de eles nos deixarem…

segunda-feira, 30 de março de 2015

Mia Couto, voz da Terra


Mia Couto é poesia sem rima, é voz da Terra, sabor do Mar, alma de um povo inteiro.
Mia Couto é a força de uma Terra onde o sentimento resvala nas armas mas sobrevive e se fortalece na dor. É o mensageiro de uma Terra pintada de sangue mas perfumada pelo canto cristalino das sereias no Oceano Índico.
Mas Mia Couto é também o porta-voz da Alma, o cantor do gemido dolorido mas quase musical que emana do peito das gentes; a sua escrita é melodiosa, triste umas vezes, outras cheia daquele humor ingénuo das gentes de África.
E, acima de tudo, a voz de Mia é a voz do génio. Ele é, na minha opinião, o melhor escritor vivo de ficção de língua portuguesa. Ele é a prova viva de que os poetas têm razão: a nossa Pátria é a Língua portuguesa e muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa. Moçambique é da nossa Alma; muito sangue e muitas lágrimas nos uniram no passado e foi em português que sempre choramos as mesmas desgraças. Um fado que nenhuma união europeia ou aliança americana poderão contrariar.
Mia Couto pode não ganhar o Man Booker Prize. Mas para nós já ganhou.
Já ganhaste, irmão!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Charles Bukowski


Há embirrações incontornáveis. No que aos livros diz respeito, eu tenho pelo menos uma: Charles Bukowski. Dizem que é um dos nomes maiores da literatura dos EUA. Embora não seja grande adepto do país, admiro imenso os escritores norte-americanos: de Capote a Auster, de John dos Passos a Roth, de Kerouac a Mccarthy, etc. Todos eles são autores de grande dimensão artística mas também personalidades ímpares ao nível do humanismo, da sensibilidade na análise dos problemas sociais e extremamente críticos no que respeita aos assuntos políticos.
Mas não suporto o estilo descaradamente sexista, banal, alcoólico, ordinário e, para mais, histericamente hipocondríaco. Não sou propriamente um conservador e até julgo ter um espírito bastante aberto face a escritores polémicos, atrevidos e que rejeitam todos os cânones. Mas Bukowski resiste a todo esse meu liberalismo.
Raramente deixo um livro a meio e por isso, confesso, fiz um esforço desmedido para ler “Mulheres”, esse arrazoado de bestialidades que foi a vida de um escritor alcoólico, obsessivo e louco. Dizem que foi um grande crítico e talvez essa tenha sido a sua maior virtude. Mas todos os enormes escritores americanos que referi acima são ou foram enormes críticos sem nunca terem caído numa linguagem de sarjeta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Dickens - Genialidade absoluta


Estou neste momento a ler Nicholas Nickleby e estou encantado. E dececionado por ter chegado a esta idade sem ler os grandes livros deste génio literário.
Talvez Charles Dickens tenha sido o maior contador de estórias de todos os tempos. Não me refiro, obviamente, a muitas estórias mas, certamente, a GRANDES estórias. Cada livro do grande mestre britânico é uma viagem encantadora a um mundo que já não sendo nosso, foi o meio encantado e desgraçado que nos precedeu: esse magnífico e medonho século XIX, cheio de esperanças e de fascínio mas também carregado de injustiças e medos.
Charles Dickens talvez tenha sido um comunista antes do comunismo: preocupado, acima de tudo, com as injustiças daquela época vitoriana, em que a exploração do homem pelo homem era uma regra implícita mas bem patente do universo vitoriano; um mundo cheio daquela perfídia que resulta da legitimidade na luta pelo sucesso material; a isso se chamou, com muito descaramento, moral burguesa. 
É por isso que as personagens de Dickens são tão encantadoramente maniqueístas: há uma linha clara que separa os bons, os honestos que são vítimas, daqueles que representam as forças do mal e que mais não são que os frutos desse meio burguês materialista e capitalista. E é por isso que é impossível a qualquer leitor esquecer personagens fantásticas, magníficas enquanto seres humanos como são Nicholas Nickleby, David Copperfield, mas também geniais personagens secundários, autenticas obras de arte na criação o romancista, como são Wilkins Micawber ou Newman Noggs. Mas, muitas vezes, é no horrível que encontramos a mais belas obras de arte e personagens pérfidas como Uriah Heep ou Wackford Squeers não deixam de ser criações únicas e geniais.
imagem de http://www.notable-quotes.com/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Lobo Antunes - Um desastre - E daí?


