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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um mundo sem fim - Ken Follett - vol 2


Estranha e surpreendentemente dececionado, após ter terminado este segundo volume. A ação é menos intensa, o ritma narrativo mais lento e a incerteza no desfecho é menor. Continua a ler-se com muito agrado mas há menos mistério, ficando o livro muito preso à guerra dos cem anos e, principalmente, à Peste Negra.
Isto não impede, obviamente, que o génio de Follett esteja sempre presente, na sua escrita muito clara, fácil e objetiva.
A primeira fase deste segundo volume inicia-se com a abordagem desse enorme acontecimento político que foi o início da guerra dos 100 anos. Os exércitos ingleses invadem a França, pilhando, incendiando, roubando. Follett, inglês, não se deixa levar pelo patriotismo e é até com muito espírito crítico que nos mostra essa realidade, marcada pela afirmação dos interesses e ambições pessoais, num total desprezo pela vida humana. O cruel e ambicioso Ralph encontra nessa guerra o seu ambiente ideal. Como muitos outros… nesse como em todos os tempos, a guerra interessa aos poderosos…
O rei Eduardo III é mesmo descrito como sanguinário em impiedoso, tal como Ralph.
Uma parte do enredo situa-se em Florença, a maior cidade do mundo cristão, graças ao comércio e às manufaturas, principalmente tecidos. Mas era especialmente nas artes e numa nova mentalidade que o norte de Itália já se destacava.
A peste é vista, em parte, -como elemento de equilíbrio num mundo cheio: o excesso de população parece que fazia prever a necessidade de uma “razia” que voltasse a equilibrar pessoas e recursos. Assim, de repente, os homens vêem a morte surgir por todos os lados, intensificando a familiaridade, cada vez maior, da morte.
Um dos aspetos mais peculiares da peste negra que Follett muito bem desenvolve é o desregulamento dos costumes - da prostituição aos flagelantes, tudo parece configurar uma espécie de loucura coletiva gerada por um ambiente de Apocalipse, em que as pessoas misturam de forma estranha a vontade de viver com mais intensidade com a necessidade de uma penitência radical já que poucos duvidavam que a peste era um castigo de Deus pelos próprios pecados; era essa a contradição maior do ser humano: era levado a pecar até à exaustão ao mesmo tempo que assumia a peste como castigo.
Um aspeto que muitas vezes é negligenciado, mesmo pela historiografia: a peste negra, como acontece com todas as crises, teve o dom de despertar novas estratégias de progresso económico; muitos agricultores sobreviventes beneficiaram de um considerável subida dos salários (devido à quebra na oferta de mão de obra) mas principalmente, dá-se uma certa reconversão da agricultura, deixando, em certas zonas, os cereais de serem as colheitas mais vulgares, para dar lugar a culturas inovadoras, como as plantas tintureiras, que ajudariam ao crescimento notável do setor secundário no séc. XV, contribuindo assim de forma direta para a afirmação do movimento renascentista. Na história como na vida, as crises podem ser oportunidades de crescimento.
E o livro termina com uma mensagem velada mas importantíssima: a grande crise do século XIV foi também o momento de arranque de uma nova europa. O velho senhorialismo, no entanto não estava morto; as revoltantes diferenças entre ricos e pobres não desapareceriam com os novos ventos do Renascimento; e nós, quinhentos anos depois, cá estamos para testemunhar como as injustiças persistiram…

Sinopse (in wook.pt):
Não é apenas em Espanha que Ken Follett é um autor bestseller, vendendo cerca de 575.000 exemplares em apenas três dias. Noutros países, como Itália e Alemanha o feito repete-se e por cá, em Portugal, os leitores começam a ganhar avanço e a percorrer as páginas volumosas de um autor de culto. Em O Mundo Sem Fim encontramos Follett ao seu melhor nível, nesta que é a continuação de Os Pilares da Terra, o épico histórico que vendeu 90 milhões de exemplares em todo o mundo. Devido ao seu tamanho, a Presença decidiu dividi-lo em dois volumes distanciados na publicação por um espaço de um mês.
Críticas de imprensa
«A vida medieval retratada com enorme realismo... Faz-nos sentir na pele das personagens. Follett é um grande contador de histórias e, apesar da extensão, é impossível deixar esta epopeia a meio.» 
Daily Express
«Uma narrativa para os fãs de O Rei que Foi e Um Dia Será, O Senhor dos Anéis e outras epopeias do género.»
Kirkus Reviews
«Os fãs da anterior epopeia medieval de Follett não ficarão nada desiludidos.»

