segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz

Como se pode ver aqui, Afonso Cruz é um homem de múltiplos talentos e em boa hora meteu mão à escrita.
Este é um livrinho divertido e sério. Vivaldo Bonfim vivia lendo. Um dia caiu dentro de uma edição de “A Ilha do Dr. Moreau” e nunca mais de lá saiu.
Após este desaparecimento misterioso, os seus livros ficam encerrados no sótão de sua casa até que o seu filho, aos 12, adquira o direito a lá entrar. Nessa altura, o jovem narrador não tarda a seguir as aventuras do pai, procurando-o nesse livro mas sendo também levado a transitar entre várias outras obras, à procura de Vivaldo. Assim vai convivendo com autores e personagens, numa viagem alucinante às profundezas da literatura, deambulando entre clássicos e livros avulsos.
“Não há nada mais estúpido do que amar incondicionalmente, como fazem os cães e aqueles dois que Shakespeare imortalizou” – disse Mr Hyde. Esta e outras frases revelam uma fina ironia e sentido de humor. Personagens célebres transitam de uns livros para outros, por entre exemplos de surrealismo puro, como por exemplo aquele personagem que se faz cão porque o ser humano é o mais desumano dos animais. Na ilha que Wells inventou, os cães recusam ser humanizados. Decididamente, mais vale ser cão…
O nosso herói, filho de Bonfim (note-se o a-propósito do apelido do homem que caiu dentro de um livro) parece vaguear pelas partes brancas dos livros – entre as linhas, entre as palavras e à margem do texto, que é como quem diz, à margem do enredo – como que passeando ao lado do mundo maravilhoso dos romances e da poesia. E talvez seja mesmo nas partes brancas dos livros que se encontra a verdadeira sabedoria: “O mundo não precisa de Lao Tsés. Precisa, isso sim, de Lao Tsés calados.” (página 67).
Raskolnikov (de Crime e Castigo), o rei do remorso, é o principal suspeito do desaparecimento de Bonfim e é perseguido na Rússia (dentro do livro) por Bonfim (filho). Após o final de Crime e Castigo Raskolnikov continua a matar na esperança de que a morte banalizada se torne menos torturante. Afinal, as histórias dos livros continuam sempre. Porque são feitas por homens; homens criados por outros homens e que assim ganham vida. Dentro dos livros há outros mundos; que são reais a partir do momento que foram criados pelo escritor. Porque “Um homem é feito de História” – a ficção é vida como a vida também é ficção; é feita de memórias e todas as memórias são subjectivas. Tudo pode ser moldado, construído ou destruído; renascido ou criado… como num romance! Esta é a lição maior dos livros para a vida.
Enfim, um livro absolutamente original, cheio de criatividade e humor. Um tema que poderia ter sido mais bem explorado. Ficámos com a sensação de se ter perdido uma oportunidade de desenvolver um tema tão original e fértil.
Mesmo assim, sem dúvida, um livro que merece ser lido e relido.

sábado, 24 de abril de 2010

25 DE ABRIL SEMPRE!

Obrigado, Salgueiro Maia!
Viverás porque a memória não há-de morrer! 

imagem retirada daqui

quarta-feira, 21 de abril de 2010

No País das Últimas Coisas - Paul Auster

Numa cidade desconhecida, Anna procura desesperadamente o seu irmão William. Mas não se trata de uma cidade qualquer. Numa paisagem a fazer lembrar “A Estrada”, de Cormac McCarthy, deparamos com um cenário catastrófico, onde um qualquer desastre arruinou por completo os seus habitantes. O livro dá a entender que não se tratou de um desastre natural nem de uma guerra mas de destruição humana.
Esta visão apocalíptica põe em discussão toda a condição humana, todo o processo que pode conduzir a um esvaziamento total do eu. Não é só a cidade que se esvazia na miséria; são os homens. São as almas. Almas que trocam a felicidade, o sentimento, mesmo o prazer, por um vazio onde até a alimentação do corpo se torna dispensável. Este esvaziamento radical do ser é o que mais profundamente choca o leitor.
Numa primeira parte do romance, Auster massacra autenticamente o leitor com algumas dezenas de páginas que percorremos com total angústia perante a miséria física e moral a que um ser humano pode ser sujeito. São páginas que não chegam a despertar revolta, tão irreal é o cenário descrito; como se a nossa alma e o nosso cérebro fossem incapazes de encarar tal realidade como algo minimamente plausível. Mas à medida que o enredo avança os sentimentos emergem. Com eles, a revolta, a preocupação, o medo até.
As pessoas que perderam tudo tendem a adoptar comportamentos infantis, sonhando, imaginando, acreditando… no entanto, os objectivos são diferentes: as crianças imaginam para criar um mundo fantástico; as pessoas desesperadas usam a imaginação para esconderem a realidade de si próprias; a imaginação como fuga, como negação do real.
Na cidade do desespero a morte é um objectivo. A morte torna-se uma arte, uma forma de expressão. As pessoas criam formas de morrer. A morte torna-se espectáculo e até uma manifestação de heroísmo. Mas, para a maioria, a morte não deixa de ser banal – morre-se em qualquer lado e por qualquer motivo. Os cadáveres invadiram a cidade e tornaram-se um meio de sobrevivência: sem eles não poderia ser obtido o metano, única fonte de energia disponível.
Para a maioria, a vida limita-se a uma sobrevivência no limiar da morte – um mundo onde a esperança é totalmente ausente e onde os “risonhos” (os optimistas) são uma minoria e considerados estúpidos e absurdos.
No meio de um contexto macabro de fome, miséria e desesperança (como diria Mia Couto) a morte é uma bênção, um benefício. Curiosa a associação da morte de um personagem ao prazer sexual extremo: o prazer como prelúdio da morte. No entanto, quando se trata da morte do “eu”, por mais que seja desejada, há sempre um último passo que se torna quase impossível de dar. A vida auto-preserva-se, mesmo no limiar extremo.
Um dos pormenores mais geniais desta obra é a caracterização de um personagem que sobrevive graças ao facto de estar a escrever um livro. É o livro que o mantém vivo. A sua miséria é tão grande que só se alimenta de dois em dois dias. No entanto sobrevive porque há um livro para acabar. E só uma coisa haveria de superar o livro: o amor! Mesmo nos limites do sofrimento, Anna encontra aí o período mais feliz de toda a sua vida, mesmo incluindo os anos em que viveu na riqueza.
Bóris, o comerciante, é um homem encantador. Na verdade, ele é um mentiroso. No entanto, conta histórias fantásticas que todos fingem ser verdadeiras e quando a mentira encanta passa a chamar-se fantasia; tem o dom de nos libertar da crueldade e do sofrimento. Talvez seja por isso que todos nós temos necessidade de mentir, mesmo a nós próprios. Talvez seja também essa mentira feita fantasia que nós procuramos nos livros - a construção de mundo fictício que nos encante. É neste aspecto que Auster, neste romance, foge à regra. Este livro não nos encanta. Este livro choca-nos brutalmente com uma realidade extrema e, ao mesmo tempo, tão humana.

domingo, 18 de abril de 2010

A Alma Trocada - Rosa Lobato de Faria

Ler Rosa Lobato Faria é como receber na face uma brisa fresca em pleno Verão. É um presente que damos à alma quando o cansaço ou a tristeza nos invadem. Que leveza, que aragem suave, que fluidez de palavras!
Este livro não é uma obra-prima, não é um clássico, não é um tratado de coisa nenhuma. É apenas isso: uma aragem talvez do Monte Alentejano onde decorre parte da acção. É um livro que se lê sem o mais pequeno esforço, sem necessidade de reflectir em mensagens complicadas e profundas.
A enorme experiência de Rosa Lobato Faria a escrever guiões para televisão talvez tenha contribuído para esta facilidade em contar histórias sem maçar, sem cansar.
Trata-se da história de Teo, um jovem professor de francês que se define como “o gajo mais chorão de toda a comunidade gay”. Desde logo é evidente a luta pela afirmação do direito à diferença mas o livro vai bem mais longe: os problemas de relacionamento entre Teo e Hugo ou a busca desesperada da sua identidade não são problemas específicos de um homossexual; são problemas humanos. Tão só.
Teo tem a alma trocada. Aparente e provisoriamente, só. Ao longo do enredo, Teo vai descobrindo que a sua alma é una e única. Ele não é o professor de francês que tem uma vida paralela como homossexual. Ele é um e único. Sem esta descoberta nunca seria feliz, nunca encontraria a sua identidade. Teo é, como todos os seres humanos, um homem que sofre porque ama embora não saiba o que é o amor. É um homem indeciso como qualquer outro, forçado pela vida a fazer opções e a sofrer as devidas consequências.
Como qualquer um de nós, Teo procura a liberdade como condição essencial à vida. Procura oxálida, plátano, miligrã, palavras que inventa porque elas são liberdade, são criação, são aventura. Porque não é preciso saber o significado das palavras; é preciso procurá-las. Basta procurá-las…
Um livro cheio de sensibilidade, de leveza de espírito, essa leveza sem a qual ninguém consegue libertar-se das amarras da opressão, sejam elas do nosso próprio espírito ou da sociedade que nos inserimos. Um livro que deveria ser de leitura obrigatória para determinadas mentes… um livro onde se respira liberdade, amor, ternura… (ia escrever xarel, hidranja, phisalis mas não quero exagerar).

