quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Letras no Ocaso - Pedro de Sá



Afirmação “A priori”, incontornável: nunca cultivei o gosto pela narrativa curta, pelo conto ou pela crónica. Ironia capital: escrevo crónicas num jornal. Mas não as leio; às vezes nem para rever o texto.
Feita a confissão, vem a revelação: Pedro de Sá publica neste livrinho um belo punhado de crónicas e de curtas narrativas, num conjunto diversificado, compondo uma obra bem diferente dos seus romances já publicados na mesma editora: “Olhei Para Trás e Sorri” e “Queria Rever o Teu Rosto ao Entardecer”.
Centrados no amor e na amizade, esses romances tinham como grande mérito a viagem profunda à mente e aos sentimentos das personagens. Aqui, neste livro, o propósito não é fazer esses grandes “mergulhos” no âmago das personagens. Um espelho do mundo através da alma; impressões e sensações, mais do que reflexões. Trata-se, apenas, de recolher e relatar impressões; coisas à flor da pele que o comum dos mortais sente todos os dias; coisas por vezes insignificantes mas que nos marcam indelevelmente, de tal forma que se gravam nas profundezas da memória individual. É dessas coisas que nos fala Pedro de Sá neste livro: coisas (apenas) aparentemente triviais…
Exemplo maior de tudo o que escrevi acima é aquela que constitui, a meu ver, a melhor crónica desde livro: “Por favor, diga-me que sim”. Trata-se de uma pequena narrativa em que se relata um episódio capaz de ilustrar bem essa sensibilidade que carateriza o autor e que ele já tinha revelado nas obras anteriores: um casal daquilo a que se convencionou chamar classe média baixa entra num banco para tentar obter um pequeno crédito, que lhes é recusado… o drama de quem nada tem, mas de pouco precisa para ser feliz… este sentido de humanidade, esta sensibilidade, são o valor maior de Pedro de Sá enquanto escritor, associado a um estilo muito eficaz: com clareza na linguagem, sem adereços desnecessários mas sem nunca perder a sensibilidade e a capacidade de apelar à reflexão.
Em resumo, trata-se de um conjunto de pequenos textos que certamente agradarão imenso a quem gosta de narrativas curtas. Pessoalmente, não sendo este o meu género literário preferido, gostei, essencialmente pela forma fácil como Pedro de Sá nos desperta determinadas sensações, lendo-se como quem ouve uma música, talvez dos Led Zeppelin ou de Yann Tiersen e com um interessante toque de Milan Kundera pelo meio…

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Algo Maligno Vem Aí - Ray Bradbury



Sinopse
O espetáculo está prestes a começar. O circo chega pouco depois da meia-noite, nas vésperas do Halloween. O que fariam se os vossos desejos secretos fossem concedidos pelo misterioso líder do circo, o Sr. Dark? O circo a todos chama com promessas sedutoras de juventude eterna e sonhos por cumprir…
Dois amigos adolescentes, Jim Nightshade e Will Halloway, são incapazes de resistir às atrações. A sua curiosidade de rapazes fá-los descobrir o segredo oculto nos labirintos, fumos e espelhos do tenebroso circo.
Inconscientes do perigo em que se veem envolvidos, uma terrível perseguição é posta em marcha e Jim e Will tudo terão que fazer para salvar as suas vidas. Mas, acima de tudo, as próprias almas... 
Comentário:

Ninguém será capaz de negar, goste-se ou não, que o género fantástico tem feito sucesso nos últimos anos. No entanto, este género surge-nos algo difuso nas suas origens. Podemos recuar, a meu ver, a duas géneses distintas: a ficção científica e a literatura de fantasia e aventura iniciada por Júlio Verne. Se a esta mescla juntarmos algo de Edgar Allan Poe teremos uma aproximação às raízes do fantástico do século XX, onde O Senhor dos Anéis e o incontornável Harry Potter forneceram a alavanca decisiva para o triunfo do género.
No meio de todas estas influências há um nome algo esquecido que funcionou como charneira do fantástico: Ray Bradbury. Ele, com dois livros fundamentais para a história da literatura do século XX, marcou a transição a ficção científica para o fantástico. Refiro-me ao inesquecível Fahrenheit 451 e a este “Algo Maligno vem aí”.
O título, retirado de um poema de Shakespeare, denuncia o caráter misterioso e algo negro da obra.
Antes de mais convém chamar a atenção para uma curiosa confusão relacionada com a tradução. Na contracapa desta edição fala-se de um “circo” que chegou à cidade onde se desenvolve a ação. No entanto, o tradutor, ao longo da obra, em vez de “circo” usa o termo “feira”. Confesso que fiquei confuso; aquilo não é um circo nem muito menos uma feira. As descrições minuciosas de Bradbury sugerem uma espécie de “parque de diversões”. Para desfazer a confusão tive o cuidado de consultar o original, verificando que o autor usa o termo “carnival” que, em inglês dos EUA significa “parque de diversões”. Fica então o mistério de descobrir por que razão terá o tradutor preferido a equivoca e confusa palavra “feira”…
Voltando ao livro: um das aspetos mais geniais deste livro é a caraterização das personagens: Jim e Will são duas crianças em que todos nos revemos, à procura de mistérios e aventuras, descobrindo os monstros que há na feira, digo, na vida. Charlie, pai de Will é o adulto que nunca foi criança e procura agora esse novo mundo, onde pudesse, numa palavra, viver. Afinal sem infância não há vida e sem fantasia não há infância.
Com aparência de obra de literatura fantástica, este livro é muito mais do que isso: revela uma visão negra da vida, onde o parque de diversões simboliza um mundo negro para onde as crianças são atraídas mas onde só encontram o mal.
Por outro lado, por todo o livro, o absurdo do tempo – o carrossel que avança e recua na idade dos que o usam, só leva à infelicidade, seja em que idade for. A ilusão de enganar o tempo conduz invariavelmente à desgraça. Seja na vida, seja na morte, tudo é tenebroso; neste “carnival” não há diversão, apenas ambição, ilusão e desilusão.
No final do livro, de forma encantadora, uma luz de alegria: é com o sorriso que o pai de Will vencerá… afinal, no carrossel negro da vida também há redenção…

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

1984 - George Orwell






Eis um livro que marcou indelevelmente a literatura do século XX. É um livro que se lê por vezes de forma dolorosa tal a frieza com que é imaginada uma ditadura impiedosa, que absorve por completo toda a liberdade individual.
O maior mérito de Orwell foi ter construído todo um sistema político de forma que o leitor o reconhece como possível: essa é a maior força do livro, a tenebrosa sensação de viabilidade de um tal sistema.
A manipulação da história sempre foi um poderoso meio de fabricar justificações para a ditadura; aqui, na imaginária (ou nem tanto) Oceânia todo o passado é reescrito, para que o presente seja justificado na “verdade oficial” sempre construída à medida dos interessas do regime. Tudo é transformado, adaptado, de forma a eliminar todo e qualquer vestígio de pensamento autónomo. O ideal seria mesmo o “patofalar” (como se diz na língua oficial da Oceânia – a novilíngua). Trata-se de falar sem sair do trivial; sem qualquer raciocínio ou opinião. Só assim se respeitaria a ortodoxia, porque “ortodoxia é ausência de pensamento”. Neste como noutros pormenores o leitor pensa no paralelismo com as “democracias” atuais…  o ideal é que os “proles” (85% da população) se limite a trabalhar e reproduzir-se. Mesmo assim sem qualquer prazer, porque o prazer retira as energias necessárias ao culto do regime.
Como acontece em qualquer outra ditadura, a propaganda e a repressão são os pilares do sistema. No entanto, o aspeto radical da obra reside nisto: propaganda e repressão atingem limites inacreditáveis: a propaganda deve refazer por completo toda a personalidade do súbdito: a Winston é retirado tudo o que o carateriza como ser humano: pensamentos mas também sentimentos. Tudo é reescrito na alma até que o súbdito ame profundamente o Grande Irmão. Para esse fim a repressão reforça o poder da propaganda: uma repressão capaz de destruir corpo mas também alma.
A Oceânia vive em guerra permanente e pouco importa contra quem; apenas importa que haja guerra porque ela fornece uma razão de ser ao sacrifício individual e à perpetuação do poder. Júlia, a resistente apaixonada por Winston, suspeita que os bombardeamentos da cidade sejam perpetrados pelo próprio governo, para intimidar o povo e manter o ódio ao inimigo. Aliás, toda a sociedade funciona com base no ódio; as próprias crianças são educadas no sentido de cultivarem a delação e a vigilância constante sobre os adultos.
Em suma, trata-se de uma leitura dolorosa, onde a ficção alimenta no leitor o choque do possível e mesmo de certos aspetos da realidade atual; uma perspetiva pessimista, quase escatológica da humanidade. Um livro que marcou a história da literatura, não tanto pela qualidade literária – que não é excecional – mas pelo significado político e  mesmo filosófico do enredo.
(Lido no âmbito do clube de leitura BERTRAND, de Braga)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Soberba Escuridão - Andreia Ferreira