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um Mundo Sem Fim - Ken Follett Vol. 1


Esta é a última das obras monumentais de Follett que ainda não constava da minha lista de livros “lidos”. Trata-se de uma espécie de continuação de Os Pilares da Terra, uma vez que a ação deste primeiro volume inicia-se em 1327 e família de Caris, protagonista da obra, é descendente de Tom Builder, padrasto de Jack Builder construtor da Catedral 200 anos antes.
Neste comentário abordo apenas o conteúdo do volume 1.
Caris parece ser o protótipo da criança inteligente, que questiona. É essa a base da inteligência e da desgraça. Na idade média e não só, mas nesse tempo de uma forma mais dramática. Ser esposa ou freira era o destino normal de qualquer mulher. Quando, em criança, afirmava escolher ser doutora todos riam da infantilidade. Mas Caris viria a ser a mulher do novo mundo; do mundo de fuga ao obscurantismo.
Ao mesmo tempo, o tio, Godwyn, frade com 21 anos quer estudar em Oxford. O seu tio, Anthony responde-lhe que estudar é perigoso porque põe em causa a fé. Godwin, no entanto, não está interessado em estudar para ampliar conhecimentos mas para obter poder. E assim ele se transformará no “mau da fita” deste primeiro volume.
No que respeita à condição feminina, pouco mudou em relação a Os Pilares da Terra; já no que respeita à educação, há alguns progressos que ficaram na história com a afirmação das universidades: elas serão centros de cultura laica, ou pelo menos não tão dependente da religião, e ciências como a medicina começarão a beneficiar desse progresso. Mas eram muitos os obstáculos, um dos quais o financiamento dos estudos, que deixava as universidades e os alunos muitas vezes dependentes da igreja.
O livro dá uma ideia bastante positiva da Igreja inglesa do século XIV, tendencialmente mais moderna, mais aberta, do que a da “velha Europa”. No entanto, o conservadorismo surge como um recurso de personagens oportunistas que nele se refugiam para, com os seus argumentos retóricos fazerem prevalecer as suas opiniões e assim materializarem as suas ambições pessoais.
Um dos aspetos em que o livro mais brilha é na forma clara, correta e mesmo divertida com que nos traça o quadro mental, social e económico daquela época.

A cidade imaginária de Kingsbridge vive da produção e transformação da lã. É inegável a importância da lã inglesa na economia europeia, ainda 300 anos antes da revolução industrial. Os têxteis eram em grande parte responsáveis pela prosperidade inglesa, em contraste com uma Europa continental ainda demasiado feudal. Da mesma forma eram importantes as guildas como forma de proteger os artesãos ingleses; elas representam uma espécie de protecionismo, algo estranho mas eficaz, no contexto proto capitalista da época. No entanto, Follett mostra-nos bem como esse protecionismo pode ser prejudicial. Ontem como hoje…
Ao mesmo tempo, para trilhar os caminhos da modernidade e da liberdade, Follett leva-nos a assistir ao renascimento dos burgos (cidades) que, com os seus cidadãos livres (burgueses) contribuem decisivamente para a centralização do poder real. Assiste-se em Inglaterra a uma espécie de aliança entre povo (mais concretamente burguesia) e o rei, o que muito contribuiu para o fim dos laços de dependência pessoal.
Todo este contexto testemunha uma coisa: há mudanças profundas antes do Renascimento! Esta fase final da Idade Média é tão revolucionária como os tempos de Da Vinci.
Merthin é o prenúncio do homem renascentista. Em Inglaterra! … por oposição a  Elfric, sempre fiel à tradição. Interessante perspetiva de um pormenor que muitas vezes é desconhecido: é precisamente no final da Idade Média que as casas passam a ter compartimentos, anunciando um novo conceito de privacidade e, consequentemente, um novo conceito de moral privada. É importante reter que tal mudança não se deve atribuir ao renascimento, com a sua moral individualista e burguesa, mas sim a uma espécie de pré-renascimento medieval que Follett interpreta na perfeição.
Ralph simboliza o cavaleiro medieval, corajoso por obrigação e oportunista por natureza.
Caris é a mulher inteligente, logo, a bruxa. Mas o advento do renascimento talvez não altere significativamente essa situação.
E o esclarecimento de uma dúvida que existe na mente de muitos de nós: como começar a construir os pilares de uma ponte, tendo em conta que o rio pode ter vários metros de profundidade? Follett responde, também, a isso.

Mais uma vez, Follett traduz-se por Fabuloso.

Sinopse (in Wook.pt)
À semelhança de Os Pilares da Terra Ken Follett volta ao registo do romance histórico, numa obra dividida em duas partes graças às quase mil páginas que a compõem. A Presença publica agora o primeiro volume de Um Mundo Sem Fim, que se prevê repetir o sucesso de Os Pilares da Terra. O autor sentiu-se bastante motivado a escrever este novo livro já que desde Os Pilares da Terra, publicado em 1989, os leitores de todo o mundo clamavam insistentemente por uma sequela. Finalmente Follett inspirado e com coragem e determinação, sem esquecer uma enorme dedicação, lançou-se na escrita de Um Mundo Sem Fim, a continuação de Os Pilares da Terra, onde recorre a elementos comuns do primeiro livro e dá vida a descendentes de algumas personagens. Recuperando a mesma cidade Kingsbridge, o cenário é ambientado dois séculos mais tarde onde nos transporta até 1327. Aí iremos ao encontro de quatro crianças que presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. Três delas fogem com medo, ao passo que uma se mantém no local e ajuda o cavaleiro ferido a recompor-se e a esconder uma carta que contém informação secreta que não pode ser revelada enquanto ele for vivo. Estas crianças quando chegam à idade adulta viverão sempre na sombra daquelas mortes inexplicáveis que presenciaram naquele dia fatídico. Uma obra de fôlego com a marca assinalável e absolutamente incontornável de Ken Follett.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Terceiro Gémeo - Ken Follett