* Quadro reproduzido na capa do livro (edição ASA)
imagem retirada daqui 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua - Manuel Alegre

Ainda “não estou certo de ter sido eu”… terá sido o miúdo que pregava pregos numa tábua? Ou qualquer um dos outros? Ou todos eles excepto um? Que importa, afinal? Ninguém sabe quem foi porque ninguém sabe quem é… e o que se sabe será sempre realidade, imaginação ou poesia?
De facto, nada pode saber-se de identidades passadas ou futuros incertos. A vida é uma viajem no efémero, vive-se como quem olha as águas de um rio e tudo passa viajando ou navegando… as águas do rio como as palavras que voam, encadeando-se ao ritmo do bater do coração, porque a vida (como o Zé Mafra, cigano de Coimbra) não tem casa, só tem caminhos.
Ontem e hoje, na vida como na escrita e como na guerra de Angola, as balas ainda assobiam. Há sempre uma bala a assobiar… Aquele que escreve o livro não sabe se é o rapaz que pregava pregos numa tábua e não sabe se era o outro, ou ainda outro qualquer, mas sabe que há balas e guerras que fazem zumbido nos ouvidos e chagas na memória.
Repentinamente, a poesia bateu com força na cabeça do miúdo. Mais tarde, as sílabas dos versos haveriam de se misturar com os zumbidos das balas nos ouvidos do miúdo que crescera.
O miúdo crescia e tinha um sonho: continuar Os Lusíadas. O sonho de qualquer poeta. O sonho, talvez, de qualquer de nós, que queremos continuar a memória. E vai contando as sílabas pelos dedos e vai descobrindo que nem sempre há métrica, às vezes há liberdade, há os versos livres… sons de palavras que se misturam com silvos de balas de Angola, música de pássaros de Águeda e com o murmurar das águas do Tejo. São “os ritmos e as sílabas com que se mede o mundo”.
Tudo – o futebol, a natação, a água do rio, os pássaros, a namorada – faz parte do rapaz que pregava pregos. Mas no meio de tudo isso está sempre a escrita: as palavras que procura e tantas vezes não encontra, os versos cujas sílabas nem sempre consegue contar pelos dedos. Os mesmos dedos com que tocava música nos dentes. A mão com que Miguel Torga segurou a caneta até ao fim…
E a procura da liberdade, da vida e das sílabas é a poesia que o miúdo (militante revolucionário que dantes pregava pregos numa tábua) acaba escrevendo, ou melhor, respirando em Paris. Em breve chegará a Primavera… talvez em Abril… talvez daqui a dez anos… ou dez anos após o Verão passado…
Imagem retirada daqui 

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen

Escrito em 1811, na fase mais conturbada das guerras napoleónicas, o enredo de Sensibilidade e Bom Senso desenrola-se no pacato e bucólico meio rural inglês, numa paisagem típica da literatura romântica, a fazer lembrar o nosso Júlio Dinis ou o dramatismo bucólico de Goethe.
A importância histórica desta obra é inegável: ela é precursora do romantismo literário que viria a marcar indelevelmente todo o século XIX.
A história baseia-se nos relacionamentos de Elinor e Marianne Dashwood, duas jovens órfãs de pai, que vivem com uma irmã mais nova, Margaret e a mãe, Mrs Dashwood. Trata-se de uma família da baixa burguesia rural inglesa que, quando o seu pai morre, fica com dificuldades económicas uma vez que a propriedade da família passa para John, o único filho homem. É nítido o contraste entre o carácter das irmãs, (Elinor mais racional e Mariane mais emotiva e romântica) que buscam o equilíbrio entre a razão e a sensibilidade na vida e no amor, como caminhos para a felicidade.
Pessoalmente, o aspecto que mais me marcou nesta obra foi a crítica de costumes: Austen denuncia, de forma cáustica e severa uma sociedade pequeno-burguesa obcecada com a estabilidade económica, com base nos laços matrimoniais. O casamento é visto como um simples trampolim para a estabilidade financeira e para o enriquecimento ou como meio de sobrevivência desta pequena burguesia pouco abastada. Esta denúncia é frontal e radical se atentarmos numa simples expressão como esta, a propósito de um noivo potencial para Elinor: “é um homem que vale quinhentas a seiscentas libras”. Frequentemente, os candidatos ao casamento são avaliados consoante as rendas que auferem.
Por outro lado, chega a ser chocante a forma como nos é descrita uma sociedade semi-aristocrática onde predomina o mexerico. Algumas das personagens parecem viver obcecadas com a intromissão na vida alheia, vivendo os problemas dos outros como se fossem seus, deixando emergir a inveja e o ciúme. É uma sociedade de aparências, onde se cultiva o exterior, onde, por exemplo, a profissão de sacerdote é vista como um remedeio para um homem arruinado, sem renda significativa.
Os sentimentos são sempre deixados em segundo plano, como se a alma humana tivesse de se adaptar à realidade concreta e não o inverso.
Em termos estilísticos, o livro constitui, na minha visão subjectiva de leitor comum, uma certa decepção. Fica-se com a impressão que um tema tão rico como este teria dado a azo a uma tremenda sátira de Eça de Queiroz, cheia de humor e sarcasmo. Mas Austen opta por um estilo severo, muitas vezes difícil e ainda prejudicado por uma tradução muito pouco conseguida, incluindo erros de ortografia e de construção frásica que dificultam imenso a leitura.
Em suma, um livro com uma importância notável em termos de História da Literatura mas que, a meu ver, não cumpre esse papel essencial que a leitura deve ter: o aspecto lúdico. Abundam diálogos por vezes fastidiosos, ilustrando o formalismo da época e a futilidade do meio social, deixando no leitor a sensação de que a história poderia ser contada de forma muito mais sucinta. Um livro, no entanto, valioso para os apreciadores da literatura romântica do século XIX.
Imagem retirada daqui 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke

Confesso que a literatura fantástica nunca me atraiu. Nem um bocadinho. No entanto, a avalanche deste tipo de romances tornou-se incontornável. Talvez fruto dos tempos de crise que vivemos e do inevitável movimento apocalíptico que já se faz sentir, a magia e o revivalismo aparecem-nos por todo o lado.
Neste contexto, alguém de extremo bom gosto literário me aconselhou este livro. Com algum masoquismo à mistura, lá decidi embarcar na aventura. 730 páginas de letra miudinha depois, foi com pena que fechei o livro. Por mim, bem poderia ter mais 730 páginas. Fascinante, espectacular, genial!
O livro conta a história de dois magos ingleses no início do século XIX, quando a Inglaterra tentava sobreviver às invasões napoleónicas. Strange e Norrell tentam restaurar a magia inglesa, perdida desde os tempos medievais do mítico Rei Corvo. Assim se desenrola uma trama fascinante de acontecimentos fantásticos, onde pontifica a luta entre as forças do mal representadas pelos elfos e as forças da magia humana que Norrell e Strange encarnam.
Nessa altura a magia inglesa estava confinada aos magos teóricos, fiéis estudiosos e gurdiões dos livros dos grandes magos de outrora. Mas a magia, como a vida, não termina nos livros. Strangre e Norrel trazem a magia para a vida; os seus actos mágicos são descritos de forma absolutamente fascinante por Susanna Clarke, acompanhando sempre as descrições com um fino e cativante sentido de humor. Este constante tom de humor faz com que a escrita de Clarke se assemelhe a um diálogo com o leitor, criando uma relação de proximidade que cativa. Por vezes o sorriso do leitor é substituído por saudáveis gargalhadas como quando Strange ressuscita soldados mortos e mutilados, desloca o curso de rios para enganar Napoleão, muda de lugar uma cidade espanhola causando a ira do governo que queria “tudo no sítio”, coloca Bruxelas na América com todos os seus habitantes, etc.
No mundo dos homens, o governo inglês recorre aos magos para derrotar Napoleão. E até os portugueses entram em cena: Wellington, o general inglês que veio para Portugal com o encargo de evitar as invasões napoleónicas recorre a Strange para, por exemplo, acabar com a praga que eram as lastimosas estradas portuguesas (já nessa altura). No mundo dos elfos, pelo contrário, reina a escuridão; alguns seres humanos são por eles atraídos de forma traiçoeira. Pelo meio fica a memória fascinante do reino de John Uskglass, o mundo perdido daquele que foi o maior mago de sempre e rei da Inglaterra Meridional, grande rival do reino dos Elfos, a terra de Faerie.
Embora seja clara a oposição entre o reino do mal e o reino dos homens, é admirável a forma como a autora se recusa a colocar o confronto em termos de oposição entre o bem e o mal, sendo o leitor encarregado de tal tarefa. Também entre Norrell e Strange, os homens não resistem a colocar-se do lado de um dos dois grandes magos (comparando essa tendência à questão política inglesa entre trabalhistas e conservadores) mas é sempre o leitor quem constrói tais juízos, como se o bem e o mal estivessem sempre à disposição dos homens para que estes escolham livremente.
Em suma, um livro fascinante que é já parte da história da literatura fantástica. Sem dúvida um clássico do género, imperdível para quem cultiva este género literário. E não só.
Para além de tudo o mais, esta obra constitui uma das mais belas homenagens que alguma vez se fizeram aos livros: eles são a fonte de todo o conhecimento mas o seu conteúdo precisa de ser transposto para a vida. É na vida e na felicidade dos homens que o conhecimento se torna significativo. E aí reside também a magia.
E a magia, indubitavelmente, existe. Ela está sempre onde estiver a nossa imaginação e, acima de tudo, a magia é tudo o que não compreendemos. 