Parece que o último romance, o 25º, de António Lobo Antunes está a ser um desastre de vendas.
Talvez esteja enganado mas atrevo-me a palpitar que o nosso velho guru está-se marimbando para isso. Alguns críticos andam certamente mais preocupados que ele; afinal são euros que não se ganham, são oportunidades que se perdem.
Acredito que para Lobo Antunes o sucesso já não está nas vendas; a imagem mental que tenho dele é a de um gato velho. Os gatos são, por definição, animais com uma personalidade muito forte; senhores do seu nariz; convencidos do seu poder embora ao mesmo tempo mimados. Assim é Lobo Antunes. A vida que trilhou, tão rica e tão cheia de obstáculos, está muito acima de qualquer sucesso ou insucesso editorial.
Seja como for, depois de ter ficado a saber que Caminho Como Uma Casa em Chamas só vendeu 1600 livros na FNAC fiquei ainda com mais vontade de ler o livro. E talvez esteja aqui o mote para um lema que o pessoal do marketing da editora D. Quixote poderia explorar: Não Perca o Único Livro de Lobo Antunes Que Foi Um Verdadeiro Desastre. Já que o próprio ALA não se promove e tanto despreza a sua imagem…
Para lá de tudo isto, está Lobo Antunes, que após a morte de Saramago se tornou, sem dúvida, o mais conceituado escritor português vivo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Humberto Delgado, Sem Medo


Um intervalo nos livros para lembrar os 50 anos que hoje se completam sobre a morte de uma das personagens mais importantes da História de Portugal.
O General Sem Medo, Humberto Delgado disse um dia que se ganhasse as eleições, obviamente, demitia Salazar. Pagou a ousadia com a própria vida mas escreveu assim a primeira página do caminho do país para a Liberdade.
Candidato às eleições para Presidente da República, perdeu para Américo Tomás num ato eleitoral marcado, mais uma vez pela fraude generalizada. Mas a vingança do decrépito ditador nem por isso se fez esperar e Delgado foi cruelmente assassinado pela PIDE.
Ficou a memória do herói e a vergonha de um ditador idiota, morto no tempo e agarrado ao poder, mesmo à custa do sacrifício de todo um povo. 
No entanto, a História acaba sempre por ser a última justiceira e para sempre ficará a imagem de um General que foi herói e mártir, face a um ditador dominado pelo ódio e pelos fantasmas que o atormentavam…

sábado, 31 de janeiro de 2015

Fernando Namora


Completam-se hoje 26 anos sobre a morte de Fernando Namora e ainda me custa entender como é que este nome vai passando para segundo plano na literatura portuguesa, cada vez mais esquecido.
Pessoalmente, cresci lendo os livros de Namora. Foi um dos meus primeiros ídolos literários.
Médico de profissão, foi um dos mais bem sucedidos escritores portugueses das décadas de 50, 60, 70 e 80. Nesse período publicou obras de grande sucesso como Domingo à Tarde, O Trigo e o Joio, A Noite e a Madrugada e, acima de tudo, Retalhos da Vida de Um Médico, que ficou para a posteridade através da adaptação televisiva, numa série mas também num filme de 1962 que esteve no Festival de Berlim.
A sua formação de base como escritor pode enquadrar-se no rico e fértil meio neorrealista, onde pontificavam nomes como Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, etc. Mas depressa Namora foi complementando essa tendência natural com uma escrita cada vez mais pessoal, poética e psicológica.  A sua vivência como médico deu-lhe também uma enorme sensibilidade humana e consciência dos problemas sociais, nomeadamente da vida rural, naqueles tempos atribulados da ditadura fascista.
Vinte e seis anos depois penso que seria a altura de, finalmente, as editoras pensarem numa reedição das suas obras.
Aqui fica um episódio da referida série televisiva, de 1980 (primeiro ano da TV a cores em Portugal) com musica de Ary dos Santos e com a presença de grandes nomes do cinema e da televisão em Portugal.


