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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Soberba Tentação - Andreia Ferreira



Sinopse:
Depois de descobrir que o sobrenatural não representa um medo irracional e que as criaturas caminham lado a lado com os humanos, Carla tem de enfrentar as consequências do seu envolvimento com o Caael.
Os demónios já deixaram marcas na vida da Ana e da Raquel e a Carla começa a sentir algumas dificuldades em encontrar-se.
Entre lacunas na memória, sentimentos e novas preocupações, surge uma existência virada do avesso com a linha da vida mais ténue do que nunca.
Com a ausência do Caael, assomam revelações que levantam um plano ancestral de uma disputa entre iguais. A Carla vê-se num tabuleiro de xadrez, como um rei isolado, com a rainha a jogar contra ela.

Comentário:
Os demónios existem. Talvez sem querer, a jovem bracarense Andreia Ferreira comprova-o: eles são pedófilos, incendiários, assassinos em série. Existem, para mal dos pecados da humanidade. Mas, coisa curiosa, também existem na ficção e às vezes são bonzinhos. Ou melhor: às vezes tudo fica de pernas par o ar e os demónios viram gente boa e simpática, assim como os anjos (que, como toda a gente sabe também existem) se tornam consideravelmente maus.
Todos nós já vivemos belas experiências com demónios e todos nós já fomos tramados pelos anjos, que por vezes são uns chatos. De tudo isto acontece neste livro segundo, da trilogia “Soberba” de Andreia Ferreira.
A ficção e a realidade, o bem e o mal, o amor e o ódio mais radical, tudo se mistura no conjunto de ambivalências de que a vida é feita.
Alguns pormenores fazem antever um excelente futuro de Andreia Ferreira como escritora: brilhante o contraste entre a folia do S. João e o ambiente de terror no Hospital Psiquiátrico. Em algumas passagens, a precisão descritiva e a economia narrativa permitem construir cenários de verdadeiro terror, sem nunca se perder a dimensão humana e realista da estória: Carla vive situações fantásticas mas não deixa de ser a jovem normal que frequenta uma escola normal e que tem uma família como a nossa.
No entanto, o valor maior da obra, na minha opinião, é a ambivalência de valores a que me referia acima; anjos e demónios, o bem e o mal sempre presentes, lado a lado, por vezes presentes na mesma personagem. A ficção como a vida: bondade e maldade não existem em estado puro na terra. E os maiores anjos, como os maiores demónios, não são de outros mundos; são os de cá. Neste livro, o mais puro dos anjos é bem terreno: é alguém que escapa por completo ao domínio do fantástico – é o jovem Filipe, irmão mais novo de Carla; ele é o verdadeiro anjo bom. No outro extremo, o pior dos demónios é todo ele de carne e osso: Tó, o irmão de Ana, amiga de Carla.
Em suma, trata-se de mais um livro muito agradável de ler, em que o fantástico se apresenta sobre uma forma bem realista e com “pano para mangas” para o terceiro volume da trilogia.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Soberba Escuridão - Andreia Ferreira






Antes de mais nada quero afirmar que este livro constituiu, para mim, uma bela surpresa. O facto de não ser adepto militante da literatura fantástica talvez tenha contribuído para acentuar a surpresa. A ideia geral com que fiquei após a leitura foi esta: a Andreia Ferreira tem futuro na literatura portuguesa. É óbvio que não estamos perante uma obra-prima. Algo falta ainda para que o “caso sério” seja um facto. Mas já lá vamos.
Em primeiro lugar, senti este “Soberba escuridão” como um agradável transporte para o irreal. Esta, creio eu, deve ser a primeira meta de um romance deste género literário. Foi plenamente conseguida: a escrita objetiva, límpida, desprovida de adornos fúteis (como tantas vezes vemos por aí) confere à narrativa esse agradável mérito de levar o leitor a aceitar com facilidade a saída do lógico, rumo a mundos apenas construídos pelo sonho. Ou pesadelo, obviamente.
A fronteira entre o irreal e o real vai-se tornando cada vez mais ténue ao longo da primeira metade do livro para, sensivelmente a partir da primeira centena de páginas o leitor conseguir aceitar o fantástico como fazendo parte de um novo cosmos que Andreia Ferreira pacientemente foi tornando lógico. É este crescendo que, no final, tornará quase inevitável a aceitação de anjos e demónios como personagens lógicas da narrativa.
A tal linha estreita entre a realidade e a ficção é, afinal, algo muito mais natural e diria mesmo trivial do que se imagina. Se refletirmos um pouco, todas as nossas construções mentais, sentimentos ou perceções do mundo são erigidas sobre esse limiar, influenciadas pelos dois lados. É difícil, na nossa vida, separar os dois mundos. Porque haveríamos então de os separar na literatura? A vida de Carla, afinal, não é muito diferente da de qualquer um de nós. Ela foi um pouco mais além do que o comum dos mortais; pisou terrenos desconhecidos para nós. Mas, o que serão esses mundos senão a loucura normal em que todos por vezes navegamos? A loucura, o medo ou o trivial medo da loucura são os terrenos marginais do fantástico que há na vida de todos nós.
Voltando à narrativa: há dois aspetos que, penso, valorizam muito esta obra. Um deles é a leitura perfeita da vida de Carla enquanto adolescente. O mundo da adolescência, nos seus dramas, sonhos e medos, estão perfeitamente retratados nestes personagens. Um outro aspeto que pode parecer lateral mas que encaro como fulcral no livro é a presença do gato. O Pequeno fez-me lembrar algumas das melhores páginas de Murakami: o gato misterioso, adensando mistérios mas também como elemento positivo naquele mundo de pesadelo.
Gostava de terminar como comecei: reafirmando que Andreia Ferreira pode vir a ser um caso sério na literatura portuguesa. Ainda não o é porque falta, na minha opinião, dar o salto para a análise mais aprofundada da alma humana; falta aqui algo de Dostoievski. Ou do nosso José Luís Peixoto. Não o podemos exigir, é óbvio, a uma jovem escritora. Mas será esse o seu desafio: entrar mais fundo no cosmos mental das personagens. Esquartejar sentimentos, conflitos interiores. Sair um pouco da narrativa. Isso levaria Andreia Ferreira a sair do domínio do fantástico. Mas é nisso que consistem as obras-primas: em ultrapassar limites. Estou certo que será esse o caminho desta jovem autora bracarense.