Algures num contexto medieval, entre brumas negras de
mistério e terror, um castelo tenebroso onde vivem umas dezenas de clérigos
loucos que escravizam umas centenas de pobres criancinhas. Os rapazes,
esfomeados e esfarrapados, são maltratados brutalmente pelos clérigos (os
Redentores) que os preparam para uma misteriosa guerra. Comem uma coisa
horrível a que chamam pés-de-morto. São espancados brutalmente todos os dias e
por qualquer motivo. Cale é uma dessas crianças e uma qualquer justificação que o leitor
não conhece de início faz com que Cale seja ainda mais maltratado que os
outros.
O livro avança e o horror acentua-se. Descobre-se que alguns Redentores cometem crimes horríveis com... raparigas!
Chega-se a um ponto em que o leitor imagina o escritor aflito porque já
não tem mais adjectivos para qualificar a desgraça de Cale e daquelas pobres criancinhas. Thomas Cale já era o mais
desgraçado que se podia imaginar e o leitor já sorri de tanta desgraça
acumulada.
Tudo neste livro é negro e tenebroso: desde as vestes pretas
dos Redentores, até ao pensamento das crianças. Ali não há esperança nem
redenção. Não há um raio de sol ou de vida. Tudo o que Paul Hoffman nos
oferece é um quadro horrível, uma pintura de Bosh mas sem qualquer genialidade;
apenas o Mal na sua expressão máxima.
Um dia Cale foge e é admitido por uma outra comunidade que,
vem a saber-se depois, são os donos de um grande império, os Materazzi. Estes
são menos brutais que os Redentores. E haverá uma guerra entre Materazzi e
Redentores. Só no final se saberá que Cale estava no centro do conflito. A
verdade revelada nas últimas páginas era para ser terrível não se desse o caso de
se tornar óbvia para o leitor ao longo da leitura, até porque o título do livro
já revela metade do mistério. Mas creio que Hoffman não previu isso e para um
leitor atento, o final soa como banal e previsivelmente absurdo. O leitor já
esperava esse limite entre a fantasia e o absurdo, que este tipo de literatura
muitas vezes ultrapassa.
Devo dizer que não é uma leitura desagradável; lê-se com
fluidez, num estilo simples e concreto, sem grandes considerações filosóficas,
sem muitas descrições inúteis, com um apreciável ritmo narrativo. O problema
deste livro é que não traz nada de novo. Num género em que a imaginação é
fundamental, Hoffman refugia-se em clichés, em lugares comuns próprios do
género e não sai daí.
Fez sucesso e vendeu muito. Era isso que se pretendia. Mas
mais nada que isso.
