segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Milagrário Pessoal - José Eduardo Agualusa

À procura de uma colecção de maravilhosas palavras roubadas aos pássaros, Iara, uma jovem linguista e o seu velho professor constroem uma maravilhosa viagem ao mundo dos livros, dos escritores e da história da língua portuguesa.
Milagrário Pessoal é um grande livro; um hino grande a esta pátria que é a Língua Portuguesa. Ao longo de cento e oitenta e duas páginas que se fazem poucas, Agualusa passeia palavras poéticas, umas vezes humorísticas outras melancólicas mas sempre cheias da magia africana, da poesia vinda da terra, dos pássaros e das raízes; poesia contada em prosa, fluida como os ritmos da natureza.
A língua que resiste, que vive por si própria e vence todos os acidentes da história, sobrevivendo a guerras e talvez a acordos ortográficos. Porque a língua vem da alma dos povos. Mas vive e cresce; com neologismos mesmo que arqueológicos, como os que Iara e o professor procuram entre milagres.
Nessa procura, há um episódio que sobressai pelo encanto especial com que Agualusa o cria: havia um poeta português que resistia à ocupação indonésia. Como? Fazendo poesia e declamando em português. É assim a resistência da alma: pela palavra. Porque “palavras são o que nos resta e consola depois de perdermos tudo” (página 160).
Mas as palavras também nascem, fazendo da língua um ser vivo e eterno; palavras que crescem e morrem na boca do povo… Será certo que as línguas derivam dos sons? Então, o canto dos pássaros talvez tenha constituído a primeira linguagem, a quem os homens roubaram as palavras.
A língua como pátria talvez seja para Agualusa um refúgio perante o desencanto (expresso na voz do professor) em relação ao destino político da pátria angolana, mergulhada voluntariamente na violência da guerra de libertação e, depois, da guerra civil.
Enfim, um livro que se lê com encanto, com o deleite de uma poesia viva, como quem passeia pelas palavras.
Sem dúvida um dos melhores livros escritos em língua portuguesa no século XXI.

Avaliação pessoal: 9/10

sábado, 29 de janeiro de 2011

(intervalo)

Não... não vou dizer nada.
às vezes as palavras destroem a beleza. e isto é belo demais para que se possa dizer algo...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Verão - J. M. Coetzee

Um jovem biógrafo decide investigar a vida de J. M. Coetzee entre 1972 e 1977, após a sua morte. Trata-se, portanto de um livro autobiográfico. No entanto, neste tipo de obras é sempre impossível distinguir a realidade da ficção. Na verdade, o leitor comum, que não conhece a vida real de Coetzee fica sempre sem saber se tudo o que se descreve corresponde, de facto, à realidade. Acautelemo-nos, portanto, encarando este livro como uma espécie de biografia ficcionada, tão ao gosto do autor, já desenvolvida em livros anteriores.
Aliás, penso que o que menos interessará aqui é saber se os pormenores correspondem a realidade ou ficção. O que marca, de facto, este livro, é a visão que o autor tem de si próprio: uma visão nada optimista, algo desencantada, quase deprimida. Coetzee vê-se a si próprio como uma pessoa indecisa, sem garra, desenquadrado do mundo em que vivia: a África do Sul do apartheid, da injustiça e da pobreza. Coetzee (que escreveu este livro em 2008, quase com 70 anos) não se vê a si próprio como um grande escritor mas apenas como um homenzinho ordinário.
O livro é constituído por cinco pretensas entrevistas do biógrafo a quatro mulheres e um homem que terão convivido com Coetzee nesse período (antes dos primeiros sucessos literários). Curiosamente, nenhuma dessas personagens guarda do autor memórias muito positivas; a ideia geral é esta: Coetzee era um ser humano quase amorfo, tímido, embora culto e generoso. Algo sonhador mas com pouca propensão para procurar concretizar os sonhos. Quase como se aceitasse a realidade como imutável, como se identificasse os problemas e as injustiças mas considerasse que lutar seria sempre inútil.
John Coetzee tem medo da mudança. Prefere a inacção. Daí também a sua “incompetência com as mulheres”, o que gera momentos divertidos na leitura deste livro, tal é a forma desajeitada como lida com o sexo oposto. Por detrás deste auto-conceito na forma como é descrito, talvez esteja uma perspectiva crítica do autor em relação ao papel social da mulher, como se fosse exigido ao homem tomar sempre a iniciativa, deixando à mulher o papel passivo de se deixar (ou não) seduzir. Desta forma, um homem que não tomasse a iniciativa da sedução seria sempre um homem incompetente.
Outra ideia que parece estar por detrás deste enredo é a literatura como forma de resistência em relação à morte. Coetzee imagina-se morto; imagina o trabalho de um biógrafo, preocupado com a revelação de pormenores da vida do falecido, como se a escrita fosse uma forma de perpetuar a vida. Por isso não se pode entender esta visão deprimida de si próprio com qualquer auto-comiseração: tudo se passa como se o autor tivesse um certo orgulho nessa personalidade discreta e passiva, ao ponto de desejar a sua perpetuação nas páginas de um livro.
Enfim, uma obra de grande valor literário mas que, para o leitor comum, pode deixar a ideia de ser muito auto-reflexiva, muito centrada no próprio escritor. Pessoalmente, penso que o efeito lúdico que a leitura deve sempre ter perde-se um pouco neste mundo fechado do autor.

