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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tudo é e não é - Manuel Alegre




Sinopse:


«Estarei acordado, estarei a sonhar? Nunca mais conseguirei saber. Shakespeare sabia: "Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos."»
António Valadares, escritor, vive submerso num sonho obsessivo e recorrente, de onde não há fuga possível. Numa derradeira tentativa de encontrar um sentido naquilo que não o tem, aventura-se a escrever sobre a sua vida onírica. Tem assim início uma viagem a um mundo repleto de situações ilógicas e incontroláveis, de intrigas e contradições; um mundo onde personagens reais e fictícias convivem e se fundem.
O que ele não prevê é que o seu empenho em narrar o inenarrável o aprisionará num caleidoscópio de sonhos e obsessões onde realidade e sonho, sonho e ficção já não se distinguem e o próprio espaço e tempo são subvertidos, desde a discussão com Lenine e Trotsky em plena revolução russa até às manifestações em Lisboa e à Mão Invisível que invade a vida e o sonho.

Comentário:

Para além de António Lobo Antunes, estou convencido que há em Portugal dois nomes enormes que não digo serem candidatos ao Nobel porque este prémio há muito está desvirtuado mas que são, com todo o mérito, expoentes máximos da nossa literatura. Refiro-me a Mário de Carvalho e a este sempre magistral Manuel Alegre.
Este é o seu último romance. Como sempre, contido nas palavras que não nas emoções; sintético no dizer, expansivo no deixar transbordar a alma. Alma de poeta, sem dúvida, alma de gente grande que soube enfrentar os tormentos do obscurantismo que avassalou Portugal noutros tempos. Mais uma vez, Alegre presenteia-nos com uma escrita magnífica.
No entanto, em termos de qualidade literária, este livro não traz nada de novo. Simplesmente porque a imensa obra literária de Alegre já não deixa margem para grandes novidades. Quem começar as leituras deste autor com este livro, poderá sem dúvida acha-lo excelente; no entanto, quem conhece a sua obra já não se deixa surpreender.
Mesmo assim, em termos de mensagem, esta obra traz algo de novo: traz-nos um Manuel Alegre mais introspetivo que nunca. Será o pensar no fim do caminho? Espero bem que não, mas há aqui algo de profundamente melancólico.
O acento tónico deste livro são os sonhos; mas não se trata aqui de um sonhar voltado para o futuro; trata-se de fantasmas revividos, de manchas do passado, de fragmentos de memória que assaltam o narrador. Sonhos, ficção e realidade: o sonho como uma espécie de ilha, ou de meio caminho, ou ainda de território híbrido entre a ficção e a realidade.
É nestes espaços duvidosos, lamacentos, de fronteira, que o narrador vive, procurando o amigo psicanalista como a única pessoa que o poderá ajudar a viver, interpretando os seus sonhos.
Se há desânimo neste livro não sei, deixo a palavra aos críticos literários. Amargura, angustia, isso sim. É um Manuel Alegre ainda à procura de um autocarro…
Finalizo o meu comentário dizendo que se há aspeto do carater de Manuel Alegre que se mantém poderoso é o seu espírito crítico; e nem os “deuses” da literatura lhe escapam:
Nunca Marx foi tão atual, os governos são conselhos de administração dos especuladores. Mas a literatura é dominada por pseudomarginais que são um poder oculto e mafioso, não é melhor que o da política e dos negócios, é mais hipócrita, domina as páginas literárias, distribui prémios aos compadres, é uma outra forma de censura e totalitarismo.”

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Rafael - Manuel Alegre




 Sinopse:
Andará de casa em casa, de hotel em hotel, mudará o nome, mudará o rosto, deixará crescer o bigode, usará óculos sem lentes, um passaporte para os hotéis, outro para viajar, em cada novo documento um nome e uma profissão diferente, está clandestino dentro de si mesmo, perdeu os sítios, as referências, a identidade.
É ele e já não é, não usa o nome próprio, tem quatro ou cinco pseudónimos que são um ou outros, heterónimos do desaparecido que traz dentro de si, ora é francês, ora espanhol, ora argelino, ele é sozinho, não propriamente, como queria o outro, uma literatura, mas uma nova brigada internacional.

