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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Galveias - José Luís Peixoto


Comentário:
Sem dúvida um dos melhores romances deste José Luís Peixoto que é um dos melhores escritores portugueses do século XXI. E tal como já escrevi algures, Peixoto vai-se destacando não só pela inegável criatividade e qualidade da escrita como também por uma incrível versatilidade. Se nos fixarmos nos seus melhores livros vamos encontrar obras substancialmente diferentes entre si. Há, evidentemente alguns pontos de contacto, que são as "imagens de marca" do escritor (uma certa nostalgia acinzentada, um tom de escuridão no destino das personagens e uma visão um pouco sombria do mundo) mas há também uma criatividade que nos surpreende em cada livro.
O fator surpresa desta obra encontra-se na ambiência rural, fixada em Galveias, a vila onde nasceu e cresceu o autor, aqui recriada nos anos oitenta do século XX, ou seja, na infância do escritor (a ação decorre em 1984 e Peixoto nasceu em 1974).
A escrita de José Luís Peixoto é fria, cruel, às vezes agreste. Em determinados episódios da narrativa as palavras doem, ferem propositadamente a sensibilidade do leitor, tal é a leitura cruel das desgraças humanas. Porque ruralidade não é só bucolismo, moral e bons costumes; ruralidade também é o pecado sob as suas mais diversas formas: violência doméstica, abuso de menores,maus tratos, alcoolismo, etc.
Mesmo assim, não deixa de ser curioso o sentido de humor, um humor baseado nas incongruências do mundo rural.
Em termos de estrutura, o livro lê-se como um jogo: cada capítulo apresenta-nos uma ação aparentemente desligada das anteriores e, lentamente, o leitor vai encontrando os fios de ligação com os episódios anteriores, formando uma trama que é um cosmos único e fechado: Galveias.
Em termos de enredo, tudo começa com o impacto de um meteorito em Galveias, criando uma cratera e deixando um terrível cheiro a enxofre.É nítido o simbolismo deste acontecimento e, ao mesmo tempo, o seu sentido poético: é o universo que envia uma mensagem a Galveias; o meteorito é o traço de união entre a aldeia e todo o universo. 
Este simbolismo está um pouco por todo o lado ao longo do livro. Por exemplo, o ataque à professora que tenta alfabetizar a população simboliza a recusa do saber, no contexto de uma ruralidade conservadora, aversa a fatores externos, como a educação escolar. No entanto,a razão emerge por outras vias e o episódio termina de forma brilhante, com um belíssimo e artístico desfecho.
Ainda e sempre, as memórias e pesadelos da guerra colonial que ajudou a desgraçar este povo. No entanto, até a mais cruel das injustiças é capaz de espalhar sementes de esperança. Assim foi com Joaquim Janeiro que deixou raízes em África, para lá da guerra.
No coração da ruralidade ficam os animais. Em Galveias, os cães, mesmo vadios, são personagens fundamentais; neles se expressa toda a sensibilidade, todo o humanismo de quem vive em comunhão com a natureza e por isso vive e respira os mesmos dramas e o mesmo sofrimento dos animais. 
Em Galveias são as prostitutas que fazem o pão - duas formas complementares de alimentar a comunidade.
Alguns episódios parecem estranhamente desligados do contexto. Por exemplo, quando a  jovem Raquel perde o colar da bisavó numa discoteca de Lisboa. Mas depressa se compreende a dimensão simbólica - aquele colar é Galveias; é o velho mundo, perdido entre o mundo estridente da cidade.
À medida que nos aproximamos do final, adensa-se o dramatismo. O leitor adivinha destinos trágicos mas não pode alterar a trajetória das personagens que parecem caminhar para a desgraça. Porque a vida é mesmo assim: por vezes caminhamos cegamente para a desgraça. O cheiro a enxofre, odor do inferno, é prenúncio de um qualquer Apocalipse. Desde o dia do meteorito, nove meses antes,não chovia e o cheiro a enxofre era cada vez mais forte. No entanto, no final, a esperança triunfará. porque como escreve Neruda, a primavera é inexorável.