Imagem retirada daqui
Avaliação pessoal: 8/10.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dewey, o Gato que Comoveu o Mundo - Vicki Myron

É praticamente impossível não ficar enternecido logo nas primeiras páginas da leitura deste livro. Dewey é um gato abandonado a quem o pessoal de uma biblioteca dá guarida. Trata-se da biblioteca pública da pequena cidade de Spencer, no estado do Iowa, EUA. O ambiente idílico de uma cidade do interior americano, numa daquelas paisagens agrícolas que conhecemos de Hollywood, com aquelas estradas intermináveis entre extensos campos de milho, constitui o cenário perfeito para esta bela história.
Numa manhã fria de Inverno, a Directora da biblioteca, autora do livro, recolhe um gato-bebé abandonado na caixa de correio por um desconhecido e a vida na biblioteca e na cidade mudará radicalmente. Dewey torna-se rapidamente a estrela da biblioteca, protegido e mimado por todos. Ele ficará na história de Spencer, não só pela dinamização da biblioteca, atraindo crianças e adultos com as suas diabruras e habilidades mas também pela forma como contribuía para a promoção da própria cidade, até aí praticamente desconhecida.
Um início fulgurante no despertar de emoções no leitor e um final enternecedor fazem deste livro uma obra muito interessante. No entanto, pelo meio, a autora resolveu preencher a história com trechos da sua própria vida e da cidade. Estes “desvios” narrativos parecera-me excessivos porque retiram grande parte do interesse à leitura. Penso que o livro teria mais impacto se se centrasse mais na história de Dewey.
Mesmo assim, é uma leitura agradável e imprescindível para quem gostar de animais, principalmente de gatos. Note-se que o enredo é baseado numa história verídica.

