segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Memorial do Convento - José Saramago

É ingrato escrever sobre o Memorial do Convento. Tudo quanto se possa dizer é pouco. E tudo quanto possa “apoucar” esta obra é quase criminoso.
Sublime, épico, revolucionário, maravilhoso. Tudo isto é pouco.
Portanto, tudo o que aqui venha eu a escrever não serão mais que notas dispersas do deslumbramento com que reli este livro.
Comecemos então por umas frases do Mestre, que penso revelarem um pouco desse maravilhoso, a propósito do transporte de uma pedra monstruosa para a varanda do Convento de Mafra, tema central do livro:
“É só uma pedra, e os visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com as suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do Convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz”.
É isto: o refinado sentido de humor e a sensibilidade do escritor que se unem de forma genial.
E é mais que isto; é um tom poético notável: a passarola (aparelho voador historicamente documentado, construído pelo padre Bartolomeu de Gusmão), a passarola, dizia eu, que voa com a força das vontades dos homens; e é Blimunda, a mulher que representa a força popular, indomável e misteriosa, que recolhe as vontades dos corpos humanos. E quando Blimunda adoece, é a música que a cura.
Para lá da poesia na prosa, há Deus por todo o lado. Saramago, o ateu confesso, fala de Deus como quem o respira; na sua existência ou não, na sua impiedade ou injustiça; seja o Deus impiedoso que pactua com a miséria, o Deus aterrorizador que é serventias dos algozes da Inquisição ou o Deus fantasioso da superstição generalizada. Mas todos esses deuses existem porque são reais nas mentes e nas vidas sofridas dos homens.
E são essas vidas sofridas que percorrem a obra num tom pungente a lembrar as raízes neo-realistas do escritor: no sentimento de solidariedade com que descreve a vida dos mais pobres, desprezados e injustiçados pelos detentores da riqueza, renegados pelo poder. É a miséria de quem trabalha apenas para que possa manter-se na miséria. É a eterna injustiça do reino dos homens, no tempo do ouro do Brasil, que chega às toneladas para alimentar os sonhos magnânimos de um rei cujos súbditos morrem à míngua.
Neste sentido, o livro é um grito de revolta contra a natureza do poder político e, mais que isso, uma intensa reflexão sobre o sentido da vida: os que trabalham e sofrem, justificam e alimentam a vida dos poderosos e dos “santos”. Afinal, os pobres não têm tempo para viver.
Basicamente (e convém não esquecer o mais simples da mensagem) o Memorial do Convento é uma imensa homenagem a todos quantos construíram, com o sangue e o suor, não só o Convento de Mafra mas todas as vaidades que se plasmaram na pedra, onde as gentes humildes se sacrificaram na pedra bruta, altar do sofrimento, para honra e glória de mortais tornados ídolos. E talvez Deus seja apenas a testemunha silenciosa ou ausente, vá-se lá saber…
Mas nem tudo é sangue e suor neste livro; dele emana sempre o perfume do sonho, esse sol, ou esses sete sóis das semanas que comandam a vida, que o herói modesto do livro, Baltasar, herdou de alcunha: Sete Sóis, sete fôlegos, sete lutas, ou setenta vezes sete vidas guiadas pelo sol do sonho. O sonho que comanda a vida.
Enfim, um livro que se lê com fúria e prazer, com revolta e encantamento. Um livro único coroado com um final cheio de beleza e emoção.
Avaliação Pessoal: 10/10 

sábado, 8 de outubro de 2011

Relendo Memorial do Convento

Reler Saramago é uma aventura sempre nova, sempre estimulante e maravilhosa.
Dou comigo lendo e relendo a mesma página, num devorar que é também saborear, numa ânsia de absorver toda a sabedoria e arte do nosso grande Mestre.
Memorial do Convento é um monumento maior que o convento de Mafra, cuja construção se narra. Reler este livro é uma aventura épica única!
Toda a sensibilidade do autor expressa-se numa prosa poética inigualável, cheia de humor mas também de sentimento e de humanismo.
Não tenho já qualquer dúvida de que este é, para mim, o melhor livro alguma vez escrito em língua portuguesa.
Lá para segunda feira, aqui, a minha opinião completa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ainda a propósito de Valter Hugo Mãe

A Cristina Torrão teve a amabilidade de me indicar este link:
O que aqui se passa é uma imensa discussão a propósito de uma apreciação "quase negativa" do livro O Filho de Mil Homens, apreciação essa feita por um crítico literário.
Devo dizer que, como se diz na minha terra, "afino" com estas apreciações feitas com base em padrões de qualidade que são sempre subjectivos. E "afino" ainda mais com o tom doutoral com que por vezes se atribuem esses epítetos de "escritor com E", passando a encarar esses heróis como uma espécie de "vacas sagradas" em quem  ninguém pode tocar. Para esses "doutores", dizer, como eu digo, que não gostei do livro de VHM é um crime de lesa-majestade, como seria também criminoso elogiar José Rodrigues dos Santos porque esse já foi carimbado por tais doutores como um escritor medíocre.
É por estas coisas e por outras que ouso dizer com todas as letras: abomino cada vez mais a crítica literária! Vou continuar a dizer que GOSTO de Paul Auster, de Augusto Cury, de Zafón e de vários outros que os doutores/críticos abominam! E da mesma maneira diria que detesto Os Maias se assim pensasse! E direi também que não consigo ler A Viagem à Índia, que os doutores tanto adoram!
Senhores Doutores e Senhoras Doutoras, quero lá saber o que vocês pensam e o que vocês dizem! O único padrão de qualidade a que obedeço é o meu, até porque a Literatura não é uma indústria para se avaliar os livros como se avalia um detergente. No entanto, TODOS temos o direito de fazer a nossa avaliação pessoal, pois a Literatura é uma arte. A mais nobre das artes!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe

Depois de magníficos livros como A Máquina de Fazer Espanhóis e, principalmente, O Remorso de Baltazar Serapião, as expectativas eram altas para este livro de Valter Hugo Mãe. Anunciava-se o regresso às maiúsculas e o assumir de uma perspectiva mais positiva e uma escrita mais suave. Desde logo, anunciava-se o abandono de uma linha pessoal que VHM ia seguindo nas suas obras anteriores.
Esse abandono de um estilo bem pessoal não me agradou mas devo dizer antes de mais nada que estamos perante um bom livro. A leitura é agradável, a escrita poética dá uma certa musicalidade ao livro e a sensibilidade do autor está sempre “à tona da água”.
Conta-se a história de um homem que, como o autor, cruza os quarenta anos de idade e questiona o sentido da sua existência, decidindo-se pela procura de algo que o complete: uma mulher e um filho.
Crisóstomo, pescador, era metade. Fez 40 aqnos e sentiu-se só. Procurou um filho e encontrou-o: Camilo, catorze anos. Encontrou uma mulher e sorriu: Isaura (o nome mais belo que existe). Sorriu.
Uma anã sem nome era infeliz. Só. Mas 15 homens, quase todos os que havia na aldeia a visitavam. E da doença e da solidão nasceu um filho. A mãe, anã, completou-se e morreu.
Isaura com 16 anos cedeu ao amor carnal e começou a morrer. Conheceu um maricas e casou. Mais tarde o maricas será chamado pelo seu nome (Antonino); antes disso foi sempre renegado porque maricas não é ser gente. Um dia o maricas foge e Isaura descobre que o amor é esperar. Chora.
Camilo, o filho da anã, é adoptado pelo velho Alfredo. Alfredo morrerá e Camilo herda a solidão. Para Isaura “ser o que se pode é a felicidade”. Assim foi até conhecer Crisóstomo e Camilo, entretanto adoptado pelo homem que fez 40 anos. Todas as metades se completaram e o maricas voltou. Antonino é acolhido pela nova família: Isaura, Crisóstomo e Camilo. A união entre os pobres, solitários deserdados da vida. Ainda havia tempo para que todos sorrissem.
Como se vê a mensagem é bonita, o enredo é interessante mas falta aqui (na minha opinião, é claro) Valter Hugo Mãe. Falta o cunho pessoal, o estilo “tsunami” a que VHM nos vinha habituando.
A solidão foi derrotada, assim como o preconceito, esse monstro devorador da vida, do qual nasce a solidão.
Independentemente da qualidade inegável da obra, a palavra chave que me assoma à mente é esta: cedência. 
Avaliação Pessoal: 8/10

domingo, 2 de outubro de 2011

O Papa-prémios

Como podemos conferir aqui, Gonçalo M. Tavares venceu mais um prémio literário.
Não sou ninguém para questionar a justiça desta avalanche de prémios mas, num país onde vários escritores produzem continuamente obras de grande qualidade, causa-me alguma estranheza que seja sempre o mesmo autor o escolhido por estes juris (presumo que constituídos por pessoas diferentes).
É evidente que GMT é um grande escritor, mas julgo que também o são António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe, João Tordo, José Luís Peixoto, etc.
Será que GMT é assim tão esmagadoramente superior a estes seus colegas de ofício, ou haverá razões que a razão desconhece?

sábado, 1 de outubro de 2011

A melhor leitura de Setembro

O pequeno grande livro Aqui Entre Nós, de Paulo Alexandre e Castro foi uma agradável surpresa; uma peça de teatro inovadora e cheia de conteúdo. 
Um outro livro, um clássico da literatura brasileira (O Alienista de Machado de Assis), revelou-se uma leitura divertida mas também com um significado muito interessante, tendo em conta a época em que foi escrita. Em pleno século XIX este génio do país irmão faz uma abordagem original e intensa da loucura, a fazer lembrar Dostoievski. Antes de Dostoievski, note-te.
Para a qualidade literária de PAC e de Machado de Assis já estava eu alertado, por isso a surpresa maior veio de um escritor já muito experimentado, um escritor de sucesso que eu, desgraçadamente, desconhecia: Marek Halter. Na verdade, este Mistérios de Jerusalém é uma obra fabulosa pelo conteúdo histórico, pela estrutura inovadora da narrativa e pela emoção que coloca no enredo.
Sem dúvida nenhuma, a leitura do mês:

domingo, 25 de setembro de 2011

De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires

Este pequeno livro é um testemunho absolutamente dramático de alguém que viveu a morte em vida.
José Cardoso Pires faleceu em 1998 vítima de um AVC. Escrevera este livro em 1997 descrevendo um outro acidente vascular cerebral, que sofrera em 1996.
Tudo é absolutamente dramático neste livrinho; até o estilo: nu, cru, despojado, chocante pela simplicidade com que se descreve a doença.
O genial escritor deu entrada num hospital de Lisboa onde foi assistido pelo médico João Lobo Antunes, neurocirurgião, (que prefacia este livro) irmão do seu amigo António Lobo Antunes.
Por ironia do destino, o AVC bloqueara-lhe a área cerebral da escrita, assim como da oralidade e da memória. O escritor que perdeu a memória e a capacidade de escrever. Afastando-se de si mesmo, JCP narra-nos todo o seu drama como se de outro se tratasse. O doente vagueava pelos corredores do hospital como quem procura a sua própria pessoa, perdida algures, vítima de um coágulo de sangue. Era a sua identidade que ele procurava; era o drama de se ter perdido a ele próprio. E da mesma forma brutal e silenciosa com que se perdera de si, o doente viria depois a reencontrar-se. Miraculosamente.
Este livro lê-se em poucas horas, mas ficará por certo gravado na memória de quem lê pela simplicidade e frontalidade com que o escritor descreve o seu próprio drama. 
Avaliação Pessoal: 9/10

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Alienista - Machado de Assis

Antes dos estudos de Jung e de Freud, Machado de Assis escreveu em 1881 esta interessante novela em que aborda de forma inovadora para a época o tema da loucura. Nesse ano, do outro lado do mundo, Dostoievski acabava de publicar o seu último romance (Os Irmãos Karamazov) e falecia pouco depois. Não sei se Machado de Assis leu o mestre russo que tão bem abordou este tema. No entanto, o seu estilo é bem diferente e inovador.
O protagonista, Simão Bacamarte, é médico e dedica-se à psiquiatria. Para tal instala-se na pequena cidade de Itaguaí, onde funda a Casa Verde, um hospício onde vai internado os habitantes da povoação que considera doentes. Aos poucos vai enchendo a casa até aí encerrar boa parte da população. A partir daí começa a ser difícil distinguir quem são os loucos porque os que ele considera sãos são uma minoria cada vez mais insignificante. Isso leva-o a, de repente, soltar todos os internados concluindo que a teoria era inversa àquilo que ele pensava.
O ponto alto da obra é atingida quando Machado de Assis cria uma relação entre o estudo da loucura e o poder político. Por momentos, a alienação colectiva parece ser o suporte quer do poder quer do contra-poder representado pelo barbeiro revoltoso, que se opõe à Câmara Municipal que apoiava o alienista.
O final do livro surpreende pela forma inteligente como o autor decide o destino do protagonista; isolado, ele é o único que pode provar a si próprio a validade das suas teorias. Faltava saber até que ponto as suas teorias não seriam, elas próprias, provenientes da sua loucura, em vez da razão. NA verdade, o estado de perfeição da mente humana, para o alienista, era o do “perfeito desequilíbrio”. Assim, ganhava lógica a atribuição do epíteto de louco àquele que apenas agisse segundo a razão :) …
Um aspecto impressionante do livro é o estilo de escrita do autor. Penso que poucos conseguiram exercitar a língua portuguesa de forma tão bela como o fez este brilhante escritor brasileiro. Veja-se, por exemplo, a musicalidade, a beleza, deste excerto: “Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heróicos.”
Finalmente, uma nota para o fino sentido de humor de M. de Assis, que nos coloca um constante sorriso nos lábios, sem nunca cair na piada fácil que o tema sempre propicia ao escritor. Um livro importante na história da literatura de língua portuguesa, de leitura fácil e profunda, agradável e que nos propicia fortes motivos de reflexão.
Avaliação Pessoal: 9.5/10

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Vale dos Cinco Leões - Ken Follett

Depois de ter lido A Queda dos Gigantes (do mesmo autor) sem que tenha correspondido às minhas expectativas, empreendi esta leitura na esperança de rever “em alta” a minha opinião sobre este escritor de enorme sucesso. Mas, saí ainda mais desiludido.
Com a guerra do Afeganistão como pano de fundo, Jane, casada com um médico francês que depois se revela espião russo, está no meio de um triângulo amoroso que é completado por Ellis, um espião americano. O cliché perfeito! Entre pactos secretos, ameaças, atentados, fugas, aventuras e tudo o mais que compõe um romance de aventuras e espionagem, compõe-se assim o ramalhete de um enredo previsível, com emoção mas sem nada de novo dentro do género.
Se bem que a leitura seja agradável e o enredo atractivo, nada nos surpreende, nada consegue empolgar um leitor minimamente experimentado neste género literário. Se é verdade que há capítulos cheios de emoção, que levam o leitor a devorar as páginas, também é verdade que Follett, por vezes, se perde em descrições maçadoras e absolutamente inúteis. Fiquei com a sensação clara que esta estória, com 500 páginas se poderia contar em menos de metade do espaço.
Mesmo assim, há um lado bastante positivo neste livro: o conhecimento que podemos adquirir desse conflito tão estranho e dramático que foi a invasão do Afeganistão pela União Soviética. Mesmo assim, esse aspecto didáctico fica manchado pelo habitual maniqueísmo que coloca os americanos do lado das forças do bem e os soviéticos como a encarnação do mal. A História já nos deu muitas provas de como o mal nunca está apenas de um dos lados.
Em suma, um livro que pode ser uma leitura agradável e despretensiosa, ideal para ler em férias, mas com a qual pouco se aprende.
Avaliação pessoal: 6.5/10