domingo, 25 de janeiro de 2015

Lendo Galveias - De volta à Ruralidade


A versatilidade parece ser uma das palavras-chave da escrita de José Luís Peixoto. Galveias (cuja leitura levo a meio) não se parece com nenhum dos seus livros anteriores. É, na minha perspetiva, uma agradável surpresa, por se tratar de uma incursão por um género que Peixoto ainda não explorara e que constitui um domínio tradicional da literatura portuguesa: o romance rural.
Na verdade, a ruralidade foi sempre um traço distintivo de alguns dos nossos melhores escritores. Logo no século XIX, Júlio Dinis presenteou-nos com pérolas deliciosas do romantismo como A Morgadinha dos Canaviais ou esse belo livro As Pupilas do Senhor Reitor. O grande Camilo, por oposição ao urbano Eça deixou-nos páginas brilhantes de ruralidade em obras geniais como as Novelas do Minho, Eusébio Macário ou A Brasileira de Prazins.
Já no século XX, é o neorrealismo, impulsionado pela necessidade de uma perspetiva critica face à ditadura, que assume a voz do povo rural, empobrecido pelo Estado Novo. É neste contexto que se afirmam nomes grandes como Alves Redol, Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, etc. Numa perspetiva um pouco menos crítica, um escritor algo injustiçado pela crítica: Fernando Namora. E um escritor enorme da literatura portuguesa: Miguel Torga, esse poeta brilhante que fez poesia das fragas de Trás os Montes, do suor e do sangue do povo a que ele orgulhosamente quis sempre pertencer.
Agora, em pleno século XXI, é Miguel Torga que eu leio em José Luís Peixoto; um Miguel Torga modernizado, com motorizadas Famel e muito sentido de humor mas o mesmo povo sofredor e, acima de tudo, muito português.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Impressões: Manual de como salvar o Mundo


Há muito tempo que o mundo não assistia a tão dramáticos e sangrentos conflitos relacionados com religião. 
Os chocantes acontecimentos terroristas em França; a catástrofe que se vai desenrolando na Nigéria; a tragédia continuada que se desenrola na Palestina; a desumanidade do Estado Islâmico, levam-me apensar que o nosso mundo está pejado de insanidade. 
As religiões, por definição, defendem o Bem, a paz e a harmonia. No entanto, nunca se matou tanta gente por outro motivo, como se mata pela religião. Desde a Idade Média que assistimos a este drama: muitos seres humanos já não se limitam, a dizer: “o meu Deus é melhor que o teu” e passaram a dizer: temos de exterminar a tua religião.
Quantos milhões morreram nas Cruzadas? Quantos milhões foram mortos ou torturados pela Inquisição? E quantos milhões estão hoje a ser vítimas do radicalismo islâmico?
Perante isto, o meu apreço pelas religiões praticamente reduz-se ao Budismo: a única grande religião que defende e pratica a tolerância.

E se a religião já não pode salvar o mundo, a pergunta que se coloca é: quem o poderá fazer?
E a minha resposta é: A ARTE!
A arte é a beleza; é o lado belo da humanidade.
E a literatura é arte por excelência.
Quantos escritores se notabilizaram por defender ideias totalitárias e violentas? Assim de memória, lembro-me de Celine numa determinada fase; talvez mais dois ou três estalinistas… tristes exceções que só confirmam a regra!
Mas a esmagadora maioria dos artistas são humanistas, defensores da vida humana, da paz e da harmonia entre os povos!
É por isso que, cada vez mais, ler é o melhor remédio!

Ilustração de Jarbas in blogs.diariodepernambuco.com.br

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O meu TOP 2014 - 22 leituras formidáveis


Em  matéria de leituras 2014 foi ano excelente.
Dos 87 livros lidos selecionei os 22 que mais me agradaram.
Note-se que nunca me atreveria a dizer os "melhores" - não sou ninguém para fazer juízos desse género - mas apenas os que mais gostei de ler.

01. A Leste do Paraíso – John Steinbeck.
Mas que hei de eu dizer perante uma obra que me faz sentir tão pequenino? Bastará talvez dizer que é um dos 12 livros que eu considero perfeitos.

02. O Adeus às Armas - Ernest Hemingway.
às vezes negro e tétrico como um quadro de Bosh. Outras vezes colorido de poesia como um quadro de Kandinsky. Mas sempre, sempre, cheio de humanidade. Uma crónica de guerra onde há frestas por onde espreita a esperança.

03. A sul da fronteira, a oeste do sol – Haruki Murakami.
Murakami no seu melhor, só superado, a meu ver, por Kafka à Beira Mar e 1Q84. Uma bela e triste mensagem: capitalismo é conforto; conforto é imobilismo; imobilismo é infelicidade. Para ler, para divertir e refletir.