Avaliação pessoal: 7,5

domingo, 16 de janeiro de 2011

Por Favor Não Matem a Cotovia - Harper Lee

Por Favor Não Matem a Cotovia. Só o título já é suficientemente apelativo para que este livro comece a cativar-nos ainda antes de começar a leitura. Explicando: a cotovia é uma ave pacífica, completamente inofensiva, que não destrói as sementeiras. Esta ave surge aqui, portanto, como uma metáfora das vítimas das injustiças humanas, como a população negra do sul dos Estados Unidos, vítima do racismo. Curiosamente, o título original é bem menos poético: To Kill a Mockingbird.
Muito mais do que um panfleto anti-racista, este romance é constituído por uma história simples, feita de gente simples e escrita com uma delicadeza e uma suavidade que deixam o leitor deliciado. A linguagem infantil, na forma como imita a oralidade, é genialmente recriada por Harper Lee. Toda a narrativa é feita pela voz de uma criança, uma menina de sete anos (Scout), filha de um advogado de uma modesta cidade do Alabama. Scout, juntamente com seu irmão Jem e o amigo Dill seguem o desenrolar do julgamento de um negro injustamente acusado de violar uma jovem branca e defendido pelo pai, Atticus. A comunidade, ignorante e preconceituosa, contrasta com a inocência e candura das crianças e também com a serenidade e racionalidade de Atticus.
Aliás, Atticus é, na minha opinião, a personagem mais fascinante deste livro: ponderado e inteligente mas também sensível e com uma enorme capacidade para compreender o mundo das crianças. Tal como a autora, aliás.
Um dos aspectos mais fascinantes deste livro é a enorme capacidade da autora para compreender o universo infantil. São muitos raros os grandes escritores que se atrevem a ver o mundo pelos olhos das crianças. Harper Lee fá-lo de uma forma genial, revelando uma rara compreensão da psicologia infantil.
Numa outra perspectiva, este livro é um poderoso testemunho da forma como a Guerra da Secessão marcou de maneira indelével os Estados Unidos da América: o confronto Norte/Sul continua no século XX, como continua hoje. Os estados do Sul (como o Alabama, onde se desenrola este enredo), onde predomina a grande propriedade agrícola continuam dominados por uma mentalidade profundamente conservadora, onde pontificam alguns preconceitos racistas, herdeiros do esclavagismo que manchou a história deste grande país. Contra este preconceito (reforçado pelo fanatismo religioso das facções puritanas protestantes) só duas armas são eficazes: a inteligência de Atticus e a pureza das crianças. Ao ler este livro sentimos que se as crianças governassem o mundo ele seria certamente bem melhor.
Este livro envolve também uma enorme lição de coragem, bem patente nesta frase: "Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim".
Enfim, trata-se de um romance magistral, de leitura muito agradável, com um excelente ritmo narrativo. Não há descrições exaustivas e exageradas; aliás sente-se que não há nada de acessório ou inútil neste livro.
Sem dúvida, uma das obras-primas da literatura americana do século XX, a ombrear com O Som e a Fúria ou O Grande Gatsby.

Avaliação pessoal: 9.5/10

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

(intervalo)

Há coisas ainda mais importantes que os livros; coisas tristes de que é feita a vida deste triste país. Coisas tristes que, se nós deixarmos, farão a nossa vida ainda mais triste.
Mas por maior que seja a crise, por maiores que sejam as roubalheiras, haverá sempre a música, que nos dá sempre forças para lutar.
Tenham um grande FIM DE SEMANA.
Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou - bem

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir

Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor

Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar...
Mais força para lutar...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano

É muito difícil fazer um comentário a este livro. Porquê? Porque fiz dele uma leitura muito pessoal e quando assim é, pouco resta para dizer aos leitores de um blogue. Por outras palavras: quando um livro nos fala tão de perto, nos atinge como uma bala, nos mexe nas profundezas da alma, fica uma espécie de pudor que nos encaminha para a interiorização…
É um livro notável. Não é uma obra-prima; o seu estilo é simples, algo ingénuo até, como seria de esperar de um escritor tão jovem (25 anos). Mas o que falta em grande qualidade literária sobra em emoção e em sentimento.
Alice é uma jovem vítima de um acidente de esqui, aos sete anos, numa altura em que o pai a forçava a praticar esse desporto, sonhando fazer dela uma atleta de alto nível. Mas esse acidente marcará indelevelmente toda a sua vida…
Mattia é uma criança muito inteligente e feliz até que um terrível acidente acontece com a irmã gémea deficiente. A culpa persegui-lo-á e a sua vida ficará irremediavelmente determinada por isso.
Alice e Mattia serão sempre como os números primos: sempre perto um do outro sem que nunca se toquem. Como o onze e o treze; o dezassete e o dezanove. Há amores assim; amores distantes embora próximos; infelizes embora profundos…
É um livro de uma sensibilidade tremenda, um livro triste mas profundamente real; um livro simples mas que aborda o amor de uma forma muito profunda.


Avaliação pessoal: 9/10

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Elefante Evapora-se - Haruki Murakami