sábado, 27 de março de 2010

Parábola do Cágado Velho - Pepetela

Todos os dias, ao entardecer, Ulume observa o cágado, lento como o mundo; o cágado imutável, como o tempo sempre igual, no ritmo moroso do Sol e da Terra… o ritmo pausado da poesia e da natureza.
Guardião da sabedoria ancestral, o cágado todos os dias se revela ao olhar de Ulume que, impávido, absorve dele a sabedoria do silêncio e da tradição, “sabedorias antigas trazidas por todos os cágados do mundo”
Do outro lado da vida há o amor, face reversa da realidade em guerra, também ele envolvido na sabedoria ancestral: “se alguém que pensa morrer tem saudade de uma mulher, então é inútil lutar contra esse amor avassalador”. E Ulume via a granada voar para ele, encarando a morte; foi então que viu no céu o rosto de Munakazi e soube assim que ela seria o seu destino.
Entretanto, as guerras, desde os tempos da caça, iam devorando vidas de gentes que sempre renasciam como frutos da terra.
Terra, tradição, lutas e espíritos: a magia de um povo mártir e sábio que vive com a morte mas sobrevive com o espírito ancestral. Depois de muitas outras guerras, tinha vindo a guerra colonial. Depois houve paz, fartura e alegria. O povo andava feliz. Mas em breve voltara a guerra; uma guerra que ninguém entendia (alguma guerra se entende?). O povo apenas entendia que os filhos partiam e não voltavam. Voltavam soldados desconhecidos que traziam fome e a deixavam na aldeia. Porque o povo tem de contribuir para a guerra mesmo que não a entenda. Mesmo que a guerra seja um monstro sem rosto que nem a sabedoria antiga conhece.
Ulume tem dois filhos; Angola dois monstros que se devoram na guerra. Ulume sofre. Angola vai morrendo, os cágados antigos lamentam e sofrem…
Até quem, no final, é o amor a redimir todos os tormentos; um final belíssimo, magnifica lição de amor. O cágado sempre tivera razão…

terça-feira, 23 de março de 2010

Aravind Adiga - Entre os Assassinatos

Não há esperança. Não há fuga. Há miséria, exploração, pobreza moral e um imenso vazio onde caem as almas e os corpos famintos de milhões de hindus, muçulmanos e cristão, todos juntos no lodaçal do capitalismo selvagem, da exploração, da desumanidade que interessa a alguns, os que vivem desses corpos e dessas almas.
Na Índia já não é só o suor do povo que alimenta as panças inchadas dos poderosos. São os próprios pobres, são os seus corpos e as suas almas, propriedades quase feudais num novo regime senhorial, baseado no dinheiro mas também nas tradições desvirtuadas. Nesta Índia, todos são de alguém; todos procuram o sentido da vida na afirmação de uma qualquer forma de superioridade que garanta alguma paz de espírito e um pouco de pão. No entanto, esse pão e essa paz parecem só ser possíveis à custa de alguém; de outro que seja mais fraco, de um degrau mais baixo que sempre existe na escala social.
Ninguém sobrevive à podridão. Ninguém foge a uma imundície que não é só das ruas, é imundície dos corpos e dos espíritos.
Ziauddin, 12 anos, o trabalhador infantil explorado, criado muçulmano e pequeno ladrão; Abbassi, proprietário de uma confecção sobrevive à asfixia de ter de subornar toda a gente para manter um negócio onde as mulheres bordam até cegar; Xerox, o símbolo da liberdade assassinada, espancado brutalmente por não colaborar com a corrupção; Shankara, pequeno bombista da escola de rapazes, um símbolo de um sistema educativo inenarrável; Keshava tem um sonho: encaixar-se no penúltimo degrau da hierarquia – há-de haver alguém ainda pior que eu…
E o desfile prossegue: Chenaya, condutor de riquexó, é a raiva reprimida da miséria; Soumya, a jovem violentada por um pai miserável, ele próprio o excremento da sociedade; Jayamma, a cozinheira, vítima do sistema de casamentos: condenada à miséria porque o pai não tinha dinheiro para o dote de casamento…
E, num final magnífico, Murali, o comunista desiludido, o homem que procurou por toda a Índia e por toda a vida o caminho para a verdade e a justiça… um caminho inexistente… a amargura de um homem só.
Em suma, trata-se de uma obra magnífica, que ultrapassa “O Tigre Branco” em termos e profundidade de análise. Adiga põe-nos a pensar sobre o futuro, não só da Índia mas de toda uma humanidade que procura a felicidade na afirmação de relações de superioridade sobre os outros, desprezando todo um sistema tradicional de valores que poderia, mau grado as suas contradições, servir de “contrapeso” a uma ordem económica injusta e desumana.
Imagem retirada DAQUI..

sexta-feira, 19 de março de 2010

História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar - Luís Sepúlveda

Tudo começa com uma maré negra: os humanos, essa espécie estranha, absurda, com quem é perigoso, até, miar. Zorbas, o gato grande, preto e gordo, assim como os seus camaradas, sabe miar a linguagem dos humanos mas só o faz em situações de emergência, porque os humanos são muito perigosos…
Este livrinho de Sepúlveda é uma pequena maravilha! Ao lê-lo sentimos a magia de ser criança e também o encantamento que só os animais nos sabem oferecer. Eles, os gatos, dão-nos aqui um exemplo que teimamos em esquecer: que a união faz a força; que a solidariedade nos pode fazer felizes.
Todos achamos estranho que um gato possa ensinar uma gaivota a voar. E achamos estranho porquê? Porque não percebemos nada da verdadeira fantasia; porque não temos imaginação suficiente para ver a verdade que há na fantasia; porque temos uma aversão natural a tudo o que é diferente – porque somos humanos, horrivelmente normais!
Só nós, os humanos não conseguiremos, nunca, voar. Porque nunca entenderemos que “só voa quem se atreve a fazê-lo”. Só voaremos quando perdermos o medo de tirar os pés do chão. E às vezes bastava fechar os olhos e sonhar. Mas não, temos medo! E ficámos tão presos como aquela gaivota com as asas cobertas de petróleo…
Ler este livrinho é um exercício de libertação e de regresso ao mundo maravilhoso da imaginação. Este livro é um imenso sorriso…
Uma opinião diferente sobre este livro: AQUI

sábado, 13 de março de 2010

Invisível - Paul Auster

Ao 13º romance, Paul Auster presenteia-nos com um livro surpreendente. Este grande escritor, verdadeiro génio da literatura mundial, demonstra-nos como é possível inovar, mesmo quando as fórmulas tradicionais garantem o sucesso.
Começando pelo fim: pela primeira vez na carreira literária, Auster escolhe um final pouco surpreendente; digamos que surpreende pela falta de surpresa; um final previsível mas, incrivelmente belo!
No entanto, não deixam de estar presentes os temas mais recorrentes na obra de Auster: a angústia do escritor, a solidão e a luta interior pela procura da identidade; sempre a identidade, a eterna procura de um destino que dê sentido à existência, a demanda de objectivos que expliquem a existência; a necessidade de correr riscos; a procura dos limites onde a vida começa a ganhar sentido: “É o medo que nos leva a correr riscos e a ultrapassar os nossos limites normais”.
A história de Adam Walker é uma saga incrível. Ele é o homem comum, como qualquer de nós, a quem tudo pode acontecer. A sua vida é marcada pelo confronto com Born, o anti-herói, o fantasma real, o inimigo visível e invisível. Walker flagela-se por ter sido pouco corajoso perante a maldade de Born. Toda a sua vida foi destroçada quando, na verdade, ele teria sido, apenas, a vítima. A culpa! A culpa, esse conceito tão subjectivo, essa condenação tantas vezes imposta por nós próprios, muitas vezes apenas uma construção mental com a qual, sadicamente, nos auto-destruímos.
E, pairando sobre vidas à procura de sentido, o mortos. Sempre os mortos, invisíveis, por vezes mais vivos que os próprios vivos, na solidão de quem não consegue nunca escapar às garras da memória e da culpa. Memória e culpa que se confundem, como se uma lembrança pudesse transportar o peso insustentável do remorso. A vida e os seus paradoxos: por vezes não conseguimos escapar ao invisível; ele esmaga-nos. Outras vezes queremos tornar invisível o real e não há fuga possível. O ser humano será sempre atormentado pela sua própria mente, pela eterna necessidade de pensar e sentir.
Em suma, um livro diferente de todos os que Auster escreveu até hoje. O melhor, como alguma crítica afirmou? Impossível responder. Diferente.
Genial, como sempre! Apenas!