Ken Follett é um chato no bom sentido. Basta pegar num livro dele, de preferência um destes com largas centenas de páginas e temos noites mal dormidas asseguradas. Não que nos provoque pesadelos; pode até acontecer mas não é a isso que me refiro; é que livros como este não se largam facilmente; eles resistem colados à nossa mão enquanto o relógio avança na noite e a mesa de cabeceira ali, à espera que o livro vá ter com ela. Mas quando finalmente o livro regressa à mesinha, já leva o marcador de páginas bem lá para a frente e já uns raios de luz espreitam pela persiana mal fechada.
É assim Follett, empolgante!
Neste livro, que até nem tem um ritmo narrativo muito grande, o mistério não abandona o leitor do princípio ao fim; e cada vez mais me convenço que um dos maiores méritos deste génio literário é o fato de nunca ter prosa em demasia; a sua economia de escrita é excelente, fazendo com que tudo o que lá está nos pareça essencial e não careça de grande esforço de leitura.
O enredo deste livro passa-se, ao contrário do habitual em Follett, nos EUA. E atrevo-me a dizer que Follett não deve ter feito muitos amigos em terras do Tio Sam. É que muitos dos aspetos aqui desenvolvidos surgem numa perspetiva bastante crítica em relação aos ”States”: um sistema universitário corroído pelos interesses económicos, um sistema de saúde minado pela corrupção e pelo capitalismo selvagem; um sistema prisional muito falível; uma polícia muito pouco simpática e muitas vezes violenta e avessa a regras; uma comunicação social ávida de escândalos e uma sociedade cheia de preconceitos. 
Quanto à temática, aparentemente ela centra-se no atual tema da clonagem mas na verdade radica em algo mais profundo: na ameaça de controlo da genética pelos poderes económico e político, que podem constituir uma grave ameaça ao futuro de uma humanidade livre.
Finalmente, uma curiosidade: a certa altura do livro o leitor dá conta, surpreso, de que a chave do enigma está no título! Mas depressa se desengana; a questão está muito para lá de um terceiro gémeo.
Enfim, mais um livro excelente deste galês que não deixa de me surpreender. Não que estes policiais do início da sua carreira sejam geniais; não são pérolas literárias, mas são terrivelmente capazes de nos entreter e divertir. E que melhor podemos esperar dos livros?

Sinopse (in www.wook.pt)
A cientista Jeannie Ferrami, especialista em gémeos e nos componentes genéticos da agressão, faz uma descoberta espantosa. Recorrendo a um banco de dados do FBI, descobre dois homens que parecem ser gémeos verdadeiros: Steve, estudante de direito, e Dennis, assassino condenado. No entanto, nasceram em dias diferentes, de mães distintas, em hospitais separados por centenas de quilómetros.
Que segredo terá ela desvendado? Poderá confiar no seu chefe e mentor, ou terá de pôr a sua vida nas mãos de Steve Logan, o gémeo por quem se apaixona, apesar de ele estar envolto em intriga e suspeita? Uma coisa é certa: não há nada que faça certas pessoas deixar de conspirar na sombra…

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Estilete Assassino - Ken Follett


Comentário:
Empolgante. É este o único adjetivo que acho aplicável a este livro. Talvez Genial não destoe…
Na verdade, este senhor proveniente das verdes terras de Gales, esse belíssimo cantinho de sua Majestade, é um génio impar na arte de escrever estórias emocionantes, cativantes. Ele escreveu este livro com 28 anos, ainda muito longe da genialidade de Os Pilares da Terra ou da Trilogia do Século. Mas quem lê este livro dificilmente vaticina que teria sido escrito por um jovem de 28 anos. Trata-se de um tríler magnífico, com emoção do princípio ao fim, um daqueles livros que mau grado as quase 400 páginas não nos deixa dormir sossegados enquanto não terminamos. O ritmo narrativo é perfeito, não há descrições desnecessárias, a linguagem é clara e cativante e, acima de tudo, a emoção vai da primeira à última página, sem exageros nem situações forçadas. Aliás, para um autor de 28 anos é surpreendente como evita os clichés e constrói uma estória complexa sem recorrer a desfechos fáceis. Por outro lado é admirável como Follett, já nessa altura, estudava aprofundadamente os assuntos a abordar (como quase sempre de natureza histórica). Neste caso, é muito interessante e correta a forma como aborda as movimentações que conduziram ao desembarque na Normandia, movimento militar que conduziu de forma definitiva ao desfecho da segunda guerra mundial. Mas também é notável a abordagem das estratégias de espionagem e contraespionagem do referido conflito, assim como o efeito da guerra na população civil. Ou seja, como é próprio de um grande escritor, a Follett já nessa altura não escapava o drama humano como ingrediente essencial da grande literatura.
O espião alemão em Inglaterra, personagem principal desta estória, desde cedo se torna fascinante aos olhos do leitor pela forma como alia a frieza e a inteligência à ausência de sentimentos. No entanto, é esse um dos aspetos humanos mais interessantes do livro: a forma como, ao longo do enredo, o espião vai lidando com os sentimentos e as emoções que, como acontece com qualquer ser humano, rapidamente vão condicionar todas as suas ações. No entanto, os tempos eram de guerra e de horror. E todo esse ambiente negro é aqui, também, ele, bem retratado, com descrições cheias de um realismo alucinante e quase cruel para quem lê.
Mas como no melhor pano cai a nódoa, também neste livro veio a cair uma mancha bem feia que, no entanto, nada tem a ver com o autor. Tem a ver, isso sim, com o velho e irritante vício bem português de adulterar por completo os títulos originais. Este livro, no original, foi intitulado como “Eye of de Needle”. Needle, agulha, é a alcunhado nosso espião; por aqui se vê a riqueza deste título, por comparação com a quase pedante opção da edição portuguesa.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um agente secreto de Hitler, um assassino frio e profissional com o nome de código «Agulha», vê-se envolvido na manobra de diversão dos aliados que antecede o desembarque militar em França. Estamos em 1944, a semanas do Dia D.
O Estilete Assassino é um arrebatador bestseller internacional em que o destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Homem de Sampetersburgo - Ken Follett