Trata-se de um livro de contos, escrito por Murakami entre o início dos anos 80 e 1999. Não sou propriamente um apreciador de contos, pelo que este livro não me deleitou tanto como outras obras deste admirável escritor. Mas tratando-se, alguns deles, de obras do seu início de carreira eles são importantes para compreender a influência que Kafka teve, sem dúvida, no seu percurso literário. Fazendo lembrar A Metamorfose, alguns destes contos revelam uma admirável mistura de fantasia e realidade que se tornou uma das “imagens de marca” de Murakami.
O impossível que acontece, o ilógico que se torna óbvio, o absurdo que povoa o quotidiano. Misticismo, mistérios, absurdos, assim se faz o dia a dia do comum dos mortais. Ao fim e ao cabo, é quase impossível definir onde acaba o real e começa o imaginário; na literatura como na vida de cada um de nós. Surreal é sem dúvida a palavra-chave para definir a escrita de Murakami.
No mais brilhante e significativo destes contos (Sono, escrito em 1993), Murakami explora o outro lado, o lado negro, da rotina e da ausência de liberdade. O pesadelo da mulher de meia-idade, fundada na rotina, é o grito desesperado do prisioneiro, da mulher-autómato, atormentada pela solidão. Ao ler Anna Karenina e comendo chocolate (que lhe fora proibido pelo marido), ela empreende uma fuga pelo sonho. Neste conto, Murakami coloca em paralelo a necessidade de dormir com a rotina insustentável da vida. Dormimos como quem morre 8 horas por dia. Todos os dias, rotineiramente. Assim, a insónia é vista como libertação. No entanto, parece haver sempre um preço muito elevado a pagar pela liberdade, como o que teve de pagar o jovem quem fabricava elefantes…
Raros são os escritores que combinam tão eficazmente o real com o imaginário. Murakami fá-lo com um toque de bom-humor que torna a sua escrita tão simples e bela. No entanto, este formato (contos) impede uma linha de pensamento, uma mensagem, que nos habituamos a ler nos livros de Murakami. Daí que este livro não me tenha entusiasmado tanto como qualquer outro deste genial escritor japonês.
Avaliação pessoal: 8/10

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

TOP 25 - As melhores leituras de 2010

1º. Guerra e Paz - Lev Tolstoi

2º. O Grande Gatsby - Scott Fitzgerald

3º. Ana Karenina - Lev Tolstoi

4º. O Físico - Noah Gordon

5º. Silêncio - Shusaku Endo

6º. Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

7º. Werther – Goethe

8º. Olhai os Lírios do Campo - Erico Veríssimo

9º. A Terceira Rosa - Manuel Alegre

10º. O Outono em Pequim - Boris Vian

11º. Livro – José Luís Peixoto

12º. Susnset Park – Paul Auster

13º. Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke

14º. O Templo Dourado - Yukio Mishima

15º. Da Mão para a Boca - Paul Auster

16º. A Máquina de Fazer Espanhóis - valter hugo mãe

17º. As Velas Ardem Até ao Fim – Sandor Marai

18º. As Fogueiras da Inquisição – Ana Cristina Silva

19º. A História Secreta – Donna Tartt

20º. Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto

21º As Pontes de Madison County - Robert James Waller

22º A História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar – Luís Sepúlveda

22º Palácio da Lua - Paul Auster

23º Cão Como Nós - Manuel Alegre

24º Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

25º Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Livros que me marcaram em 2010

Como estou de férias deu-me para fazer este exercício: escolher de entre os livros lidos em 2010 (99 até ao momento) os que mais me marcaram, por diversos motivos. Assim:

O mais divertido – Flashman, a Odisseia de um Cobarde – George MacDonald Fraser
Lê-se gargalhando :)

O mais triste – Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto
Triste é dizer pouco. Negro. Belíssimo.

O mais revoltante – O Rapaz do Pijama às Riscas - John Boyne
Uma pequena obra-prima. Está ali toda a maldade humana.

O mais original – O Outono em Pequim - Boris Vian
Um livro inimitável; uma imensa fábula.

O mais sonhador – As Pontes de Madison County - Robert James Waller
Lê-se sonhando.

O mais delirante – Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami
Genial na mistura do misticismo oriental com um intenso optimismo.

O mais difícil – As Cidades Invisíveis - Italo Calvino
Um desafio tremendo. A beleza descobre-se devagarinho, por entre uma linguagem quase codificada.

A decepção – Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen
Que coisa mais chata!

O pior – O Toque da Morte - Stephen Booth
CSI rural.

A revelação – Loucura Azul – Paulo Alexandre e Castro e Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke
Um génio português nascente e um super-policial com muita magia celtica. Lindo!

A confirmação – Livro – José Luís Peixoto
"O" génio.

O mais profundo - A Condição Humana - André Malraux
Para ler, pensar, repensar, reler e recomeçar o ciclo.