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Aqui, Entre Nós - Paulo Alexandre e Castro

Já escrevi algures que de entre os novos nomes da literatura portuguesa contemporânea, Paulo Alexandre e Castro é um dos mais promissores. Depois dessa pequena obra de arte que é Loucura Azul, este escritor presenteia-nos com uma surpreendente e original peça de teatro.
Os protagonistas são três loucos num hospício. Desde logo, é um regresso à profunda, imensa, questão: o que é a loucura? Quem são os loucos? E daqui partimos para a questão que mais nos interessa: qual a quota-parte de loucura que nos é necessária para ser feliz?
É nestas coisas que o livro nos deixa a pensar. João, Pedro e Nuno são os loucos. Ou serão apenas infelizes? Ao longo do livro, é nítido o esforço que eles fazem para assumir comportamentos, raciocínios e emoções consideradas “normais”; tentam fugir da loucura assumindo uma assustadora lucidez. No entanto, parece óbvio que nada mais fazem do que qualquer um de nós, no quotidiano: apenas procuram ser felizes. Esta questão é muito mais relevante e profunda do que parece à primeira vista, porque a sua aparente loucura (e vemos isso nitidamente no final da peça) não passa de um desajuste em relação à realidade. Essa realidade é a normalidade, apresentada na peça pelas três mulheres que visitam os “loucos”; elas surgem de repente, vindas da normalidade. No entanto, essa normalidade é negra, infeliz, cruel…
Por outras palavras: onde está a loucura, afinal: na fuga à crueldade dos dias “reais”? ou nessa realidade trágica, absurda, que levara aqueles homens aos hospício?
Afinal de contas para onde caminham João, Pedro e Nuno? De que fogem? Onde está a normalidade da vida?
Esta avalanche de perguntas, de dúvidas existenciais é o que nos fica da leitura desta peça. E não é pouco, convenhamos. São questão que sempre hão-de avassalar a alma humana… afinal de contas, João, Pedro e Nuno não são diferentes de qualquer um de nós. Qualquer um de nós foge da normalidade; qualquer um de nós será um dia apelidado de louco… mas qualquer um de nós poderá descobrir que um homem é muito mais que um carimbo social, muito mais que um nome, um tempo no relógio, uma imagem na fotografia, mais que a ilusão de uma pedra na sopa.
No final, João, Pedro e Nuno recitam, em conjunto um poema. De lá tomei a liberdade de copiar este excerto:
NUNO-  … da vida…
JOÃO - … o que vale…
PEDRO - … é a loucura…
NUNO - … pura e crua!…
 Avaliação Pessoal: 9/10

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os Mistérios de Jerusalém - Marek Halter

Os números têm, muitas vezes, significados profundos que vão muito além da aritmética. A numerologia nos textos bíblicos é apenas um dos muitos aspectos fascinantes que este livro envolve. Mas começo este comentário com esta referência porque, terminada a leitura, é um número, um simples algarismo, que me surge na mente para sintetizar o significado da obra. É o número 3. Porquê?
Em primeiro lugar, porque este livro envolve três dimensões, claramente distintas: é uma estória policial, um romance de aventuras e um autêntico manual de história por detrás da ficção. Uma estória nos bastidores da história!
Por outro lado, são três os tempos narrativos que nos fornecem uma interessante visão diacrónica da história de Israel: 1) o tempo bíblico do Antigo Testamento, com todos os mistérios, conflitos e maravilhas do mundo antigo; de Abraão à segunda destruição do Templo, pelos romanos, Halter encaminha-nos por uma viagem maravilhosa através das páginas do Antigo Testamento. 2) as cruzadas, na Idade Média, que a coberto de uma guerra sagrada foram ao mesmo tempo, oportunidades de rapina e pilhagem de tesouros mais ou menos míticos. E 3) o final do século XX, num cenário de conflitos e problemas geo-estratégicos que envolvem, mais uma vez, três elementos: a) os escombros da ex-União Soviética com os negócios escuros e oportunistas da máfia russa; b) os países árabes como o Iraque, aliados dos russos no ódio ancestral a Israel e c) os serviços secretos israelitas, guardiões dos tesouros sagrados mas, acima de tudo, guerreiros dos tempos modernos dispostos a lutar com todos os meios pela defesa da pátria israelita tão arduamente conquistada.
No meio de todos estes conflitos está Jerusalém, pátria sangrenta e mártir das 3 grandes religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo. Uma encruzilhada de 3 sonhos.
Conseguir sintetizar todos estes elementos num emocionante romance de 400 páginas foi o resultado brilhante deste trabalho de Marek Halter, contado na primeira pessoa.
Sem dúvida, um livro brilhante! Emocionante, profundo, problemático, polémico. Um romance de aventuras que não cai na trivialidade do género, tão em voga, de estórias de espiões; um livro policial que não se refugia em maniqueísmos em culto de heróis; um livro de história onde a informação, a reflexão e a profundidade de análise não resulta em intelectualismo formal e maçador.
Na parte final do livro, quando a emoção se adensa, surge a mais bela e pungente mensagem: israelitas e palestinianos, judeus e islamitas, poderão lutar em conjunto na defesa da sua memória. Não vou desenvolver este aspecto porque me levaria a desvendar aquilo que deve ser o leitor a descobrir. Mas tenho de enfatizar o golpe de génio com que Marek termina a aventura: por uma vez os sonhos uniram-se em Jerusalém na defesa de uma memória que, afinal de contas, une aqueles que a história separou. Jerusalém, a árvore de onde brotaram tantos ramos encerra um sonho único, fundado sobre memórias intemporais.
Brilhante!
Está de parabéns a editorial Bizâncio pela reedição deste livro e, já agora, pela capa simples e magnífica!
Avaliação Pessoal: 9.5/10