domingo, 7 de março de 2010

Eusébio Macário - Camilo Castelo Branco



Quando Camilo Castelo Branco escreveu esta obra, em 1879, fervilhava-lhe no cérebro um tédio nauseado provocado pela abundante literatura bucólica do século XIX. Por isso, todo o livro é uma sátira sarcástica mas bem-disposta a esse tipo de literatura em que os personagens parecem viver no jardim do éden, rodeados de borboletas coloridas, flores campestre e passarinhos de canto melodioso. Em vez disso, CCB descreve-nos a natureza minhota pejada de moscas, porcos e estrume. Em vez dos amores perfeitos de Júlio Dinis, CCB apresenta-nos as aventuras sexuais do padre Justino, gordo e sebento ou as investidas do José Fístula nos bordeis de prostitutas baratas de Braga, onde estudava para padre.
Eusébio Macário é um boticário da região de Basto, no Minho profundo, que sabe de cor as mezinhas e remédios para todos os males. Mas é também um exemplo de sujidade, boémia saloia e devassidão.
A filha, Custódia, é uma moça roliça, gorda, penugenta, cheia de “desejos animais” e muitos ardores, “com cheiros de mulher suspeita”.
O filho, José Fístula (!) estudara para padre, onde se tornara devasso, bêbado e cliente de prostitutas sujas e mal-cheirosas. Voltara para casa pobre esfarrapado e tornara-se auxiliar do pai. Tocava fados que faziam tremer as nádegas do pai, animando os serões etílicos do pai e do padre.
O padre Justino vive com Felícia (“é ela abaixo de Deus”), uma mulheraça frescalhona, farta de carnes e seios intumescidos, a quem se agarrou quando duvidara da existência de Deus, acreditando que o Céu estava roto por causa da vitória dos liberais. Mais que mulherengo, é boémio e devasso, não se contentando com as frescuras de Felícia. Tornara-se herói quando matou um lobo a tiro e até foi promovido a abade e disputado por políticos com ambições eleitorais.
O abade, já de carnes amolecidas, atormentado por irritações, congestões, enterites e hemorróides não deixa de deitar o olho a Custódia, gabando-lhe as curvas roliças.
O irmão de Felícia, Bento, chegado do Brasil, é bruto e ignorante, gordo e feio. Mas desdenha do “país atrasado”. Recebido com honras de fidalgo, é feito comendador e espera o título de Barão.
Com o casamento de Custódia com o Barão Bento, Eusébio Macário, José Fístula, Felícia e Custódia tornam-se membros da mais fina sociedade nortenha.

terça-feira, 2 de março de 2010

Opinião - Grandes Personagens

Caros amigos, gostava de partilhar convosco um assunto em que tenho pensado: os grandes personagens que me marcaram enquanto leitor.
Revendo os meus livros, encontro nove que claramente se destacam e que passo a expor sem ordem hierárquica:
  1. Emma, em Madame Bovary, uma mulher cheia de carácter, lutando contra o preconceito, apenas para ser feliz.
  2. Aliocha de Os Irmãos Karamazov, um jovem guardião da sensatez perante loucuras e paixões. O herói que não julga nem condena. O homem de paz por excelência.
  3. Zossima de Os Irmãos Karamazov. O guardião da verdade e da virtude. Um velho clérigo cheio de sabedoria.
  4. Florentino Ariza de O Amor em tempos de Cólera. Comia pétalas de rosa e bebia frascos de água de colónia para se sentir perto de Fermina. Tocava violino para ela escolhendo o lugar da serenata conforme o rumo do vento para que ela o escutasse.
  5. Nathan Glass em As Loucuras de Brooklin. Com 72 anos e uma doença terminal, este apaixonado pelos livros redescobre novos laços de ternura, renasce para a vida. A solidão como caminho para a felicidade.
  6. Kincaid, de As Pontes de Madison County. Um homem íntegro, feliz embora solitário, livre embora rendido à paixão, sonhador embora seguro de si. Um herói real.
  7. Falcão de A Saga de um Pensador: a rejeição da razão em nome da liberdade. O símbolo da felicidade em harmonia com a natureza e o mundo.
  8. Heatcliff de O Monte dos Vendavais um homem dominado pelas paixões. Uma paixão inexplicável à luz da razão e conjunto de atitudes e traços de personalidade determinados pelas emoções e sentimentos. É ódio, amor, medo e paixão. Um vendaval.
  9. Nakata, de Kafka à beira-mar; o velho e bom Nakata que fala com os gatos, faz chover sanguessugas ou peixes, depois de ter sido vítima de um estranho acidente, na sua juventude. É a sabedoria, a calma, a perfeição do espírito.
Gostava agora de saber da vossa opinião...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

19 Minutos - Jodi Picoult

Ao contrário do que é habitual, hesitei bastante antes de começar a escrever este texto. Mesmo agora, neste preciso momento, não sei muito bem o que vou escrever.
Por um lado apetece-me dizer que se trata de um livro excelente; por outro lado, também é verdade que este livro não corresponde àquilo que eu considero um grande livro.
Para começar devo voltar à velha questão que tem dado voltas a este blog: o que é um grande livro? Mais uma vez vou apontar o dedo aos pseudo-intelectuais que desprezam este tipo de literatura; é que são esses mesmos que se queixam tanto de que em Portugal lê-se pouco. Por mim, devo dizer que são escritores como Jodi Picoult que fazem com que ainda se vá lendo alguma coisa. Este livro é um verdadeiro exemplo de como se pode escrever uma obra comercial e ao mesmo tempo com qualidade literária. No entanto, essa qualidade literária fica um pouco limitada pela forma superficial como os temas são tratados, mau grado as 532 páginas do livro. De facto, fiquei com a sensação de que a estória se contava em metade dessas páginas. Não quer isto dizer que a leitura seja desagradável ou fastidiosa; de maneira nenhuma; lê-se com muito agrado e é daqueles livros que se agarram a quem lê, na ânsia de chegar depressa ao fim. Se o Firmin se dedicasse a este livro devorá-lo-ia em poucas horas…
O livro tem um enredo daqueles que a moderna literatura norte-americana adora: dois adolescentes com pais sem tempo para eles, dois adolescentes e incompreendidos e amargurados. Ele, Peter, é o alvo do bulling, é o aluno desprezado e humilhado por mil e uma tropelias que os colegas mais “in” lhe provocam. O leitor é levado a sentir revolta, repulsa, raiva, perante as humilhações de Peter. Ela, Josie, é a filha de pai ausente e mãe hiper-ocupada com a sua profissão e procura compensar essa falta de afectos precisamente no grupo de alunos que humilham Peter, mau grado a amizade de infância em relação a Peter.
As humilhações atrozes a que Peter é sujeito conduzem ao desastre: a um massacre do tipo Columbine!
Trata-se de um enredo que nos faz pensar; os adolescentes dividem-se entre os “populares” e os “totós”; estes são humilhados até ao desespero, perante a passividade dos professores e a “distracção” dos pais. Até que um dia surge “a bomba”. Literalmente.
Numa América marcada e traumatizada pelo massacre de Columbine e pelos atentados de 2001, o livro acusa a facilidade com que se comercializam armas e a passividade de sociedade perante a violência. Por exemplo, Alex, mãe de Josie, para ser admitida como juíza é praticamente obrigada a afirmar que concorda com a posse livre de armas de fogo. O pai de Peter, académico de sucesso que estuda fórmulas matemáticas para medir a felicidade, revela-se totalmente incapaz de compreender e acompanhar o filho e, pelo contrário, inicia-o ingenuamente no uso de armas, tendo a caça como justificação! Questiona-se sobretudo a ausência de controlo e acompanhamento parental, explicada ingenuamente pelo stress e pelas exigências profissionais dos pais.
Em conclusão, trata-se de uma história actual, interessante, muito bem escrita mau grado os erros de tradução e revisão nesta edição da Civilização. No entanto, cai nas armadilhas recorrentes na moderna literatura norte-americana: reducionismos, lugares comuns e uma tendência por vezes exasperante para um tom melodramático que, no entanto, o tema justifica. Por exemplo, escapa à autora um dado fundamental: a realidade não é bem assim; raramente jovens humilhados são infelizes para o resto da vida. O mais frequente é que estes reajam por contraste, isto é, assumam o futuro como um desafio e construam carreiras de sucesso. Jodi Picoult tomou o todo pela parte. No entanto, não era um estudo sociológico que a autora pretendia fazer, pelo que se considera este livro como um excelente contributo para a reflexão sobre a violência juvenil, ao mesmo tempo que nos presenteia com uma escrita agradável, que prende o leitor até à última página.
Imagem retirada daqui. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