A obra-prima (o melhor do ano) – Guerra e Paz - Lev Tolstoi
Impossivel fazer melhor.
Em bereve colocarei aqui o meu top-20.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sunset Park - Paul Auster

Nova Iorque, 2008/2009. Vive-se o colapso económico da América pós-Bush. Numa casa abandonada vivem 4 jovens à procura de um futuro, mergulhados na angústia de um presente sombrio. Bing, Ellen, Miles e Alice, quatro vidas à procura de sentido.
Após cerca de 20 livros publicados, as personagens de Auster continuam a viajar pela vida à procura de uma identidade, de um sentido. Talvez a vida seja mesmo isso, uma procura incessante de algo. Não de um amor, de uma fortuna ou de um projecto. Apenas algo. Algo de indefinido a que se pode chamar um sentido, uma explicação ou uma identidade.
Neste seu mais recente romance, Auster apresenta-se perigosamente à beira da descrença. O seu cepticismo, a sua crítica mordaz à sociedade norte-americana, começam a dar lugar, nas suas últimas obras, à angústia, ao lamento profundo e ao pessimismo. Por toda a obra há um tom pessimista perante a vida; um Auster mais filosófico mas nitidamente mais triste
Mesmo as personagens mais bem sucedidas na vida, como Mary-Lee, não são felizes; há sempre uma insatisfação, uma procura frequentemente frustrante de algo. Uma fuga. Fuga que Ellen encontra no corpo e na pintura; Bing nas coisas velhas; Alice no cinema.
Bing Nathan procura consertar o presente ressuscitando o passado, no seu hospital das coisas velhas. Alan e Jake personificam um amor que conduz ao tédio no qual se dilui: o amor não dá felicidade quando não há desafios; quando não há esperança. Apenas rotina e sobrevivência. O drama da rotina, da vida gasta no trivial. É por isso que as personagens de Auster vivem inquietas. Como o autor.
Ellen é a imagem da solidão; o amor que não existe até surgir a esperança. A sexualidade reprimida. Não há futuro.
Miles é personagem principal que viveu o drama e a culpa de um trágico acidente do seu meio-irmão. É por isso que a vida dele é uma fuga. Uma fuga ao passado e ao presente, onde só Pilar representa a esperança que é a força da vida. Para trás terá de ficar essa velha e maior inimiga da vida: a culpa.
Morris, pai de Miles, proprietário de uma grande editora à beira da falência: o lamento por uma sociedade que não lê, uma sociedade que cultiva a ignorância.
Bing Nathan, personagem aparentemente feliz na sua vida “marginal”, mesmo sem nunca perder o seu peculiar bom humor e a sua força de espírito, o seu gosto pela vida, cria a sua própria insatisfação através de um sentimento perturbador: quando tudo o resto corre bem, o coração encarrega-se de procurar a infelicidade.
No entanto, a Beleza também existe em Sunset Park: a solidariedade entre os habitantes de Sunset Park; a tremenda lição de amizade que aí se vive. E a força que vem de dentro de quem nada tem: “eu tornei-me viciado na luta” (Miles).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL FELIZ, com música :)

Amigos, tal como no ano passado venho desejar-vos Boas Festas com aquela que é, para mim, a melhor música de Natal de todos os tempos.
Com um cheirinho de alma celta, um delicioso perfume punk e duas vozes fantásticas, meus senhores e minhas senhoras, meninos e meninas... os fabulosos POGUES:

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Templo da Glória Literária - Miguel Almeida

Partindo de mim para além, de lá para a mim retornar sempre.

É assim a poesia, uma viagem do interior para além de limites imagináveis.
Porque nada é póstumo, os Imortais vivem e escrevem neste livro de M. Almeida, transportados pela voz da sua caneta.
No entanto, não são os poetas Imortais que falam pela voz de M. Almeida; é M. Almeida que se faz ouvir (por vezes gritando outras gemendo ou ainda sussurrando) na escrita do poeta de hoje.
É a voz viva do poeta vivo, vivo como os Imortais que se ouvem também eles. Homero em uníssono com Sophia, Solon de mãos dadas com Cesariny.
Vivos, todos vivos.
Mortos são alguns que vivem e não cantam nestas trovas.
E é com os Imortais que M. Almeida vive porque se faz ouvir neste livro.
Ler este livro é expor corpo e alma ao contágio. Sim, a poesia é contagiosa: dos Imortais para M. Almeida; de M. Almeida para quem lê.
É um contágio que liberta porque poesia é liberdade.
A poesia é a “dor do deus” (pg. 84)…