04. O Adolescente - Fiodor Dostoievski.
Mesmo com uma nota de 19 em 20 este não é o melhor livro de Fiodor. O problema é que alguns dos outros são nota 20.

05. O homem que via passar os comboios - Georges Simenon .
Talvez o policial menos policial de sempre. Uma obra que ultrapassa muito os cânones desse tipo de literatura mas cheio de inteligência.

06. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway.
A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. E muita, muita arte, numa estória sobre a guerra civil de Espanha. Mas uma estória cheia de História. E de arte.

07. O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens.
Magia, arte e crítica. Umas dezenas de páginas escritas com dor e beleza. Talvez o melhor conto de sempre sobre o Natal.

08. A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami.
Enquanto não leva o Nobel, Murakami vai-se aproximando dos cânones ocidentais. Dessa forma talvez o Nobel fique ainda mais longe. Mas o mestre japonês não precisa dele para ser um génio.

09. O Ladrão Honesto e Outras Histórias – Fiodor Dostoievski .
Uma das obras mais simples e singelas do grande Fiodor.

10. Ferrugem Americana - Philipp Meyer.
Ferrugem corrosiva! Extremamente ácida! A América na cadeira do psicanalista: doente e louca. Uma obra cheia de ironia e beleza.

11. No Limiar da Eternidade - Ken Follett.
Formidável. A fechar da melhor maneira a trilogia O Século. A imensa capacidade narrativa de Follett está aqui bem patente numa obra monumental. Uma maratona literária ou a torre Eiffel dos livros.

12. O centenário que fugiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson.
Como se diz na minha terra, de partir o coco a rir. Uma ideia genial e um enredo divertidíssimo. O livro mais cómico dos últimos tempos.

13. Chama Devoradora - John Steinbeck .
Um livro belíssimo, cheio de poesia, num formato muito criativo. Já antes considerava Steinbeck um grande escritor. Agora chamo-lhe génio.

14. A Guerra dos Mundos - H. G. Wells 
Os aliens até podem ser maus. Até podem assassinar pessoas e ter máquinas de matar terríveis. Mas não são piores que os humanos. E nós temos uma arma terrível para os liquidar nas últimas páginas. Talvez a leitura mais surpreendente do ano.

15. As Aventuras de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle 
Precisa de medicamentos para a depressão? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

16. À Espera no Centeio - J. D. Salinger.
Holden era boa pessoa. Mas à sua volta tudo era estupidez, ignorância, preconceito. Bela crónica da América do século XX.

17. Liberdade de Pátio - Mário de Carvalho.
Tens aí vinte metros quadrados onde és totalmente livre. Mas livra-te de passar os limites. Aí está uma bela crónica dos nossos tempos.

18. Avó Dezanove e o Segredo dos Soviéticos – Ondjaki .
Os camarada soviético, o mausoléu dos camarada presidente e umas peças de dinamite para fazer uma bela “desplosão”. O singelo mas não ingénuo Ondjaki no seu melhor.

19. O Signo dos Quatro – Arthur Conan Doyle.
Precisa de medicamentos para estimular a memória? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

20. O Fundamentalista Relutante – Mohsin Hamid.
Uma abordagem fascinante do terrorismo mas também do seu fantasma. E há fantasmas mais medonhos do que a realidade…

21. Os Sinos de Ano Novo- Charles Dickens.
Sinos que não trazem alegria; Ano Novo que repete a tristeza que há na injustiça. No entanto, há a esperança. E a beleza. Sempre.

22. Afirma Pereira – António Tabucchi.
Uma visão inteligente do regime fascista e de como, por vezes, os algozes não passam de vítimas…tristes vítimas do obscurantismo e da estupidez.

Imagem daqui

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A sondagem - Bimbys ou coisas que nos moam o juízo?


Agora sim, está fechada a sondagem. Já com um número de participantes minimamente representativo (76) conclui-se que 44 deles (57%) preferem ler nas férias livros mais reflexivos, em vez dos tão propalados “levezinhos”.
Já tivemos também aqui uma interessante discussão sobre o que se considera ser levezinho. Pode tratar-se de literatura light, literatura de cordel, literatura de casa de banho. Ou, para ser mais simpático, uma espécie de literatura Bimby, fácil de cozinhar, fácil de comer.
Mas pode tratar-se também de literatura conceituada mas com leitura fácil e agradável, como por exemplo os magníficos exemplares da literatura romântica francesa do século XIX. Seja como for, estes livros parecem ser preteridos, pelo menos pela maioria dos frequentadores deste blogue, em favor das obras que apelam mais à reflexão.