Antes de mais nada quero afirmar que este livro constituiu, para mim, uma bela surpresa. O facto de não ser adepto militante da literatura fantástica talvez tenha contribuído para acentuar a surpresa. A ideia geral com que fiquei após a leitura foi esta: a Andreia Ferreira tem futuro na literatura portuguesa. É óbvio que não estamos perante uma obra-prima. Algo falta ainda para que o “caso sério” seja um facto. Mas já lá vamos.
Em primeiro lugar, senti este “Soberba escuridão” como um agradável transporte para o irreal. Esta, creio eu, deve ser a primeira meta de um romance deste género literário. Foi plenamente conseguida: a escrita objetiva, límpida, desprovida de adornos fúteis (como tantas vezes vemos por aí) confere à narrativa esse agradável mérito de levar o leitor a aceitar com facilidade a saída do lógico, rumo a mundos apenas construídos pelo sonho. Ou pesadelo, obviamente.
A fronteira entre o irreal e o real vai-se tornando cada vez mais ténue ao longo da primeira metade do livro para, sensivelmente a partir da primeira centena de páginas o leitor conseguir aceitar o fantástico como fazendo parte de um novo cosmos que Andreia Ferreira pacientemente foi tornando lógico. É este crescendo que, no final, tornará quase inevitável a aceitação de anjos e demónios como personagens lógicas da narrativa.
A tal linha estreita entre a realidade e a ficção é, afinal, algo muito mais natural e diria mesmo trivial do que se imagina. Se refletirmos um pouco, todas as nossas construções mentais, sentimentos ou perceções do mundo são erigidas sobre esse limiar, influenciadas pelos dois lados. É difícil, na nossa vida, separar os dois mundos. Porque haveríamos então de os separar na literatura? A vida de Carla, afinal, não é muito diferente da de qualquer um de nós. Ela foi um pouco mais além do que o comum dos mortais; pisou terrenos desconhecidos para nós. Mas, o que serão esses mundos senão a loucura normal em que todos por vezes navegamos? A loucura, o medo ou o trivial medo da loucura são os terrenos marginais do fantástico que há na vida de todos nós.
Voltando à narrativa: há dois aspetos que, penso, valorizam muito esta obra. Um deles é a leitura perfeita da vida de Carla enquanto adolescente. O mundo da adolescência, nos seus dramas, sonhos e medos, estão perfeitamente retratados nestes personagens. Um outro aspeto que pode parecer lateral mas que encaro como fulcral no livro é a presença do gato. O Pequeno fez-me lembrar algumas das melhores páginas de Murakami: o gato misterioso, adensando mistérios mas também como elemento positivo naquele mundo de pesadelo.
Gostava de terminar como comecei: reafirmando que Andreia Ferreira pode vir a ser um caso sério na literatura portuguesa. Ainda não o é porque falta, na minha opinião, dar o salto para a análise mais aprofundada da alma humana; falta aqui algo de Dostoievski. Ou do nosso José Luís Peixoto. Não o podemos exigir, é óbvio, a uma jovem escritora. Mas será esse o seu desafio: entrar mais fundo no cosmos mental das personagens. Esquartejar sentimentos, conflitos interiores. Sair um pouco da narrativa. Isso levaria Andreia Ferreira a sair do domínio do fantástico. Mas é nisso que consistem as obras-primas: em ultrapassar limites. Estou certo que será esse o caminho desta jovem autora bracarense.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A República dos Corvos - José Cardoso Pires