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Marca do Assassino - Daniel Silva


Publicado em 1998, A Marca do Assassino foi o primeiro sucesso literário deste escritor português radicado nos EUA. Trata-se de um (mais um) exemplo das estórias de espionagem que maravilham um determinado público que anseia por emoção e suspense. Devo dizer que de vez em quando me incluo nesse público e foi por isso que li este livro. E não me arrependi; lê-se com uma velocidade vertiginosa porque, com capítulos pequenos e muita acção, permanece sempre aquela habilidade do escritor para agarrar o leitor à história. No entanto, como é próprio da maioria dos livros deste género, chega-se ao fim da leitura com aquela sensação esquisita de ter passado bem o tempo mas, “espremida” a leitura… não sai nada!
Alguém já comparou Daniel Silva a John Le Carré. Digamos que a comparação tem razão de ser, da mesma forma que o Marco Paulo é comparável ao Frank Sinatra; pertencem à mesma “família” mas em patamares bem distanciados.
A ideia base do livro até é bem interessante: um horrível atentado terrorista é reivindicado por uma organização islâmica, mas o agente Michael Osborne desconfia dessa reivindicação. Poucos dias depois do atentado, o presidente dos EUA consegue vencer uma reeleição que estava praticamente perdida; e consegue-o graças a um reacção brutal ao atentando, com bombardeamentos no médio oriente; ao mesmo tempo, os magnates das armas nos EUA rejubilam com o desencadear do conflito. Daniel Silva põe o dedo na ferida: por vezes, uma guerra ou um atentado terrorista permitem ganhar eleições e ganhar muito dinheiro.
Posta a questão nestes termos e feita justiça à coragem de Daniel Silva, resta dizer que o restante enredo, se bem que emocionante, não consegue escapar a um amontoado de clichés. Lá encontraremos os assassinos a soldo, impiedosos e sanguinários, as intrigas internacionais, a história romântica do detective chefe de família em dificuldades para cumprir as suas obrigações familiares. Enfim, um romance de espionagem que por vezes se aproxima do banal.
No entanto, repito, não deixa de ser uma leitura agradável.
Avaliação Pessoal: 7/10

sábado, 3 de setembro de 2011

Felizmente Há Luar! - Luís de Sttau Monteiro


Raramente um texto tão curto consegue envolver mensagens tão significativas e um conteúdo tão rico. Trata-se de uma curta peça de teatro sobre a vida do  Gomes Freire de Andrade, um corajoso general português que viria a ser condenado à morte em 1817, por ordem do britânico Beresford, aquando da ausência da corte no Brasil.
Viviam-se tempos conturbados. D. João VI havia-se refugiado no Brasil após as invasões francesas, deixando o governo português entregue aos ingleses. Grassavam em Portugal e por toda a Europa as ideias liberais; em Portugal, a Igreja Católica e a aristocracia tradicional lutavam por todos os meios resistir às novas ideias. Freire de Andrade, liberal, era uma ameaça. Por isso foram forjadas acusações de traição que levaram à sua morte.
Mas a peça de Sttau Monteiro vai muito mais além; o alvo é também o regime em que o autor vivia: a ditadura de Salazar; mais ainda, é uma crítica e um lamento profundo perante qualquer forma de governo despótico e perante todas as injustiças sociais que tais regimes provocam.
É um poderoso grito de revolta perante a injustiça, a força bruta do poder político e a miséria das populações.
A Igreja é um dos alvos mais fortemente satirizados e criticados; a Igreja que esteve do lado dos absolutistas, tolerou os ingleses e, mais tarde do lado de Salazar. A Igreja simboliza a antítese das ideias que Stau Monteiro defende: a tolerância, a justiça social e a solidariedade, incarnadas pela personagem Beresford, ou seja, as ideias liberais.
Um outro aspecto que esta peça denuncia é a brutalidade das forças policiais, ao serviço de um governo despótico e que constituem mais um denominador comum entre a monarquia pré-liberal e o Estado Novo.
A linguagem usada na peça é profundamente irónica e sarcástica. O latim, constantemente usado pelos membros da Igreja reforça essa ironia de uma forma quase humorística.
A carga simbólica do luar representa um raio de luz, um assomo de esperança que resiste... haverá sempre uma voz como a de Feire de Andrade; uma voz de coragem; uma voz de esperança...
No fundo trata-se de uma obra intemporal: uma obra que aborda assuntos que estarão sempre na preocupação de qualquer ser humano pensante. Uma obra que ficou indelevelmente marcada nas páginas mais nobres da literatura portuguesa.
Avaliação Pessoal: 9/10