Sem qualquer pretenciosismo acho que estes números são surpreendentes; na verdade, a maioria das editoras encaram o verão como um período em que as pessoas procuram principalmente os tais “levezinhos”. Talvez não seja bem assim, afinal…

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Levezinhos mas geniais - o meu TOP 15



C., um amigo deste blog, colocou uma questão muito interessante no comentário ao meu tópico anterior:
"Pode um livro levezinho ser um bom, um ótimo livro?"
Vinha isto a propósito da sondagem sobre o tipo de livro preferido para férias.
Como achei a pergunta muito interessante e pertinente, resolvi dar a resposta neste novo tópico.
Obviamente, acho que sim. E justifico a resposta com o meu top 15 feito à pressa de livros que acho levezinhos e, ao mesmo tempo, livros muito bons.
Passemos então à contagem decrescente:

No 15º lugar, uma obra que passou quase desapercebida em Portugal mas que constitui um thriller excecional, cheio de emoção, no estilo Dan Brown mas bem escrito:
- O Último Catão, de Matilde Asensi

Em 14º, um autor acusado de ser demasiado “levezinho” mas que, na verdade, agarra os leitores com uma arte excecional:
- A Sombra do Vento - Ruiz Zafón

O 13º é um clássico da literatura juvenil; um livro encantador; um livro mágico:
- Ivanhoe, de Sir Walter Scott

No meu 12º posto um clássico da literatura erótica. Só não está nos primeiros lugares desta lista porque é dos menos “levezinhos” mas é um excelente livro:
- O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence

Em 11º lugar, mais um clássico da literatura classificada habitualmente (embora de forma errada, a meu ver) como infanto-juvenil. É um livro cheio de emoção e de intrigas palacianas. E também amor e humor:
- Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas

No 10º lugar uma pérola africana de língua portuguesa, onde se conjuga o humor dos meninos da rua com a magia e o perfume de Angola:
- Bom Dia Camaradas, de Ondjaki

Em 9º lugar uma comédia intemporal sobre a política portuguesa. Uma sátira que hoje faz todo o sentido, mesmo cento e tal anos depois de ter sido escrita:
- O Conde de Abranhos, de Eça de Queirós

O oitavo classificado é um livro denso e intenso mas que se lê muito bem. Recordo-me de ter devorado aquelas mais de 700 páginas em 3 dias, tal a forma emocionante como o enredo é exposto:
- A História Secreta, de Donna Tartt                       

Em sétimo lugar um livro que li aos 47 anos mas devia ter lido aos 14. Mas que se deve ler em qualquer idade e de preferência mais que uma vez. É o emocionante e divertido:
- O Conde de Monte-Cristo de Alexandre Dumas

Os livros que coloco em 6º e 5º (a ordem não interessa), são dois dos livros mais hilariantes que li até hoje. São dois clássicos da mais pura comédia. Dois livros para ler e rir até cair para o lado, sobre um cobarde que chegou a herói do exército britânico.
- Flashman, a Odisseia de um Cobarde e Royal Flash, A Odisseia de um Cobarde, de George Mac Donald Fraser 
(continuo à espera do 3º volume da saga do cobarde).

Em 4º lugar, uma comédia romântica deliciosa, leve, divertida. Com o traço de génio de um dos maiores homens do século XX, o enorme Garcia Marquez.
- Gabriel Garcia Marquez - O Amor nos Tempos de Cólera

O meu terceiro classificado, medalha de bronze, é verdadeiramente um livro mágico. Com raízes bem seguras na tradição da magia céltica, é um livro fantástico antes da moda do fantástico. Um livro maravilhoso.
- Jonathan Srange & o Sr. Norrell, de Susanna Clarke

Em 2º Lugar, um livro lindíssimo para quem gosta de uma bela história de amor. Um livro cheio de sensibilidade, escrito numa linguagem “fotográfica”, intenso, quente, lindo…
- As Pontes de Madison County, de Robert James Waller.

