sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Grande Gatsby - Scott Fitzgerald

Talvez nunca se tenha escrito em palavras tão claras a fragilidade das relações humanas. A fragilidade da amizade, corroída pelo interesse egoísta e iludida pela força estridente da frivolidade. Talvez nunca se tenha escrito em palavras tão eloquentes a força de um amor, a abnegação com que um ser humano se pode entregar a um amor desmedido mas terrivelmente humano.
Gatsby era um grande homem! Um ser humano que todos nós gostaríamos de ter como amigo. Mas aquele mundo grandioso que ele próprio construiu acabou por lhe devolver apenas o travo amargo, ácido e atroz da incompreensão e da ingratidão. Do egoísmo. Do interesse pequenino que há nos espíritos que apenas procuram o prazer fácil na bondade dos outros.
O enredo, magnificamente construído num estilo simples e belo, passa-se nos famosos anos 20 dos Estados Unidos da América, época de libertação, do Jazz, da afirmação triunfal (embora provisória) da prosperidade capitalista americana. Num ambiente de alegria, riqueza material e crença num futuro radioso, os “amigos” do grande Gatsby nasciam como cogumelos em torno da sua portentosa mansão; as festas até de madrugada encantavam a sociedade. Contudo, havia um mistério em Gatsby. Um amor de perdição. Uma paixão muito mais forte que as suas festas, a sua fortuna e as centenas de “amigos”.
Fitzgerald apresenta-nos então um Gatsby generoso, abnegado no seu propósito de recuperar um amor perdido. Mas os obstáculos serão muitos. Toda a força da sua personalidade, todo o poder que o seu ser emanava seria posto à prova num meio onde (por detrás das aparências) se escondiam os mais atrozes e revoltantes defeitos do ser humano. A inveja, a ingratidão, a frivolidade e, acima de tudo, a inacreditável tendência do ser humano para usar os outros como fantoches de vidas assentes no prazer fácil.
Uma leitura mais ligeira poderia concluir que Fitgerald critica a decadência moral e o materialismo. Mas é muito mais que isso. Muito mais mesmo: a tão propalada decadência moral, que os moralistas de todas as épocas apontam não é mais do que a face visível da tremenda maldade humana. E não é uma questão de épocas; é uma questão de natureza humana, capaz de criar um Grande Gatsby mas também grandes demónios disfarçados de gente. Da mesma forma, o materialismo não é o grande inimigo da bondade e da felicidade; é o que está por detrás dele: o egoísmo, esse monstro que nos ataca ferozmente, porque tomos somos humanos.
Este é um livro inesquecível. Um livro que marca indelevelmente quem o lê e sente este drama da fragilidade dos laços que criamos na nossa vida. Haja sensibilidade no leitor e certamente ele repensará a forma como se relaciona com os outros. Afinal, o que queremos deles? Teremos nós a coragem para assumir que os outros não são apenas instrumentos dos nossos interesses? Saberemos que, perto de nós, existem “Grandes Gatsbys” que porventura mereçam a nossa admiração e amizade? Saberemos nós, de facto, o valor da amizade?
Este é um livro excepcional. Um livro que diverte quem lê e ao mesmo tempo capaz de nos fazer repensar muitas das nossas atitudes perante os outros. Em 140 páginas, que se lêem de um fôlego, Fitzgerald faz o nosso retrato, pintado com as cores vivas e alegres da bondade, da generosidade, do amor e da esperança, mas também com as cores tristes e revoltadas do pior que o ser humano é capaz de construir na sua vida.
Eu, pessoalmente, não vou esquecer Jay Gatsby tão cedo… o Grande Gatsby…

Na imagem: Robert Redford e Mia Farrow como Gatsby e Daisy em "The Great Gatsby", filme de 1974. Imagem retirada daqui

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Budapeste - Chico Buarque

Há cerca de vinte e cinco anos tornei-me um profundo admirador de Chico Buarque. A sua música e as suas letras transportam o génio de uma voz sentida, espelho de alma umas vezes revoltada, outras serena mas sempre mágica.
Foi, pois, com muita curiosidade e expectativa que procurei no Chico Buarque escritor o traço de génio do Chico Buarque músico. Obviamente, não o encontrei. Ele é um músico genial, pertence ao clube dos imortais e isso, é claro, levou a que as minhas expectativas em relação ao romancista disparassem para níveis impossíveis de alcançar.
Por outras palavras, este não é um livro de génio como foi a musica da Ópera do Malandro, por exemplo. Nem podia ser porque o génio é inigualável.
Neste livro, Chico Buarque aborda a eterna questão que assola a alma humana, a procura da identidade, de uma forma muito clara e assertiva. José Costa é um escritor anónimo, que escreve para outros escritores, esses sim famosos. José Costa é o escritor sombra, a par de muitos outros. Mas aquilo que para qualquer pessoa pode parecer uma desonra (escrever algo que é publicado por outro) é, para Costa, motivo de orgulho; ele sente-se realizado ao saber que outros ganham fama e dinheiro com os seus textos. No entanto, ele vai-se diluindo nesse anonimato, como se fosse proibido de existir. José Costa é apenas uma sombra.
Por outro lado, José Costa é, como qualquer de nós, um ser múltiplo. Ninguém é uno. José Costa do Rio de Janeiro ama Vanda; Zsoze Kosta de Budapeste ama Kriska. Duas faces, duas vidas, duas identidades, um homem. Um homem talvez à procura da unicidade. Mas, como Budapeste dividida pelo Danúbio, assim Costa permanecerá dividido de si mesmo.
O final do livro é brilhante. Ao ler este pequeno romance sente-se o esforço de subir uma montanha e o prazer de alcançar o seu cume, onde se alcança uma magnifica panorâmica. Ou seja, o enredo, o ritmo narrativo nem sempre são animadores; a leitura faz-se por vezes com algum esforço. Mas o prazer de assistir a um desfecho surpreendente faz com que, decididamente, valha a pena gastar umas horas a ler este Budapeste.
Seja como for, este Chico Buarque escritor nunca ultrapassará (na minha modesta opinião) a imortalidade deste génio musical:

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Condição Humana - André Malraux

Xangai, anos vinte do século passado. Uma cidade cosmopolita, onde se cruzam pessoas e interesses. Cidade chinesa onde persistem concessões a países ocidentais. Assim, franceses, chineses do regime de Chiang Kai-Chek, e chineses revolucionários levam ao extremo a condição humana na sua luta interminável e desesperada pelo poder.
O notável escritor e ensaísta Jorge de Sena, que prefacia e traduz esta edição da editora “Livros do Brasil”, afirma que não se é o mesmo antes e depois de se ler esta obra. De facto, trata-se de uma reflexão pungente, dramática sobre a condição humana, quando o indivíduo é confrontado com dilemas extremos, que o colocam na fronteira da morte, ao serviço de ideias com as quais identificaram o sentido das suas existências.
Nos tempos que correm, continua a ser inexplicável a forma como alguns seres humanos são conduzidos a atitudes e comportamentos radicais, aparentemente ao serviço de ideias políticas. No entanto, Malraux leva-nos a compreender que o que está em jogo nessas atitudes não é uma mera ideologia política ou uma determinada luta por convicções; é todo um sentido que se deu à existência; é um caminho que, em certas circunstâncias conduz inexoravelmente à linha ténue que separa o matar e o morrer.
Mas detenhamo-nos um pouco no enredo desta obra. Para os activistas comunistas de Xangai, a acção imediata, a revolução, é a única via possível para o socialismo. No entanto, Moscovo receia a inferioridade de forças perante o poder de Chiang Kai-Chek (Xan-Kai-Xeque nesta tradução). Para os russos, era necessário recuar estrategicamente, entregando as armas, para que a conquista do poder pelo socialismo se fizesse de forma paulatina. Mas para os guerrilheiros, a fome do povo e o seu sacrifício não se compadeciam com este recuo, que viam como capitulação. Assim deflagra a guerra civil: Chiang Kai-Chek, aliado fiel dos franceses, recorre à mais extrema violência para reprimir a revolta. Inicia-se o ciclo fechado da violência: violência, vingança, morte. A morte atrai a morte. “Fazem-se bons terroristas dos filhos dos executados”, diz Suan, um dos terroristas. É por isso que matar e morrer são coisas tão próximas: quem mata, como Tchen, já morreu um pouco. O sentido da vida aproxima-se irremediavelmente da morte.
Talvez neste ponto se encontre a melhor explicação para o “instinto” suicida dos revolucionários: quem procura o absoluto, o imortal, aproxima-se da morte, procura-a.
E quando não se acredita numa causa, acredita-se numa mulher. Porque o coração tem de comandar a vida. Diz Hemmelrich, um dos revolucionários, com ironia: “se é preciso ser sempre comido, antes por elas”.
No fundo todo o homem aspira a superar a condição humana: a ser Deus; a dominar ou influenciar; a ter poder para modificar algo. Por vezes, a violência deixa de ser apenas uma forma de vingança; é já um sentido definido da existência, uma forma de superar a condição humana. Quando Hemmelrich vê a filha e a mulher mortos e esquartejados, pensa em vingança. Mas o sentido profundo dessa atitude é o amor: “podemos matar com amor”. É a confluência entre o amor e o ódio, entre o amor e a morte, entre o concreto e a intemporalidade. A fronteira ultrapassável entre o homem e Deus.
Entretanto, o velho Giors vai fumando ópio para não pensar: “todos sofrem e cada um sofre porque pensa”. 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami

Sumine e o narrador (a quem nunca é dado nome) estão unidos pelos livros: “para nós, devorar livros era tão normal como respirar”. Numa história de solidão, os livros são o companheiro permanente para quem as encruzilhadas da vida são incontornáveis.
Sumine, a jovem escritora, Miu, a misteriosa empresária e o narrador, um professor silenciosamente apaixonado, vivem caminhos paralelos que nunca se encontram. Tocam-se por momentos fugazes e ilusórios. O resto é a vida: a angústia de uma existência com traços bem definidos mas movida por uma força invisível que os impele para longe das metas do coração. O amor que os une é também o que os separa.
Sputnik é o nome que Sumine dá a Miu, por quem se apaixonara. Sputnik significa “companheiro de viagem”. Mas é um nome absurdo. Sputnik é um satélite de metal que caminha solitário em torno da Terra. Assim é Miu em torno de Sumine – presente mas ausente. Perto, mas longe.
O Japão é talvez o país onde de forma mais evidente se digladiam o progresso tecnológico do mundo capitalista e uma tradição ancestral de humanismo e espiritualidade. Nessa disputa, o capitalismo venceu e o Japão é um país angustiado pela perda desse reduto espiritual. Os livros de Murakami são o espelho dessa angústia. A solidão invadiu o país, inavadiu as almas porque os corpos, esses, continuam a caminha juntos, mergulhados na luta pela sobrevivência.
Escritor de um talento raro, Murakami é o porta-voz da solidão. Os seus personagens pensam e sonham. Porque pensar é a estratégia humana para conciliar o que se sabe com o que não se sabe; para evitar a “colisão”. Sem pensar, só há uma forma de a evitar – sonhando, saindo da realidade.
O trauma de Miu (encarcerada numa roda gigante, vendo-se a si própria fazendo amor com um homem detestável) exprime de forma sublime a dualidade que há no ser humano: ninguém é um ser único nem uno; somos múltiplos; não há um “eu”. Ou, se há, está dividido entre “o lado de cá”, o da realidade concreta e o “lado de lá”, o do sonho, de um mundo criado por uma espécie de eu inconsciente que paira sempre sobre a nossa vida material.
Cada um de nós não é mais que um satélite solitário, gorando perpetuamente em torno da Terra. Cada um vivendo o seu “lado de cá” e a maioria de nós permanece sem saber como chegar ao “lado de lá”. Sentindo-o, por vezes sofrendo com ele, sonhando-o sem conseguir mais do que contemplá-lo, como um satélite solitário condenado a observar as estrelas.
Às vezes, no entanto, o sonho é a única coisa que vale a pena…

domingo, 20 de junho de 2010

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón

É impressionante a força que D. Quixote continua a ter na literatura espanhola. Fermin Torres, magro e narigudo como o fidalgo de La Mancha, personifica a alma generosa do herói de Cervantes. Destemido mas algo louco, utópico mas saudavelmente positivo, persegue a verdade e a justiça, lutando contra os moinhos de vento da ditadura franquista, inimigos reais mas por vezes escondidos sob a máscara da mais terrível hipocrisia.
Daniel Sempere persegue um livro. Um livro esquecido, abandonado, de um escritor menor, perdido nos mistérios do tempo, da guerra civil e do ódio. E por trás do livro está um homem: Julian Carax, seu misterioso autor. Procurando Carax, Daniel procura-se. Envolvendo-se numa misteriosa teia de percursos sinuosos, Fermin e Daniel enfrentam uma cidade (Barcelona) feita de medo, sangue e ódio, onde as feridas do corpo e da alma são difíceis de curar. Viviam-se os tempos terríveis da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e posterior ditadura criminosa de Franco.
Carax, como Daniel e como qualquer de nós, não é só carne e osso – é alma, fantasma, sombra, um mundo imenso de mistério que Daniel vai desvendando.
Fazendo lembrar Perez-Reverte, Zafón presenteia-nos cm uma escrita empolgante, cheia de mistério, que agarra o leitor até à última página, até um final surpreendente, maravilhoso pela simplicidade.
Toda a vida de Daniel é condicionada pela procura de Carax, pelo desvendar do mistério, de tal maneira que a sua vida se funde maravilhosamente com o enredo do livro. Vidas que se misturam, enredos que se intersectam, criando um mundo complexo de realidade e ficção, com um pano de fundo profundamente dramático: o drama da Guerra e da ditadura são descritos muitas vezes em forma de autêntico “dramalhão” que, em certas passagens, chega a impressionar pelo exagero do sangue que escorre pelas páginas, bem à maneira da alma espanhola.
Pelo meio, uma espécie de sabedoria popular povoada de humor: “Falar é de ignorantes; calar é de cobardes; ouvir é de sábios” – disse Braulio Recolons, gerente de uma casa de toucinhos.
O livro é o tema central do livro. Um livro que decide destinos. Como tantos de nós bem sabem. Um livro une vidas, separa o que Deus uniu, mata e faz viver. Carax escreveu que “há prisões piores que as palavras”. A mim, modesto leitor, depois de ler este livro, apetece-me dizer que não há melhor prisão que a dos livros.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ana Karenina - Lev Tolstoi