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A melhor leitura de Agosto





Perante três livros portentosos como estes, é muito difícil dizer qual deles me deu mais prazer ler.
No entanto, pelo encanto, pela originalidade e pela simplicidade com que um tema tão profundo é tratado, a minha escolha do mês vai para...
CHRIS CLEAVE - A PEQUENA ABELHA.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As Serviçais - Kathryn Stockett


No âmbito da leitura conjunta realizada no DESTANTE.
Nitidamente influenciada por W. Faulkner na estrutura da obra (múltiplos narradores) e por Harper Lee na temática (o racismo do sul dos EUA; note-se que Por Favor Não Matem a Cotovia é citado no livro por mais de uma dezena de vezes), Kathryn Stockett apresenta-nos um romance de leitura fácil e fluida, sem grandes ideias de fundo mas com um estilo fácil, agradável e inteligente.
A primeira fase do livro deixa-nos algo expectantes; por vezes o leitor sente que falta ao livro uma linha de rumo, um objectivo final. Mas à medida que avançamos na leitura vamos vislumbrando onde a autora quer chegar. A emoção aumenta, ao ponto de as ultimas cem ou cento e cinquenta páginas nos acorrentarem totalmente ao livro.
Para além do interesse da “estória”, este livro é um testemunho interessante de uma época de charneira na afirmação dos direitos cívicos nos EUA; uma caminho que se inicia com a luta de Martin Luther King mas que ainda não está totalmente percorrido.
No centro da questão está o feminino. As mulheres. A mulher branca mais insensível e implacável que os homens e a mulher negra mais sofrida mas também mais inteligente, talvez porque o seu espírito submisso a faça cultivar aquela paciência que conduz à sabedoria. Acima de tudo, neste livro, a luta pela igualdade de direitos é a luta da mulher negra; é a luta da solidariedade e da união. Mas a questão do racismo não se resume a uma luta linear entre brancos e negros. A segregação racial provoca dramas terríveis no relacionamento entre brancos e entre negros. Como diz o escritor Howel Raine, na nota final da autora: “a desonestidade sobre a qual uma sociedade é fundada torna todas as emoções suspeitas, torna impossível saber se aquilo que flui entre duas pessoas era um sentimento honesto, pena ou pragmatismo”. Na verdade, o peso de aceitar ou não tradições tão arreigadas como as normas de segregação racial tornam suspeitas as relações sociais, criando um clima de conflito permanente. Em parte é ainda esta triste realidade que se vive nos nossos dias. E não só no sul dos EUA.
Uma outra ideia fundamental deste livro é o poder que os livros e a escrita assumem na vida dos personagens. Aibeleen escrevia as orações e era quase sempre atendida nos seus pedidos. Talvez Deus também goste de ler… e é um livro que está no centro do romance; o livro como único meio de mudar o mundo daquelas pessoas.
Stockett demonstra neste livro ser uma alma nobre; uma alma grande, daquelas que tem o dom de mostrar à humanidade o que é, realmente, ser HUMANO.
Avaliação Pessoal: 8.5/10

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler


O Último Cabalista de Lisboa baseia-se num acontecimento verídico, um grande massacre de cristãos-novos e judeus ocorrido em Lisboa no reinado de D. Manuel, em 1506, na Páscoa judaica. A fome e a peste atingiam a capital sem piedade e o povo, fanatizado pelas pregações anti-semitas dos frades dominicanos, encarando os judeus como responsáveis pela ira de Deus, levou à morte milhares deles. O rei, pouco corajoso, foi complacente com os acontecimentos, permitindo inclusivamente grandes fogueiras no rossio, onde muitos judeus foram queimados.
Na ficção de Zimler, Abraão Zarco é morto nesse dia mas por um cristão-novo. Berequias Zarco, o sobrinho de Abraão é o herói da nossa estória e levará a cabo uma investigação emocionante e recheada de perigos.
Trata-se de um livro bastante negro: é visível a amargura com que Zimler descreve este terrível fenómeno histórico que é o anti-semitismo. Uma das grandes manchas negras da história da humanidade, que se mantém até ao século XX e com reflexos ainda na realidade actual.
Mas nem tudo é sombrio neste livro: um dos aspectos mais interessantes deste livro é o facto de o maior amigo de Berequias, Farid, ser um muçulmano. A amizade entre os dois é muito intensa e é visível a boa convivência entre judeus ou cristãos-novos (aqueles que haviam sido forçados à conversão) e os mouros, em oposição ao fanatismo e violência insana dos cristãos.
Se bem que se trate de uma obra de ficção, é bom que se diga que o ambiente retratado tem, infelizmente, uma grande base de realidade: a porcaria dos corpos e das almas grassava em Portugal: o fanatismo, a estupidez, a barbárie total. De todos os problemas do reino eram atribuídas culpas aos judeus. O ódio reinava e a própria Igreja Católica alimentava-o. Por medo ou pró convicção, o povo transformava o ódio na violência mais absurda que se possa imaginar. Muitos destes judeus tinham sido expulsos de Castela, em 1492 de onde o Rei Fernando (cognominado O Católico) os havia expulsado. Mas não é a paz que eles encontram em Portugal. É a insanidade total de um ódio tão cego quanto inexplicável.
Um livro triste, chocante, mas também emocionante e que nos faz pensar. E até ter uma certa vergonha de sermos “filhos” desta nação e desta cultura de raiz cristã que nos moldou…
Avaliação Pessoal: 9/10