E em primeiro lugar, o rato mais espetacular de toda a história da literatura no período pós-Mickey. Ele é o sensacional rato de biblioteca, filho de uma mãe rata bêbada, o mais novo de uma ninhada de 12 que haveria de passar a vida nas estantes de uma biblioteca. Este é o verdadeiro rato de biblioteca, o rato que devorava livros. Literalmente. Ele é o grande:

- Firmin, de Sam Savage

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Viajar na leitura




Às vezes um livro não é mais que um pedaço de mundo que coloco à frente dos meus olhos, como quem quer esconder algo demasiado visível. 
Regra geral é um pedaço de um mundo distante, suficientemente perdido para que não possa ser tangível, para que não possa fornecer a ilusão do realizável. Quero eu dizer: é bom que a fantasia fique claramente definida! Nada de confusões: aquilo é um livro, é ficção, o meu mundo não é aquele. 
Pode até ser tudo muito bonito; pode até ser um conto de fadas, com ou sem saias, com ou sem tentações pecaminosas. Mas é sempre um pedaço de mundo ao qual eu não terei, nunca, qualquer tipo de acesso. A não ser, é claro, por essa via etérea e estúpida que é o sonho.
Sim, pelo sonho posso lá ir. Mas isso é suficientemente estúpido para que eu nem por sombras pense em viajar para o interior do enredo que leio. Isso são coisas do Afonso Cruz…
Então que diabo de feitiço têm os livros de ficção que, sem me fazer sonhar, me transportam para outros lados? Talvez haja mesmo um mundo alternativo dentro dos livros... 
Ou serão eles, apenas (e já não seria pouco) uma forma alternativa de viajar neste mesmo mundo, o mundo real?
Há quem diga que há outra espécie de livros: aqueles que só falam de coisas reais. A tal "não ficção": livros sobre política, economia, ciência... 
Mas sobre esses eu tenho uma opinião muito sólida: não prestam para nada! Para que pode servir um livro se não diz nada que não seja verdadeiro? 
Ainda está para nascer o inteligente que me responda cabalmente a esta pergunta. 
(imagem daqui: http://bibliotecaescolarstoisidoro.blogspot.pt/ )

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Mestre - um balanço da minha Maratona Saramago




Lidos que foram 15 dos 18 romances de Saramago, mais um livro de contos e uma peça de teatro, senti necessidade de fazer uma síntese para memória futura; assim, deixo aqui a lista dos livros lidos com um brevíssimo comentário em forma de tópicos.
Volto a dizer o que já escrevi muitas vezes: não sou ninguém para fazer crítica literária e muito menos para avaliar José Saramago; o que aqui deixo são apenas impressões pessoais das minhas leituras. A notação reflete apenas o grau de prazer que me proporcionou a leitura.

Caim – Brincando com coisas sérias. Interessante pelo sentido de humor; não acrescenta nada à bibliografia de Saramago. 8.2/10
Objecto Quase – Uma grande surpresa. Contos geniais. Exercícios literários soberbos. 9.6
Levantado do Chão – Pungente, sublime, sofrido. Dói só de ler. 9.7
O Ano da Morte de Ricardo Reis – Arte em estado puro. Genial. Arrojado e vencedor. 9.8
Ensaio sobre a cegueira – mordaz na crítica generalizada a este mundo de cegos. 9.6
A Jangada de Pedra – Criatividade literária e inteligência na abordagem política. 9.6
Manual de Pintura e Caligrafia – Um “treino” para o futuro grande Mestre. À procura de um estilo. Titubeante. 7.8
O Evangelho Segundo Jesus Cristo – Poderoso, atrevido, corajoso. Um Cristo humano, rodeado de humanidade mas também do ódio de Deus e do Diabo. 9.6
História do Cerco de Lisboa – Não gostei e não sei bem porquê. Talvez porque estou formatado para abordagens mais lineares da História de Portugal. 7.7
O Homem Duplicado – Genial. Os duplicados que há em todos nós. Um espelho da nossa alma. Saramago no seu melhor ao nível da abordagem da alma humana. 9.7
A Caverna – Um livro herdeiro do neorrealismo; cativante na sensibilidade humana do Mestre. Pungente. Às vezes comovente. Um final épico. 9.8
Todos os Nomes – um enredo construído de forma genial. Maravilhoso. 9.8
Que Farei com este Livro – Uma viagem alucinante e humaníssima à vida de Camões. O dedo apontado ao obscurantismo que, ontem como hoje, nos destrói a inteligência. 9.2
Ensaio Sobre a Lucidez – critica mordaz ao sistema político mas pouco mais que isso. Um dos livros mesos poderosos de Saramago. 8.8
Memorial do Convento – Único. Épico. Comovente. Maravilhoso. 9.9
As intermitências da Morte – Uma grande diversão sobre a morte. De como é possível rir dela. Acho que foi a rir que o Mestre morreu. Bem haja para sempre, Mestre 9.7