Comentário:
Indo diretamente ao assunto: todos os grandes autores têm obras menores e esta (daquilo que conheço) é uma das obras menores de Ken Follett. Obviamente, isto tem uma explicação: é um livro de início de carreira, escrito em 1982. No entanto, aquilo que constitui obra menor para um génio como este, seria considerado um bom livro para um escritor menor. Perante livros monumentais como a Trilogia o Século e principalmente Os Pilares da Terra, este Homem de Sampetersburgo é um livro situado num patamar bem inferior mas não deixa de ter qualidade.
Antes de mais nada convém salientar a eterna paixão de Follett pela História. Mais do que um escritor de romances históricos, ele é exemplar na forma com não se limita a buscar na História um cenário para os seus enredos mas sim na reflexão sobre grandes temas do nosso passado. Neste caso, o enquadramento é fornecido por uma época riquíssima para qualquer escritor: o início do século XX com as suas imensas intrigas políticas que haveriam de conduzir a dois acontecimentos de charneira na história do nosso mundo: a Revolução Soviética e a Primeira Guerra Mundial que agora comemora o seu primeiro centenário.
Alguma ingenuidade típica de um escritor novato fica bem patente nas coincidências mirabolantes que encontramos no enredo, bem como parentescos que se revelam de forma incrível. Estes traços novelísticos vão emergindo em crescendo ao longo da obra, deixando a dimensão histórica e historiográfica para segundo plano, o que não deixa de decepcionar o leitor minimamente conhecedor da obra deste escritor genial. Da mesma forma se desiludem os leitores que procuravam neste romance aquilo que ele prometia à partida: um livro de espionagem e de intriga política; esses traços estão lá, mas vão-se esfumando, em favor da novela.
Mesmo assim não deixam de marcar já presença aqueles que se tornariam os traços mais marcantes da escrita de Follett: uma simbiose perfeita entre História e estória, entre realidade e ficção.
Outro traço muito positivo é a seriedade e a frontalidade com que o autor traça um quadro crítico e por vezes satírico em relação ao moralismo burguês tão em voga naquela época, a que se convencionou chamar Belle Epoque mas que haveria apenas de ser o prelúdio de uma das maiores tragédias humanas da história: a Primeira Guerra Mundial.

Sinopse
1914: a Alemanha prepara-se para a guerra e os aliados constroem as suas defesas. Ambos os lados precisam da Rússia. O Duque de Walden e Winston Churchill planeiam, em total segredo, uma aliança russa mas um homem infiltra-se em Inglaterra com a intenção de deixar a sua marca na História e deixar o país a seus pés…
in  www.wook.pt

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

No Limiar da Eternidade - Ken Follett


Com mais de mil páginas, este terceiro volume da trilogia O Século vem apenas confirmar a magnífica saga que Follett foi capaz de construir. Continuo convencido que não conseguiu, nesta obra, ultrapassar esse festival de criatividade e de genialidade que conseguiu em Os Pilares da Terra; mas fez mais uma magnífica obra de arte.
No meu comentário ao primeiro volume enunciei um certo paralelismo com o Guerra e Paz de Tolstoi; também aqui há 5 famílias em torno de um século. Mas talvez seja injusto comparar as duas obras; se a genialidade do grande russo parece inultrapassável, também é verdade que o projeto de Follett era ainda mais ambicioso porque pretendia abordar o mundo todo num século inteiro. Obviamente, algo haveria de ficar de fora; a seleção dos factos abordados teria necessariamente de ser subjetiva e cada um de nós terá sempre um dedo a apontar a Follett porque se esqueceu ou desprezou algo. Também eu fiquei um pouco decepcionado por neste terceiro volume a França e a construção da União Europeia terem ficado para trás. E sobre Portugal não há sequer uma palavra.
Já que estamos a falar naquilo que desagradou, deixo apenas uma nota sobre a inevitável parcialidade do escritor. É absolutamente injusto exigir imparcialidade a um escritor de ficção histórica. Follett assume uma clara simpatia pela ideologia social democrata europeia, de centro esquerda, apologista do chamado Estado Social. E acho que fez bem :) Por outro lado é claro o seu patriotismo, ao deixar sempre muito clara a simpatia pelas terras de Sua Majestade. Inevitável...
Mas passemos aos aspetos mais geniais da obra:
Em primeiro lugar, o título. No Limiar da Eternidade parece-me um titulo genial pela ambivalência que encerra: na segunda metade do século XX, o mundo esteve perto da extinção; perto da eternidade. Mas, por outro lado, caminhamos um pouco mais em direção ao Paraíso. O final feliz, com a queda do muro e, depois, a eleição de Obama parece indicar um certo caminho para o felicidade.
Durante a leitura deste livro veio-me várias vezes à memória um tema musical belíssimo, Russians, de Sting:

Mr. Reagan says we will protect you
I don't subscribe to this point of view
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

We share the same biology
Regardless of ideology
What might save us, me, and you
Is if the Russians love their children too

O livro não deixa de trazer uma mensagem de esperança, entre tantas guerras e desgraças. Nunca o autor caiu no erro de confundir os povos com o egoísmo e a cegueira dos seus lideres; os russos, como os alemães de leste, húngaros, etc., foram vítimas, assim como os negros na América, por exemplo, porque a injustiça nunca foi exclusiva dos países de leste.
É genial o paralelismo entre os assistentes de Kennedy e de Krutchev: não há bons nem maus; há apenas duas máquinas paralelas, preparadas para manter o equilíbrio precário de que o mundo depende.
De um lado e do outro, mantêm-se lutas ferozes pelo poder. E nesta luta desenfreada, a falta de ética, o recurso a maquinações obscuras, também não são exclusivas dos países comunistas. Por todo o lado pulula o arrivismo, a ambição desmedida e uma preocupação apenas: o sucesso pessoal, obtido a todo o custo.
Grande parte do enredo deste livro é dedicado à luta pela igualdade de direitos no que respeita ao racismo americano, à luta heróica de Martin Luther King, num processo que não termina com a morte desse grande ícone mas com a vitória triunfal de Obama, com que finaliza o livro.
Em termos de estilo, este livro é magnífico pela forma límpida e ultra objetiva com que Follett escreve; as estórias fabulosas de personagens magnificamente construídos, como Walli e Dave, o meu personagem preferido, mostram a razão pela qual este escritor bate todos os recordes de vendas: ele dá ao público aquilo que o público mais procura: estórias fantásticas mas credíveis; acontecimentos mirabolantes mas reais - que aconteceram ou que podiam ter acontecido. E uma tremenda sensibilidade para abordar os sentimentos humanos e o sofrimento dos injustiçados. Follett tem a o saber de um mestre e a sensibilidade de um artista. Um grande humanista e um enorme artista.
Lê-se Follett como quem lê História, mas com a vantagem de ler com um enorme prazer.
Finalmente, um dos aspetos mais belos do livro: a forma como a arte, neste caso a música, é apresentada como símbolo da paz, da felicidade e da harmonia entre os povos.
Em conclusão: esta trilogia é um dos momentos mais altos da história da literatura contemporânea. 
E que ninguém se assuste com estas quase 3000 páginas; estes 3 livros lêem-se com um enorme prazer!




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Preço do dinheiro - Ken Follett



Sinopse:
Um político acorda com uma bela mulher ao seu lado; um criminoso faz uma reunião com a sua equipa; um magnata toma o pequeno-almoço com um alto funcionário bancário. E depois três histórias nascem: uma tentativa de suicídio, um sequestro e uma oferta pública de aquisição. Parecem ações isoladas, sem relação umas com as outras, até que certo jornalista do Evening Post começa a fazer perguntas e a desvendar uma conspiração bem mais ampla que envolve todos estes elementos. Um dos mais aclamados livros de Ken Follet, cuja narrativa se desenrola ao longo de um dia num jornal vespertino de Londres e põe a nu com mestria as interligações entre o crime, a alta finança e o jornalismo.
(inWook.pt)

Comentário:
Se há autor que tem galgado posições no meu top pessoal de preferências, esse autor é Ken Follett.
O grande senhor de Os Pilares da Terra é, aos 65 anos, um dos mais versáteis dos grandes ficcionistas contemporâneos. Poucos como Follett exploram universos ficcionais tão distintos. Depois de ter descoberto o imenso manancial proporcionado pelo romance histórico, Follett parece ter fixado aí o seu foco. No entanto, ao longo da carreira navegou por vários outros universos. E foi por isso que empreendi esta leitura com grande expetativa, tendo em conta que se trata de uma da primeiras obras de Follett. Aliás, este livro foi publicado em 1977 sob um pseudónimo diferente: Zachary Stone.
O caráter pioneiro deste livro fica bem patente numa abordagem algo ingénua, de um tema muito explorado: a criminalidade da alta finança, por oposição a uma pequena criminalidade quase desculpável e mesmo apresentada com alguma simpatia.
No entanto, este livro, escrito por Follett aos 29 anos, denota já alguns nítidos traços de génio:
O primeiro desses aspetos é a visão bem nítida de uma comunicação social poderosa mas ao mesmo tempo sensível e exposta ao mundo da grande criminalidade. Fica claro que a Comunicação Social constitui um poder extraordinário na divulgação de factos e mesmo no desmascarar de criminosos mas, ao mesmo tempo, ela é o alvo prioritário dos grandes malfeitores; a grande criminalidade sabe que tem de controlar a comunicação social.
O segundo aspeto interessante desse jovem escritor de 1977 é a análise psicológica e sociológica da pequena criminalidade, organizada em grupos de criminosos que não passam de “peões” perante os grandes criminosos de colarinho branco.
Globalmente, é um livro que se lê com muito agrado, uma daquelas obras que nos faz passar uma insónia agradável mas que, mesmo assim, nos pode explicar algo sobre o lado negro do sistema capitalista liberal; está em causa o poder das grandes finanças mas também a falta de ética de alguns senhores da grande finança que não hesitam em recorrer aos meios mais criminosos para atingir os seus objetivos.
Uma nota de simpatia para esta coleção de livros de Bolso da Bertrand, que nos permite o acesso a excelentes obras literárias a preços bem simpáticos. É isto que faz falta em Portugal.