Este é o primeiro livro de poesia que coloco neste blogue. Se exceptuarmos alguns poemas de Fernando Pessoa, posso dizer que não gosto de poesia. Nunca gostei. Mas adorei este livro, que é um livro de poesia. Porquê? Não sei… talvez porque a poesia de M. Almeida me tenha dado este prazer imenso de viajar pelos Imortais mas também pelas palavras e pelos sons.
Sim, os sons; as letras de M. Almeida soam por vezes como música. Como disse Fernando Pessoa, citado neste livro: “a poesia é uma música que se faz com ideias e por isso com palavras”.
De resto, fica a liberdade.
Almeida escreve como quem voa.
As palavras viajam e as nossas ideias sobrevoam a alma de quem escreve.
Passeiam pela sabedoria da Grécia antiga, num tributo (que nunca pagaremos totalmente) aos clássicos.
Uma sabedoria que em excesso já não é sabedoria; é talvez prazer ou poesia.
Com os Imortais vivemos ao longo das páginas.
Com exaustão; a vida “esmurrando o amor” (pg. 51).
O amor… o delírio dos poetas… mas muito acima disso há a vida!
E a poesia de M. Almeida é, acima de tudo, uma poesia viva.
Livre.

(Também publicado no blogue Destante)

domingo, 19 de dezembro de 2010

As Velas Ardem até ao Fim - Sándor Márai

Este é um livro triste mas profundamente poético. Um verdadeiro tratado sobre a amizade, como afirmou Inês Pedrosa. A prosa de Márai é construída sobre um discurso tranquilo, melódico, profundo. Se dúvida uma escrita sentida e sofrida.
Durante a segunda guerra mundial, num velho castelo da Hungria, um antigo general de 73 anos, Henrik, espera Konrad para com ele ter uma última conversa. Konrad havia sido mais que o seu melhor amigo. Tinha sido um autêntico irmão até ao momento em que, 41 anos antes, algo dramático os separou. Um grande e terrível segredo ia agora ser enfrentado pelos dois. Todo o valor da sua intensa amizade e todo o significado do intenso amor por Krisztina seriam agora sopesados nesta derradeira batalha que os dois enfrentarão.
A tragédia de Henrik levara-o ao imobilismo; uma inacção que é uma espécie de morte em vida. Essa espera, esse nada-fazer, essa morte voluntária, talvez seja a tragédia maior para o ser humano. É uma recusa total da vida, como se depois da tragédia nada mais valesse a pena. Talvez a razão maior da infelicidade humana seja esta incapacidade em prosseguir os caminhos da vida quando não se consegue compreender e aceitar aquilo a que, comodamente, chamamos destino; esta incapacidade para encarar o presente, sem deixarmos que ele se sobreponha aos desaires do passado. E depois fica a procura da culpa; a busca tão inútil quanto irresistível da culpa. E é a vida que fica, inexoravelmente, para trás.
Henrik interrompeu a sua vida aos 32 anos e esperou mais 41 para terminar esse julgamento; e, no final, não culpou Konrad nem Krisztina; culpou o destino. 41 anos depois, Henrik procura apenas lavar a verdade com palavras; com a catarse da memória. Perante Konrad, resta-lhe enfrentar a memória. Mas nada apagará 41 anos de solidão, que é uma espécie de morte.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Papisa Joana - Donna Woolfolk Cross

