domingo, 19 de dezembro de 2010

As Velas Ardem até ao Fim - Sándor Márai

Este é um livro triste mas profundamente poético. Um verdadeiro tratado sobre a amizade, como afirmou Inês Pedrosa. A prosa de Márai é construída sobre um discurso tranquilo, melódico, profundo. Se dúvida uma escrita sentida e sofrida.
Durante a segunda guerra mundial, num velho castelo da Hungria, um antigo general de 73 anos, Henrik, espera Konrad para com ele ter uma última conversa. Konrad havia sido mais que o seu melhor amigo. Tinha sido um autêntico irmão até ao momento em que, 41 anos antes, algo dramático os separou. Um grande e terrível segredo ia agora ser enfrentado pelos dois. Todo o valor da sua intensa amizade e todo o significado do intenso amor por Krisztina seriam agora sopesados nesta derradeira batalha que os dois enfrentarão.
A tragédia de Henrik levara-o ao imobilismo; uma inacção que é uma espécie de morte em vida. Essa espera, esse nada-fazer, essa morte voluntária, talvez seja a tragédia maior para o ser humano. É uma recusa total da vida, como se depois da tragédia nada mais valesse a pena. Talvez a razão maior da infelicidade humana seja esta incapacidade em prosseguir os caminhos da vida quando não se consegue compreender e aceitar aquilo a que, comodamente, chamamos destino; esta incapacidade para encarar o presente, sem deixarmos que ele se sobreponha aos desaires do passado. E depois fica a procura da culpa; a busca tão inútil quanto irresistível da culpa. E é a vida que fica, inexoravelmente, para trás.
Henrik interrompeu a sua vida aos 32 anos e esperou mais 41 para terminar esse julgamento; e, no final, não culpou Konrad nem Krisztina; culpou o destino. 41 anos depois, Henrik procura apenas lavar a verdade com palavras; com a catarse da memória. Perante Konrad, resta-lhe enfrentar a memória. Mas nada apagará 41 anos de solidão, que é uma espécie de morte.

13 comentários:

Anónimo disse...

Comprei este livro há algum tempo, porque me pareceu bastante interessante.
Mas foi ficando no fundo da pilha.
A ver se o volto a pôr por cima.

Nota - Os blogues não fecham para balanço?
Deviam fechar, para pelo menos durante algum tempo não haver mais nenhuma sugestão de livros que apetece ir a correr comprar...

Boa semana e um Feliz Natal junto dos que lhe são queridos.
Isabel

Paula disse...

Olá Manuel,
este é "aquele" livro...para mim "o" livro que fala de uma maneira verdadeira, triste e comovente sobre o valor da amizade.
Um diálogo que acaba por ser um monólogo, mas que só por si basta e não precisa nada mais!
Márai no seu melhor!
Tenho de o reler.
Um abraço e um Santo e Feliz Natal para ti e para os teus :) ...

Unknown disse...

Pois é Isabel. O nosso problema é que quando seleccionamos criteriosamente, os livros bons são imensos...
Por minha parte, não vou encerrar para balanço, mas em Janeiro vou abrandar um pouco este ritmo louco. Em 2010 já vou no 97º livro. É demasiado; isto começa a tornar-se um vício; uma dependência; estou a começar a ficar adicto, como dizem os chiques :)

Olá Paula
para mim, este só não é "O" livro porque a mensagem encerra um certo comodismo masoquista na forma como Henrik ficou 41 anos a ver passar a vida. Essa inércia enerva-me! A escrita de Sandor Marai é terrivelmente calma, ao sabor da vida melancólica de Henrik. A beleza do livro está mesmo aí; na forma poética como descreve essa imensa capacidade de sofrimento. Mas a vida não pode ser assim. A vida tem de ser criada, manipulada, exteriorizada.
O destino não pode anular a força de uma vida. O destino faz-se!!! E se não formos nós a fazer o nosso destino ninguém o fará por nós e o tempo matar-nos-á.
beijinhos

Paula disse...

Concordo com tudo o que dizes a nível teórico...
E a realidade, será sempre assim tão prática??
:)
Um abraço

Unknown disse...

Não, Paula, a realidade raramente é assim tão prática. A realidade é complexa porque há aquela coisa horrível que o Sartre uma vez disse: "O Inferno são os outros". Mas... não terá Sartre exagerado? Não será só uma meia-verdade? É que "os outros" é uma realidade muuito extensa... talvez entre os outros haja espaço para criar! Para construir VIDA. Talvez até baste a própria pessoa para construir algo, em vez de ficar expectante, a "remoer" o passado como ficou Henrik, totalmente petrificado!
Como em tudo na vida, acredito que haja um meio termo; uma possibilidade de construir algo sem mudar o mundo...

susemad disse...