domingo, 24 de novembro de 2013

Os Pilares da Terra - Ken Follett


Quando li os dois primeiros livros da trilogia O Século, deste autor, fiquei um pouco decepcionado. Não que a obra tenha pouca qualidade, nada disso. Simplesmente esperava ainda mais. Fiquei nessa altura com a sensação que Follett tinha pretendido fazer uma espécie de Guerra e Paz do século XX, ficando muito preso a esse modelo e, por outro lado, prendendo-se demasiado à verdade histórica e mesmo assim falhando em alguns aspetos.
Nada disso acontece em Os Pilares da Terra.
Aqui aconteceu magia. Aconteceu uma verdade histórica refinadamente retratada e uma criatividade fantástica, num ritmo narrativo alucinante.
Ler estas 1100 páginas foi uma aventura demasiado breve. O leitor é embalado neste ritmo narrativo e, de repente, está no fim do livro.
Antes de mais, uma nota muito positiva para a forma tão verossímil como o autor nos descreve as misérias daqueles tempos (século XII); de como essas misérias, geradoras de uma tremenda violência, eram causadas por profundas desigualdades sociais.
No meio de um ambiente de miséria e injustiça, levantam-se os mosteiros como uma espécie de oásis na desgraça. Os monges beneditinos são, aqui, testemunho do interesse do autor pela história da igreja, mostrando-nos o clero regular como um local onde resta a mais pura bondade e humanidade mas também um microcosmos de todas as misérias do mundo.
No entanto, é nesse microcosmos que se erguerá o símbolo maior da força da humanidade: a pedra que testemunhará o sacrifício, o sofrimento, mas também a coragem e a força do ser humano: a catedral; a maior catedral do mundo.
O cenário político da obra situa-se a partir do final do conturbado reinado de Henrique I de Inglaterra. A sua morte, precedida de conturbados acontecimentos de rebeliões e traições, mergulhou a Inglaterra numa autêntica guerra civil, um período de caos que beneficiou os grande senhores da aristocracia da terra, mergulhando a população servil numa miséria e violência que servem de pano de fundo à odisseia dos personagens desta obra.
O clero assume, na narrativa de Follett, um papel bastante ambivalente; se os monges são o último reduto da caridade e da bondade, não é menos verdade que a igreja se deixa mergulhar no oportunismo, na cobiça dos bens materiais e, pior que isso, nas mais soezes maquinações da guerra política, no acesso às benesses do poder.
O herói do livro, o monge Philip, é uma espécie de síntese entre o humanismo e a necessidade de acompanhar as maquinações politicas. É genial a forma como Follett expõe o processo que levou Philip, um monge honesto, a aceitar negociatas mais ou menos obscuras para se tornar prior e levar a cabo os seus sonhos.
Ao longo do livro deparamos com uma espécie de psicanálise da mente criminosa: de como as injustiças sociais e as condições económicas (miséria material) conduzem ao crime.
Por um lado retrata-se uma Idade Média que nos arrepia pela violência, pela devastação e pela crueldade humana; mas, por outro lado, é nesta Idade Média que encontramos todo a força que o ser humano pode demonstrar, todo o poder de se reerguer, de triunfar mesmo por entre as mais catastróficas adversidades. É entre o sangue e o sofrimento de todo um povo que se erguem, imponentes, as torres e as naves das catedrais.
O enredo deste livro testemunha-nos o triunfo do gótico, esse estilo triunfal que marcou a baixa idade média; Saint-Dennis, essa magnifica catedral parisiense construída pelo célebre abade Suger serviu de modelo para a Notre Damme mas também para a catedral de Kingsbridge que o nosso herói vai construindo.
Uma religiosidade extrema, por vezes totalmente irracional, em que o diabo tem tanto poder como Deus dá o contexto para um mundo em que os homens se assumem como deuses ou demónios. Talvez nessa ambivalência do ser humano resida um dos motivos deste misterioso encanto que a Idade Média desperta em nós.
Não me permito falar do final do livro, para proteger o interesse de futuros leitores deste livro; no entanto não resisto a dizer que é um final grandioso, triunfal e espetacular. Mas também profundamente simbólico: o triunfo do povo. E do espírito sobre a pedra.