Sinopse:
Um dos muitos títulos de um dos mais notáveis escritores da língua portuguesa, "A República dos Corvos" reúne sete contos e foi publicado em 1988. José Cardoso Pires, de quem se escreveu que todos os livros são fábulas, mesmo os romances ou os ensaios, retoma a faceta de contista com que se estreara na publicação ("Os Caminheiros e Outros Contos", 1949) e que por essa altura já tinha sido alvo de várias coletâneas.
Sete contos repletos de ironias para descobrir e divertir, na mesma escrita despojada de quem em meio século de letras sempre preferiu pecar por defeito do que por excesso e exigir criatividade ao leitor em vez de o manter passivo. Enquanto ensaísta, romancista, jornalista, dramaturgo e fabulador.
Comentário:
Em regra, não gosto de contos. Parece-me sempre pouco quando se trata de grandes escritores. Há exceções, é claro, como os consagrados James Joyce em Gente de Dublin ou os famosos contos de Tchekov. Não esquecendo o nosso Eça, claro. Este livro de contos de Cardoso Pires pode acrescentar-se a esta lista de exceções.
Trata-se de um conjunto de pequenas e médias narrativas que têm em comum a presença de animais e a sua relação com os humanos. O primeiro conto, que dá título à obra, é uma fábula absolutamente deliciosa, cheia de humor e em certos momentos hilariante. O corvo, um dos símbolos de Lisboa, é aqui um pássaro trocista intérprete de uma deliciosa crítica de costumes e com uma linguagem encantadora.
A forma como os contos estão estruturados leva-nos desta hilaridade dos primeiros contos a uma sátira cada vez mais séria e profunda. Este crescendo culmina com o maior conto do livro, uma sátira a Salazar (escrito em 1969, ano da “abdicação” do ditador) significativamente intitulado “Dinossauro Excelentíssimo”.
Nesse conto, percorre-se a vida do ditador, desde uma infância controlada pela beatice e pela analfabetismo, até uma morte que não se sabe bem quando ocorre, uma vez que o ditador sobrevive na voz e na ação dos seus seguidores, também eles esclerosados. Algures pelo meio do percurso o dinossauro metamorfoseara-se numa estátua sem braços, venerada à imagem e semelhança do ditador. Aqui como noutros pontos, José Cardoso Pires não esconde a influência de Kafka, na abordagem de um certo “absurdo normal”.
Também noutros contos é nítida a sátira à classe política, como por exemplo nos sábios cegos e iluminados, que são descritos por um narrador “lambe-botas” típico do regime totalitário sob o qual parte do livro foi escrito.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A melhor leitura de Novembro - Húmus, de Raúl Brandão

Primeiras décadas do século XX. A pintura afastava-se do figurativo; a arquitetura abandonava os cânones neoclássicos; as artes decorativas, ditas menores, abraçavam a chamada Arte Nova; a literatura divorciava-se, ainda que provisoriamente, da narrativa clássica. O modernismo invadia as artes. 
Profundamente influenciado pelos grandes mestres da literatura russa, principalmente Dostoievski, Raúl Brandão publicava esta obra, onde a dimensão psicológica e reflexiva fornecia ao leitor uma intensa e inovadora abordagem da alma humana que haveria de influenciar de forma profunda e definitiva a literatura portuguesa contemporânea.
Uma obra por vezes perturbadora, por vezes encantada, globalmente reflexiva, Húmus está na charneira de uma nova realidade literária em Portugal.