O único livro que li de Márai foi a "A Herança de Eszer" e lembro-me que na altura gostei bastante da sua escrita a cheirar a poesia.
Deste já li boas opiniões e tenho alguma curiosidade em voltar a ler algo mais do autor, por isso no próximo ano devo requisitar este na biblioteca. Sim porque as compras estão fechadas por uns bons tempos.

Anónimo disse...

Bom ,Manuel,depois de tudo o que li aqui nestes comentários ainda fiquei mais curiosa de ler o livro.Vou lê-lo já.
Há realmente uma altura da vida em que fazemos um balanço.Já se viveu mais de metade da vida ( eu fiz 50)e começamos mesmo a pensar e a seleccionar o que vale mesmo a pena- pessoas e coisas, e coisas de trabalho também.
Não se muda de um dia para o outro, mas pode-se sempre fazer pelo melhor.E remoer o passado é que não.Porque já não muda nada.
Interessa o momento.

Já agora só uma sugestão: sei que gostaste do "Carteiro de Pablo Neruda".Do mesmo autor saiu "Um pai de filme".Parece ,e é de certeza,outra maravilha.
Um abraço
Isabel

Unknown disse...

olá tonsdeazul
há muito tempo ando para ler a Herança de Ezter... tenho de meter mãos à obra.
Isabel, concordo absolutamente contigo. Costumo dizer que a saudade, o remorso e o arrependimento são os sentimentos mais estúpidos e inuteis que existem. Por isso me chocou aquela "vida" de Henrik.
Esse balanço a que te referes é algo completamente diferente; é o saber que nós precisavamos ter tido aos 20 ou 30 (eu tenho 45). O Herman José disse um dia que deviamos começar a viver aos 50. É verdade! Pelos menos eu, que tenho 45, sinto que só agora começo a ter uma visão minimamente ikluminada da vida. Parece-me que só hoje estou em condições de saber o que quero e de saber o que preciso fazer da vida.
beijinhos

Anónimo disse...

É isso.
Isabel

Anónimo disse...

Olá Manuel

Já li o livro e gostei bastante.Há uma altura em que parece previsível o que vai acontecer, mas não é.É um livro emocionante.Queremos chegar ao fim e saber o que está por dizer e saber sobre aquelas três personagens que de certa maneira deixaram de viver quarenta e um anos antes do final do livro.Mas não podia ser doutra maneira pois não?
Cada um escolheu,condicionado pelo destino, a forma como queria viver ( ou morrer )o resto da sua vida.Mas no fundo não havia outra escolha possível.
Concordo com o General quando diz que "E tudo é assim, porque as coisas obedecem a uma certa ordem, e essa ordem não depende da nossa vontade." Agora se por um lado isso é verdade, também não é menos verdade que podemos ver e aceitar os acontecimentos com maior ou menor optimismo ou pessimismo. E no fim ,afinal, tudo ou quase tudo deixa de ter importância.O tempo tudo relativiza.
Não é por isso que vamos deixar de viver com paixão,com entusiasmo, mas saber que o tempo atenua tudo, também pode ser sabedoria.
A pergunta do general que ficou sem resposta - se Krisztina saberia ou não da intenção de Konrád de matar o general- também tinha mesmo que ficar assim, porque fosse qual fosse a resposta, ela mudaria o que tinha sido dito e isso já não podia acontecer.
Já não tinha importância uma resposta.

Um belíssimo livro.

Isabel

Unknown disse...

Isabel, adorei a tua interpretação do livro. Eles escolheram (?) o tempo como remédio para o coração. A análise que eu fiz do livro foi muito condicinada, confesso, pela minha própria perspectiva da vida; sempre tentei ser pragmático, ou seja, activo perante os tropeções da vida. Mas reconheço que, às vezes, é preciso dar ao tempo a oportunidade de nos sarar as feridas.
Seja como for, é um livro comovente. Foi um prazer lê-lo e foi um prazer fazer com que tu o colocasses no cimo da pilha.
Bom Ano Novo, Isabel.

Anónimo disse...

Manuel
Não dúvido que o tempo tudo cura.Só assim podemos continuar a viver com alegria.E cá para mim a vida é demasiado preciosa para ser doutra maneira.
Como gosto de ter oportunidade de falar sobre o que leio!Este é o melhor local.
Obrigada.
Bom Ano Novo também para ti,Manuel.
Isabel

Unknown disse...

É muito bom ter-te aqui. Um beijinho, Isabel.