Imagem daqui: http://www.hojelusofonia.com/lusofonia/jose-saramago/

terça-feira, 23 de abril de 2013

Livros que mudaram vidas e mundos

Neste DIA MUNDIAL DO LIVRO decidi elaborar um top ten dos livros que, na minha modesta opinião, mudaram a história.
Afinal, resultou daqui um top 10 com onze livros, o que o torna ainda mais original.
Na infinidade de tudo quanto se escreveu até hoje, restringi a escolha a dois critérios: livros de ficção (porque só a ficção é fiável) e já lidos por mim (porque sim).
Aqui fica, portanto, a minha lista, por ordem cronológica.
1605 - D. Quixote - Miguel de Cervantes – o livro que é o pai da sátira social é também o progenitor de toda a literatura de ficção neste mundo ocidental da triste figura.
1857 - Madame Bovary - Gustave Flaubert – saudável ofensa à moral, a pedrada no charco da hipocrisia beata. Volta, Flaubert, estás perdoado!
1869 - Guerra e Paz – Lev Tolstoi – Ricos e pobres, todos miseráveis na luta pela vida perante a estupidez da guerra, esse monstro que nem Salvador Dali interpretaria num infinito surreal.
1879 - Os Irmãos Karamazov – Fiodor Dostoievski – Fiodor, o homem que mais fundo penetrou na alma humana! Uma viagem alucinante às profundezas dos mistérios interiores do ser humano. Épico!
1912 - A Metamorfose - Franz Kafka – O inseto homem, alienado, amordaçado, morto em vida pelos outros. Os outros, sempre os outros, esse Inferno de Sartre e de todos nós.
1921 - Ulisses – James Joyce – Obrigatório para qualquer leitor que, das duas uma, ou quer morrer de tédio ou sonha ser culto. Melhor será talvez fingir ser culto…
1924 - A Montanha Mágica – Thomas Mann – Mann, o filho de Goethe, irmanado com a melancolia germânica, espelho de uma Alemanha no caminho penoso de um desastre para uma hecatombe.
1942 - O Estrangeiro - Albert Camus – Mersault, meu caro Mersault, quão semelhante acho teu fado ao meu… quantos mundos por compreender… que todos, como Mersault, façamos o nosso mundo.
1959 - O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner – Um livro que é força bruta, emanação da terra, grito de génio e uma grande barafunda para todas as mentes desprevenidas. O maior desafio de sempre na literatura mundial
1982 - Cem anos de Solidão - Gabriel Garcia-Marquez – Hino imortal a todos os milhões de Buendia do mundo, deserdados, atraiçoados, esfolados vivos pelo progresso.
De entre todos, o meu preferido é, sem sombra de dúvidas este:
imagem daqui: http://fernandajimenez.com/tag/quijote/

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aviso à navegação

Quando um crítico literário disser que um determinado livro é mau, avisem para eu comprar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

ABRIL é esperança!


Não esqueçamos nunca que Abril é sinónimo de esperança!
Abril com maiúscula... Abril, o mês da primavera não cabe nas minúsculas de um qualquer acordo ortográfico.
Para os que teimam em fazer esquecer o que é inesquecível, para os saudosistas de um Portugal feito de ignorância, medo e miséria, aqui deixo um excerto de um poema do maior poeta de todos os tempos. Um poeta, também ele, da liberdade e da esperança!

"No entanto, há gente que acredita numa mudança, 
que tem posto em prática a mudança, 
que tem feito triunfar a mudança, 
que tem feito florescer a mudança 
Caramba! 
A primavera é inexorável! "
Pablo Neruda

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ler devia ser PROIBIDO


Um dia a humanidade será apenas um organismo que vive vegetando, uniforme na sua incapacidade de pensar, apenas destinada a obedecer.
Seres obedientes, amorfos, vegetais que se arrastarão na sombra dos Senhores que comandarão os exércitos de ignorantes, operários, os carregadores das pedras com que se faz a glória das classes dirigentes.
A humanidade inteira estará ao serviço dos maiores, da casta dos líderes, das mentes superiores. A humanidade inteira será feita de escravos como os que construíram as pirâmides do Egipto, a muralha da China ou o Taj Mahal.
Mas, para que tudo isso seja possível, é preciso que se proíba a leitura. Ler é perigoso. Salazar sabia isso; Hitler também; ou Estaline. E hoje, mais do que nunca, renascem os crentes nesta verdade: ler devia ser proibido!
Ler faz as pessoas criticar, sonhar e, pior que tudo: CRIAR!
Portugal, Janeiro de 2012.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Qual o traço distintivo da genialidade? Parte III


Em posts anteriores defini como tipos de escritores (a) aqueles que fundam as suas estórias na imaginação, construindo enredos que prendem o leitor pela criatividade e (b) aqueles que se debruçam sobra a natureza do ser humano na sua dimensão individual.
Penso que um terceiro tipo de escritores de ficção pode completar esta espécie de tipologia: (c)aqueles que se debruçam sobre o homem na sua dimensão colectiva. Refiro-me aos romances históricos e a todos os livros que abordam a dimensão histórica, social ou política da humanidade.
Neste tipo tenho de destacar, como paradigmas máximos, Umberto Eco e Franz Kafka.
Umberto Eco, com romances históricos monumentais, como Baudolino, O Cemitério de Praga e, principalmente, O Nome da Rosa é, na minha opinião, o maior mestre deste género.
Quanto a Franz Kafka foi, a meu ver, quem melhor soube entender a submissão do ser humano à autêntica tirania do social. Em O Processo o homem é tiranizado pela burocracia; em O Castelo e A Metamorfose pelo social; em A Grande Muralha da China pelo poder político.
A submissão do homem às super-estruturas sociais e políticas é também superiormente abordada pelos grandes existencialistas franceses como Simone de Beauvoir e Albert Camus, com destaque, a meu ver, para essa obra-prima que é O Estrangeiro. Fora do ambiente existencialista destacaria ainda uma obra fabulosa, de Celine, Viagem ao Fim da Noite.
Em Portugal, este género é superiormente representado por José Saramago.
Devo dizer que tenho uma especial predilecção por estes escritores uma vez que, regra geral a sua escrita é muito interventiva relativamente aos poderes instituídos e às desigualdades que, infelizmente, são apanágio das sociedades humanas.
No entanto, os mestres dos mestres, aqueles que superaram os maiores, são os que pertencem a um quarto grupo, que definirei no próximo texto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Qual o traço distintivo da genialidade? Parte II


Ontem referi-me aqui àqueles escritores que baseiam a sua genialidade na imaginação.
Hoje quero referir-me a outro tipo de escritores: aqueles cujo talento se baseia na capacidade de retratar o ser humano na sua individualidade; na sua alma e no seu intelecto; nas emoções e sentimentos. Conhecer interiormente o ser humano, compreender os nossos comportamentos em todas as suas dimensões, explicar os nossos sofrimentos e alegrias, os nossos desejos e anseios mais profundos, são talvez tarefas quiméricas. Mas na literatura como na vida, as quimeras são os faróis que iluminam as auto estradas do comportamento humano.
E da imensa mole de escritores que se aproximaram dessas quimeras e nos deram visões absolutamente geniais da alma humana, destaco aqui alguns que me ficaram na memória como génios intemporais:
Fiodor Dostoievski foi talvez o escritor que melhor conheceu e compreendeu o ser humano em todas as suas dimensões. Ninguém como ele compreendeu a loucura “normal” de O Idiota, a mente criminosa e o remorso em Crime e Castigo, o ser religioso e o misticismo em Os Irmãos Karamazov.
Alguns escritores germanófilos são especialmente dotados deste talento especial para a interioridade: por exemplo Herman Hesse, nessas obras-primas que são Sidartha e O Lobo das Estepes, Gunter Grass no monumental O Tambor.
Num domínio um pouco mais abstracto, talvez mais artístico destaco o imortal William Faulkner.
Na literatura portuguesa não posso deixar de destacar António Lobo Antunes; ele é talvez o escritor luso que melhor conhece a alma humana.