Imagem daqui:

(elenco e cenário da série televisiva britânica)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Inverno do Mundo - Ken Follett




Sinopse
Depois do extraordinário êxito de repercussão internacional alcançado pelo primeiro livro desta trilogia, A Queda dos Gigantes, retomamos a história no ponto onde a deixámos. A segunda geração das cinco famílias cujas vidas acompanhámos no primeiro volume assume pouco a pouco o protagonismo, a par de figuras históricas e no contexto das situações reais, desde a ascensão do Terceiro Reich, através da Guerra Civil de Espanha, durante a luta feroz entre os Aliados e as potências do Eixo, o Holocausto, o começo da era atómica inaugurada em Hiroxima e Nagasáqui, até ao início da Guerra Fria. Como no volume anterior, a totalidade do quadro é-nos oferecido como um vasto fresco que evolui a um ritmo de complexidade sempre crescente.
Comentário
A análise que fiz do primeiro volume desta trilogia já revelou que não me tornei um adepto incondicional de Follett. Não vou dizer que é um mau livro, nem sequer um livro vulgar. Mas não é uma obra de exceção. Este segundo volume não me entusiasmou muito mais que o primeiro, embora reconheça uma maior fidelidade histórica e um pouco mais de criatividade no domínio ficcional.
Follett tem nestes três volumes um projeto muito ambicioso: sintetizar a história europeia do século XX (ou pelo menos os seus principais momentos) envolvendo-a num plano de ficção construído em torno de cinco famílias de diversas nacionalidades. Assim, torna-se incontornável a comparação com Guerra e Paz, essa obra imortal de Tolstoi. No entanto, não era difícil adivinhar que a obra de Follett fica a perder. Por um lado, o âmbito cronológico da obra é imenso, em comparação com o muito mais restrito espaço temporal de Tolstoi; por outro lado, em termos de ficção, o enredo parece-me demasiado previsível e recheado de lugares comuns: casamentos e divórcios, triângulos amorosos, desencontros e reencontros nas circunstâncias mais inesperadas (as famigeradas coincidências que têm sempre as “costas largas”).
Não quero com isto, de maneira nenhuma depreciar a obra, até porque ela tem o imenso valor de divulgar fenómenos históricos que precisam sempre e cada vez mais de ser relembrados, nesta época de incertezas que vivemos. Na verdade, o século XX, o século do povo na feliz expressão de Mário Soares, foi também um século de imensas desgraças. Melhor dizendo, um século de enormes erros humanos que custaram a vida a milhões de pessoas. Foi um século de extremos; de imensa e belíssima criatividade artística, de inacreditáveis progressos tecnológicos mas também foi o século em que mais de cem milhões de pessoas morreram em guerras. Cerca de trinta destes cem milhões morreram nos dois conflitos bélicos que este volume aborda: a guerra civil espanhola e a segunda guerra mundial; duas desgraças provocadas, em grande parte pela loucura insana de alguns líderes políticos, como Hitler, Mussolini, Franco, Estaline, etc.
Neste âmbito mais pedagógico, de divulgação do conhecimento histórico, esta obra tem imenso valor. A isto podemos somar um esforço louvável e bem conseguido de isenção na análise, se bem que a simpatia do autor pelas ideias de esquerda me pareça clara.
Trata-se, e suma de uma obra que devia ser lida por todos os estudantes de História e por todos os que se intessam pela história do século XX, bem como pela evolução das ideias políticas no mundo contemporâneo. Muitos assuntos mais pontuais me levam a valorizar ainda mais o livro: a análise fria e límpida do papel de Churchill no desfecho da guerra, a análise dos movimentos fascistas nos países democráticos, a compreensão correta do drama dos súbditos da ditadura estalinista na URSS, o heroísmo da resistência francesa, o papel assinalável dos voluntários no trabalho humanitário de socorro às vítimas da guerra, etc. etc. Numa apreciação muito subjetiva devo dizer que a dimensão histórica me fascinou, ao contrário do enredo ficcional; mas nem assim deixa de ser uma obra de qualidade e de leitura muito fácil.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Vale dos Cinco Leões - Ken Follett

Depois de ter lido A Queda dos Gigantes (do mesmo autor) sem que tenha correspondido às minhas expectativas, empreendi esta leitura na esperança de rever “em alta” a minha opinião sobre este escritor de enorme sucesso. Mas, saí ainda mais desiludido.
Com a guerra do Afeganistão como pano de fundo, Jane, casada com um médico francês que depois se revela espião russo, está no meio de um triângulo amoroso que é completado por Ellis, um espião americano. O cliché perfeito! Entre pactos secretos, ameaças, atentados, fugas, aventuras e tudo o mais que compõe um romance de aventuras e espionagem, compõe-se assim o ramalhete de um enredo previsível, com emoção mas sem nada de novo dentro do género.
Se bem que a leitura seja agradável e o enredo atractivo, nada nos surpreende, nada consegue empolgar um leitor minimamente experimentado neste género literário. Se é verdade que há capítulos cheios de emoção, que levam o leitor a devorar as páginas, também é verdade que Follett, por vezes, se perde em descrições maçadoras e absolutamente inúteis. Fiquei com a sensação clara que esta estória, com 500 páginas se poderia contar em menos de metade do espaço.
Mesmo assim, há um lado bastante positivo neste livro: o conhecimento que podemos adquirir desse conflito tão estranho e dramático que foi a invasão do Afeganistão pela União Soviética. Mesmo assim, esse aspecto didáctico fica manchado pelo habitual maniqueísmo que coloca os americanos do lado das forças do bem e os soviéticos como a encarnação do mal. A História já nos deu muitas provas de como o mal nunca está apenas de um dos lados.
Em suma, um livro que pode ser uma leitura agradável e despretensiosa, ideal para ler em férias, mas com a qual pouco se aprende.
Avaliação pessoal: 6.5/10

