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sábado, 27 de dezembro de 2014

AvóDezanove e o Segredo do Soviético - Ondjaki

Comentário:
À medida que vou avançando para o interior da obra de Ondjaki, menos provável se torna a hipótese de um dia me dececionar. Todos (ou quase todos) os génios da literatura têm um ou outro livro que nos desagrada. Neste maravilhoso escritor angolano tal parece ser impossível. Impossível não gostar. Impossível não sorrir e não sonhar; impossível não sentir aquela poesia e, acima de tudo, aquela ternura dos meninos de Luanda, a fazer lembrar os Capitães da Areia, ou seja, os Meninos do Rio do Jorge Amado!
As crianças desempenham um papel fulcral nas obras de Ondjaki; e a explicação envolve, entre outros fatores, o facto de o autor ser, ele próprio uma criança, embora tendo já perto de quarenta anos. Mas ele é uma criança no sonho, na esperança, na poesia.
Depois há o humor; com uma estória destas era impossível não sorrir e mesmo ceder à gargalhada sincera. Há pormenores simplesmente hilariantes, como os jacós (papagaios) com as suas sentenças políticas ou frases de telenovela brasileira. Outra nota de humor tem a ver com a alcunha da avó: dezanove. Não vou, obviamente, revelar, mas trata-se de algo que reflete a fineza e essa ingenuidade pueril que tanto enriquece a escrita de Onjaki.
É, portanto, um livro extraordinariamente divertido; e a melhor prova dessa qualidade é o facto de o ter lido praticamente na totalidade durante uma longa sessão de quimioterapia! Mesmo no meio da desgraça, este livro, acreditem, é capaz de nos fazer rir e sorrir.
No entanto, para lá desta dimensão lúdica, há um fundo muito sério no enredo deste livro. Se em Bom Dia Camaradas se elogia a presença dos cooperantes cubanos, neste livro aborda-se numa perspetiva muito crítica a presença dos militares soviéticos na Angola do pós independência. Uma perspetiva crítica que se centra numa hipotética construção de um gigantesco mausoléu para o “camarada presidente”. No entanto, as crianças lideraram a revolta; e o povo haveria de resistir, substituindo a inauguração do mausuléu por um memorável espetáculo.

Sinopse
As obras do Mausoléu que irá albergar os restos mortais do presidente da República estão quase a terminar. Os habitantes do bairro vizinho descobrem que as suas casas serão destruídas porque o espaço circundante ao monumento será requalificado. Duas crianças decidem explodir o Mausoléu e assim poupar o bairro onde sempre viveram. Entretanto o responsável pela obra, um soviético, apaixona-se pela avó de uma das crianças. Entretanto essa avó tem de ser operada para lhe amputarem um dedo do pé. Entretanto existe uma outra avó que aparece muito mas não existe. Entretanto o plano das crianças falha, mas o Mausoléu é destruído…
in www.wook.pt

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Os Transparentes - Ondjaki



Sinopse:
Ondjaki, o escritor angolano já bem conhecido do público por obras como o assobiador (2002), quantas madrugadas tem a noite (2004), os da minha rua (2007), AvóDezanove e o segredo do soviético (2008), entre outros títulos, sempre colocou Angola, e em particular Luanda, de onde é natural, no centro da sua escrita.
Com o presente romance, de novo aparece Luanda - a Luanda atual do pós-guerra, das especificidades do seu regime democrático, do «progresso», dos grandes negócios, do «desenrasca» - como pano de fundo de uma história que é um prodígio da imaginação e um retrato social de uma riqueza surpreendente.
Combinando com rara mestria os registos lírico, humorístico e sarcástico, Os Transparentes dá vida a uma vasta galeria de personagens onde encontramos todos os grupos sociais, intercalando magníficos diálogos com sugestivas descrições da cidade degradada e moderna.



Comentário:
 Luanda em fogo: a destruição provocada pela ânsia capitalista. “A nossa vida está quase grelhada”, diz o cego que anseia por saber a cor do fogo e só a conhecerá na última frase do livro. Ele não sabe a cor do fogo porque o rapaz, o vendedor de conchas, não a sabe explicar. Terá de perguntar a uma criança. Eis o ponto de contacto entre este livro e as obras anteriores de Ondjaki: o fascínio pelas crianças, pelo ingénuo e sábio conhecimento infantil. Porque em outros aspetos, este livro marca um certo ponto de viragem na carreira literária deste autor angolano: é a emergência do desencanto, é a morte e o funeral da Ideologia. O desencanto perante o sonho socialista, vencido pelo poder económico.
De facto, este livro é marcado pelo olhar nostálgico sobre uma cidade vendida ao poder económico, à voracidade cega de um capitalismo desumano e descaradamente criminoso.
Embora cheia de humor, esta obra denuncia de forma aberta e direta a inacreditável tirania da corrupção e das ambições desmedidas dos lideres políticos e económicos de Angola: o livro começa e acaba com a destruição pelo fogo, provocada pela própria ambição da riqueza. Mau grado este aspeto cinzento, crítico, o humor é refinado, de cariz popular e exprime-se numa linguagem simples.
A corrupção está por todo o lado; mesmo funcionários menores aproveitam as benesses do poder para extorquir dinheiro aos mais desfavorecidos; assim devorados pela voracidade do sistema, aos pobres resta inventar meios de sobrevivência. Até as doenças, como uma descomunal hérnia de Edu, pode ser motivo para ganhar “algum”.
Na parte final do livro revela-se a explicação para o genial título da obra: os pobres não emagrecem; ficam transparentes: o corpo torna-se leve até não precisar de comer e a leveza do ser levará Odonato ao céu…
Um crítico literário cognominou Ondjaki de “ourives da língua portuguesa”. De facto, o escritor angolano lida com as palavras como se de filigrana se tratasse: com uma precisão esmerada e sem ornamentos inúteis.
Não há dúvida que estamos perante uma obra genial de Ondjaki: mais sóbrio que nas obras anteriores, embora mais pessimista. No entanto, no espírito de quem lê, fica um tom de fantasia a lembrar Saramago e uma certa magia na abordagem do ser humano que prevalece, pairando acima da corrupção, da desumanidade da classe política e da voracidade de capitalistas sem ética. Um retrato mordaz mas profundamente humano de Angola.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bom Dia Camaradas - Ondjaki