Nesta obra monumental, Tolstoi faz uma profunda abordagem da alma humana. A história de Ana Karenina, a esposa infiel, é apenas um pretexto para Tolstoi enunciar as suas ideias, firmes e polémicas sobre o casamento, a família, o estatuto da mulher, a estrutura social, etc. Não quer isto dizer que o enredo literário passe para segundo plano. De maneira nenhuma. Trata-se de um enredo cheio de dramas e dilemas que prendem o leitor da primeira à última página.
Ana é, como muitas mulheres, antes de mais, uma vitima de um sistema social em que o casamento nem sempre corresponde aos ditames do coração. No entanto, a grande questão que a Tolstoi aborda é esta: estes dramas resultam da falta de amor nos casais ou antes de uma concepção leviana do casamento ou ainda da incapacidade de adaptação a uma vida em família que exige dedicação quase sagrada?
No entanto, este romance constitui uma abordagem psicológica e social que extravasa em muito estes dilemas familiares. Na última fase da escrita deste livro, Tolstoi entra num período de dúvidas existenciais que o levaram a uma grave crise moral. Refugia-se na religião e abandona a família. Talvez a ficção tivesse influenciado a realidade; talvez este livro ajude a explicar tão radical decisão de L. Tolstoi.
Logo nos primeiros capítulos é nítido que a diversidade de personagens e a sua excelente caracterização leva o leitor a identificar-se obrigatoriamente por uma delas; outras, sem nunca se tornarem odiosas são, desde logo, alvo de alguma aversão (no entanto há em Tolstoi uma certa tendência para compreender sem criticar os personagens menos “simpáticos”). Seja como for, o envolvimento do leitor é sempre incontornável.
Ana é um espírito livre e rebelde, dotada de uma impressionante serenidade, inteligência e bondade.
Traída pelo marido, Dolly (cunhada de Ana) é, pelo contrário, é uma mulher marcada por uma educação feminina que a tornara passiva, ignorante, conservadora e submissa. Perante o desprezo do marido, o alegre e despreocupado Oblonski, Dolly opta pela submissão e dedicação à casa e aos filhos. Fica lançado o repto ao leitor: qual destas duas mulheres terá, para Tolstoi, um destino mais favorável? A resposta a esta pergunta, que o leitor descobre com enorme facilidade, dita a concepção que Tolstoi tem do caminho para a felicidade familiar.
Dolly, após a infidelidade do marido, que a traíra com uma preceptora inglesa, continua desconfiada de novas traições. Foge ao sofrimento desprezando o marido e desprezando-se a si própria. Perante uma desilusão, o ser humano põe em causa o outro mas, acima de tudo, põe-se em causa a si próprio – o caminho mais fácil e tentador é o auto-desprezo; é o abandono à anulação do eu. E Dolly só supera este sofrimento com uma dedicação extrema aos filhos e com a rejeição de sonhos românticos.
Sobre o casamento, afirma Tolstoi: “cometer o erro para depois repará-lo: eis o caminho”. Só o amor pode perturbar essa paz e essa felicidade tranquila. Parece clara a opinião de Tolstoi sobre o amor: muitas vezes, o amor romântico é um obstáculo à paz interior e, consequentemente, à felicidade.
O tempo de Tolstoi (finais do século XIX) foi uma época complicada.
Viviam-se os primeiros tempos do fim da servidão rural mas a libertação dos servos nem sempre era cumprida pelos grandes proprietários. Na Europa nasciam e divulgavam-se as ideias socialistas, que preconizavam a Revolução que deveria conduzir a uma sociedade justa e sem classes. Nicolau é um socialista que sonha com a sociedade ideal. No entanto, é um desiludido. Embriaga-se e vive como um vagabundo. Tolstoi, grande defensor dos direitos dos mais pobres, mostra-se assim pouco crente na opção socialista.
Também a crítica social está sempre presente: nos salões da alta sociedade reina, como sempre, a maledicência.
Alexei (o marido de Ana) desconfia de esposa, depois toma conhecimento de todas as suas aventuras mas a sua grande preocupação é sempre a aparência perante as convenções sociais. Perante o “crime” de Ana, o propósito de Alexei é claro e cruel: “O importante é que eu não sofra e que eles não sejam felizes” (…) “Que ela seja desgraçada, eu não”… o cúmulo da crueldade humana…
O marido enganado transforma o amor em ódio. A curta distancia entre o amor e o ódio! O perdão é apenas uma fachada!
Ana sofre uma verdadeira tortura moral: sentimento de culpa e medo do futuro. Ana está convencida que “não poderia ter sido de outra forma”. Este conformismo, esta falta de capacidade de luta e reacção impede-a de ser feliz.
Tolstoi exalta com firmeza a vida no campo: Levine é um personagem interessantíssimo. Vive encantado com a vida no campo, que o autor descreve com laivos da literatura romântica. Levine é, durante grande parte do enredo, o russo rural e feliz.
É também o exemplo do grande proprietário moderno e justo: vive numa relação próxima com os camponeses, manifestando-se contra a servidão.
Levine representa também o guardião da nobreza russa: que valoriza a terra, o património dos antepassados. No entanto, a maioria dos nobres do seu tempo prefere a cidade, deixando desbaratar esse património.
Mas nem o casamento nem a vida bucólica do campo são suficientes para a felicidade plena. Levine continua à procura do sentido da vida. Não acredita na religião mas reconhece que fora dela não encontra respostas. Os que se afastam da religião acabam por se dedicar as coisas que nada lhes dizem, como a evolução das espécies e outras coisas das ciências.
O ser racional vive para a barriga. Mas não deve ser assim. “Devemos viver para a verdade; para Deus”. A inteligência é orgulho e malícia. É uma fraude.
Acredita numa fé em deus que está acima de qualquer dogma, de qualquer igreja.
Conclui acreditar numa religião universal, numa Consciência Superior, que se baseia em Deus e na bondade, não nas igrejas e nos dogmas.
Kitty é outra personagem central nesta obra. Ela representa a mulher feliz, que soube ultrapassar os dramas do amor, construindo um caminho sereno, de calma e tranquilidade, sem o fogo das paixões avassaladoras que a fizeram sofrer na juventude. É um exemplo de bondade e generosidade. Há em Tolstoi uma certa associação de ideias entre a generosidade, a alegria e a saúde. A cura de Kitty parece ter-se dado por isso: pela bondade, alegria e amor, graças a Varienka (que se revela grande amiga, desprendida, dedicada aos outros) e ao pai, um espírito positivo e pragmático. Aqui nota-se o afastamento de Tolstoi em relação à literatura romântica: foge claramente ao culto do amor sofrido.
Talvez o âmago da obra seja este: haverá culpa? Haverá erro? Não havendo erro, não deveria haver culpa! Mas porque é que a maioria das pessoas só se preocupa com a atribuição de culpa?
As personagens agem de maneiras diversas, evidenciando personalidades distintas mas tudo se passa como se cada uma delas obedecesse a uma lógica própria, tendo cada uma delas a sua razão. A grande “frieza” de Tolstoi nesta análise psicológica permite concluir que a “culpa” é algo de subjectivo. Perante um acontecimento dramático todos têm a sua lógica e todos os comportamentos são justificados e legitimados. Isto, por um lado, desculpabiliza todos os personagens. Mas, por outro, manifesta o egoísmo do ser humano que, incapaz de compreender o sofrimento do outro, apenas procura justificar a sua própria posição.
Um dos aspectos mais perturbadores nesta história é a falta de preocupação com os sentimentos de Ana por parte dos dois homens (Alexei e Vronski). Esse egoísmo parece ser o maior problema de todos os seres humanos, essa incapacidade de entender o outro.

domingo, 13 de junho de 2010

Guerra e Paz - Lev Tolstoi

Karaguin, Bolkonski, Bezukhov, Mikailovna, Rostov, são cinco famílias de onde Tolstoi parte para uma das maiores aventuras literárias alguma vez empreendida.
Isto não é um romance; nem um tratado filosófico; também não é um livro de história. É uma mistura genial de tudo isso.
Mil e oitocentas páginas distribuídas por quatro volumes, com uma excelente tradução da Editorial Presença percorrem os anos das guerras Napoleónicas no Leste europeu. Nas duas capitais da Rússia (Sampertersburgo e Moscovo), as personagens vêem as suas vidas afectadas de forma mais ou menos indelével pela guerra, sem que isso impeça os dramas, alegrias e tristezas do quotidiano.
A guerra desenrola-se nas altas esferas da sociedade, entre imperadores ambiciosos, generais oportunistas e oficiais interesseiros. Os soldados, esses, são os peões, a “carne para canhão” que emana do povo, desse povo russo heróico e miserável.
Um dos primeiros aspectos que impressiona nesta obra é a imensa capacidade de descrição! Até hoje só tinha lido um escritor com capacidade para fazer descrições tão pormenorizadas sem maçar o leitor: Flaubert. Mas Tolstoi supera-o. O melhor adjectivo que encontro para definir essa capacidade descritiva é cinematográfico! O leitor vê o que Tolstoi descreve. Impressionante. Um dos melhores exemplos é como ele compara o movimento do exército a um grande relógio. Ocupa uma página com essa descrição, de forma magnífica.
O segundo aspecto relevante, que o leitor sente logo nas primeiras páginas é a critica deliciosamente subtil à sociedade da época, com personagens-tipo: o rico e rabujento Bolkonski, o pedante e rastejante Vassili, a descarada e “pé-rapado” Anna Mikailovna, o cabeça no ar Anatole, o romântico e sonhador Rostov, o, arrivista e oportunista Boris, etc. Neste domínio, destaque para a crítica ao papel social da mulher, relegada para um estatuto quase decorativo. A mulher não tem educação escolar, e apenas se realiza com o casamento. Este é ditado pelas normas sociais, pela conveniência e quase nunca pelo sentimento. Revela, sem dúvida, uma concepção algo tradicionalista da mulher: valoriza o seu papel como mãe e doméstica. No entanto, há um certo encantamento pela capacidade que certas mulheres têm para ouvir os homens e apoia-los. A mulher virtuosa não se preocupa com o visual nem com o social, nem como “seduzir” o marido, como defendiam as pessoas “inteligentes”, sobretudo francesas. A esposa perfeita “assumia o papel de escrava do marido”.
Elogia sempre a família tradicional – “o homem com duas mulheres é como quem almoça duas vezes: pode obter mais prazer mas provavelmente não digerirá nenhuma delas”.
O quadro perfeito da vida familiar: os homens discutem negócios, assuntos militares e da governação, as mulheres bordam e servem os seus maridos, as crianças imitam os adultos nas suas brincadeiras.
O amor constrói-se em torno dos filhos e da casa. As grandes paixões são nefastas porque levam ao sofrimento.
Na primeira fase do romance, Tolstoi descreve-nos uma sociedade russa parecia dominada pela cegueira. Boris representa aquela juventude que adora Napoleão, mesmo em guerra com ele. Nikolai Rostov chega a defender a necessidade de não ter espírito crítico: “se começarmos a fazer juízos sobre tudo e a raciocinar, nada haverá de sagrado”.
Boris foi o primeiro a descobrir que a inteligência e a bravura não são o mais importante no exército e na sociedade mas sim a bajulação aos superiores. Ele prefere a capital (Petersburgo) onde pode conviver com a alta sociedade.
Ainda no aspecto social, realce para a ausência da burguesia, numa época em que noutros países já se afirmava a sociedade burguesa fruto da industrialização e do liberalismo. A alta sociedade russa é dominada por terratenentes ainda agrarrados à servidão, já abolida no ocidente há muito tempo.
Interessantíssima a figura de Pierre: aparentemente sem personalidade, ingénuo e às vezes bêbado, no início da obra admira Napoleão e é feliz. Mas ao longo dos volumes Pierre vai deambulando na incerteza da sua própria personalidade, na procura incessante de um sentido para a vida.
Pierre é um homem sem respostas; um homem atormentado pelas dúvidas sobre o sentido da sua vida. A maçonaria surge como a fonte dessas respostas. Pierre, um homem puro, acredita que só com essa pureza pode compreender a Fé.
Mais tarde, Pierre tenta dedicar-se às terras: Tolstoi critica frontalmente a servidão. Pierre decide começar a libertar os seus servos e encontra nesse serviço aos pobres uma fonte de felicidade. Pierre volta a sentir-se realizado e personalizado. No entanto, as incertezas voltarão. Parece ser esta a sina de um homem que questiona o mundo, que não se satisfaz com a vida aparente que a maioria cultiva. E até ao fim do romance, Tolstoi presenteia-nos com uma estória riquíssima, a de Pierre, com experiências de vida incríveis, simbolizando todas as estratégias que o ser humano procura para, tão simplesmente, encontrar essa paz a que chamamos felicidade.
Outro traço característico da escrita de Tolstoi é uma intensa religiosidade, por vezes mesmo apologética, mas independente da chamada religião institucional. Ele advoga a necessidade vital da religião, da fé, mas não da Igreja ou dos dogmas: uma religião pura, que pratique o amor ao próximo e a bondade. Andrei, às portas da morte experimenta um conceito totalmente espiritual de Amor: um amor sem objecto; um amor que é apenas amor; “amar Deus em todas as suas manifestações” é amar sem objecto nem objectivo – simplesmente, amar! Essa é a essência da alma que permite amar o inimigo. É o amor divino.
Também sempre presente em Tolstoi, a crítica aos políticos e militares russos, excessivamente preocupados com os salamaleques, os protocolos, as condecorações, as aparências (como toda a sociedade russa) e incompetentes no campo militar. Aí, a bravura de alguns (Bagration, Denissov, Andrei…) e a inteligência de outros (Kutuzov) não consegue compensar a incompetência de tantos (a maioria) preocupados com a carreira e as aparências.
Em relação à guerra, Tolstoi desmascara a desinformação que reinava na sociedade russa: os relatos da guerra são sempre subjectivos, falseados e exagerados. É essa a “verdade” que circula na Rússia: em vez das derrotas e misérias circulam os boatos de feitos heróicos, as gabarolices e as notícias de condecorações.
Destaca-se sempre uma grande simpatia pelos soldados, a gente do povo. Esses são os que morrem. Os que não interessam aos generais e políticos.
Na guerra, Tolstoi descreve com incrível realismo todas as misérias por que passa o exército russo; os soldados, esfomeados, recorrem a ervas perigosas para se alimentar. As aldeias prussianas eram pilhadas constantemente, tanto por franceses como por russos.
Descreve com pormenor a vida miserável dos soldados e um “hospital” com condições absurdamente desumanas.
Curiosamente em Tolstoi todas as personagens parecem ter um lado bom, humano, principalmente os jovens: a maior parte deles são ingénuos, sem ideias, por vezes “ocos” mas sempre com algo de positivo na alma e abertos à espiritualidade.
Por exemplo, num acto de bravura, Nikolai Rostov captura um oficial francês. No entanto, reage com uma certa nostalgia, mesmo tristeza. É o lado desumano da guerra que o apoquenta: na verdade, os franceses eram seres humanos.
A família Rostov é o retrato da bondade, da simpatia e de todos os valores humanos que levam o leitor a desejar um final feliz para personagens tão cativantes como a bela Natacha, a infeliz Sónia, o valente e bom Nikolai, o pequeno e feliz Pétia. Mas a vida nem sempre se compadece com a bondade…
Os Rostov são o símbolo da união familiar. Tolstoi nunca abandona este lado moralista em que a família, desprovida de interesses sociais e ambições desmedidas permanece como um reduto e um pilar fundamental da sociedade.
Mas o lado mais profundo desta obra encontra-se nas intensas reflexões com que Tolstoi povoa o romance.
Uma das questões que mais o preocupa, e para a qual acaba por não encontrar resposta, é esta: porque é que aconteceu a guerra?
As causas da guerra são tantas que não são nenhumas; é errada a ideia dos historiadores de tentarem identificar este ou aquele facto como causa principal da guerra. “O acontecimento deu-se apenas porque sim”. Há dois lados na vida de qualquer homem – a vida pessoal e a vida “de enxame”, em que o homem apenas cumpre leis prescritas. Esta é uma espécie de vida inconsciente e colectiva; é a História! O Rei, esse, é escravo da História. O próprio Napoleão era empurrado pela História, por uma vaga de fundo difícil de identificar mas impossível de suster: “Nos acontecimentos históricos, os assim chamados “grandes homens” são etiquetas que dão o nome aos acontecimentos”.

No inverno de 1812 Napoleão será derrotado, perante um exército inferior e com generais inexperientes. Causas: o inverno russo e o ódio que Napoleão despertara no povo russo. Os historiadores russos dizem que a vitória se deveu ao génio de Pfull, ou de Tolly, ou de Alexandre, que atraíram os franceses para o interior da Rússia. Os historiadores franceses, pelo contrário, dizem que Napoleão sentiu o perigo da campanha, o perigo de estender a linha de avanço e teria evitado confrontos. A verdade é que nenhuma destas versões está correcta. Nem os russos queriam atrair os franceses (confrontaram-nos sempre) nem Napoleão tinha qualquer receio de avançar, evitando confrontos. Napoleão não previu o perigo de Moscovo. O recuo das tropas russas não foi estratégico! Deu-se quase por acaso: Bagration recusa-se a aproximar-se do alemão Tolly, seu superior, que detestava. Alexandre, com demasiados conselheiros, não consegue unir os 2 exércitos, que recuam.
Esta critica aos historiadores é uma constante ao longo da obra. Tolstói estava muito à frente do seu tempo, até na análise histórica – a História só relatará a verdade quando não se limitar aos grandes homens (só no século XX esta verdade haveria de ser praticada, pela chamada História Nova, da escola francesa).
Sobre as guerras: Se a guerra se fizesse para expandir a civilização e o bem estar dos povos, seria um contra-senso, porque elas envolvem mortes e destruição de riquezas. Os livros e a ciência fariam isso muito melhor. No entanto, porque é que acontecem as guerras? Por acaso. Porque sim. E os génios aproveitam o acaso.
Esta análise histórica revela já uma crítica ao positivismo lógico (teoria fundada por Augusto Compte que defendia a extrema cientificidade da análise história): a nova ciência derrotou a antiga que se baseava no poder da divindade; mas imita-a, substituindo Deus pelos grandes homens. Mas não são os grandes homens que movem a História; são os movimentos dos povos; e a História não dá resposta à grande questão: o que faz mover os povos? O que provoca as ondas de fundo?
Alguns historiadores dizem que a história não é movida por um homem porque eles são fruto dos acontecimentos. Mas param a meio do caminho porque caem sempre no determinismo da acção desses líderes.
Porque é que isto acontece? Porque os historiadores também são homens grandes: se a história fosse escrita por comerciantes ou soldados dir-se-ia que os comerciantes e os soldados eram os construtores da história.
A História não se escreverá correctamente enquanto não for escrita a história de todos os homens! Porque só aí se encontra a força que faz mover a História.
Fica clara a visão “avançada” de Tolstoi sobre a análise histórica. No entanto, em minha opinião acaba também por cair num certo dogmatismo que impediu de ter em conta determinadas realidades:
1-      As vagas de fundo, como ele lhes chama, são provocadas por uma soma de vontades individuais – desde o soldado ao comerciante, do camponês ao intelectual, todos têm vontades, embora todas elas diferentes! Ora, por vezes, há objectivos comuns que servem diferentes vontades. É nesse momento que se dão os grandes movimentos da História. Pergunta Tolstoi, aparentemente sem resposta: porque é que os franceses desataram a matar-se uns aos outros a partir de 1789? Obviamente não foi só pela vontade dos homens grandes; é que cada um dos franceses tinha os seus motivos, as suas vontades e a violência servia essas vontades: o servo de matar o senhor, o ateu matar o padre, o comerciante matar o cobrador de impostos, etc. Todos estavam unidos por um objectivo: expressar o ódio por aqueles que consideravam opressores.
2-      Tolstoi parece esquecer que os grandes homens movimentam e manipulam vontades, logo, há toda a legitimidade em destacar o seu papel. Os milhares de soldados que matam outros milhares fizeram-no por vontade própria ou pela vontade de Napoleão ou Alexandre?

Obviamente, estas minhas observações à análise histórica de Tolstoi não impedem que considere esta obra como uma das mais majestosas e brilhantes alguma vez escrita.
Sem dúvida, uma obra genial.


*Imagens retiradas de http://pt.wikipedia.org
(em cima, Alexandre I, Czar da Rússia e Napoleão Bonaparte)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Rapaz do Pijama às Riscas - John Boyne


Nunca ninguém me há-de convencer que se fala demasiado do Holocausto Nazi. Relembrar estas situações, em que a maldade humana foi levada um extremo inimaginável, será sempre, a meu ver, uma necessidade. Para que a memória ainda possa evitar que a loucura de alguns seres humanos atinja estas proporções...
A insanidade nazi provocou situações que, sem dúvida, serão sempre terreno fértil para escritores e cineastas. Infelizmente, na maior parte dos casos encaminhou-se esta base histórica para a exploração fácil da violência nos ecrans e até nos livros. Mas não tem de ser assim. Recentemente, O Leitor foi um exemplo magnífico de como ainda é possível fazer leituras profundamente humanas e ver perspectivas novas no contexto do Holocausto. E este é mais um exemplo.