4 e 1 Quarto - Rita Ferro

Óscar Wilde. Não um livro, mas a vida. Foi para onde o enredo desta obra me levou a mente, quando terminei a leitura. Há vidas que são feitas de excessos. É o caso dos quatro personagens principais desta obra. Um livro que desmistifica, destrói, arrasa, perturba.
Um livro que violenta descaradamente o nosso sossego apenas aparente em que a maioria de nós vive. É que há quem transponha os limites do interior e passe para a vida as tempestades que todos nós, os comuns, mantemos guardadas. Foi o que fizeram Nuno, Teresa, Carlota e Inácio, quatro amigos que repartem a cama, os instintos, o corpo. Não, a alma, não!
Desde logo o fogo do amor desgovernado é apresentado como uma competição, por vezes ferozmente desenfreada, outras vezes dissimulada.
Passada a euforia dos desejos libertados, o jogo do amor revela um descarado jogo de poder: Nuno subjuga Teresa com a sua cultura livresca e uma personalidade inquebrantável; Teresa e Nuno subjugam Inácio, o amante passivo e submisso; entretanto, Carlota altera as regras de jogo e subjuga todos os outros, incluindo o próprio Nuno, se bem que de forma transitória, porque a luta persiste e agrava-se.
A espaços, o triunfo da superioridade feminina: primeiro Teresa, depois Carlota avassalam Nuno e Inácio, mas tudo é efémero: o charme, o instinto social, armas de ataque, acabam inexoravelmente por revelar a fragilidade de quem ama.
Por vezes, o amor como doença ou vício que destrói: “nunca chega! Nunca basta”, lamenta Nuno. E o amor como metáfora do vida sob a forma de paradoxo:
- Gozando ou sofrendo? Pergunta Nuno.
- As duas coisas. O mal é bom. Responde Inácio.
Ou ainda “as coisas que importam não são ainda as que importam” (Teresa). Mero jogo de palavras? Não, é o jogo da vida, da ambivalência que existe em quase tudo o que fazemos e sentimos.
Ao longo da obra, vai-se revelando a fragilidade dos laços que unem o quarteto. A ilusão, a festa do corpo vai deixando de ser suficiente para camuflar a falta de amor, de conhecimento dos outros e, atroz, impõe-se uma espécie de egoísmo sofredor que invade aquele mundo que nunca deixou de ser dividido por quatro. (Interessante verificar como a explicação dos fenómenos interiores é mais acessível a quem lê do que aos personagens).
Ir mais longe na análise de todo o significado da obra implicaria aqui revelar parte do enredo e o seu desfecho. Por esse motivo, não resta outro remédio a quem lê estas palavras senão ler o livro.
Em suma, uma obra muito interessante ao nível da análise das paixões, na reflexão sobre o eterno peso dos preconceitos e, fundamentalmente, sobre o risco que é a vida. Transgredir determinadas fronteiras e pagar o preço da liberdade: eis o destino de quem vive desacomodado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Werther - Goethe

Werther é um jovem que se afasta do mundo urbano para usufruir da natureza numa aldeia verdejante e simpática. A partir daí dá conta do seu quotidiano numa série de cartas dirigidas ao seu amigo Guilherme.
Werther vive num lugar paradisíaco; todas as descrições que faz do local são eivadas de um assinalável bucolismo. A paz e a felicidade parecem emanar da natureza. Desde logo, o bucolismo surge associado ao amor. Em breve Werther encontra Carlota, por quem se apaixona perdidamente. Carlota parece ser, ela própria, uma emanação da terra; algo de muito puro, caracterizada por uma alegria que só podia ser fornecida pela terra e pela natureza.
A paixão por Carlota surge de uma forma avassaladora. Qualquer pormenor, qualquer gesto ou palavra da formosa jovem são vistos por Werther como algo sagrado. A paixão vai-se tornando irresistível. É o idílio total, ao ponto de atingir a negação da própria personalidade (“O mundo não existe já para mim”). É o amor como forma de despersonalização total. No entanto, a felicidade de Werther leva-o a considerar mesmo que é dever de qualquer ser humano viver essa felicidade pois só assim levará alegria aos outros. O mau humor é uma agressão aos outros seres humanos. A paixão arrebatada, essa espécie de loucura, é vista por Werther como uma atitude grandiosa, própria dos grandes homens se bem que as pessoas vulgares as encarem como “coisas de loucos”.
O sonho e a ilusão são vistos como fonte de felicidade. Pergunta, no entanto, Werther: “Será quimera o que nos torna felizes?”
Em breve, a realidade abater-se-á sobre Werther. O aparecimento de Alberto, noivo de Carlota, transformará o idílio num tormento. Entretanto, Werther parece encarar Alberto como uma extensão da própria Carlota; e o afecto que dedica ao rival parece ser também uma extensão do amor que sente por ela; Werther parece amar Alberto porque ama Carlota.
Mas a presença do noivo marca a viragem cruel no destino desta paixão. Werther é assolado pela crueza da realidade; num discurso profundo e amargurado, Goethe justifica (pela voz de Werther) racionalmente o suicídio como a única cura para uma doença mortal, procurando desde logo a justificação moral para um acto que a sociedade puritana do século XVIII condenava com veemência.
A razão nada pesa quando o homem é atingido pela paixão; por isso, é também no domínio das emoções que se pode entender o suicídio.
A ideia chave com que se chega ao final desta primeira parte é uma conclusão avassaladora: tudo o que faz a felicidade de um homem é a origem dos seus males.
Na segunda parte do livro o desânimo de Werther acentua-se; no entanto, é curiosa a forma como Goethe nos dá conta de uma certa altivez quando o jovem atormentado atribui ao talento e à coragem a falta de auto-confiança. Não deixa de haver aqui uma certa ironia: a coragem revela-se inimiga da vontade de lutar? Coragem para quê? Para assumir a derrota? No entanto, para lá desta ironia aparente, podemos detectar aqui o grande gérmen do romantismo literário: a assumpção do sofrimento como acto de heroísmo.
Um outro aspecto aparentemente irónico do enredo é o facto de Werther, constantemente, acusar a desigualdade social, em defesa dos desprotegidos mas, ao mesmo tempo, assumindo-a como necessária e até como sendo beneficiário dessa mesma desigualdade; mais uma vez, a contradição é apenas aparente: viviam-se os últimos tempos do Absolutismo Régio, em que a mentalidade colectiva encarava a desigualdade como natural e incontornável; neste contexto, Werther revela mesmo aquilo a que hoje chamaríamos ideias pré-revolucionárias.
É nítida a antipatia do jovem em relação à frivolidade dos meios sociais de elite; Werther demite-se do seu trabalho, em parte, devido à inadaptação a essa frivolidade. No entanto, essa demissão é antes e mais uma fuga. Werther tenta fugir de si mesmo. Regressa então à casa de infância; mais uma vez, a fuga! Pouco tempo depois, coloca a hipótese da fuga para a guerra. No entanto desiste da ideia porque decide voltar para junto de Carlota. A rendição ao amor. Mas porquê este regresso ao lugar onde nasceu a sua infelicidade? Mais uma vez sobressai a ideia de procura de um certo heroísmo no sofrimento. Sofrer é um acto de coragem, não de resignação. Por outro lado, é a necessidade de fuga a si mesmo. A negação radical do “eu”. A entrega final de si próprio a um amor que hoje consideramos desmedido e doentio mas que, à luz da mentalidade da época e dos cânones da literatura romântica não é mais que um amor heróico.
Heróico até à morte; heróico no suicídio!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cão Como Nós - Manuel Alegre