Sinopse (in www.wook.pt):
Galveias está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.
O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo.
Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hoje Não - José Luís Peixoto

Todos os livros de José Luís Peixoto são diferentes. Dos outros e uns dos outros. Neste há smiles risonhos :), uma jovem freak que herda um avião comercial, gente a quem caem os dentes todos de uma vez e por mais de uma vez, um escritor falado na primeira pessoa que confessa escrever em nome de outro (sem que esse outro sequer os leia), smiles tristonhos :(, uma mulher peluda que destroça corações, uma mancha de iogurte nas calças de alguém que por causa disso arruína a sua vida, uma poetisa do Quirquistão e muito mais coisas inauditas que acontecem na vida de qualquer pessoa normal.
O livro é composto por seis contos. O primeiro deles é um verdadeiro hino ao sonho. Uma jovem herda um avião comercial e funda a Legalize Airlines. Só fará um voo. Não terá um único cliente. Não ganhará um tostão. Mas o sonho, esse, realizou-o.
O conto “:) e :(“ é uma história de amor. Uma história desgraçada. Catastrófica mas que, nem assim, destrói a esperança. Não há desgraça que sempre dure e talvez até haja desgraças maiores do que estar apaixonado. Talvez pior que o amor seja a queda de todos os dentes, como acontece com o herói do conto “Biografia sem dentes”.
Versatilidade. É a palavra chave deste livro de Peixoto, um escritor capaz de nos surpreender em cada parágrafo. Um livro pequenino, que se lê de um fôlego e sempre com um sorriso. Quem ler Cemitério de Pianos, Morreste-me e Uma Casa na Escuridão será incapaz de imaginar que Peixoto tem um sentido de humor como o que expõe aqui, brincando com o leitor, como no conto “Fantasma Escritor” em que um jovem escritor, descrito como se do próprio Peixoto se tratasse, se revela apenas um impostor que publica livros escritos por um respeitável e anónimo ancião.

sábado, 2 de outubro de 2010

Livro - José Luís Peixoto

José Luís Peixoto é já um caso sério na literatura portuguesa. Este Livro é a prova definitiva da sua maturidade literária; diria mais, da sua afirmação como o melhor escritor português da actualidade a par de António Lobo Antunes.
Livro é uma obra claramente dividida em duas partes, bem distintas. Na primeira narra-se a saga de Ilídio e Adelaide, num ambiente rural que atravessa os míseros anos da ditadura salazarista. Tempos de miséria e de fome. Fome de pão mas também de liberdade. Para Ilídio e Adelaide a felicidade era proibida pelo preconceito, pelo medo, pela pobreza de pão e de espírito.
Por todo o lado, a PIDE, o medo, a fome e a ignorância.
Neste reino de injustiça e obscurantismo a emigração ilegal para França, estimulada pelo fantasma de uma guerra colonial (que ninguém entendia) surge como a ponte para a salvação. Uma ponte de esperança mas também envolta em medos e perigos.
Ao longo destas páginas, vamos vivendo a luta permanente destes heróis da miséria e sorvendo com emoção a sensibilidade que Peixoto transpõe para as palavras. Mau grado o ambiente negro que se vivia, Peixoto consegue povoar a narrativa com um sentido de humor discreto mas encantador, que não encontramos nas suas obras anteriores. Talvez este seja o livro em que Peixoto melhor consegue encaixar a poesia que o caracteriza numa narrativa cheia de emoção e incerteza para o leitor.
Na segunda parte do Livro, todo o tom da narrativa se modifica: a esperança renasce; a vida adquire tons mais vivos; o mundo ilumina-se. E o marco dessa mudança é o 25 de Abril. O amor de Ilídio e Adelaide ressurgirá finalmente; a vida passa a ser escrita na cor da esperança. O autor do livro brinca com o narrador e com o leitor, em jogos de palavras e de enredo que encantam quem lê, como se diz na contracapa do livro, “onde se ultrapassam as fronteiras da literatura”.
Nesta segunda parte, a qualidade literária da escrita e a sensibilidade do autor foram capazes de fazer estremecer de emoção e assombro este modesto leitor.
Faltam os adjectivos para descrever esta emoção.
Mais do que cativante, mais do que genial, a escrita de Peixoto é absolutamente mágica. Há episódios que me provocaram um arrepiante estado de deslumbramento que nunca sentira em qualquer outro livro. A não ser talvez esse profundo Voyage au but de la nuit que o próprio José Luís Peixoto tão abundantemente refere nesta obra, mas sem cair nos tons negros, quase apocalípticos de Celine.
Em suma, Livro é O Livro! Talvez o melhor livro escrito em Portugal após o Memorial do Convento e Ontem não te vi em Babilónia.
E termino este comentário com a sensação de que faltam palavras; tudo o que poderia escrever seria insuficiente para exprimir a onda de emoção que este livro me provocou.
Obrigado, José Luís Peixoto!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Morreste-me - José Luís Peixoto