Bom dia Camaradas é um belo exercício auto-biográfico em que Ondjaki recorda, na primeira pessoa, momentos fascinantes de uma infância passada na Luanda dos anos oitenta, sob o signo da guerra civil. Publicado pela primeira vez em 2001, este é também um livro que envolve uma crítica mordaz ao regime angolano de José Eduardo dos Santos, que governa Angola desde 1979 até à actualidade (note-se que Ondjaki nasceu em 1977).
Em termos de estilo, esta obra é construída numa linguagem infantil de rara beleza, cheia de humor e da ternura da infância. Encantadora é talvez o melhor adjectivo para esta escrita.
Nesta Angola pós revolução abundam a violência, a propaganda descarada do regime, o racionamento de bens alimentares, as injustiças sociais e a falta de liberdade. No entanto, a feliz inocência das crianças faz com que elas absorvam na totalidade as mensagens de propaganda, tanto subliminares como explícitas, que o regime ditatorial lhes vai inculcando.
Este testemunho vivo é também uma narrativa melancólica de um país onde o colonialismo português foi substituído por uma ditadura dita do povo, onde até os professores cubanos são pobres. É o retrato de uma população desiludida mas acomodada, submissa e completamente dominada pelo medo.
É um livro pequenino mas cheio de conteúdo. Chega a ser comovedora a simpatia de Ondjaki pelo povo e pelas crianças angolanas: “também percebi que, num país, uma coisa é o governo outra coisa é o povo”.
É nítida também a admiração do autor pelos cooperantes cubanos, principalmente os professores, jovens idealistas e mal pagos que transportam consigo o fascinante espírito de Che Guevara: o socialismo internacional, o espírito ingénuo e puro da solidariedade entre os povos, fundamentos de uma verdadeira revolução socialista. Uma bela mensagem, nestes tempos em que países como Angola ou Portugal parece terem desaprendido de vez a beleza da mensagem socialista, conspurcando esta ideologia com a abjecta e interesseira política partidária.

Avaliação pessoal: 9.5/10

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os da Minha Rua - Ondjaki

A coleccção Biis, da Leya e o Plano Nacional de Leitura estão de parabéns pela divulgação deste magnífico livrinho que é mais uma expressão de génio da nova literatura angolana.
Trata-se da história dos meninos de Luanda, com Ndalu como personagem principal, talvez representação autobiográfica do autor. Ndalu é um menino sensível, honesto, traquinas.
Algures nos anos 80 do século XX, Ondjaki apresenta-nos uma Angola que nada tem a ver com o país que a Comunicação Social se habituou a descrever. Não é a Angola das minas, da guerra crónica, da corrupção ou da miséria que a alguns convém propagandear. É a Angola do povo, dos meninos do povo que vivem felizes nas ruas de uma cidade feliz. São os meninos do povo, com a sua imaginação prodigiosa, de onde lhes vem aquele riso e aquela felicidade ingénua. São meninos de prazeres simples, sentimentos profundos e lágrimas fáceis.
É um livrinho escrito com ternura e que se lê com ternura e um sorriso que nos acompanha até à última página; um livro simples como os meninos, onde não há maldade, ódio nem guerra, porque isso são coisas de adultos.
Na infância destes meninos nem sequer é necessário sonhar: a realidade comanda as suas vidas e o seu presente é o quanto lhes basta para serem felizes: os amigos, a telenovela brasileira, o futebol, as brincadeiras e o mundo fantástico que constroem com os “camaradas professores”.
Ao longo do livro sobressaem os sentimentos nobres e profundos das crianças mas também há lugar à tristeza. Não aquela tristeza deprimida que muitos associam a África mas uma tristeza feita de doce melancolia, num tom talvez herdado da saudade portuguesa, como no comovente episódio da despedidas dos camaradas professores cubanos: “a despedida tem cheiro de amizade cinzenta”.
Enfim, um livro cheio de imaginação infantil, numa linguagem quase poética, povoado pela força bruta da amizade que as crianças sabem, como ninguém, alimentar.