Ler a prosa de Manuel Alegre é sentir o prazer da poesia sem ler poesia.
Kurika é um cão rebelde; faz tudo ao contrário, não responde à voz nem lambe as mãos. Um cão contestatário.
Um cão como nós, os que a todo o momento somos empurrados para as obrigações e a obediência. Mas, com o querer de quem luta, o cão ganha sempre.
Cão como nós, que finge e amua. Que mente descaradamente. Que é o que não é.
Cão como nós que nem da morte tem certezas; se tem/temos espírito; se o espírito nos tem a nós.
Cão como nós, prisioneiros dos sentimentos, carcereiros de emoções, cães que choram.
Cão como nós, cães que amam e se unem na angústia e no orgulho. Camarada cão. Melhor amigo do homem? Tretas! Camarada cão!
Cão como nós, a quem a tristeza se vê nos olhos, uma tristeza que não chega à palavra, apenas às falas da alma: o olhar, a poesia ou o silêncio.
Cão como nós que por uma vez se perde entre amores de verão, uma vez apenas, com tempo contado e previsto, sem eternidade, porque “não há outra eternidade senão a solidão partilhada”.
Cão como nós de quem até a morte parece ter medo, se bem que, no final da batalha, ela saia sempre vencedora.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Diário da Nossa Paixão - Nicholas Sparks

Antes de começar a leitura vale a pena dar uma vista de olhos à ficha técnica desta edição da Presença. Isto por dois motivos:
Em primeiro lugar, o título original do livro é “The Notebook” que, traduzido à letra, significa “O caderno”. Perante o sucesso inquestionável do livro, fica a pergunta: quanto vale um título apelativo, mesmo desvirtuando o original? Ou, por outras palavras, quantos milhares de livros conseguem vender-se graças a um título? Longe de mim insinuar que o sucesso desta obra se deve ao título, mas não tenho dúvidas que a escolha foi comercialmente muito feliz.
Segundo aspecto de realce na ficha técnica: estamos perante a 50ª edição deste romance, em dez anos! Inacreditável! Quantos autores se poderão orgulhar de um sucesso como este?
Perante um livro como o Diário da Nossa Paixão, qualquer leitor com algum conhecimento de causa sabe que se trata de uma obra essencialmente comercial ou, pelo menos, marcada pelo sucesso comercial. No entanto, parece-me injusto avaliar o romance por esse prisma. Para uns, é um grande romance porque vendeu muito, para outros é um mau livro porque é “light” e porque é muito comercial.
Por mim, prefiro abster-me dessa perspectiva e afirmo apenas que é um bom livro. E é bom porquê? Não tanto pela história de amor, mas principalmente pela maneira como me fez pensar no carácter efémero da vida humana. Nem mesmo um relacionamento para toda a vida ultrapassa as fronteiras da precária e limitada existência humana. Tudo acaba com a morte e, por vezes, dramaticamente, com uma espécie de morte em vida. Por mais felizes que as pessoas possam ser, há aspectos da vida, talvez os mais importantes, que trazem consigo a amargura do ser apenas humano.
Por outro lado, no meio da felicidade de duas pessoas há sempre alguém que fica para trás; na luta da vida há sempre alguém que perde. Lon, o noivo de Allie, tem uma postura corajosa, quase heróica, perante a “derrota” da sua paixão. Ele opta por respeitar os sentimentos de Allie aceitando pacificamente as opções dela. Fica, logo ali, o “amargo de boca” do leitor perante alguém condenado à derrota sem culpa formada.
No entanto, o que mais afecta a sensibilidade do leitor é o desfecho da vida de dois seres que se amaram, que foram felizes mas que nada podem perante a precariedade da vida humana; perante uma luta desigual onde o perdedor é sempre o ser humano.
Por tudo isto, não li este livro como um hino ao amor ou à paixão; não é um romance de cordel ou uma novela de amor. É um livro que nos faz pensar no drama da existência humana, no sentido da vida e no peso que um sentimento pode ter na existência humana. O sucesso de um relacionamento, aquilo a que às vezes chamamos felicidade não é mais que uma forma de preencher a vida, essa viagem com fim marcado, uma viagem só de ida.
Em suma, não se trata de uma obra-prima; não é um livro de referência, mas fica a sensação que poderia ter sido, se o autor tivesse optado por um desenvolvimento mais aprofundado dos dilemas que marcaram a existência de Allie e de Noah. No entanto, ter-se-iam perdido outras características essenciais que contribuíram para o sucesso do livro: a facilidade de leitura, o ritmo narrativo e um certo suspense em relação ao desfecho do enredo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carta ao Pai - Franz Kafka

Escrita em 1919, cinco anos antes da sua morte, esta Carta ao Pai é um testemunho grandioso dessa ambivalência que muitas vezes habita o espírito humano, constituída pelos pólos só aparentemente opostos de amor e ódio.
Kafka não esconde um profundo rancor em relação à figura paterna. No entanto, esse rancor surge mesclado com uma reverência profunda e mesmo admiração. O pai era o ser forte e poderoso que ele nunca foi; o ídolo e tirano da sua infância. Aquele que o desprezava mas em função do qual vivia.
O pai, na sua imensa autoridade, acaba por gerar em Kafka aquela melancolia e ao mesmo tempo a revolta que tão patente ficou na sua obra literária. Ler estas páginas é uma imensa ajuda para compreendermos o espírito revoltado, caustico deste que foi um dos maiores escritores do século XX.
Escrita ao “correr da pena”, esta obra manifesta uma ingenuidade de estilo bem patente nas frequentes inexactidões de linguagem, o que demonstra o carácter privado da sua escrita.
Para todos os educadores e pais esta obra é também um profundo motivo de reflexão. Até que ponto se justifica, por exemplo, impor normas religiosas constituídas por dogmas inquestionáveis para o jovem, sabendo-se de antemão que esses comportamentos e crenças surgem eivados de imposições sociais?
O poder da figura paternal, protectora mas tirana, anulou quase por completo a personalidade do jovem Franz. A humilhação continuada gerou, por outro lado, um sentimento de culpa que leva Kafka a diminuir-se perante o mundo. A escrita funcionou sempre como um refúgio, onde projectava a sua revolta sob a forma do absurdo.
A descrição das “atrocidades” cometidas pelo pai atinge por vezes extremos verdadeiramente pungentes. Por exemplo, a forma como descreve o desprezo supremo quando as críticas paternas se apresentavam sob a forma de ironia ou misturadas com o riso. Esta atitude era a suprema humilhação: o riso acentua o desprezo, a humilhação.
Em conclusão, trata-se de uma obra onde sobressai a frontalidade, a necessidade de catarse e a tentativa de reencontro de Kafka com a sua própria identidade, a partir do confronto directo com o pai. Um obra que não deixa de nos sensibilizar pela pertinência do tema, num tempo em que a educação familiar é tão questionada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As Pontes de Madison County - Robert James Waller

Robert Kincaid é um fotógrafo da revista National Geografic. Um homem simples. Um solitário feliz. A mãe afirmava que ele veio de um lugar para onde tentava voltar. Talvez por isso é um cidadão da natureza, um homem que procura, através da fotografia, captar o mundo.
No dizer de Francesca, ele é como o vento; move-se como o vento; “talvez viesse dele”…
Livre, poeta, só. Talvez à procura de algo…
Francesca é uma dona de casa submissa, uma mulher do campo, fiel aos seus princípios de moral cristã, tímida, recatada. Mas é como uma adolescente; sonha e sente que a vida lhe escapa na paz dos dias. Feliz? Acostumada à felicidade que a paz familiar lhe oferecia.
Por vezes, há situações na vida que não se explicam; uma emoção perante algo ou um súbito e avassalador sentimento por alguém… algo que surge de abrupto, mas que traz em si um sinal de predestinação, como se estivesse escrito no céu. Algo inevitável! Imperioso.
A atracção de Francesca por Kincaid surge em poucos segundos. No entanto, parece que todo o universo convergia para aquele momento. Nada mais havia a fazer. O inexorável triunfo da paixão.
Depois é o amor e a vida; os obstáculos incontornáveis que fazem a separação entre a concretização dos sonhos e a rotina dos dias que morrem, fazendo morrer a gente. Persiste a memória… como no quadro de Dali: uma memória incorruptível, poderosa. Mas apenas memória, logo, triste e melancólica. E a saudade, essa chaga que não fecha... E a nostalgia de um olhar para o passado como se este fosse uma espécie de paraíso perdido; ou que nunca se ganhou…
Este livro tem o inexplicável dom de nos dizer qualquer coisa que não conseguimos nunca explicar. Qualquer coisa impossível de descrever em palavras… 