Comentário:
Rafael é, em grande parte, um livro autobiográfico. Nele Manuel Alegre exprime grande parte das angústias e dificuldades de um exilado no tempo do Estado Novo, como foi Rafael e como foi Manuel Alegre.
O exilado é aquele que escolheu uma das formas de luta mais difíceis que se pode imaginar, porque ele contará sempre com mais um adversário: ele próprio, a sua consciencia, o seu sentido do dever, a utilidade da sua luta, o significado das ideias que defende. E, acima de tudo, a certeza de um ideal que nem semrpe é inabalável. Tudo isto, por vezes, agravado pelo drama da queda dos ideais, como aconteceu com o desmascarar do Estalinismo em plena época de esperança.
Muitas vezes é apontado a Manuel Alegre o facto de nunca ter lutado na guerra colonial e ter optado pelo exílio em vez da luta no terreno, como fizeram outros heróis da resistência, como Álvaro Cunhal. No entanto, neste livro como em muitos outros testemunhos, Alegre mostra-nos como é fundamental o papel do exilado, o homem que vive e sofre longe daqueles que ama mas também longe daqueles que gostava de enfrentar.
Mas mais do que isso, mais do que qualquer leitura política, este livro é um testemunho poderoso da luta de um homem contra a sua própria solidão e contra o seu próprio destino. É um livro terrivelmente bem, escrito. Poucos em Portugal escrevem como Manuel Alegre: trazendo para a prosa toda a musicalidade da poesia, com frase diretas, simples mas de uma grande beleza. Por outro lado, o encanto da escrita de Alegre deve-se também ao assumir da subjetividade, a esse escrever com sentimento, com Alma, como pouco conseguem.
Finalmente, um aspeto que me agrada sobremaneira nestes grandes escritores da “velha guarda" da literatura portuguesa como Manuel Alegre ou Mário de Carvalho, é não caírem no pessimismo nem se refugiarem em tons de cinzento ou de negro, como forma de tornar as suas mensagens mais atrativas. Infelizmente, parece ser uma tendência dos jovens sucessos literários esconderem-se no dramatismo de faca e alguidar. Não é isso que faz Manuel Alegre; a sua escrita, sentida, límpida e objetiva não cai nunca no dramalhão nem no catastrofismo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Alma - Manuel Alegre

Alma é uma aldeia fictícia, algures no distrito de Aveiro, no sopé da serra do Caramulo.
O enredo é-nos contado na primeira pessoa por uma criança. Este aspecto dá, desde logo, um certo encanto ao livro: os anos 40 vistos por uma criança; a guerra civil espanhola, ainda os ecos da oposição entre republicanos e monárquicos, a segunda guerra mundial, com os seus heróis, a resistência francesa, as vitórias dos aliados.
Naquela altura já o fantasma de Salazar atormentava as consciências e as vidas; a esperança, no entanto, ainda estava bem viva e naqueles tempos ainda residia no MUD e na campanha de Norton de Matos. No entanto, havia coisas que uma criança tinha muitas dificuldades em compreender: as prisões arbitrárias e as perseguições da PIDE eram inexplicáveis para o jovem Duarte, assim como a miséria de alguns; Duarte pertencia a uma família mais ou manos abastada, mas não compreendia porque é que alguns não tinham sapatos, roupas ou até comida. E ninguém lhe dava respostas; talvez porque ninguém as tivesse, excepto Salazar.
Os comícios da oposição, ainda mais ou menos tolerados. Uma espécie de festa popular que se misturava com o futebol regional, cheio de alegria e pancadaria.
Na escola, a palmatória estava sempre pronta. O professor era uma autoridade mais incontestável do que Salazar.
Ao longo do livro vamo-nos deliciando com excelentes descrições da vida de uma criança na aldeia, os pássaros, a camaradagem entre miúdos traquinas.
Um humor fantástico, delicioso que por vezes leva o leitor à gargalhada, principalmente na fase inicial do livro. Uma escrita poética mas surpreendentemente leve e graciosa. O livro ideal para férias, embora não deixe de ser um singelo documento da história de Portugal no Estado Novo.
Avaliação Pessoal: 9/10