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Queda dos Gigantes - Ken Follett

Há muito tempo não encontrava um livro que tentasse de forma tão declarada cruzar a realidade histórica com a ficção. O risco que Follett correu foi enorme. A História, ainda mais numa época tão polémica como a da Primeira Guerra Mundial dificilmente se compadece com esta miscelânea de factos e estórias.
A ideia base faz lembrar o eterno Guerra e Paz. No entanto, nem a ficção se aproxima da criatividade e simbolismo de Tolstoi nem a análise histórica faz sombra à clarividência e profundidade do mestre russo.
Ao longo de quase mil páginas, Follett parte para esta abordagem com um enquadramento de cinco famílias em locais estrategicamente significativos:
- A família do jovem mineiro Billy, em Gales, que representa a grande massa anónima que faz as guerras, faz a História e alimenta o mundo; Billy, a irmã Ethel, “guerreira” pela causa sufragista e o pai sindicalista simbolizam a classe operária explorada e, no entanto, triunfadora na entrada da modernidade que o século XX viria anunciar.
- A família de Fitz, inglês, representa a aristocracia tradicional, conservadora e arreigada ao preconceito, alimentando-se da injustiça social.
- A família de Walther, alemão, alto funcionário governamental, envolve o mais tacanho tradicionalismo alemão, representado pelo pai, Otto, em contraste com as ideias modernas, democráticas de Walther.
- A família Pechkov, na Rússia acompanha todo o processo conturbado de derrube do regime czarista e de instauração do bolchevismo soviético. Grigori é o revolucionário convicto, vítima das maiores atrocidades por parte do czarismo e Lev é o irmão oportunista que envereda pela trafulhice mais pérfida como forma de afirmação pessoal e vingança perante um passado de injustiça.
- Nos Estados Unidos da América, Gus, assistente do presidente Wilson é a imagem da América como a terra prometida dos tempos modernos, o país cor de rosa em que todos os sonhos são possíveis.
Por detrás da história de ficção, Follett apresenta-nos uma análise histórica que, em alguns aspectos, se revela muito interessante e inovadora:
Os destinos do mundo, por vezes, dependem de conveniências pessoais; veja-se como alguns personagens são contra a guerra porque estão apaixonados; outros são a favor do conflito por egoísmo, vaidade ou por conveniência pessoal.
Também a Guerra civil na Rússia, como outras guerras, é movida por interesses. Aliás, um dos méritos deste livro reside na atenção dada a um aspecto que a historiografia tem desprezado: o apoio (absurdo em termos ideológicos) da Alemanha ao bolchevismo e da Inglaterra às forças contra-revolucionárias.
O autor opta por aproximar perigosamente os personagens ficcionais aos reais, causando situações pouco verosímeis, como a conversa do soldado Grigori com Kerenski ou de Lenine com os conservadores alemães.
A tentativa de fidelidade histórica é por vezes obsessiva, o que retira interesse à narrativa ficcional. Follett procura, até à exaustão, ser rigoroso historicamente; isso leva-o a descrições demasiado pormenorizadas, principalmente da situação política na Rússia.
Pelo contrário, despreza por completo os inúmeros combates que se deram nas colónias, principalmente em África. Nem sequer refere esse aspecto, o que constitui uma lacuna grave.
O autor cai também em alguns exageros, como a importância da aviação na primeira guerra mundial (estava nos primórdios), a importância dos submarinos e o apoio financeiro (pouco verosímil) dos conservadores alemães a Lenine.
No final da guerra fica a ideia de um certo idealismo em relação aos EUA – o país onde um politico pode casar com uma jornalista anarquista; o país da liberdade e da prosperidade. No entanto, esse é também o país onde Lev se torna o criminoso triunfante.
Como curiosidade, gostava de realçar o desprezo total pela participação portuguesa na guerra. Portugal só é referido uma vez e em termos muito depreciativos: o delegado português à Conferência da Paz intervém uma vez para solicitar que o texto final inclua uma referência a Deus, sendo por isso alvo de chacota por parte dos outros delegados. Afinal de contas nada de estranho se considerarmos que Follett é inglês…
No final da obra sobressai a grande ideia que se assume como uma espécie de lição de moral: o fim da Primeira Guerra Mundial lança o início da segunda; os vencedores da guerra procuraram cobrar à Alemanha todas as despesas e prejuízos, numa atitude de arrogância vingativa que acabou por alimentar o grande monstro chamado Nazismo.
E o mundo pagaria caro por essa arrogância.
A quem interessar esta temática aconselho o filme baseado na obra magnífica de Erich Maria Remarque, "A Oeste Nada de Novo". Algumas cenas do filme: