domingo, 28 de fevereiro de 2010

19 Minutos - Jodi Picoult

Ao contrário do que é habitual, hesitei bastante antes de começar a escrever este texto. Mesmo agora, neste preciso momento, não sei muito bem o que vou escrever.
Por um lado apetece-me dizer que se trata de um livro excelente; por outro lado, também é verdade que este livro não corresponde àquilo que eu considero um grande livro.
Para começar devo voltar à velha questão que tem dado voltas a este blog: o que é um grande livro? Mais uma vez vou apontar o dedo aos pseudo-intelectuais que desprezam este tipo de literatura; é que são esses mesmos que se queixam tanto de que em Portugal lê-se pouco. Por mim, devo dizer que são escritores como Jodi Picoult que fazem com que ainda se vá lendo alguma coisa. Este livro é um verdadeiro exemplo de como se pode escrever uma obra comercial e ao mesmo tempo com qualidade literária. No entanto, essa qualidade literária fica um pouco limitada pela forma superficial como os temas são tratados, mau grado as 532 páginas do livro. De facto, fiquei com a sensação de que a estória se contava em metade dessas páginas. Não quer isto dizer que a leitura seja desagradável ou fastidiosa; de maneira nenhuma; lê-se com muito agrado e é daqueles livros que se agarram a quem lê, na ânsia de chegar depressa ao fim. Se o Firmin se dedicasse a este livro devorá-lo-ia em poucas horas…
O livro tem um enredo daqueles que a moderna literatura norte-americana adora: dois adolescentes com pais sem tempo para eles, dois adolescentes e incompreendidos e amargurados. Ele, Peter, é o alvo do bulling, é o aluno desprezado e humilhado por mil e uma tropelias que os colegas mais “in” lhe provocam. O leitor é levado a sentir revolta, repulsa, raiva, perante as humilhações de Peter. Ela, Josie, é a filha de pai ausente e mãe hiper-ocupada com a sua profissão e procura compensar essa falta de afectos precisamente no grupo de alunos que humilham Peter, mau grado a amizade de infância em relação a Peter.
As humilhações atrozes a que Peter é sujeito conduzem ao desastre: a um massacre do tipo Columbine!
Trata-se de um enredo que nos faz pensar; os adolescentes dividem-se entre os “populares” e os “totós”; estes são humilhados até ao desespero, perante a passividade dos professores e a “distracção” dos pais. Até que um dia surge “a bomba”. Literalmente.
Numa América marcada e traumatizada pelo massacre de Columbine e pelos atentados de 2001, o livro acusa a facilidade com que se comercializam armas e a passividade de sociedade perante a violência. Por exemplo, Alex, mãe de Josie, para ser admitida como juíza é praticamente obrigada a afirmar que concorda com a posse livre de armas de fogo. O pai de Peter, académico de sucesso que estuda fórmulas matemáticas para medir a felicidade, revela-se totalmente incapaz de compreender e acompanhar o filho e, pelo contrário, inicia-o ingenuamente no uso de armas, tendo a caça como justificação! Questiona-se sobretudo a ausência de controlo e acompanhamento parental, explicada ingenuamente pelo stress e pelas exigências profissionais dos pais.
Em conclusão, trata-se de uma história actual, interessante, muito bem escrita mau grado os erros de tradução e revisão nesta edição da Civilização. No entanto, cai nas armadilhas recorrentes na moderna literatura norte-americana: reducionismos, lugares comuns e uma tendência por vezes exasperante para um tom melodramático que, no entanto, o tema justifica. Por exemplo, escapa à autora um dado fundamental: a realidade não é bem assim; raramente jovens humilhados são infelizes para o resto da vida. O mais frequente é que estes reajam por contraste, isto é, assumam o futuro como um desafio e construam carreiras de sucesso. Jodi Picoult tomou o todo pela parte. No entanto, não era um estudo sociológico que a autora pretendia fazer, pelo que se considera este livro como um excelente contributo para a reflexão sobre a violência juvenil, ao mesmo tempo que nos presenteia com uma escrita agradável, que prende o leitor até à última página.
Imagem retirada daqui

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

4 e 1 Quarto - Rita Ferro

Óscar Wilde. Não um livro, mas a vida. Foi para onde o enredo desta obra me levou a mente, quando terminei a leitura. Há vidas que são feitas de excessos. É o caso dos quatro personagens principais desta obra. Um livro que desmistifica, destrói, arrasa, perturba.
Um livro que violenta descaradamente o nosso sossego apenas aparente em que a maioria de nós vive. É que há quem transponha os limites do interior e passe para a vida as tempestades que todos nós, os comuns, mantemos guardadas. Foi o que fizeram Nuno, Teresa, Carlota e Inácio, quatro amigos que repartem a cama, os instintos, o corpo. Não, a alma, não!
Desde logo o fogo do amor desgovernado é apresentado como uma competição, por vezes ferozmente desenfreada, outras vezes dissimulada.
Passada a euforia dos desejos libertados, o jogo do amor revela um descarado jogo de poder: Nuno subjuga Teresa com a sua cultura livresca e uma personalidade inquebrantável; Teresa e Nuno subjugam Inácio, o amante passivo e submisso; entretanto, Carlota altera as regras de jogo e subjuga todos os outros, incluindo o próprio Nuno, se bem que de forma transitória, porque a luta persiste e agrava-se.
A espaços, o triunfo da superioridade feminina: primeiro Teresa, depois Carlota avassalam Nuno e Inácio, mas tudo é efémero: o charme, o instinto social, armas de ataque, acabam inexoravelmente por revelar a fragilidade de quem ama.
Por vezes, o amor como doença ou vício que destrói: “nunca chega! Nunca basta”, lamenta Nuno. E o amor como metáfora do vida sob a forma de paradoxo:
- Gozando ou sofrendo? Pergunta Nuno.
- As duas coisas. O mal é bom. Responde Inácio.
Ou ainda “as coisas que importam não são ainda as que importam” (Teresa). Mero jogo de palavras? Não, é o jogo da vida, da ambivalência que existe em quase tudo o que fazemos e sentimos.
Ao longo da obra, vai-se revelando a fragilidade dos laços que unem o quarteto. A ilusão, a festa do corpo vai deixando de ser suficiente para camuflar a falta de amor, de conhecimento dos outros e, atroz, impõe-se uma espécie de egoísmo sofredor que invade aquele mundo que nunca deixou de ser dividido por quatro. (Interessante verificar como a explicação dos fenómenos interiores é mais acessível a quem lê do que aos personagens).
Ir mais longe na análise de todo o significado da obra implicaria aqui revelar parte do enredo e o seu desfecho. Por esse motivo, não resta outro remédio a quem lê estas palavras senão ler o livro.
Em suma, uma obra muito interessante ao nível da análise das paixões, na reflexão sobre o eterno peso dos preconceitos e, fundamentalmente, sobre o risco que é a vida. Transgredir determinadas fronteiras e pagar o preço da liberdade: eis o destino de quem vive desacomodado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Werther - Goethe

Werther é um jovem que se afasta do mundo urbano para usufruir da natureza numa aldeia verdejante e simpática. A partir daí dá conta do seu quotidiano numa série de cartas dirigidas ao seu amigo Guilherme.
Werther vive num lugar paradisíaco; todas as descrições que faz do local são eivadas de um assinalável bucolismo. A paz e a felicidade parecem emanar da natureza. Desde logo, o bucolismo surge associado ao amor. Em breve Werther encontra Carlota, por quem se apaixona perdidamente. Carlota parece ser, ela própria, uma emanação da terra; algo de muito puro, caracterizada por uma alegria que só podia ser fornecida pela terra e pela natureza.
A paixão por Carlota surge de uma forma avassaladora. Qualquer pormenor, qualquer gesto ou palavra da formosa jovem são vistos por Werther como algo sagrado. A paixão vai-se tornando irresistível. É o idílio total, ao ponto de atingir a negação da própria personalidade (“O mundo não existe já para mim”). É o amor como forma de despersonalização total. No entanto, a felicidade de Werther leva-o a considerar mesmo que é dever de qualquer ser humano viver essa felicidade pois só assim levará alegria aos outros. O mau humor é uma agressão aos outros seres humanos. A paixão arrebatada, essa espécie de loucura, é vista por Werther como uma atitude grandiosa, própria dos grandes homens se bem que as pessoas vulgares as encarem como “coisas de loucos”.
O sonho e a ilusão são vistos como fonte de felicidade. Pergunta, no entanto, Werther: “Será quimera o que nos torna felizes?”
Em breve, a realidade abater-se-á sobre Werther. O aparecimento de Alberto, noivo de Carlota, transformará o idílio num tormento. Entretanto, Werther parece encarar Alberto como uma extensão da própria Carlota; e o afecto que dedica ao rival parece ser também uma extensão do amor que sente por ela; Werther parece amar Alberto porque ama Carlota.
Mas a presença do noivo marca a viragem cruel no destino desta paixão. Werther é assolado pela crueza da realidade; num discurso profundo e amargurado, Goethe justifica (pela voz de Werther) racionalmente o suicídio como a única cura para uma doença mortal, procurando desde logo a justificação moral para um acto que a sociedade puritana do século XVIII condenava com veemência.
A razão nada pesa quando o homem é atingido pela paixão; por isso, é também no domínio das emoções que se pode entender o suicídio.
A ideia chave com que se chega ao final desta primeira parte é uma conclusão avassaladora: tudo o que faz a felicidade de um homem é a origem dos seus males.
Na segunda parte do livro o desânimo de Werther acentua-se; no entanto, é curiosa a forma como Goethe nos dá conta de uma certa altivez quando o jovem atormentado atribui ao talento e à coragem a falta de auto-confiança. Não deixa de haver aqui uma certa ironia: a coragem revela-se inimiga da vontade de lutar? Coragem para quê? Para assumir a derrota? No entanto, para lá desta ironia aparente, podemos detectar aqui o grande gérmen do romantismo literário: a assumpção do sofrimento como acto de heroísmo.
Um outro aspecto aparentemente irónico do enredo é o facto de Werther, constantemente, acusar a desigualdade social, em defesa dos desprotegidos mas, ao mesmo tempo, assumindo-a como necessária e até como sendo beneficiário dessa mesma desigualdade; mais uma vez, a contradição é apenas aparente: viviam-se os últimos tempos do Absolutismo Régio, em que a mentalidade colectiva encarava a desigualdade como natural e incontornável; neste contexto, Werther revela mesmo aquilo a que hoje chamaríamos ideias pré-revolucionárias.
É nítida a antipatia do jovem em relação à frivolidade dos meios sociais de elite; Werther demite-se do seu trabalho, em parte, devido à inadaptação a essa frivolidade. No entanto, essa demissão é antes e mais uma fuga. Werther tenta fugir de si mesmo. Regressa então à casa de infância; mais uma vez, a fuga! Pouco tempo depois, coloca a hipótese da fuga para a guerra. No entanto desiste da ideia porque decide voltar para junto de Carlota. A rendição ao amor. Mas porquê este regresso ao lugar onde nasceu a sua infelicidade? Mais uma vez sobressai a ideia de procura de um certo heroísmo no sofrimento. Sofrer é um acto de coragem, não de resignação. Por outro lado, é a necessidade de fuga a si mesmo. A negação radical do “eu”. A entrega final de si próprio a um amor que hoje consideramos desmedido e doentio mas que, à luz da mentalidade da época e dos cânones da literatura romântica não é mais que um amor heróico.
Heróico até à morte; heróico no suicídio!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cão Como Nós - Manuel Alegre

Ler a prosa de Manuel Alegre é sentir o prazer da poesia sem ler poesia.
Kurika é um cão rebelde; faz tudo ao contrário, não responde à voz nem lambe as mãos. Um cão contestatário.
Um cão como nós, os que a todo o momento somos empurrados para as obrigações e a obediência. Mas, com o querer de quem luta, o cão ganha sempre.
Cão como nós, que finge e amua. Que mente descaradamente. Que é o que não é.
Cão como nós que nem da morte tem certezas; se tem/temos espírito; se o espírito nos tem a nós.
Cão como nós, prisioneiros dos sentimentos, carcereiros de emoções, cães que choram.
Cão como nós, cães que amam e se unem na angústia e no orgulho. Camarada cão. Melhor amigo do homem? Tretas! Camarada cão!
Cão como nós, a quem a tristeza se vê nos olhos, uma tristeza que não chega à palavra, apenas às falas da alma: o olhar, a poesia ou o silêncio.
Cão como nós que por uma vez se perde entre amores de verão, uma vez apenas, com tempo contado e previsto, sem eternidade, porque “não há outra eternidade senão a solidão partilhada”.
Cão como nós de quem até a morte parece ter medo, se bem que, no final da batalha, ela saia sempre vencedora.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Diário da Nossa Paixão - Nicholas Sparks

Antes de começar a leitura vale a pena dar uma vista de olhos à ficha técnica desta edição da Presença. Isto por dois motivos:
Em primeiro lugar, o título original do livro é “The Notebook” que, traduzido à letra, significa “O caderno”. Perante o sucesso inquestionável do livro, fica a pergunta: quanto vale um título apelativo, mesmo desvirtuando o original? Ou, por outras palavras, quantos milhares de livros conseguem vender-se graças a um título? Longe de mim insinuar que o sucesso desta obra se deve ao título, mas não tenho dúvidas que a escolha foi comercialmente muito feliz.
Segundo aspecto de realce na ficha técnica: estamos perante a 50ª edição deste romance, em dez anos! Inacreditável! Quantos autores se poderão orgulhar de um sucesso como este?
Perante um livro como o Diário da Nossa Paixão, qualquer leitor com algum conhecimento de causa sabe que se trata de uma obra essencialmente comercial ou, pelo menos, marcada pelo sucesso comercial. No entanto, parece-me injusto avaliar o romance por esse prisma. Para uns, é um grande romance porque vendeu muito, para outros é um mau livro porque é “light” e porque é muito comercial.
Por mim, prefiro abster-me dessa perspectiva e afirmo apenas que é um bom livro. E é bom porquê? Não tanto pela história de amor, mas principalmente pela maneira como me fez pensar no carácter efémero da vida humana. Nem mesmo um relacionamento para toda a vida ultrapassa as fronteiras da precária e limitada existência humana. Tudo acaba com a morte e, por vezes, dramaticamente, com uma espécie de morte em vida. Por mais felizes que as pessoas possam ser, há aspectos da vida, talvez os mais importantes, que trazem consigo a amargura do ser apenas humano.
Por outro lado, no meio da felicidade de duas pessoas há sempre alguém que fica para trás; na luta da vida há sempre alguém que perde. Lon, o noivo de Allie, tem uma postura corajosa, quase heróica, perante a “derrota” da sua paixão. Ele opta por respeitar os sentimentos de Allie aceitando pacificamente as opções dela. Fica, logo ali, o “amargo de boca” do leitor perante alguém condenado à derrota sem culpa formada.
No entanto, o que mais afecta a sensibilidade do leitor é o desfecho da vida de dois seres que se amaram, que foram felizes mas que nada podem perante a precariedade da vida humana; perante uma luta desigual onde o perdedor é sempre o ser humano.
Por tudo isto, não li este livro como um hino ao amor ou à paixão; não é um romance de cordel ou uma novela de amor. É um livro que nos faz pensar no drama da existência humana, no sentido da vida e no peso que um sentimento pode ter na existência humana. O sucesso de um relacionamento, aquilo a que às vezes chamamos felicidade não é mais que uma forma de preencher a vida, essa viagem com fim marcado, uma viagem só de ida.
Em suma, não se trata de uma obra-prima; não é um livro de referência, mas fica a sensação que poderia ter sido, se o autor tivesse optado por um desenvolvimento mais aprofundado dos dilemas que marcaram a existência de Allie e de Noah. No entanto, ter-se-iam perdido outras características essenciais que contribuíram para o sucesso do livro: a facilidade de leitura, o ritmo narrativo e um certo suspense em relação ao desfecho do enredo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carta ao Pai - Franz Kafka

Escrita em 1919, cinco anos antes da sua morte, esta Carta ao Pai é um testemunho grandioso dessa ambivalência que muitas vezes habita o espírito humano, constituída pelos pólos só aparentemente opostos de amor e ódio.
Kafka não esconde um profundo rancor em relação à figura paterna. No entanto, esse rancor surge mesclado com uma reverência profunda e mesmo admiração. O pai era o ser forte e poderoso que ele nunca foi; o ídolo e tirano da sua infância. Aquele que o desprezava mas em função do qual vivia.
O pai, na sua imensa autoridade, acaba por gerar em Kafka aquela melancolia e ao mesmo tempo a revolta que tão patente ficou na sua obra literária. Ler estas páginas é uma imensa ajuda para compreendermos o espírito revoltado, caustico deste que foi um dos maiores escritores do século XX.
Escrita ao “correr da pena”, esta obra manifesta uma ingenuidade de estilo bem patente nas frequentes inexactidões de linguagem, o que demonstra o carácter privado da sua escrita.
Para todos os educadores e pais esta obra é também um profundo motivo de reflexão. Até que ponto se justifica, por exemplo, impor normas religiosas constituídas por dogmas inquestionáveis para o jovem, sabendo-se de antemão que esses comportamentos e crenças surgem eivados de imposições sociais?
O poder da figura paternal, protectora mas tirana, anulou quase por completo a personalidade do jovem Franz. A humilhação continuada gerou, por outro lado, um sentimento de culpa que leva Kafka a diminuir-se perante o mundo. A escrita funcionou sempre como um refúgio, onde projectava a sua revolta sob a forma do absurdo.
A descrição das “atrocidades” cometidas pelo pai atinge por vezes extremos verdadeiramente pungentes. Por exemplo, a forma como descreve o desprezo supremo quando as críticas paternas se apresentavam sob a forma de ironia ou misturadas com o riso. Esta atitude era a suprema humilhação: o riso acentua o desprezo, a humilhação.
Em conclusão, trata-se de uma obra onde sobressai a frontalidade, a necessidade de catarse e a tentativa de reencontro de Kafka com a sua própria identidade, a partir do confronto directo com o pai. Um obra que não deixa de nos sensibilizar pela pertinência do tema, num tempo em que a educação familiar é tão questionada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As Pontes de Madison County - Robert James Waller

Robert Kincaid é um fotógrafo da revista National Geografic. Um homem simples. Um solitário feliz. A mãe afirmava que ele veio de um lugar para onde tentava voltar. Talvez por isso é um cidadão da natureza, um homem que procura, através da fotografia, captar o mundo.
No dizer de Francesca, ele é como o vento; move-se como o vento; “talvez viesse dele”…
Livre, poeta, só. Talvez à procura de algo…
Francesca é uma dona de casa submissa, uma mulher do campo, fiel aos seus princípios de moral cristã, tímida, recatada. Mas é como uma adolescente; sonha e sente que a vida lhe escapa na paz dos dias. Feliz? Acostumada à felicidade que a paz familiar lhe oferecia.
Por vezes, há situações na vida que não se explicam; uma emoção perante algo ou um súbito e avassalador sentimento por alguém… algo que surge de abrupto, mas que traz em si um sinal de predestinação, como se estivesse escrito no céu. Algo inevitável! Imperioso.
A atracção de Francesca por Kincaid surge em poucos segundos. No entanto, parece que todo o universo convergia para aquele momento. Nada mais havia a fazer. O inexorável triunfo da paixão.
Depois é o amor e a vida; os obstáculos incontornáveis que fazem a separação entre a concretização dos sonhos e a rotina dos dias que morrem, fazendo morrer a gente. Persiste a memória… como no quadro de Dali: uma memória incorruptível, poderosa. Mas apenas memória, logo, triste e melancólica. E a saudade, essa chaga que não fecha... E a nostalgia de um olhar para o passado como se este fosse uma espécie de paraíso perdido; ou que nunca se ganhou…
Este livro tem o inexplicável dom de nos dizer qualquer coisa que não conseguimos nunca explicar. Qualquer coisa impossível de descrever em palavras… 

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Leitor - Bernhard Schlink

A leitura como testemunho de um amor inexplicável, intenso e estranho. Um jovem de 15 anos que lê em voz alta para uma mulher de 36, que ama ardorosamente. Um adolescente sonhador e uma mulher bela mas autoritária. Uma personalidade em formação e um espírito enigmático, formado num passado misterioso e agora plasmado no silêncio de quem ouve ler.
Para Hanna, o amor carnal é uma forma de assegurar um presente fugaz, refúgio de quem vive perdida no passado; “a tua vida inteira numa hora”…
Todo o enredo se constrói em torno de um tema complexo e marcante para a Alemanha da segunda metade do século XX: a justiça para os criminosos de guerra, um dos grandes dilemas éticos do pós-guerra. Este livro comprova até que ponto o Holocausto nazi está ainda presente na consciência alemã de uma forma profunda e intranquila.
Para a geração do Leitor, não se tratava apenas de julgar criminosos, mas sim de julgar toda a geração dos próprios pais. Hitler, responsável pela morte e tortura de milhões de pessoas havia sido eleito e apoiado pela maioria dessa geração que agora é julgada; essa tinha sido a geração que executara as ordens de Hitler. Até que ponto, no entanto, é legítimo julgá-los? Até que ponto se trata de vontade de praticar a justiça ou apenas exorcizar a culpa e apaziguar a consciência?
Compreender a geração dos pais torna-se incompatível com a necessidade de julgar e condenar. E Hanna representa a geração dos pais. Amá-la ou julgá-la? É a grande questão.
Apontar o dedo aos culpados não liberta, não apaga a culpa colectiva. Mas torna o sofrimento e o remorso mais suportáveis.
Na segunda parte do livro, um novo dilema: o Leitor conhece um segredo de Hanna que a pode salvar. Mas, bem ao jeito da literatura alemã, Schlink coloca-nos perante um este dilema ético: até que ponto é legítimo revelar um segredo contra a vontade da própria pessoa que, com essa revelação pode ser salva? Poderá esse gesto “salvador” compensar a invasão da dignidade e da liberdade do ser humano?
Se bem que de leitura agradável e fluente, este livro deixa um tom nostálgico no final. O remorso prevalece. A culpa é insuperável. Amar ou castigar não eliminam a culpa nem acalmam a consciência. Culpa por ter amado; culpa por ter castigado.
No final, a grande mensagem parece ser esta: punir é uma tentativa vã de libertar a consciência. A culpa sobrevive. Não se elimina de uma geração para a outra, apenas se transfere. Os acusadores tornam-se vítimas da própria acusação.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

Um escritor vesgo, Bartolomeu, que lutava por se desamordaçar. Uma cantora, Kianda, cuja música era a linguagem dos Astros, uma modelo, ex-miss, que um dia caiu do céu. Angola, 2020. Um mundo em harmonia que, segundo Kepler, se expressa em música triste e lamentosa; a Terra chora; e continua a chorar, a terra angolana…
Um homem que morre lentamente depois de ver morrer a filha; uma esposa que não sabe se o há-de abraçar ou matar; - Abraça-o, diz a irmã, que morto já ele está. Bartolomeu vai morrendo mas lutando. Amores que se cruzam e descruzam e rancores que podem ser mais fortes que amores. E Pascal Abide exemplo extremo, real, do oportunismo que destrói a terra angolana: empresário das telecomunicações, senhor controla-tudo, traficante de armas, corrupto, criminoso, traficante de drogas, premiado pelo governo, íntimo da Senhora Presidente, embaixador de Angola no Vaticano.
O temor reverencial, doutra forma dito o medo, paralisante, monstro simpático que convida ao sossego, à harmonia da conivência, à paz da hipocrisia. Uma mulher com sinais no corpo, há que ler os sinais ou ser devorado. E a miséria de um povo nos subterrâneos dos prédios, nas catacumbas da vida.
Mas há sempre o sossego; há pessoas que são sempre lugares. Há sempre Lulu, o marido fiel de Kianda, o refúgio, o ultimo reduto, pessoa que é lugar. Sim, porque o amor é um lugar seguro e há pessoas que são assim: apenas um lugar seguro de onde nunca poderemos nem quereremos escapar. Como Luanda suja, miserável, corrupta, irresistível.
Por todo o lado, a magia do saber africano, a fantasia, o encanto da terra e dos seus fantasmas, refúgio, um lugar para onde se escapa a revolta. O lugar de onde a riqueza não sai nem entra, riqueza de um povo, de almas que não participam no jogo do poder. Apenas um povo ingénuo e sábio que sabe falar chuva, falar vento e conversar com o capim.
Mas em Luanda é preciso não falar; calar e seguir as pisadas do poder. Submissão. E Tata Ambroise, o feiticeiro do governo, o torturador, alma santa que cura desvalidos, ignorância ao serviço do poder. A boca voraz do monstro.
Kianda e Núbia, as mulheres que parecem existir para preencher os sonhos dos homens, mulheres que dão vida à existência. A exaltação do feminino, a beleza mais pura num mundo de podridão.
Em suma, um livro escrito na nostalgia, triste, às vezes apocalíptico, sem nunca perder a capacidade de sorrir, talvez o sorriso do desprezo. Uma visão pessimista mas também encantada de Angola que talvez se estenda à vida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Opinião - Afinal o tamanho é importante?


Os dois melhores livros que li até hoje (D. Quixote e Os Irmãos Karamazov) são absolutamente monstruosos (mais de 1500 páginas nas edições que usei). Outros livros considerados obras-primas da literatura mundial são do mesmo quilate: Guerra e Paz, Os Miseráveis, Ana Karenina, Doutor Jivago, etc. Isto leva-me a pensar no seguinte: o que distingue, de facto, uma obra-prima? Se é a análise aprofundada do comportamento humano, então, não tenhamos dúvidas, o homem é um ser tão complexo que não se consegue ir às profundezas da alma sem se fazer um “tratado” capaz de funcionar como arma de arremesso se nos assaltarem a casa.
Por outro lado, há livros fantásticos que se lêem numa única insónia: Madame Bovary, A Metamorfose, Inventar a Solidão, O Estrangeiro, De Profundis, A Morte de Ivan Ilich, ou o recente e maravilhoso Firmin.
Mas… poderão estas últimas ser consideradas obras-primas? Não serão apenas leituras e interpretações parcelares da vida e alma humanas?
Esta reflexão leva-nos a uma outra questão: afinal, o que queremos dos grandes livros? Que nos analisem profundamente ou que nos ofereçam belas histórias? Que nos ocupem longos serões e nos obriguem a memorizar centenas de nomes ou então que nos distraiam apenas?
Será o nosso tempo tão pouco valioso que nos possibilite utilizar centenas de horas para ler três ou quatro obras?
Evidentemente tenho as minhas respostas a estas questões. No entanto, gostava que os meus amigos pensassem no assunto…

domingo, 17 de janeiro de 2010

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

Kafka à Beira-Mar é uma obra magnífica por conseguir aliar um intenso ritmo narrativo a uma caminhada reflexiva capaz de nos fazer, por várias vezes, voltar a página atrás e parar para reflectir. A linguagem, cheia de simbolismo, cativa o leitor pela ironia e acima de tudo pela fantasia. O interior do ser humano é analisado em detalhe, à luz da sabedoria oriental, num meio irremediavelmente ocidentalizado como é o Japão moderno.
O enredo aborda o percurso de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que foge de casa e um homem idoso, o interessante Nakata, que fala com os gatos, faz chover sanguessugas ou peixes, depois de ter sido vítima de um estranho acidente, na sua juventude. Ao longo do seu atribulado percurso de fuga, Kafka parece fugir de si próprio; amaldiçoado por uma negra profecia lançada pelo pai, foge de quê? É este o coração do livro: de que foge o ser humano?
Em primeiro lugar, desde as primeiras páginas, Murakami transmite a ideia de uma acentuada crença na bondade natural do ser humano; a maioria dos personagens são naturalmente bons, o que vem, pelo contraste, reforçar a maldade atroz do pai de Kafka.
Nakata, velho e bom, encarna a ausência de conhecimento como fonte de felicidade; o velho que fala com os gatos ficara estúpido mas não sabendo o que são recordações, não sabe o que é o sofrimento.
Ao longo da obra, principalmente na primeira parte, Murakami evidencia todo o seu fascínio pelo conhecimento clássico, nomeadamente dos Gregos antigos. Na vida, como em Aristófanes, o ser humano parece destinado a procurar a sua “metade perdida”, com a qual se completará. Estabelece também um paralelismo com o teatro grego, na relevância que dá ao destino, como uma espécie de desígnio incontornável sobre a vida humana, nomeadamente a tragédia. Na vida humana a tragédia parece ser consequência das virtudes e não dos defeitos ou problemas.
Realce também, nesta primeira parte da obra, para a valorização dos conhecimentos tradicionais da cultura japonesa, como por exemplo o conto de Genji, na explicação dos “espíritos vivos”.
Mas o tema central deste livro é, sem dúvida, o destino. Numa espécie de luta interior, Kafka luta pela sua própria identidade, tentando conciliar o destino com o livre arbítrio. A fuga é antes de mais uma tentativa desesperada de escapar ao destino. No entanto, como afirma o seu amigo Oshima, “podes fugir mas não te podes esconder”. E, assim, a vida será sempre uma luta. Ao longo dessa luta, é fundamental a imaginação; aqueles que não a usam tornam-se ocos, desprovidos de conteúdo. É essa imaginação que permitirá ao ser humano lutar e triunfar contra o destino. O destino é poderoso mas não é invencível.
Quando Kafka foge, afinal, foge para onde? Inicialmente para a biblioteca, depois para a floresta: são esses os locais onde ele se pode encontrar. É a eterna procura do “eu”! No entanto, é dentro dele que se encontram as respostas. O seu “eu interior”, personificado pelo “rapaz chamado corvo” funciona como a sua consciência, a sua voz interior.
Ao longo da obra parece notar-se um certo corte com o conhecimento enquanto caminho para a felicidade; o verdadeiro conhecimento é precisamente aquele que provém do “eu interior”. É nesse sentido que Nakata, o velho, considerando-se “estúpido” porque esqueceu tudo o que aprendera na escola, é o mais sábio porque encerra todo o conhecimento místico que dará luz a todos os mistérios que o enredo encerra. A própria biblioteca não é vista como local de conhecimento mas de solidão; é aí que o espírito pode encontrar a verdade, não nos livros mas em si mesmo.
Em conclusão, trata-se de uma obra de grande alcance filosófico e místico, cheia de simbolismos e onde o mistério e a fantasia resumem todo o lado não racional do ser humano, lado esse que é fundamental na procura da identidade e do verdadeiro sentido da vida.
Imagem: Salvador Dali, Swans Reflecting Elephants

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Opinião - Abaixo o pedantismo


Num intervalo de leitura de um brilhante Murakami (Kafka à Beira-mar) faço uma investida pela Internet e deparo com algumas ideias que me deixam perplexo.
Eu sei que todo o ser humano tem direito à sua opinião. Sei e respeito.
No entanto, esse respeito não me impede de ficar indignado.
Eu sei que "é bem" dizer que se gosta de escritores obscuros mesmo que não se goste; "é bem" dizer-se amante de música clássica mesmo que lá em casa se oiça a Ágata; "é bem" decorar uns títulos de programas do Canal2 mesmo que, no esconderijo doméstico, se vejam apenas telenovelas da TVI e, quando muito, o concurso do gordo.
Tudo bem, se "é bem" que seja. Mas eu tenho direito à minha indignação e julgo ter motivos sérios para ficar indignado.
Não gosto do fado de Amália Rodrigues, dos livros de Paulo Coelho, da literatura Light em geral, de escritores elitistas e pseudo-intelectuais. Mas nunca direi ou escreverei que essas pessoas são estúpidas, incompetentes e inúteis. Por uma única razão: porque eles contribuem para a felicidade de muitos seres humanos! Por isso, tenho motivos para ficar indignado quando deparo com certas "modas" como considero pedantes, como a de considerar frívola e menor a (abusivamente denominada) literatura de auto-ajuda e desdenhar de determinados escritores apenas porque são populares e acessíveis como Paul Auster e este espectacular Murakami.
Aqui fica pois a minha indignação: uma obra prima não tem de ser um calhamaço duro de ler nem um escritor de génio tem de ser uma mente tortuosa e atormentada.
Sinceramente, cada vez que leio opiniões como as que referi acima, mais me apetece dedicar-me à tal literatura light! Venham daí as Nora Robert's, as Danielle Sttele's e até o velhinho Konsalik. A leitura tem de ser diversão; abaixo o intelectualismo pedante!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Amante - Marguerite Duras

“O Amante” é um dos maiores sucessos desta escritora que marcou a literatura francesa do século XX. Trata-se de uma obra de cariz auto-biográfico, o que, desde logo, revela a enorme coragem da escritora, tendo em conta o enredo do livro.
A protagonista é uma jovem francesa de quinze anos que se apaixona por um magnate chinês na Indochina (antiga colónia francesa que incluía o Camboja, Laos e Vietname). A jovem, a quem a autora não atribui nome próprio, envolve-se de imediato numa intensa relação amorosa e sexual. Trata-se, obviamente, de um relacionamento considerado “escandaloso” para uma jovem europeia.
Também o relato da vida familiar da jovem é absolutamente chocante: a mãe, antiga professora primária arruinada, viúva, é uma pessoa amargurada, gravemente afectada por distúrbios mentais, recorrendo com frequência a violentos castigos corporais sobre a filha “pecadora” e sobre o irmão mais novo, que acaba por morrer. De toda a família, ele é o único que, no livro, tem nome próprio (Paul). O irmão mais velho, dependente da droga e do crime, é uma pessoa violenta que se alia à mãe no exercício da repressão. Ambos, personificam a maldade e a violência.
Além disso, a miséria material, a pobreza quase extrema, acompanha este quadro absolutamente dramático mas descrito de uma forma chocante pelo realismo.
Trata-se de uma obra que, pelo seu dramatismo, exige do leitor um certo distanciamento em relação às emoções que, inevitavelmente, acaba por despertar. É uma obra marcada pela tristeza, pela revolta.
As mulheres são, em geral, vistas como seres solitários, dependentes e emocionalmente frágeis. E é essa fragilidade, essa solidão, que conduz a jovem até à relação intensa mas efémera com o amante. Este é visto como um ser algo superior, inacessível, porque pertence a “outro mundo”, o da elite endinheirada e poderosa. Mas, ao mesmo tempo ele é desesperadamente frágil por não ser capaz de assumir qualquer compromisso, permanecendo sempre submisso ao poder e ao sistema em que se encontra inserido. Além disso, é notório o choque cultural que afasta o amante chinês da jovem francesa.
Ela não se entrega por amor nem sequer por atracção, mas sim por revolta e solidão. Entrega-se e esvazia-se; a relação não a liberta. Pelo contrário, é a sua paixão pela amiga do reformatório, Hélène, que a realiza, que a gratifica, mesmo não passando de uma paixão platónica e fugaz.
A linguagem, poética e sentida, muitas vezes desesperada, é um dos maiores atractivos deste pequeno romance. Uma leitura que se recomenda com a advertência do necessário afastamento emocional, defesa indispensável a um leitor mais sensível.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A Terceira Rosa - Manuel Alegre

Trata-se de uma das raras obras em prosa deste que é um dos grandes poetas da língua portuguesa. Neste livro, Manuel Alegre relata-nos uma sofrida história de amor, entre Xavier e Cláudia, na fase final do Estado Novo português.
Os encontros e desencontros, as euforias e os dramas da paixão vão acompanhando a agonia de um regime pérfido mas moribundo que, no entanto, continua a dilacerar vidas e almas. Xavier e Cláudia, divididos pelo fascismo, separados por mundos opostos num mesmo mundo, vítimas dos outros mas também da insatisfação humana que eles próprios representam no teatro da paixão.
Numa admirável, cuidada e emocionada prosa poética, Alegre passeia pelas palavras enquanto nos guia pelos caminhos da solidão que o amor não apaga. Um amor sem tempo, ou melhor, com um tempo que é desde sempre e sem fim.
Fabulosa a descrição dos mecanismos da paixão, que “passa e não passa”. Assim é o amor: morre mas não morre. E um “também eu” que é frase de quem ama e se repete nesse tempo que não acaba, nesse passar que não passa.
Uma prosa escrita com ardor, sem artificialismo, apenas alma, apenas o som que vem do peito. Sem descrições inúteis, que tantas vezes enfadam e destroem grandes enredos. Trata-se da escrita mais pura e magnificamente simples que se pode criar.
Dispensável, talvez o estafado paralelismo entre o amor e os toiros de morte.
Genial, talvez a leitura da alma humana que, de tanto amar, destrói. Xavier amou até à exaustão.
Genial, também, os caminhos paralelos do amor e da Liberdade; o 25 de Abril que nasceu para não morrer, um amor que terminou sem morrer. A esperança que sobrevive, Cláudia e a Liberdade, a eternidade das paixões. Cláudia que dizia a Xavier “eu não quero morrer de ti” é, afinal, eterna.
Curioso título do livro: referência a um belo poema de E. E. Cummings em que a rosa vermelho-escura aparece como símbolo da morte:
(…)
If there are any heavens my mother will (all by herself) have
one. It will not be a pansy heaven nor
a fragile heaven of lilies-of-the-valley but
it will be a heaven of blackred roses
(…)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Intervalo - Feliz 2010

Na impossibilidade de visitar os blogs de todos quanto partilham comigo esta paixão pelos livros, aqui deixo o meus sinceros votos de um 2010 cheio de alegria, com muitas e  boas leituras.
A propósito, em jeito de recomendação para o novo ano, os sete livros que me marcaram no "Ano Velho":
A Saga de um Pensador, de Augusto Cury
O Monte dos Vendavais, de E. Bronthë
Cemitério de Pianos, de José Luis Peixoto
Firmin, de Sam Savage
O Doente Inglês de M. Ondaatje
Frankenstein de M. Shelley
A Estrada, de Cormac MacCarthy

Então fiquem com uma coisinha gira da minha infância ;)
http://www.youtube.com/watch?v=dcLMH8pwusw

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Permitam-me imitar o blog http://adasartesleituras.blogspot.com e citar uma passagem absolutamente fantástica desta obra:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Não tenho dúvidas em afirmar que José Luís Peixoto é um dos escritores contemporâneos cuja escrita mais me fascina. Com nítidas influências de Lobo Antunes e, principalmente de Faulkner, adopta a técnica de multiplos narradores que confere à escrita uma intemporalidade encantadora. O tempo sai claramente vencido. Avô, pai e filho, uma mesma vida; as mesmas angustias, que são as da gente simples, as de todos nós. "Eramos perpétuos uns nos outros", afirma o filho de Francisco.
A obra baseia-se na vida de um maratonista português que morreu, dramaticamente, ao quilómetro 29 da maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Carpinteiro de Profissão, Francisco Lázaro era filho e neto de carpinteiros. Nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a suceder ao seu filho.
Memórias de vidas repetidas formam circulos concêntricos, fazendo-nos olhar a vida como um carrossel de factos que, imperiais, dominam o destino e subjugam a existência. Ao longo de toda a obra, predomina a beleza que só a tristeza pode dar às palavras. O sentir da gente simples, os prazeres e as dores de quem vive à procura da música nunca encontrada dos pianos avariados. A vida como cemitério da música. E um maratonista que corre até à exaustão em busca de um sentido (que não existe) para os círculos concêntricos.
Maria, operária fabril, passava horas lendo romances de amor no cemitério de pianos (espécie de arrecadação onde se guardavam pianos que ficaram por consertar). Maria procura nos livros o sonho que não existe. Mas procura e assim vive; entre sonhos perdidos e musica que não sai dos pianos; esperanças adiadas que não perdidas. Sonhos que são o conforto e o alimento da vida. Maria lê; e quem lê foge sempre de algo; talvez do medo, talvez das memórias, talvez de alguém. Mas vive; refugiando-se num mundo novo, mas mantendo a esperança.
Sempre a esperança do maratonista que corre como vive: à procura do sentido da vida e em fuga; fuga da culpa e do medo, os grandes inimigos da vida: ninguém vive só a sua vida; vive também a dos outros porque as suas atitudes os afectam e condicionam.
No meio de tudo isto, que interessa quem vive e em que tempo? O momento presente encerra todo o passado. É Francisco quem o diz na primeira pessoa: "todo o tempo, anos e décadas que vivi, que não vivi, que viverei e que não viverei, existem neste momento" (página 225). Passado, presente e futuro num único e poderoso agora.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Boneca de Luxo - Truman Capote

“Boneca de Luxo” é a história de uma jovem actriz, Holly Golightly (Lulamae de seu nome verdadeiro), que foge de um passado sofrido para o luxo e a luxúria de Nova Iorque. “Em viagem” é a frase que coloca na sua caixa de correio; de facto, ela procura na vida uma eterna viagem que a leve até ao âmago da existência, por caminhos incertos mas iluminada por um objectivo: a realização pessoal, a sua afirmação como pessoa.
Boémia e mundana, Holly envolve-se numa existência povoada de vícios, com uma conduta que a sociedade carimba de devassa e imoral. No entanto, ela nunca deixa de expressar os seus valores morais. Ao longo da narrativa, é visível a superficialidade das relações humanas na grande cidade e a futilidade daqueles que a procuram em nome do corpo e da satisfação do prazer.
No entanto, Joe Bell e George Peppard, o escritor fracassado, são diferentes. Eles alimentam por Holly uma amizade profunda e verdadeira, talvez aquele amor que a cidade lhe recusa. Este amor, que nada tem de carnal, dispensa qualquer erotismo e mesmo a própria presença física. É Joe Bell quem define este amor, de forma eloquente e terrivelmente bela:
“Podemos amar uma pessoa sem ser dessa maneira. Mantemos as distâncias, é uma pessoa amiga que não deixa de nos ser estranha.”
Peppard segue os passos de Holly e caminha sempre ao seu lado, ao contrário da grande cidade que apenas a admira e utiliza nos seus desejos fúteis. No entanto, Holly permanece fiel ao seu passado; Doc, o ex-marido resgatara-a da miséria e a ele se unira com tenra idade. Para Holly, ele mantém-se o verdadeiro dono do seu afecto. Neste aspecto, as amarras do passado são intransponíveis.
“Mas, Doc, eu já não tenho catorze anos nem sou a Lulamae. (…) Mas o pior é que sou mesmo”.
Nessa quase infância, Doc libertara-a da miséria mas aprisionara-lhe os sentimentos; e Holly era como um animal selvagem que ele pretendeu enclausurar. Na grande cidade, procurou libertar-se desses grilhões, no entanto, apenas encontrou o desprezo vil da soma de egoísmos a que chamamos sociedade ou civilização.
Para Holly restou a necessidade de continuar “em viagem”.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Firmin - Sam Savage

Firmin, o rato, é o mais novo de uma ninhada de treze, filhos de uma ratazana bêbada. Fraco, por falta de teta disponível, é o renegado da vida.
Terminada a leitura, não posso deixar de admitir que, se fosse um rato como Firmin, teria devorado literalmente o livro depois de o ter “devorado” em poucas horas. Trata-se de uma fábula magnífica.
Este livro deveria ser lido atentamente por todos aqueles que não compreendem a paixão pelos livros.
Vítima de “biblobulimia”, Firmin alimenta-se de livros: ele , come e vive os livros. Vivendo numa livraria de bairro, ele observa as pessoas e vai aprendendo a viver com elas. A livraria (na primeira parte do livro) e a casa de Jerry (na segunda parte) são o seu refúgio – o mundo lá fora é horrível e decadente. Os livros e o sonho comandam a sua vida.
No entanto, Firmin, o devorador de livros, não consegue comunicar com os humanos, essa espécie incompreensível e egoísta. Jerry, o homem que queria consertar o mundo, escritor modesto e vagabundo no destino, é o único que o compreende; o seu único amigo. Jerry é pobre e desprezado. É feliz. Como o Falcão de “A Saga de um Pensador”, ele vive do outro lado do mundo; não acima nem abaixo; apenas numa linha paralela à vida dos “normais”; ele e Firmin; eles e os livros. No entanto, é nesse caminho paralelo que encontram a felicidade, bem perto da vida, não num mundo irreal ou afastado dos outros. Firmin como nós, os que amamos os livros, não vivemos noutro mundo; apenas do outro lado – aquele lado a que alguns chamam da loucura.
No entanto, Firmin, o rato, carrega consigo a solidão. Mas graças ao afecto (ou amizade, ou amor, tanto faz) por Jerry e pelos livros, essa solidão não deixou nunca de ser apenas uma palavra que apenas vagueou com ele pela vida.
Firmin teve a coragem suficiente para vencer o medo e procurar o sonho. Foi um rato renegado mas feliz.
Um livro fantástico; uma fábula inesquecível.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Arquipélago da Insónia - António Lobo Antunes

Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…
Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.
E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…
Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.
Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…
O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adeleide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…
E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…
E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?
Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.
E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).
Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.
E um livro sem beleza.
De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Doente Inglês - Michael Ondaatje

A solidão que é a soma de quatro almas. Quatro pessoas, quatro vidas disformes, moldadas pelo infortúnio. A solidão e um livro magoado que exala tristeza, uma obra triste como a guerra e como a soma de quatro solidões. Um doente horrivelmente queimado, uma enfermeira dedicada que sacrifica a vida por ele, um soldado indiano que a guerra fez autómato revoltado e Caravaggio, velho soldado espião e ladrão, perigoso, perdido na vida como o pintor italiano.
A segunda guerra mundial e a respectiva desgraça humana como pano de fundo: um mundo destroçado porque o mundo é feito de corpos e almas, agora dilaceradas pelo monstro que o homem inventou e a que chamam ódio. Quatro seres que já não procuram explicações nem futuro; apenas talvez a paz que um refúgio num velho mosteiro pode ainda trazer.
O Inglês esqueceu tudo, queimado por dentro e por fora, tudo para ele são sombras disformes excepto Katharine e o deserto. Nada mais faz sentido senão o deserto mapeado pelo velho Heródoto, ultimo e primeiro a compreender o mundo, e o amor. Katharine, a imagem da vida, da morte e do amor, enfim, talvez seja tudo a mesmo coisa.
Kip, uma vida de submissão do colono indiano à velha senhora, a Inglaterra, um passado de humilhação e revolta abafada disfarçado na coragem do sapador heróico, desarmando bombas que por todo o lado desfazem outras vidas.
Hanna, perdida e vítima da vida, desterrada do belo Canadá para os intestinos do mundo, a Europa, a velha Europa onde se morre apenas. E Hanna sobrevive porque ainda existe essa réstia heróica de vida – o amor. Um amor difuso, talvez pelo doente, talvez por Kip ou Caravaggio, talvez por ela própria ou pela humanidade, pouco importa.
Caravaggio, perdido no mundo, à procura de Hanna ou do que possa sobrar da vida.
Para lá de uma Itália dilacerada, um deserto africano que preenche memórias de vida. Porque “só no deserto há Deus. (…) fora dali apenas havia comércio e poder, dinheiro e guerra.”
Sentimentos fortes e paixões profundas acabam por unir os quatro personagens da obra, como forças superiores e tirânicas. O amor leva-os a viajar pela vida: Londres, Cairo, o deserto ou a India; não existe amor sem viagens por onde os espíritos vagueiam.  O amor... esse lugar estranho que fica onde as almas solitárias se completam.
Uma obra magnífica, magistral, escrita a sangue e lágrimas, onde ler é uma viagem pela melancolia e pela tristeza. Um livro belissimamente triste. Sim, porque a tristeza pode ser bela.