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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

E se for rapariga chama-se Custódia - Luís de Sttau Monteiro

Sinopse
Que circunstâncias levam dois homens a revelarem o que de mais íntimo têm em si, que circunstâncias determinam que dois homens procurem ultrapassar os seus medos, procurarem libertar-se da solidão que os oprime...?
O Mais Velho e o Mais Novo são dois homens que, numa noite na prisão revivem memórias num diálogo acompanhado pela noite e pela solidão.

Comentário:
 “A derrota, pensou o mais novo, seria aceitável se deixasse um homem sem futuro – o futuro constrói-se, falseia-se – mas deixa um homem sem passado.”
Falecido em 1993 com sessenta e sete anos e tendo sido perseguido pela censura da ditadura salazarista, Sttau Monteiro escreveu pouco. Foi essencialmente dramaturgo, tendo como obra-prima essa magnífica peça de teatro, Felizmente Há Luar. No que respeita à prosa de ficção escreveu e publicou apenas quatro obras, sendo uma delas, de 1966, este E Se For Rapariga Chama-se Custódia.
Trata-se de um relato impressionante de uma conversa entre dois homens, na prisão. Um diálogo que é confissão, desabafo, libertação.
É na prisão que estes homens encontram a paz suficiente para pensar e conversar; no campo o trabalho não lhes deixa tempo para tais devaneios. Mas aqui, entre quatro paredes, o pensamento acarreta a solidão; é por isso que a noite cai sobre eles.
O tom poético da escrita de Sttau Monteiro é encantador para quem lê e reforça o ambiente de doce solidão que os envolve. Porque só nessa solidão podem vir ao de cima os sentimentos.
O quadro é sóbrio e cheio de intensidade dramática; é uma espécie de microcosmos desse universo fascista castrador, aterrorizador, numa realidade de opressão escondida, velada, sofrida na sombra. É neste quadro sombrio e ao mesmo tempo poético que vai emergindo um amor, primeiro nebuloso depois triunfal por Custódia.
A prosa de Sttau Monteiro é também expressão de um profundo humanismo na forma como os homens confessam as suas fraquezas e limitações.
E o valor da solidariedade: Um homem não vive só como um chaparro velho num montado: basta-lhe estender a mão.
Custódia é muito mais que memória; é sonho, futuro e… liberdade. Mas é também memória; uma memória avassaladora, por vezes doentia, perante a qual o discurso de desabafo do “mais velho” funciona como uma catarse e, ao mesmo, redenção de um passado doloroso. No entanto, nas memórias do mais velho mistura-se a dor com a esperança. E há-de ser com esperança que o livro há-de terminar, porque como escrevera Manuel Alegre um ano antes, Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não.


sábado, 3 de setembro de 2011

Felizmente Há Luar! - Luís de Sttau Monteiro


Raramente um texto tão curto consegue envolver mensagens tão significativas e um conteúdo tão rico. Trata-se de uma curta peça de teatro sobre a vida do  Gomes Freire de Andrade, um corajoso general português que viria a ser condenado à morte em 1817, por ordem do britânico Beresford, aquando da ausência da corte no Brasil.
Viviam-se tempos conturbados. D. João VI havia-se refugiado no Brasil após as invasões francesas, deixando o governo português entregue aos ingleses. Grassavam em Portugal e por toda a Europa as ideias liberais; em Portugal, a Igreja Católica e a aristocracia tradicional lutavam por todos os meios resistir às novas ideias. Freire de Andrade, liberal, era uma ameaça. Por isso foram forjadas acusações de traição que levaram à sua morte.
Mas a peça de Sttau Monteiro vai muito mais além; o alvo é também o regime em que o autor vivia: a ditadura de Salazar; mais ainda, é uma crítica e um lamento profundo perante qualquer forma de governo despótico e perante todas as injustiças sociais que tais regimes provocam.
É um poderoso grito de revolta perante a injustiça, a força bruta do poder político e a miséria das populações.
A Igreja é um dos alvos mais fortemente satirizados e criticados; a Igreja que esteve do lado dos absolutistas, tolerou os ingleses e, mais tarde do lado de Salazar. A Igreja simboliza a antítese das ideias que Stau Monteiro defende: a tolerância, a justiça social e a solidariedade, incarnadas pela personagem Beresford, ou seja, as ideias liberais.
Um outro aspecto que esta peça denuncia é a brutalidade das forças policiais, ao serviço de um governo despótico e que constituem mais um denominador comum entre a monarquia pré-liberal e o Estado Novo.
A linguagem usada na peça é profundamente irónica e sarcástica. O latim, constantemente usado pelos membros da Igreja reforça essa ironia de uma forma quase humorística.
A carga simbólica do luar representa um raio de luz, um assomo de esperança que resiste... haverá sempre uma voz como a de Feire de Andrade; uma voz de coragem; uma voz de esperança...
No fundo trata-se de uma obra intemporal: uma obra que aborda assuntos que estarão sempre na preocupação de qualquer ser humano pensante. Uma obra que ficou indelevelmente marcada nas páginas mais nobres da literatura portuguesa.
Avaliação Pessoal: 9/10