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Enquanto Salazar Dormia - Domingos Amaral


Com oitenta e cinco anos de idade, Jack Gil, espião britânico em Portugal durante a segunda guerra mundial, recorda as suas aventuras naquele período, numa Lisboa que vivia a Guerra de uma forma diferente, num autêntico ninho de espiões e contra-espiões.
No entanto, mais do que um relato dos problemas políticos da época, é um reviver de memórias pessoais e românticas. O rumo da narrativa é mais “as mulheres de Jack” do que “Jack, o espião”. Quer dizer, estamos perante uma espécie de James Bond para quem as bond girls são mais importantes do que as suas funções como espião.
Não se trata de uma obra literária de grande fôlego; as personagens são caracterizadas de forma algo superficial e o enredo é algo previsível. Mas há outros aspectos que me fazem recomendar este livro.
Em primeiro lugar, é uma leitura fácil e divertida. A emoção não falta, os diálogos são simples e directos, não há descrições nem reflexões enfadonhas. É uma leitura que prende o leitor pela emoção e suspense.
Em segundo lugar (e este é o aspecto que considero mais importante), é um romance bastante pedagógico porque desfaz alguns mitos muito arreigados na mente simplista de muita gente: tal como a revista Visão explicava há pouco tempo, Salazar não teve grande mérito na famigerada neutralidade portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial. Salazar manteve Portugal fora da Guerra porque, na verdade, a Inglaterra nunca teve qualquer interesse na nossa participação porque não estava interessada em criar mais uma frente de combate. Por outro lado, foi Hitler que nunca quis invadir a Península Ibérica por considerar Portugal e Espanha países amigos.
Por outro lado, este livro mostra-nos bem que essa neutralidade nunca existiu: o Portugal de Salazar colaborou claramente com a Alemanha de Hitler, quer através do fornecimento de volfrâmio para o armamento alemão, quer pelo apoio ou pelo menos o “fechar os olhos” a combates aéreos que se deram em território nacional, a ataques sistemáticos dos submarinos alemães a navios aliados em águas portuguesas ou a perseguições a refugiados por parte dos espiões alemães.
Em suma, estamos perante um livro que merece ser lido pela leveza com que aborda o assunto mas também pela informação que podemos retirar do livro sobre este período tão controverso da história contemporânea portuguesa.
Avaliação pessoal: 8.5/10

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ivanhoe - Walter Scott


Walter Scott é considerado o criador do Romance Histórico e este Ivanhoe é o seu livro mais famoso.
A acção decorre na Inglaterra do século XII, numa altura em que se digladiam o mítico herdeiro do trono, Ricardo Coração de Leão e seu irmão, João Sem Terra (o Príncipe John da lenda de Robin dos Bosques), que usurpou o trono a Ricardo enquanto este combateu nas cruzadas. Regressado secretamente à Inglaterra, Ricardo conta com o apoio do povo e de um grupo de bravos cavaleiros, entre os quais Ivanhoe, para recuperar o trono. Não poderia no entanto faltar a estória de amor, em que Ivanhoe se enamora pela bela Rowena, protegida de Cedric, um nobre tradicional da aristocracia saxónica que é nada mais que o pai de Ivanhoe, que o deserdara por abandonar os hábitos tradicionais saxónicos, tornando-se cavaleiro.
Mas este magnífico romance vai muito além do romance de aventuras e de cavalaria. Estão aqui bem patentes alguns dos fenómenos que mais indelevelmente marcaram a Idade Média europeia, nomeadamente a questão dos judeus, a luta entre saxões e normandos na disputa do trono e a questão dos templários.
Os judeus são vistos por Walter Scott de uma forma muito peculiar; por um lado o autor apresenta-os como vítimas do fanatismo religioso da época, que faz deles pouco mais do que seres diabólicos, alvo de todo o desprezo e injustiças. Mas, por outro lado, descreve-os como impiedosos usurpadores da riqueza, enriquecendo à custa da usura. Mas não se pense que há aqui qualquer espécie de anti-semitismo por parte do autor; ele encara esse espírito usurário como única forma que os judeus encontraram de se afirmar na sociedade inglesa e, quando muito, como forma de vingança em relação aos cristãos: se eram humilhados pela religião, eles procuravam vingar-se no enriquecimento material.
Este livro aborda também de uma forma muito interessante a afirmação dos normandos na elite política e social inglesa, como uma expressão de modernidade, perante o tradicionalismo da nobreza saxónica. A moderna Inglaterra vê-se nascer nestas páginas de Scott, pela afirmação destes cavaleiros normandos. No entanto, muitos dos traços da tradição saxónica haveriam de sobreviver no moderno espírito inglês, nomeadamente ao nível das crenças, dos costumes e da língua.
Nesta obra, entre os apoiantes do pouco simpático príncipe João aparecem os Templários. No entanto, a vitória de Ricardo haveria de marcar o princípio do fim desta polémica ordem religiosa. Os cavaleiros do Templo são aqui anunciados como exemplos de falsos cavalheiros que aproveitavam a fama e a glória das cruzadas para disporem a seu bel-prazer das honrarias e porem em prática toda a espécie de abusos que os haveriam de marcar de forma indelével na história da Europa. Por outro lado, do lado de Ricardo aparece-nos o povo humilde, destacando-se o encantador bando de salteadores de Robin Wood e do inimitável Frei Tuck.
Ler estas aventuras torna-se uma aventura que nos faz reviver o mundo encantado dos romances de aventuras que povoaram a infância da maior parte de nós. É uma experiência encantadora que aconselho a todos os leitores que o tempo já afastou dessa infância.
Para mim, reler este livro foi como entrar num mundo encantado de sonhos e aventuras juvenis, para além de retirar dele toda uma informação histórica que nenhum de nós retirou certamente nos tenros anos juvenis.
Avaliação Pessoal: 9.5/10
Trailler do filme Ivanhoe de 1952, com Robert Taylor e Elisabeth Taylor:


terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Cemitério de Praga - Umberto Eco


Cemitério Judeu de Praga - imagem retirada daqui.

Um romance histórico interessantíssimo. Nem outra coisa seria de esperar de um mestre como Umberto Eco.
O pano de fundo é dado pelas intrincadas intrigas políticas na nascente Itália e na velha França, no século XIX. Na península italiana, Garibaldi e Mazzini colocavam os reinos italianos a ferro e fogo. No entanto, as diversas facções digladiavam-se continuamente, com o Vaticano e a França sempre de permeio. Tal “embrulhada” de interesses e forças era terreno fértil para intrigas e jogos de poder onde reinavam os espiões e interesseiros como Simonini, o herói, ou melhor, o anti-herói deste livro.
Simonini é perverso, perigoso, traiçoeiro. Mas é também um pouco estúpido. Esta é a grande lição da obra: um homem pouco inteligente mas tremendamente perverso e impiedoso pode pôr em risco toda uma nação.
Umas vezes ao serviço de Garibaldi, outras de Mazzini, dos piemonteses, dos franceses, dos austríacos ou até dos russos, Simonini tem apenas um princípio do qual nunca prescinde: um ódio profundo, mortal, aos judeus. Simonini é um personagem suficientemente perverso para que todos os leitores nutram por ele um sentimento de revolta a roçar o mesmo ódio que ele sente por todos, bem expresso nesta afirmação de um personagem com quem Simonini negoceia: “O ódio é a verdadeira paixão primordial - o ódio une os povos, desperta a esperança nos miseráveis e solidifica o poder instituído – seja o ódio aos judeus, aos maçons, aos estrangeiros…” (pág. 432).
Ao mesmo tempo, este livro demonstra como a história pode ser forjada por interesses mais ou menos obscuros: Simonini, o espião ao serviço de quem lhe paga mais, especializa-se em forjar documentos. E mesmo aqueles que sabem tratar-se de documentos falsos, agem como se fossem verdadeiros. A História, muitas vezes é construída apenas por falsários.
Um outro aspecto interessante deste livro é o facto de Simonini ser praticamente o único personagem ficcional. Freud e Garibaldi são apenas dois dos mais conhecidos intervenientes na narrativa. Outros são verdadeiros trapaceiros com existência histórica comprovada que Eco estudou afincadamente.
Trata-se portanto de um livro cheio de emoção onde é possível “ver” nas suas páginas grande parte da realidade política de uma Europa muito conturbada, nos finais do século, anunciando já a Primeira Guerra Mundial que marcaria o início do século XX. Nascia a Itália, mas aprofundavam-se as guerras de bastidores entre austríacos, franceses russos e ingleses.  
Avaliação Pessoal: 9.5/10

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Três Mulheres - Robert Musil


Há coisas que não consigo explicar. Uma delas é esta: reconheço em Musil a escrita de um génio mas as suas obras não me cativam nem um pouco. Li há muitos anos O Homem sem Qualidades, depois tentei ler O Jovem Törless acabando por desistir da leitura e agora atrevi-me a ler este Três Mulheres.  Confesso um certo masoquismo por não ter abandonado a leitura.
Dividido em três contos, este Três Mulheres aborda o tema do amor e do ciúme, a partir da história de três mulheres em situações e contextos completamente diferentes. Três estórias tristes, em que o sofrimento humano é abordado de uma forma bastante forte. Reconhece-se em Musil um humanista, um homem sensível ao drama da vida humana mas é inegável o traço germânico da sua escrita, profunda, melancólica e muito reflexiva. Isto dá às suas estórias um tom, cinzento, sóbrio, onde a esperança não existe, apenas o sofrimento e o drama da vida.
As personagens de Musil vêem a vida como uma espécie de castigo sem redenção. Nelas não há sequer uma aproximação à alegria; há uma procura de felicidade que esbarra inexoravelmente nos dramas do pensamento, como se o acto de pensar fosse um obstáculo à vida.
Um aspecto que não ajuda mesmo nada à leitura fluida desta obra é uma tradução que me pareceu bastante infeliz; muitas frase sem sentido e alguns abusos de linguagem, como o infelizmente cada vez mais usado verbo “realizar” como sinónimo de “compreender”.
Em conclusão, aconselho este livro a quem gosta de obras mais reflexivas, na linha da literatura germânica.
 Avaliação Pessoal: 7/10