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Leitor - Bernhard Schlink

A leitura como testemunho de um amor inexplicável, intenso e estranho. Um jovem de 15 anos que lê em voz alta para uma mulher de 36, que ama ardorosamente. Um adolescente sonhador e uma mulher bela mas autoritária. Uma personalidade em formação e um espírito enigmático, formado num passado misterioso e agora plasmado no silêncio de quem ouve ler.
Para Hanna, o amor carnal é uma forma de assegurar um presente fugaz, refúgio de quem vive perdida no passado; “a tua vida inteira numa hora”…
Todo o enredo se constrói em torno de um tema complexo e marcante para a Alemanha da segunda metade do século XX: a justiça para os criminosos de guerra, um dos grandes dilemas éticos do pós-guerra. Este livro comprova até que ponto o Holocausto nazi está ainda presente na consciência alemã de uma forma profunda e intranquila.
Para a geração do Leitor, não se tratava apenas de julgar criminosos, mas sim de julgar toda a geração dos próprios pais. Hitler, responsável pela morte e tortura de milhões de pessoas havia sido eleito e apoiado pela maioria dessa geração que agora é julgada; essa tinha sido a geração que executara as ordens de Hitler. Até que ponto, no entanto, é legítimo julgá-los? Até que ponto se trata de vontade de praticar a justiça ou apenas exorcizar a culpa e apaziguar a consciência?
Compreender a geração dos pais torna-se incompatível com a necessidade de julgar e condenar. E Hanna representa a geração dos pais. Amá-la ou julgá-la? É a grande questão.
Apontar o dedo aos culpados não liberta, não apaga a culpa colectiva. Mas torna o sofrimento e o remorso mais suportáveis.
Na segunda parte do livro, um novo dilema: o Leitor conhece um segredo de Hanna que a pode salvar. Mas, bem ao jeito da literatura alemã, Schlink coloca-nos perante um este dilema ético: até que ponto é legítimo revelar um segredo contra a vontade da própria pessoa que, com essa revelação pode ser salva? Poderá esse gesto “salvador” compensar a invasão da dignidade e da liberdade do ser humano?
Se bem que de leitura agradável e fluente, este livro deixa um tom nostálgico no final. O remorso prevalece. A culpa é insuperável. Amar ou castigar não eliminam a culpa nem acalmam a consciência. Culpa por ter amado; culpa por ter castigado.
No final, a grande mensagem parece ser esta: punir é uma tentativa vã de libertar a consciência. A culpa sobrevive. Não se elimina de uma geração para a outra, apenas se transfere. Os acusadores tornam-se vítimas da própria acusação.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

Um escritor vesgo, Bartolomeu, que lutava por se desamordaçar. Uma cantora, Kianda, cuja música era a linguagem dos Astros, uma modelo, ex-miss, que um dia caiu do céu. Angola, 2020. Um mundo em harmonia que, segundo Kepler, se expressa em música triste e lamentosa; a Terra chora; e continua a chorar, a terra angolana…
Um homem que morre lentamente depois de ver morrer a filha; uma esposa que não sabe se o há-de abraçar ou matar; - Abraça-o, diz a irmã, que morto já ele está. Bartolomeu vai morrendo mas lutando. Amores que se cruzam e descruzam e rancores que podem ser mais fortes que amores. E Pascal Abide exemplo extremo, real, do oportunismo que destrói a terra angolana: empresário das telecomunicações, senhor controla-tudo, traficante de armas, corrupto, criminoso, traficante de drogas, premiado pelo governo, íntimo da Senhora Presidente, embaixador de Angola no Vaticano.
O temor reverencial, doutra forma dito o medo, paralisante, monstro simpático que convida ao sossego, à harmonia da conivência, à paz da hipocrisia. Uma mulher com sinais no corpo, há que ler os sinais ou ser devorado. E a miséria de um povo nos subterrâneos dos prédios, nas catacumbas da vida.
Mas há sempre o sossego; há pessoas que são sempre lugares. Há sempre Lulu, o marido fiel de Kianda, o refúgio, o ultimo reduto, pessoa que é lugar. Sim, porque o amor é um lugar seguro e há pessoas que são assim: apenas um lugar seguro de onde nunca poderemos nem quereremos escapar. Como Luanda suja, miserável, corrupta, irresistível.
Por todo o lado, a magia do saber africano, a fantasia, o encanto da terra e dos seus fantasmas, refúgio, um lugar para onde se escapa a revolta. O lugar de onde a riqueza não sai nem entra, riqueza de um povo, de almas que não participam no jogo do poder. Apenas um povo ingénuo e sábio que sabe falar chuva, falar vento e conversar com o capim.
Mas em Luanda é preciso não falar; calar e seguir as pisadas do poder. Submissão. E Tata Ambroise, o feiticeiro do governo, o torturador, alma santa que cura desvalidos, ignorância ao serviço do poder. A boca voraz do monstro.
Kianda e Núbia, as mulheres que parecem existir para preencher os sonhos dos homens, mulheres que dão vida à existência. A exaltação do feminino, a beleza mais pura num mundo de podridão.
Em suma, um livro escrito na nostalgia, triste, às vezes apocalíptico, sem nunca perder a capacidade de sorrir, talvez o sorriso do desprezo. Uma visão pessimista mas também encantada de Angola que talvez se estenda à vida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Opinião - Afinal o tamanho é importante?


Os dois melhores livros que li até hoje (D. Quixote e Os Irmãos Karamazov) são absolutamente monstruosos (mais de 1500 páginas nas edições que usei). Outros livros considerados obras-primas da literatura mundial são do mesmo quilate: Guerra e Paz, Os Miseráveis, Ana Karenina, Doutor Jivago, etc. Isto leva-me a pensar no seguinte: o que distingue, de facto, uma obra-prima? Se é a análise aprofundada do comportamento humano, então, não tenhamos dúvidas, o homem é um ser tão complexo que não se consegue ir às profundezas da alma sem se fazer um “tratado” capaz de funcionar como arma de arremesso se nos assaltarem a casa.
Por outro lado, há livros fantásticos que se lêem numa única insónia: Madame Bovary, A Metamorfose, Inventar a Solidão, O Estrangeiro, De Profundis, A Morte de Ivan Ilich, ou o recente e maravilhoso Firmin.
Mas… poderão estas últimas ser consideradas obras-primas? Não serão apenas leituras e interpretações parcelares da vida e alma humanas?
Esta reflexão leva-nos a uma outra questão: afinal, o que queremos dos grandes livros? Que nos analisem profundamente ou que nos ofereçam belas histórias? Que nos ocupem longos serões e nos obriguem a memorizar centenas de nomes ou então que nos distraiam apenas?
Será o nosso tempo tão pouco valioso que nos possibilite utilizar centenas de horas para ler três ou quatro obras?
Evidentemente tenho as minhas respostas a estas questões. No entanto, gostava que os meus amigos pensassem no assunto…

domingo, 17 de janeiro de 2010

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

Kafka à Beira-Mar é uma obra magnífica por conseguir aliar um intenso ritmo narrativo a uma caminhada reflexiva capaz de nos fazer, por várias vezes, voltar a página atrás e parar para reflectir. A linguagem, cheia de simbolismo, cativa o leitor pela ironia e acima de tudo pela fantasia. O interior do ser humano é analisado em detalhe, à luz da sabedoria oriental, num meio irremediavelmente ocidentalizado como é o Japão moderno.
O enredo aborda o percurso de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que foge de casa e um homem idoso, o interessante Nakata, que fala com os gatos, faz chover sanguessugas ou peixes, depois de ter sido vítima de um estranho acidente, na sua juventude. Ao longo do seu atribulado percurso de fuga, Kafka parece fugir de si próprio; amaldiçoado por uma negra profecia lançada pelo pai, foge de quê? É este o coração do livro: de que foge o ser humano?
Em primeiro lugar, desde as primeiras páginas, Murakami transmite a ideia de uma acentuada crença na bondade natural do ser humano; a maioria dos personagens são naturalmente bons, o que vem, pelo contraste, reforçar a maldade atroz do pai de Kafka.
Nakata, velho e bom, encarna a ausência de conhecimento como fonte de felicidade; o velho que fala com os gatos ficara estúpido mas não sabendo o que são recordações, não sabe o que é o sofrimento.
Ao longo da obra, principalmente na primeira parte, Murakami evidencia todo o seu fascínio pelo conhecimento clássico, nomeadamente dos Gregos antigos. Na vida, como em Aristófanes, o ser humano parece destinado a procurar a sua “metade perdida”, com a qual se completará. Estabelece também um paralelismo com o teatro grego, na relevância que dá ao destino, como uma espécie de desígnio incontornável sobre a vida humana, nomeadamente a tragédia. Na vida humana a tragédia parece ser consequência das virtudes e não dos defeitos ou problemas.
Realce também, nesta primeira parte da obra, para a valorização dos conhecimentos tradicionais da cultura japonesa, como por exemplo o conto de Genji, na explicação dos “espíritos vivos”.
Mas o tema central deste livro é, sem dúvida, o destino. Numa espécie de luta interior, Kafka luta pela sua própria identidade, tentando conciliar o destino com o livre arbítrio. A fuga é antes de mais uma tentativa desesperada de escapar ao destino. No entanto, como afirma o seu amigo Oshima, “podes fugir mas não te podes esconder”. E, assim, a vida será sempre uma luta. Ao longo dessa luta, é fundamental a imaginação; aqueles que não a usam tornam-se ocos, desprovidos de conteúdo. É essa imaginação que permitirá ao ser humano lutar e triunfar contra o destino. O destino é poderoso mas não é invencível.
Quando Kafka foge, afinal, foge para onde? Inicialmente para a biblioteca, depois para a floresta: são esses os locais onde ele se pode encontrar. É a eterna procura do “eu”! No entanto, é dentro dele que se encontram as respostas. O seu “eu interior”, personificado pelo “rapaz chamado corvo” funciona como a sua consciência, a sua voz interior.
Ao longo da obra parece notar-se um certo corte com o conhecimento enquanto caminho para a felicidade; o verdadeiro conhecimento é precisamente aquele que provém do “eu interior”. É nesse sentido que Nakata, o velho, considerando-se “estúpido” porque esqueceu tudo o que aprendera na escola, é o mais sábio porque encerra todo o conhecimento místico que dará luz a todos os mistérios que o enredo encerra. A própria biblioteca não é vista como local de conhecimento mas de solidão; é aí que o espírito pode encontrar a verdade, não nos livros mas em si mesmo.
Em conclusão, trata-se de uma obra de grande alcance filosófico e místico, cheia de simbolismos e onde o mistério e a fantasia resumem todo o lado não racional do ser humano, lado esse que é fundamental na procura da identidade e do verdadeiro sentido da vida.
Imagem: Salvador Dali, Swans Reflecting Elephants

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Opinião - Abaixo o pedantismo


Num intervalo de leitura de um brilhante Murakami (Kafka à Beira-mar) faço uma investida pela Internet e deparo com algumas ideias que me deixam perplexo.
Eu sei que todo o ser humano tem direito à sua opinião. Sei e respeito.
No entanto, esse respeito não me impede de ficar indignado.
Eu sei que "é bem" dizer que se gosta de escritores obscuros mesmo que não se goste; "é bem" dizer-se amante de música clássica mesmo que lá em casa se oiça a Ágata; "é bem" decorar uns títulos de programas do Canal2 mesmo que, no esconderijo doméstico, se vejam apenas telenovelas da TVI e, quando muito, o concurso do gordo.
Tudo bem, se "é bem" que seja. Mas eu tenho direito à minha indignação e julgo ter motivos sérios para ficar indignado.
Não gosto do fado de Amália Rodrigues, dos livros de Paulo Coelho, da literatura Light em geral, de escritores elitistas e pseudo-intelectuais. Mas nunca direi ou escreverei que essas pessoas são estúpidas, incompetentes e inúteis. Por uma única razão: porque eles contribuem para a felicidade de muitos seres humanos! Por isso, tenho motivos para ficar indignado quando deparo com certas "modas" como considero pedantes, como a de considerar frívola e menor a (abusivamente denominada) literatura de auto-ajuda e desdenhar de determinados escritores apenas porque são populares e acessíveis como Paul Auster e este espectacular Murakami.
Aqui fica pois a minha indignação: uma obra prima não tem de ser um calhamaço duro de ler nem um escritor de génio tem de ser uma mente tortuosa e atormentada.
Sinceramente, cada vez que leio opiniões como as que referi acima, mais me apetece dedicar-me à tal literatura light! Venham daí as Nora Robert's, as Danielle Sttele's e até o velhinho Konsalik. A leitura tem de ser diversão; abaixo o intelectualismo pedante!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Amante - Marguerite Duras

“O Amante” é um dos maiores sucessos desta escritora que marcou a literatura francesa do século XX. Trata-se de uma obra de cariz auto-biográfico, o que, desde logo, revela a enorme coragem da escritora, tendo em conta o enredo do livro.
A protagonista é uma jovem francesa de quinze anos que se apaixona por um magnate chinês na Indochina (antiga colónia francesa que incluía o Camboja, Laos e Vietname). A jovem, a quem a autora não atribui nome próprio, envolve-se de imediato numa intensa relação amorosa e sexual. Trata-se, obviamente, de um relacionamento considerado “escandaloso” para uma jovem europeia.
Também o relato da vida familiar da jovem é absolutamente chocante: a mãe, antiga professora primária arruinada, viúva, é uma pessoa amargurada, gravemente afectada por distúrbios mentais, recorrendo com frequência a violentos castigos corporais sobre a filha “pecadora” e sobre o irmão mais novo, que acaba por morrer. De toda a família, ele é o único que, no livro, tem nome próprio (Paul). O irmão mais velho, dependente da droga e do crime, é uma pessoa violenta que se alia à mãe no exercício da repressão. Ambos, personificam a maldade e a violência.
Além disso, a miséria material, a pobreza quase extrema, acompanha este quadro absolutamente dramático mas descrito de uma forma chocante pelo realismo.
Trata-se de uma obra que, pelo seu dramatismo, exige do leitor um certo distanciamento em relação às emoções que, inevitavelmente, acaba por despertar. É uma obra marcada pela tristeza, pela revolta.
As mulheres são, em geral, vistas como seres solitários, dependentes e emocionalmente frágeis. E é essa fragilidade, essa solidão, que conduz a jovem até à relação intensa mas efémera com o amante. Este é visto como um ser algo superior, inacessível, porque pertence a “outro mundo”, o da elite endinheirada e poderosa. Mas, ao mesmo tempo ele é desesperadamente frágil por não ser capaz de assumir qualquer compromisso, permanecendo sempre submisso ao poder e ao sistema em que se encontra inserido. Além disso, é notório o choque cultural que afasta o amante chinês da jovem francesa.
Ela não se entrega por amor nem sequer por atracção, mas sim por revolta e solidão. Entrega-se e esvazia-se; a relação não a liberta. Pelo contrário, é a sua paixão pela amiga do reformatório, Hélène, que a realiza, que a gratifica, mesmo não passando de uma paixão platónica e fugaz.
A linguagem, poética e sentida, muitas vezes desesperada, é um dos maiores atractivos deste pequeno romance. Uma leitura que se recomenda com a advertência do necessário afastamento emocional, defesa indispensável a um leitor mais sensível.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A Terceira Rosa - Manuel Alegre

Trata-se de uma das raras obras em prosa deste que é um dos grandes poetas da língua portuguesa. Neste livro, Manuel Alegre relata-nos uma sofrida história de amor, entre Xavier e Cláudia, na fase final do Estado Novo português.
Os encontros e desencontros, as euforias e os dramas da paixão vão acompanhando a agonia de um regime pérfido mas moribundo que, no entanto, continua a dilacerar vidas e almas. Xavier e Cláudia, divididos pelo fascismo, separados por mundos opostos num mesmo mundo, vítimas dos outros mas também da insatisfação humana que eles próprios representam no teatro da paixão.
Numa admirável, cuidada e emocionada prosa poética, Alegre passeia pelas palavras enquanto nos guia pelos caminhos da solidão que o amor não apaga. Um amor sem tempo, ou melhor, com um tempo que é desde sempre e sem fim.
Fabulosa a descrição dos mecanismos da paixão, que “passa e não passa”. Assim é o amor: morre mas não morre. E um “também eu” que é frase de quem ama e se repete nesse tempo que não acaba, nesse passar que não passa.
Uma prosa escrita com ardor, sem artificialismo, apenas alma, apenas o som que vem do peito. Sem descrições inúteis, que tantas vezes enfadam e destroem grandes enredos. Trata-se da escrita mais pura e magnificamente simples que se pode criar.
Dispensável, talvez o estafado paralelismo entre o amor e os toiros de morte.
Genial, talvez a leitura da alma humana que, de tanto amar, destrói. Xavier amou até à exaustão.
Genial, também, os caminhos paralelos do amor e da Liberdade; o 25 de Abril que nasceu para não morrer, um amor que terminou sem morrer. A esperança que sobrevive, Cláudia e a Liberdade, a eternidade das paixões. Cláudia que dizia a Xavier “eu não quero morrer de ti” é, afinal, eterna.
Curioso título do livro: referência a um belo poema de E. E. Cummings em que a rosa vermelho-escura aparece como símbolo da morte:
(…)
If there are any heavens my mother will (all by herself) have
one. It will not be a pansy heaven nor
a fragile heaven of lilies-of-the-valley but
it will be a heaven of blackred roses
(…)