Escrito como quem reza, sentido como uma oração, lido e sofrido com uma lágrima hesitante, Morreste-me é uma pequena e bela obra de arte. Bela e triste. Isto leva-me a pensar numa velha questão de filosófica: “pode a beleza ser triste”? Pode, digo eu. Talvez a beleza não esteja na coisa em si, neste caso na escrita, mas no admirável espelho da nossa alma. Um sentimento, uma dor de alma, um sofrimento atroz, são coisas belas quando, admirados, sentimos o nosso próprio espírito abalado. Talvez a arte seja tudo aquilo que mexe connosco. É nesse sentido que Morreste-me é uma belíssima obra de arte.
As palavras de J. L. Peixoto não são feitas de letras. São desenhadas com os átomos da tristeza. São partículas de dor que se juntam para formar dores de alma que irrompem destas páginas e nos invadem o espírito sem piedade.
Peixoto é um génio. Porque escreve bem? Não. Muitos escrevem bem. Mas poucos conseguem escrever a alma. E muito poucos conseguem escrever na alma do leitor. Peixoto invade-a; toma-a de assalto; escraviza-a e tortura-a. Ao ler esta tristeza, o leitor maravilha-se com a própria dor. Como será isto possível? Que estranho prazer é este de sofrer? Ou será apenas a beleza em tons de negro? Expor a dor, partilhá-la com o leitor, mergulhar na escuridão para depois a transportar até quem lê, será essa a beleza destas palavras?
Seja como for, ler Peixoto não é apenas um exercício estético. É descobrir a beleza da escuridão, da dor mais atroz; mas é também vivê-la e revivê-la porque este livro não pode ler-se apenas uma vez.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto

Um livro negro. A história de um escritor que traz o amor e a morte no peito. E os mortos: o pai, a escrava madalena e ela – a que ele ama.
No início, o escritor era uma criança que crescia entre auto-estradas de prateleiras de livros. Pouco tempo depois é um jovem solitário. É nessa solidão que inventa, na escuridão, a mulher que ama, instalando-a na sua mente. Palavras meticulosamente escolhidas e sentidas descrevem um amor apenas sonhado. Mas o mais belo dos amores: um amor sem corpo presente. Uma paixão desmedida, interior mas feliz, rodeada de terror: um pai que agoniza, uma mãe que sofre, uma escrava assassinada com um machado na face. Sofrimentos reais. Só o amor é irreal. Só o amor é feliz; um amor que é “o sangue do sol dentro do sol”.
O pai assassinou a escrava madalena para morrer com ela. O sangue dá significado ao amor. Só a morte o perpetua.
A mão do escritor tremia e ele escrevia. Escrevia-a e lia-a. Vivia-a. Amava-a. Em Novembro havia a luz que “vinha da primavera”. Ele é um escritor lido em todo o mundo, mas é um homem só… só com ela no peito.
O livro – docemente melancólico; apaixonadamente triste, tétrico, como se escrito a lágrimas vermelhas e negras.
A escrita – Peixoto brinca com as palavras como Kandinsky com as cores, que vão do vermelho paixão ao negro morte.
O enredo – uma música suave e melancólica, mortal e cheia de vida.
E lá fora, fora do amor e da escuridão de uma casa povoada de gatos, há a morte que mais tarde irromperá portas a dentro, impiedosa e brutal; há o terror anunciado pelo príncipe de calicatri, mensageiro do amor e da morte, da amizade e do terror. E há o resto do mundo: o medo, o sofrimento e a solidão que estão por todo o lado e se juntam no peito das pessoas.
Perante o horror do mundo, o escritor começa por se refugiar em si mesmo, no amor que traz no coração e na mão que trema ao escrever.
De repente um terror surreal invade as palavras; um vento tempestuoso, avassalador, toma conta das frases. A violência mais extrema, descrita com crueldade, sem piedade do leitor (porque a compaixão não existe no mundo); corpos decepados, corações arrancados à espada, ouvidos e olhos trespassados por agulhas… o leitor, aterrorizado, não consegue não consegue parar de ler porque o sangue é tão forte como o amor.
Os soldados matam e torturam como se cumprissem uma espécie de rito trivial, um parêntesis nas suas vidas, que é igual à de todos os outros. Matam porque a vida deles é matar. Violam as escravas porque a vida deles é violar.
As páginas avançam e o sofrimento atroz ultrapassa todas as fronteiras do suportável, dando lugar ao desespero de existir. O terror incendeia as páginas, apenas interrompidas por citações da Bíbila, do Livro dos Salmos, momentos de solidão extrema… nada impedirá que matem a música, torturem e matem as crianças e decepem os escritores.
Nada impedirá a escuridão.
E depois de tanto sangue, sofrimento, terror e escuridão, é possível encontrar um final encantador neste livro? Sim. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Permitam-me imitar o blog http://adasartesleituras.blogspot.com e citar uma passagem absolutamente fantástica desta obra:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Não tenho dúvidas em afirmar que José Luís Peixoto é um dos escritores contemporâneos cuja escrita mais me fascina. Com nítidas influências de Lobo Antunes e, principalmente de Faulkner, adopta a técnica de multiplos narradores que confere à escrita uma intemporalidade encantadora. O tempo sai claramente vencido. Avô, pai e filho, uma mesma vida; as mesmas angustias, que são as da gente simples, as de todos nós. "Eramos perpétuos uns nos outros", afirma o filho de Francisco.
A obra baseia-se na vida de um maratonista português que morreu, dramaticamente, ao quilómetro 29 da maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Carpinteiro de Profissão, Francisco Lázaro era filho e neto de carpinteiros. Nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a suceder ao seu filho.
Memórias de vidas repetidas formam circulos concêntricos, fazendo-nos olhar a vida como um carrossel de factos que, imperiais, dominam o destino e subjugam a existência. Ao longo de toda a obra, predomina a beleza que só a tristeza pode dar às palavras. O sentir da gente simples, os prazeres e as dores de quem vive à procura da música nunca encontrada dos pianos avariados. A vida como cemitério da música. E um maratonista que corre até à exaustão em busca de um sentido (que não existe) para os círculos concêntricos.
Maria, operária fabril, passava horas lendo romances de amor no cemitério de pianos (espécie de arrecadação onde se guardavam pianos que ficaram por consertar). Maria procura nos livros o sonho que não existe. Mas procura e assim vive; entre sonhos perdidos e musica que não sai dos pianos; esperanças adiadas que não perdidas. Sonhos que são o conforto e o alimento da vida. Maria lê; e quem lê foge sempre de algo; talvez do medo, talvez das memórias, talvez de alguém. Mas vive; refugiando-se num mundo novo, mas mantendo a esperança.
Sempre a esperança do maratonista que corre como vive: à procura do sentido da vida e em fuga; fuga da culpa e do medo, os grandes inimigos da vida: ninguém vive só a sua vida; vive também a dos outros porque as suas atitudes os afectam e condicionam.
No meio de tudo isto, que interessa quem vive e em que tempo? O momento presente encerra todo o passado. É Francisco quem o diz na primeira pessoa: "todo o tempo, anos e décadas que vivi, que não vivi, que viverei e que não viverei, existem neste momento" (página 225). Passado, presente e futuro num único e poderoso agora.