O que este livro tem de mais interessante é, na minha opinião, o de nos mostrar o lado dos alemães na guerra. O nosso herói, Bruno, de nove anos, é filho do comandante de Auschwitz (Acho-Vil no dizer ingénuo da criança). O pai é um dos favoritos de Hitler, o Fuher (O Fúria para Bruno) e tenta esconder do jovem tudo o que se está a passar relativamente ao extermínio dos judeus. Assim, é por si próprio, nas suas explorações infantis, nas suas brincadeiras ingénuas que Bruno se vai aproximando da terrível verdade que o rodeia.
Shamuel nada sabe porque nada lhe dizem, mas quem será realmente ignorante? A criança a quem nada se diz ou todos aqueles que julgam ser detentores das verdades absolutas e nada sabem dos outros, dos que consideram inferiores? A pior ignorância não será a que vem disfarçada de verdades inabaláveis?
No campo da morte, junto à vedação que ele conhece pelo lado de fora, é Shamuel, o amigo do pijama às riscas que o vai acompanhar nessa horrível descoberta. Mas os dois meninos vivem mundos diametralmente opostos. No entanto, algo de monstruoso os irá encaminhar para um destino comum.
Bruno é a criança inocente que, como tantas outras, é vista pelos adultos como um ser menor. E quantos de nós, adultos não caímos tantas vezes neste mesmo erro, de considerar a criança como um ser inferior, que não precisa de saber a verdade das coisas, de quem se pode esconder tudo?! Tanta ingenuidade, a nossa. A criança não é um adulto incompleto; e que bom seria se nós próprios conseguíssemos apreender de vez esta ideia.
Junto à vedação, Bruno inveja Shamuel porque embora enclausurado, tem muitos amigos. Bruno, o menino rico, protegido e a quem nada falta é o menino infeliz e solitário. Mais um “recado” para nós: o que damos nós às nossas crianças? Dinheiro e mentiras?
Gostava ainda de chamar a atenção para o final do livro. Considero-o absolutamente genial. Genial na forma como é construído, com um contexto de suspense que prende o leitor até ao fim mas também com uma carga simbólica extraordinária. Um final dramático e belo ao mesmo tempo. Porque na mais profunda tristeza também há beleza.
Um livro genial. A par de O Leitor, trata-se de um dos melhores romances escritos nos últimos anos sobre este tema (infelizmente) sempre actual. 

sábado, 5 de junho de 2010

Tobias e o Anjo - Susanna Tamaro

Nas primeiras páginas, Susanna Tamaro parte-nos o coração com a infelicidade de alma da pequena Marta, de oito anos. Mas em breve é também o leitor que vai encontrando a paz…
Talvez a cegonha se tenha enganado, pensava Marta. Talvez eles, aqueles pais que berravam e se agrediam, simplesmente não fossem os seus… as discussões soavam-lhe como os ruídos do lixo.
Foi o avô quem ensinou Marta a ouvir o som das coisas; sim, porque todas as coisas têm a sua linguagem e a sua música. E essa linguagem, a das coisas, soava-lhe sempre melhor que a dos humanos excepto o avô. O avô era o seu único elo de ligação ao estranho mundo dos humanos.
Aprendera que há palavras negras, palavras aranhas, palavras escorpiões…. Pelo contrário, as palavras do avô eram palavras-chave que abriam portas. As portas do sonho.
Abandonada pelos pais que se ausentam depois de uma discussão, afastada misteriosamente do avô, Marta parte à procura do seu destino. Persegue-o entre as falas das árvores, as palavras doces dos animais. Os sons que a rodeiam são sempre doces e tristes; falam-lhe de chamas que a todo o momento se extinguem; esperanças que morrem ao nascer.
Mas até no fundo do poço da vida há um anjo!
Há sempre o anjo branco que não precisamos de procurar; o anjo que surge de dentro para fora no momento em que o escutamos.
E Marta, como todos nós, pode um dia adormecer nos braços do anjo. Porque o invisível também é real..-

quinta-feira, 3 de junho de 2010

João Aguiar R.I.P.

Faleceu hoje o autor daquele que considero o melhor romance histórico alguma vez escrito em Portugal: A Voz dos Deuses.
Editado em 1984, li-o por volta de 1990. Ao contrário do que aconteceu com muitos outros livros, vinte anos não foram suficientes para eliminar da minha memória algumas impressões que hoje quero parilhar convosco.
A Vos dos Deuses narra a história de Viriato, mítico herói português da ocupação romana do território Lusitano.
Nesse livro, João Aguiar dá-nos a imagem de um herói de carne e osso, um homem que encarnava o carácter português antes de Portugal. Os Lusitanos não são descritos como heróis do passado apenas. Todo o contexto da narrativa caminha para a caracterização do ser português, com as suas crenças, as suas qualidades e defeitos.
O Viriato de João Aguiar é o português que não desiste, corajoso até ao fim, perante a avassaladora presença do exército romano. É a imagem da perseverança, da crença, do espírito de sacrifício e capacidade de sofrimento que caracterizam a alma lusa.
Por outro lado, este romance teve o mérito de lembrar aos portugueses que o nosso passado não se resume à epopeia dos descobrimentos; as nossas raízes encontram-se num mundo bem mais distante, um mundo pré-cristão, dos povos sucessores da tradição céltica, com crenças herdadas da mitologia nórdica e centro-europeia.
Mas Viriato não é apresentado como o tradicional herói supra-humano. É um ser humano com todas as limitações e defeitos que tal condição implica. Nem a sua missão era qualquer causa superior, para além da defesa da honra e da terra. Da alma, talvez.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A melhor leitura do mês

Foi um mês pouco produtivo... apenas três livros; no entanto, esta é uma obra de génio, que conquistou um lugar de honra na História da literatura mundial.



A minha classificação: 8,5 em 10

sábado, 15 de maio de 2010

O Grande Retrato - Dino Buzzati

Dino Buzzati é considerado um dos mais importantes escritores italianos do século XX, embora, a julgar por este livro (o único que li do autor) algo distante da genialidade criativa de um Italo Calvino, da profundidade e humanismo de Alberto Morávia ou da imaginação e criatividade de Umberto Eco.
No entanto, seria injusto formular um juízo de valor sobre Buzzati com base nesta obra. Trata-se de um pequeno livrinho com uma história algo delirante acerca de um cientista mais ou menos louco que desenvolve um misterioso projecto, uma máquina que recriaria uma espécie de super-inteligência artificial, mas com todos os ingredientes da alma humana.
É difícil formular um comentário ao livro sem revelar pormenores do enredo, uma vez que este é tão compacto, tão sintético que não nos deixa grande margem de manobra para analisar o livro sem referir aspectos fundamentais desse enredo.
No essencial, a mensagem fundamental do livro parece ser esta: não há sentido para a vida sem liberdade; e não há liberdade sem corpo. O misterioso professor Endriade, ainda marcado pela morte da sua primeira mulher, Laura, não consegue separar o projecto da sua dramática história pessoal. A dimensão do feminino e do amor humano acaba por revelar-se inseparável do lado racional do ser humano, por mais inteligência que a sua actividade envolva.
Um ser artificial, por mais perfeito que seja, mesmo que dotado de uma “alma”, ainda que construída pela ciência, nunca poderá imitar um ser humano. Não é, portanto a inteligência que nos faz humanos. Não é também a alma; ela é insuficiente. Talvez ser livre seja, essa sim, a condição essencial para ser verdadeiramente humano. Sem liberdade, é impossível atingir qualquer sentido para a vida humana.
Um livro simples, linear, que se lê agradavelmente durante um par de horas ou pouco mais. 

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Almas Mortas - Nikolai Gogol

Almas Mortas é a última e mais marcante obra de Gogol e constitui uma referência importante na literatura russa na medida em que marcou a transição do Romantismo oitocentista para o realismo. Neste contexto, Gogol acabou por ser um dos maiores precursores dos grandes escritores russos Tolstoi e Dostoiévski.  
Almas Mortas foi uma obra maldita na época, pela crueza com que aborda a questão da servidão ainda em voga na Rússia naquela altura (1835). Num estilo directo e incisivo, Gogol aponta o dedo a uma sociedade anacrónica onde os servos constituíam propriedade dos seus senhores, que dispunham a seu bel-prazer das suas almas e dos seus corpos. O termo “almas” designa, na história da servidão russa os camponeses que eram propriedade dos seus senhores. O herói da narrativa, Chichiev, dispõe-se a comprar servos que haviam falecido mas que ainda tinham existência legal por não terem sido abatidos nas listas de recenseamento. O objectivo destas transacções só é revelado no final.
Numa excelente tradução, esta edição da Estampa apresenta-nos um pormenor que muitas vezes é desprezado: a manutenção dos nomes próprios na língua original, ao contrário de alguns maus exemplos, cada vez mais frequentes, em que se “aportuguesam” nomes de forma muitas vezes grosseira e ridícula.
O estilo de Gogol impressiona pela forma como constrói um verdadeiro diálogo com o leitor, constituindo uma proximidade que nos leva a ler como quem ouve uma estória.
Tal como Tolstoi e Dostoievski, Gogol critica asperamente a subserviência dos russos, que desprezam os inferiores e bajulam os superiores de forma descaradamente interesseira. Todos os vendedores de almas que o autor descreve ilustram as facetas mais negativas da alma humana e do povo russo em particular. É o caso de Manilov, um pequeno proprietário preguiçoso, sem vontade própria e sem ambição; uma viúva sovina totalmente desprovida de inteligência; Nozdriov, bêbado, mentiroso, jogador inveterado que recusa vender as suas almas mas dispõe-se de bom grado a jogá-las – símbolo do desprezo extremo pela alma humana; Sobakevitch diz mal de todos – é o exemplo da maledicência; Pliuskine é o mais avarento que se possa imaginar – tem mais de mil servos e os celeiros cheios mas vive na miséria.
Assim, o alvo maior da crítica de Gogol é a pequena aristocracia rural avarenta, uma espécie de classe média a que se juntam funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos. Este grupo contrasta com a alta aristocracia esbanjadora até ao extremo. Todos, sem excepção, são interesseiros e corruptos, usando muitas vezes uma delicadeza exagerada mas hipócrita para tentar enganar as pessoas com quem negoceiam. Prevalece a inveja e mesmo o ódio dissimulado. O bem público e a moral são completamente esquecidos. Os servos, esses, constituem apenas instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação, sendo completamente esquecidos enquanto pessoas. Pelo contrário, são normalmente encarados como bêbados e preguiçosos e castigados duramente. A alienação interesseira das almas constitui o cúmulo, o expoente máximo do desprezo pelo ser humano.
Gogol faz também uma caracterização mordaz das mulheres da alta sociedade. Quase desprovidas de inteligência, são capazes de alimentar os maiores dos boatos. Preocupam-se acima de tudo com as aparências e o seu comportamento social gira sempre em torno do “galanteio” ou então da maledicência. O que é certo é que Gogol acaba por apontar o dedo acusador aos homens que, na sua maioria, se deixam envolver pela maledicência, pondo em causa tudo e todos com os boatos mais torpes. Na Rússia as pessoas gostam de falar de escândalos, diz Gogol. O leitor português não pode deixar de questionar: só na Rússia?
O final do livro é absolutamente brilhante, com a resposta a dois mistérios que se mantinham desde o início: qual a verdadeira personalidade de Chichikov (que Gogol habilmente vai escondendo) e com que intenção comprava ele as almas. A surpresa das respostas é tal que o leitor é levado a rever todas as explicações que o seu espírito foi construindo ao longo da leitura. 

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os da Minha Rua - Ondjaki

A coleccção Biis, da Leya e o Plano Nacional de Leitura estão de parabéns pela divulgação deste magnífico livrinho que é mais uma expressão de génio da nova literatura angolana.
Trata-se da história dos meninos de Luanda, com Ndalu como personagem principal, talvez representação autobiográfica do autor. Ndalu é um menino sensível, honesto, traquinas.
Algures nos anos 80 do século XX, Ondjaki apresenta-nos uma Angola que nada tem a ver com o país que a Comunicação Social se habituou a descrever. Não é a Angola das minas, da guerra crónica, da corrupção ou da miséria que a alguns convém propagandear. É a Angola do povo, dos meninos do povo que vivem felizes nas ruas de uma cidade feliz. São os meninos do povo, com a sua imaginação prodigiosa, de onde lhes vem aquele riso e aquela felicidade ingénua. São meninos de prazeres simples, sentimentos profundos e lágrimas fáceis.
É um livrinho escrito com ternura e que se lê com ternura e um sorriso que nos acompanha até à última página; um livro simples como os meninos, onde não há maldade, ódio nem guerra, porque isso são coisas de adultos.
Na infância destes meninos nem sequer é necessário sonhar: a realidade comanda as suas vidas e o seu presente é o quanto lhes basta para serem felizes: os amigos, a telenovela brasileira, o futebol, as brincadeiras e o mundo fantástico que constroem com os “camaradas professores”.
Ao longo do livro sobressaem os sentimentos nobres e profundos das crianças mas também há lugar à tristeza. Não aquela tristeza deprimida que muitos associam a África mas uma tristeza feita de doce melancolia, num tom talvez herdado da saudade portuguesa, como no comovente episódio da despedidas dos camaradas professores cubanos: “a despedida tem cheiro de amizade cinzenta”.
Enfim, um livro cheio de imaginação infantil, numa linguagem quase poética, povoado pela força bruta da amizade que as crianças sabem, como ninguém, alimentar.

domingo, 2 de maio de 2010

A melhor leitura do mês

Abril:

A minha classificação: 9 em 10

Meses anteriores:

Janeiro - "Kafka à Beira-Mar" de Haruki Murakami (8 em 10)
Fevereiro - "Werther" de Goethe (8 em 10)
Março - "Entre os Assassinatos" de Aravind Adiga (8 em 10)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Outono em Pequim - Boris Vian

“O Outono em Pequim” é um livro absurdo, sobre o absurdo ou talvez não, porque a própria vida é absurda ou talvez não. Não se passa em Pequim nem no Outono; o título poderia ser Primavera na Transilvânia ou um tempo qualquer num sítio qualquer. É um livro seriamente cómico, a fazer lembrar o humor non-sense dos Monty Python (que é posterior, note-se) ou a arte surrealista. Na verdade, talvez este livro seja uma espécie de pintura surrealista sobre a condição humana.
Amadis Dudu começa por perder vários autocarros 975. Cheios e vazios, vai perdendo autocarros sucessivos. É desprezado. Assume assim a importância zero do ser humano perante os autocarros e os motoristas de autocarro que são, como todos sabemos, os homens mais importantes do mundo. Todos nós dependemos dos motoristas dos 975 do mundo e Dudu não escapava à regra. Por isso perdia autocarros como quem perde a vida.
Cládio Leão é preso por transportar um revólver para o patrão. Na cadeia não o deixaram suicidar-se e em vez disso é condenado a assistir às brincadeiras divertidas dos guardas. Mais tarde o abade Joãozinho conduzi-lo-á à felicidade fazendo-o eremita.
Todos os personagens estão a caminho da Exopotâmia, sem saberem muito bem porquê. Mas não estaremos todos à procura de uma Exopotâmia qualquer? Sei lá...
Eis que os nossos heróis acabam por chegar todos à Exopotâmia, a “terra onde não há ar”, uma terra de areia onde há passado: aí se constrói um caminho de ferro no deserto, que não serve para nada e onde o arqueólogo Atanágoras procede a enormes, meticulosas e inúteis escavações. Arqueólogo tão competente que se alimenta de carne de múmia.
Por ter, finalmente, apanhado o 975 certo, Amadis Dudu torna-se Director Técnico do importantíssimo projecto do caminho de ferro inútil no deserto da Exopotâmia. Torna-se assim um chefe prepotente e insensível. Competentíssimo, portanto. O Conselho de Administração, como bom governo que é, nada decide e nada faz, a não ser louvar o Ditador Dudu. Além disso, a sua tarefa mais importante é, nas reuniões fazer uma distribuição correcta dos cartões eróticos.
Dudu é um ditador. Mas como poderíamos viver nós sem ditadores proclamados génios? E os que trabalham arduamente, fazendo importantes buracos inúteis no deserto, têm de ganhar o menos possível para que Dudu ganhe o máximo. Poderemos continuar a dizer que este livro não tem lógica?
Na Exopotâmia há também um médico: Manjamanga que constrói aparelhos voadores e que mata mais doentes do que os que sobrevivem. Há um abade, Joãozinho, que reza rosários tão depressa que faz arder as contas. No entanto, vai redimindo os criminosos. Não é para isso que serve a religião? Entretanto, sonha com seios femininos.
Não se trata de um livro de fácil leitura. Mas esta linguagem profundamente simbólica não deixa de despertar um encanto avassalador. Tudo é simbólico, absurdo e real. Humano. Profundamente humano.
Se este livro fosse uma canção seria mais ou menos assim:

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz

Como se pode ver aqui, Afonso Cruz é um homem de múltiplos talentos e em boa hora meteu mão à escrita.
Este é um livrinho divertido e sério. Vivaldo Bonfim vivia lendo. Um dia caiu dentro de uma edição de “A Ilha do Dr. Moreau” e nunca mais de lá saiu.
Após este desaparecimento misterioso, os seus livros ficam encerrados no sótão de sua casa até que o seu filho, aos 12, adquira o direito a lá entrar. Nessa altura, o jovem narrador não tarda a seguir as aventuras do pai, procurando-o nesse livro mas sendo também levado a transitar entre várias outras obras, à procura de Vivaldo. Assim vai convivendo com autores e personagens, numa viagem alucinante às profundezas da literatura, deambulando entre clássicos e livros avulsos.
“Não há nada mais estúpido do que amar incondicionalmente, como fazem os cães e aqueles dois que Shakespeare imortalizou” – disse Mr Hyde. Esta e outras frases revelam uma fina ironia e sentido de humor. Personagens célebres transitam de uns livros para outros, por entre exemplos de surrealismo puro, como por exemplo aquele personagem que se faz cão porque o ser humano é o mais desumano dos animais. Na ilha que Wells inventou, os cães recusam ser humanizados. Decididamente, mais vale ser cão…
O nosso herói, filho de Bonfim (note-se o a-propósito do apelido do homem que caiu dentro de um livro) parece vaguear pelas partes brancas dos livros – entre as linhas, entre as palavras e à margem do texto, que é como quem diz, à margem do enredo – como que passeando ao lado do mundo maravilhoso dos romances e da poesia. E talvez seja mesmo nas partes brancas dos livros que se encontra a verdadeira sabedoria: “O mundo não precisa de Lao Tsés. Precisa, isso sim, de Lao Tsés calados.” (página 67).
Raskolnikov (de Crime e Castigo), o rei do remorso, é o principal suspeito do desaparecimento de Bonfim e é perseguido na Rússia (dentro do livro) por Bonfim (filho). Após o final de Crime e Castigo Raskolnikov continua a matar na esperança de que a morte banalizada se torne menos torturante. Afinal, as histórias dos livros continuam sempre. Porque são feitas por homens; homens criados por outros homens e que assim ganham vida. Dentro dos livros há outros mundos; que são reais a partir do momento que foram criados pelo escritor. Porque “Um homem é feito de História” – a ficção é vida como a vida também é ficção; é feita de memórias e todas as memórias são subjectivas. Tudo pode ser moldado, construído ou destruído; renascido ou criado… como num romance! Esta é a lição maior dos livros para a vida.
Enfim, um livro absolutamente original, cheio de criatividade e humor. Um tema que poderia ter sido mais bem explorado. Ficámos com a sensação de se ter perdido uma oportunidade de desenvolver um tema tão original e fértil.
Mesmo assim, sem dúvida, um livro que merece ser lido e relido.

sábado, 24 de abril de 2010

25 DE ABRIL SEMPRE!

Obrigado, Salgueiro Maia!
Viverás porque a memória não há-de morrer! 

imagem retirada daqui

quarta-feira, 21 de abril de 2010

No País das Últimas Coisas - Paul Auster

Numa cidade desconhecida, Anna procura desesperadamente o seu irmão William. Mas não se trata de uma cidade qualquer. Numa paisagem a fazer lembrar “A Estrada”, de Cormac McCarthy, deparamos com um cenário catastrófico, onde um qualquer desastre arruinou por completo os seus habitantes. O livro dá a entender que não se tratou de um desastre natural nem de uma guerra mas de destruição humana.
Esta visão apocalíptica põe em discussão toda a condição humana, todo o processo que pode conduzir a um esvaziamento total do eu. Não é só a cidade que se esvazia na miséria; são os homens. São as almas. Almas que trocam a felicidade, o sentimento, mesmo o prazer, por um vazio onde até a alimentação do corpo se torna dispensável. Este esvaziamento radical do ser é o que mais profundamente choca o leitor.
Numa primeira parte do romance, Auster massacra autenticamente o leitor com algumas dezenas de páginas que percorremos com total angústia perante a miséria física e moral a que um ser humano pode ser sujeito. São páginas que não chegam a despertar revolta, tão irreal é o cenário descrito; como se a nossa alma e o nosso cérebro fossem incapazes de encarar tal realidade como algo minimamente plausível. Mas à medida que o enredo avança os sentimentos emergem. Com eles, a revolta, a preocupação, o medo até.
As pessoas que perderam tudo tendem a adoptar comportamentos infantis, sonhando, imaginando, acreditando… no entanto, os objectivos são diferentes: as crianças imaginam para criar um mundo fantástico; as pessoas desesperadas usam a imaginação para esconderem a realidade de si próprias; a imaginação como fuga, como negação do real.
Na cidade do desespero a morte é um objectivo. A morte torna-se uma arte, uma forma de expressão. As pessoas criam formas de morrer. A morte torna-se espectáculo e até uma manifestação de heroísmo. Mas, para a maioria, a morte não deixa de ser banal – morre-se em qualquer lado e por qualquer motivo. Os cadáveres invadiram a cidade e tornaram-se um meio de sobrevivência: sem eles não poderia ser obtido o metano, única fonte de energia disponível.
Para a maioria, a vida limita-se a uma sobrevivência no limiar da morte – um mundo onde a esperança é totalmente ausente e onde os “risonhos” (os optimistas) são uma minoria e considerados estúpidos e absurdos.
No meio de um contexto macabro de fome, miséria e desesperança (como diria Mia Couto) a morte é uma bênção, um benefício. Curiosa a associação da morte de um personagem ao prazer sexual extremo: o prazer como prelúdio da morte. No entanto, quando se trata da morte do “eu”, por mais que seja desejada, há sempre um último passo que se torna quase impossível de dar. A vida auto-preserva-se, mesmo no limiar extremo.
Um dos pormenores mais geniais desta obra é a caracterização de um personagem que sobrevive graças ao facto de estar a escrever um livro. É o livro que o mantém vivo. A sua miséria é tão grande que só se alimenta de dois em dois dias. No entanto sobrevive porque há um livro para acabar. E só uma coisa haveria de superar o livro: o amor! Mesmo nos limites do sofrimento, Anna encontra aí o período mais feliz de toda a sua vida, mesmo incluindo os anos em que viveu na riqueza.
Bóris, o comerciante, é um homem encantador. Na verdade, ele é um mentiroso. No entanto, conta histórias fantásticas que todos fingem ser verdadeiras e quando a mentira encanta passa a chamar-se fantasia; tem o dom de nos libertar da crueldade e do sofrimento. Talvez seja por isso que todos nós temos necessidade de mentir, mesmo a nós próprios. Talvez seja também essa mentira feita fantasia que nós procuramos nos livros - a construção de mundo fictício que nos encante. É neste aspecto que Auster, neste romance, foge à regra. Este livro não nos encanta. Este livro choca-nos brutalmente com uma realidade extrema e, ao mesmo tempo, tão humana.

domingo, 18 de abril de 2010

A Alma Trocada - Rosa Lobato de Faria

Ler Rosa Lobato Faria é como receber na face uma brisa fresca em pleno Verão. É um presente que damos à alma quando o cansaço ou a tristeza nos invadem. Que leveza, que aragem suave, que fluidez de palavras!
Este livro não é uma obra-prima, não é um clássico, não é um tratado de coisa nenhuma. É apenas isso: uma aragem talvez do Monte Alentejano onde decorre parte da acção. É um livro que se lê sem o mais pequeno esforço, sem necessidade de reflectir em mensagens complicadas e profundas.
A enorme experiência de Rosa Lobato Faria a escrever guiões para televisão talvez tenha contribuído para esta facilidade em contar histórias sem maçar, sem cansar.
Trata-se da história de Teo, um jovem professor de francês que se define como “o gajo mais chorão de toda a comunidade gay”. Desde logo é evidente a luta pela afirmação do direito à diferença mas o livro vai bem mais longe: os problemas de relacionamento entre Teo e Hugo ou a busca desesperada da sua identidade não são problemas específicos de um homossexual; são problemas humanos. Tão só.
Teo tem a alma trocada. Aparente e provisoriamente, só. Ao longo do enredo, Teo vai descobrindo que a sua alma é una e única. Ele não é o professor de francês que tem uma vida paralela como homossexual. Ele é um e único. Sem esta descoberta nunca seria feliz, nunca encontraria a sua identidade. Teo é, como todos os seres humanos, um homem que sofre porque ama embora não saiba o que é o amor. É um homem indeciso como qualquer outro, forçado pela vida a fazer opções e a sofrer as devidas consequências.
Como qualquer um de nós, Teo procura a liberdade como condição essencial à vida. Procura oxálida, plátano, miligrã, palavras que inventa porque elas são liberdade, são criação, são aventura. Porque não é preciso saber o significado das palavras; é preciso procurá-las. Basta procurá-las…
Um livro cheio de sensibilidade, de leveza de espírito, essa leveza sem a qual ninguém consegue libertar-se das amarras da opressão, sejam elas do nosso próprio espírito ou da sociedade que nos inserimos. Um livro que deveria ser de leitura obrigatória para determinadas mentes… um livro onde se respira liberdade, amor, ternura… (ia escrever xarel, hidranja, phisalis mas não quero exagerar).

* Quadro reproduzido na capa do livro (edição ASA)
imagem retirada daqui 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua - Manuel Alegre

Ainda “não estou certo de ter sido eu”… terá sido o miúdo que pregava pregos numa tábua? Ou qualquer um dos outros? Ou todos eles excepto um? Que importa, afinal? Ninguém sabe quem foi porque ninguém sabe quem é… e o que se sabe será sempre realidade, imaginação ou poesia?
De facto, nada pode saber-se de identidades passadas ou futuros incertos. A vida é uma viajem no efémero, vive-se como quem olha as águas de um rio e tudo passa viajando ou navegando… as águas do rio como as palavras que voam, encadeando-se ao ritmo do bater do coração, porque a vida (como o Zé Mafra, cigano de Coimbra) não tem casa, só tem caminhos.
Ontem e hoje, na vida como na escrita e como na guerra de Angola, as balas ainda assobiam. Há sempre uma bala a assobiar… Aquele que escreve o livro não sabe se é o rapaz que pregava pregos numa tábua e não sabe se era o outro, ou ainda outro qualquer, mas sabe que há balas e guerras que fazem zumbido nos ouvidos e chagas na memória.
Repentinamente, a poesia bateu com força na cabeça do miúdo. Mais tarde, as sílabas dos versos haveriam de se misturar com os zumbidos das balas nos ouvidos do miúdo que crescera.
O miúdo crescia e tinha um sonho: continuar Os Lusíadas. O sonho de qualquer poeta. O sonho, talvez, de qualquer de nós, que queremos continuar a memória. E vai contando as sílabas pelos dedos e vai descobrindo que nem sempre há métrica, às vezes há liberdade, há os versos livres… sons de palavras que se misturam com silvos de balas de Angola, música de pássaros de Águeda e com o murmurar das águas do Tejo. São “os ritmos e as sílabas com que se mede o mundo”.
Tudo – o futebol, a natação, a água do rio, os pássaros, a namorada – faz parte do rapaz que pregava pregos. Mas no meio de tudo isso está sempre a escrita: as palavras que procura e tantas vezes não encontra, os versos cujas sílabas nem sempre consegue contar pelos dedos. Os mesmos dedos com que tocava música nos dentes. A mão com que Miguel Torga segurou a caneta até ao fim…
E a procura da liberdade, da vida e das sílabas é a poesia que o miúdo (militante revolucionário que dantes pregava pregos numa tábua) acaba escrevendo, ou melhor, respirando em Paris. Em breve chegará a Primavera… talvez em Abril… talvez daqui a dez anos… ou dez anos após o Verão passado…
Imagem retirada daqui 

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen

Escrito em 1811, na fase mais conturbada das guerras napoleónicas, o enredo de Sensibilidade e Bom Senso desenrola-se no pacato e bucólico meio rural inglês, numa paisagem típica da literatura romântica, a fazer lembrar o nosso Júlio Dinis ou o dramatismo bucólico de Goethe.
A importância histórica desta obra é inegável: ela é precursora do romantismo literário que viria a marcar indelevelmente todo o século XIX.
A história baseia-se nos relacionamentos de Elinor e Marianne Dashwood, duas jovens órfãs de pai, que vivem com uma irmã mais nova, Margaret e a mãe, Mrs Dashwood. Trata-se de uma família da baixa burguesia rural inglesa que, quando o seu pai morre, fica com dificuldades económicas uma vez que a propriedade da família passa para John, o único filho homem. É nítido o contraste entre o carácter das irmãs, (Elinor mais racional e Mariane mais emotiva e romântica) que buscam o equilíbrio entre a razão e a sensibilidade na vida e no amor, como caminhos para a felicidade.
Pessoalmente, o aspecto que mais me marcou nesta obra foi a crítica de costumes: Austen denuncia, de forma cáustica e severa uma sociedade pequeno-burguesa obcecada com a estabilidade económica, com base nos laços matrimoniais. O casamento é visto como um simples trampolim para a estabilidade financeira e para o enriquecimento ou como meio de sobrevivência desta pequena burguesia pouco abastada. Esta denúncia é frontal e radical se atentarmos numa simples expressão como esta, a propósito de um noivo potencial para Elinor: “é um homem que vale quinhentas a seiscentas libras”. Frequentemente, os candidatos ao casamento são avaliados consoante as rendas que auferem.
Por outro lado, chega a ser chocante a forma como nos é descrita uma sociedade semi-aristocrática onde predomina o mexerico. Algumas das personagens parecem viver obcecadas com a intromissão na vida alheia, vivendo os problemas dos outros como se fossem seus, deixando emergir a inveja e o ciúme. É uma sociedade de aparências, onde se cultiva o exterior, onde, por exemplo, a profissão de sacerdote é vista como um remedeio para um homem arruinado, sem renda significativa.
Os sentimentos são sempre deixados em segundo plano, como se a alma humana tivesse de se adaptar à realidade concreta e não o inverso.
Em termos estilísticos, o livro constitui, na minha visão subjectiva de leitor comum, uma certa decepção. Fica-se com a impressão que um tema tão rico como este teria dado a azo a uma tremenda sátira de Eça de Queiroz, cheia de humor e sarcasmo. Mas Austen opta por um estilo severo, muitas vezes difícil e ainda prejudicado por uma tradução muito pouco conseguida, incluindo erros de ortografia e de construção frásica que dificultam imenso a leitura.
Em suma, um livro com uma importância notável em termos de História da Literatura mas que, a meu ver, não cumpre esse papel essencial que a leitura deve ter: o aspecto lúdico. Abundam diálogos por vezes fastidiosos, ilustrando o formalismo da época e a futilidade do meio social, deixando no leitor a sensação de que a história poderia ser contada de forma muito mais sucinta. Um livro, no entanto, valioso para os apreciadores da literatura romântica do século XIX.
Imagem retirada daqui 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke

Confesso que a literatura fantástica nunca me atraiu. Nem um bocadinho. No entanto, a avalanche deste tipo de romances tornou-se incontornável. Talvez fruto dos tempos de crise que vivemos e do inevitável movimento apocalíptico que já se faz sentir, a magia e o revivalismo aparecem-nos por todo o lado.
Neste contexto, alguém de extremo bom gosto literário me aconselhou este livro. Com algum masoquismo à mistura, lá decidi embarcar na aventura. 730 páginas de letra miudinha depois, foi com pena que fechei o livro. Por mim, bem poderia ter mais 730 páginas. Fascinante, espectacular, genial!
O livro conta a história de dois magos ingleses no início do século XIX, quando a Inglaterra tentava sobreviver às invasões napoleónicas. Strange e Norrell tentam restaurar a magia inglesa, perdida desde os tempos medievais do mítico Rei Corvo. Assim se desenrola uma trama fascinante de acontecimentos fantásticos, onde pontifica a luta entre as forças do mal representadas pelos elfos e as forças da magia humana que Norrell e Strange encarnam.
Nessa altura a magia inglesa estava confinada aos magos teóricos, fiéis estudiosos e gurdiões dos livros dos grandes magos de outrora. Mas a magia, como a vida, não termina nos livros. Strangre e Norrel trazem a magia para a vida; os seus actos mágicos são descritos de forma absolutamente fascinante por Susanna Clarke, acompanhando sempre as descrições com um fino e cativante sentido de humor. Este constante tom de humor faz com que a escrita de Clarke se assemelhe a um diálogo com o leitor, criando uma relação de proximidade que cativa. Por vezes o sorriso do leitor é substituído por saudáveis gargalhadas como quando Strange ressuscita soldados mortos e mutilados, desloca o curso de rios para enganar Napoleão, muda de lugar uma cidade espanhola causando a ira do governo que queria “tudo no sítio”, coloca Bruxelas na América com todos os seus habitantes, etc.
No mundo dos homens, o governo inglês recorre aos magos para derrotar Napoleão. E até os portugueses entram em cena: Wellington, o general inglês que veio para Portugal com o encargo de evitar as invasões napoleónicas recorre a Strange para, por exemplo, acabar com a praga que eram as lastimosas estradas portuguesas (já nessa altura). No mundo dos elfos, pelo contrário, reina a escuridão; alguns seres humanos são por eles atraídos de forma traiçoeira. Pelo meio fica a memória fascinante do reino de John Uskglass, o mundo perdido daquele que foi o maior mago de sempre e rei da Inglaterra Meridional, grande rival do reino dos Elfos, a terra de Faerie.
Embora seja clara a oposição entre o reino do mal e o reino dos homens, é admirável a forma como a autora se recusa a colocar o confronto em termos de oposição entre o bem e o mal, sendo o leitor encarregado de tal tarefa. Também entre Norrell e Strange, os homens não resistem a colocar-se do lado de um dos dois grandes magos (comparando essa tendência à questão política inglesa entre trabalhistas e conservadores) mas é sempre o leitor quem constrói tais juízos, como se o bem e o mal estivessem sempre à disposição dos homens para que estes escolham livremente.
Em suma, um livro fascinante que é já parte da história da literatura fantástica. Sem dúvida um clássico do género, imperdível para quem cultiva este género literário. E não só.
Para além de tudo o mais, esta obra constitui uma das mais belas homenagens que alguma vez se fizeram aos livros: eles são a fonte de todo o conhecimento mas o seu conteúdo precisa de ser transposto para a vida. É na vida e na felicidade dos homens que o conhecimento se torna significativo. E aí reside também a magia.
E a magia, indubitavelmente, existe. Ela está sempre onde estiver a nossa imaginação e, acima de tudo, a magia é tudo o que não compreendemos.