Lenda ou verdade histórica? Ninguém pode dar uma resposta definitiva mas há indícios claros de que, realmente, uma mulher tenha chegado ao trono de S. Pedro, no século IX. Donna Cross explora primorosamente esses indícios para construir um magnífico romance histórico. Conta-se a aventura de Joana, uma menina nascida e criada na actual Alemanha, numa região martirizada pelas invasões estrangeiras, nomeadamente os normandos (vikings) os saxões e os francos. Na altura o império franco, liderado pelo grande Carlos Magno era a maior potência da época e tentava dominar a Europa em nome da fé cristão.
O pai de Joana, padre casado como era vulgar na época (o celibato só se tornou obrigatório no séc. XVI) era um homem terrivelmente severo. Joana sofreu as consequências desse fanatismo e toda a sua vida será marcada por uma luta incessante pela justiça e pelo verdadeiro espírito cristão.
Na verdade, a religiosidade medieval era envolvida num verdadeiro obscurantismo e pejada de preconceitos por vezes cruéis, como a recusa de quaisquer direitos à mulher, transformando a sua vida num verdadeiro martírio como serviçal dos homens, por se considerar desprovida de inteligência.
O modelo de vida propagado pela Igreja Católica era bem claro nesta máxima do teólogo Alcuíno: “a vida é alegria dos bem-aventurados, o desgosto dos infelizes e uma busca da morte”. A miséria e a infelicidade do povo eram vistas, portanto, como algo de natural. Os ténues raios de luz que se enunciam sob a forma de conhecimentos “científicos” são reprimidos. A razão é considerada inimiga da fé porque leva os homens a questionar. E questionar é mau; é perigoso para a estabilidade do modelo social e político vigente, assente na desigualdade. Joana tinha pela frente um desafio enorme: questionar a tradição, questionar os dogmas, nomeadamente aquele que considerava as mulheres inferiores e impuras.
Joana pode até ser uma figura apenas lendária. Mas é um símbolo de milhões de mulheres e de homens que lutaram contra o obscurantismo. Esta luta é bem patente na frase que Joana formula no seu pensamento quando é impedida pelo terrível Odo, o professor de ter acesso aos livros: “Vá, põe grades na tua biblioteca. Não podes pôr grades no meu pensamento.”
Em conclusão: trata-se de um romance histórico de grande qualidade literária, talvez apenas superado pelo Físico de Noah Gordon e pelo insuperável O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
Acima de tudo, é um hino ao conhecimento e um merecido tributo ao papel da mulher na história da humanidade, tantas vezes esquecido em nome de preconceitos que ainda hoje subsistem. Para nossa vergonha!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho

Dois desiludidos da Revolução: Jorge, o intelectual decepcionado, escritor mas apenas professor e Joel, apenas funcionário, anónimo da classe média, desiludido com tudo. Um homem que se defende da vida escondendo a esperança.
A uni-los, além da desilusão, a mentira envergonhada de uma filha, a de Jorge, missionária e um filho, o de Joel, preso por tráfico de droga. Destinos semelhantes, afinal. Alienados, na visão dos pais.
Grande parte da genialidade deste romance reside no facto de Mário de Carvalho expor de forma bem-humorada uma visão extremamente pessimista da realidade: o saber é desprezado em benefício da imagem, as ideologias são submetidas às conveniências, aos interesses pessoais, o mérito é substituído pelo arrivismo oportunista. Exemplo maior deste profundo lamento é a crítica irónica mas mordaz ao Partido Comunista (o livro foi publicado em 1995) onde o ingénuo Joel quer inscrever-se mas depara com os maiores obstáculos, devido ao elitismo ideológico e à sua fiel guarda-costas, a burocracia.
Mário de Carvalho é um escritor único. Ainda por explicar está o facto de não ser normalmente incluído entre os grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Talvez porque Mário de Carvalho não gostasse de vir a ser homem de Panteões; talvez porque nunca tivesse desejado ser escritor de guiões de telenovelas disfarçados de romances de 500 páginas; talvez porque os nossos sorumbáticos, sisudos, sonolentos e cinzentos críticos literários não gostem de quem sorri escrevendo. Talvez os nossos Torquemadas da literatura não apreciem o riso. Afinal de contas esse é uma das grandes marcas da nossa História: o riso é a antecâmara do pecado. É sempre preferível a serenidade, a paz do estar bem com todos.
Mário de Carvalho é talvez o melhor escritor português contemporâneo no domínio da ironia e da crítica social e política. Muito do pior que há em nós está nos seus livros: um clericalismo pacóvio retratado aqui, por exemplo, pelo bispo de Gundemil que mordeu um cão e um espírito revolucionário moribundo, abafado pelas leis da ordem mas também auto-castrado, degenerado em ideais anacrónicos e ambições líricas de poder. E a imprensa, o tal poder paralelo aqui representada por Eduarda Galvão, repórter de uma revista aspirante ao estatuto da “Maria”.
Mário de Carvalho escreve sorrindo. Um sorriso ora trocista, ora deleitado com a sua própria criação, ora acompanhando um piscar de olhos ao leitor com quem mantém um permanente diálogo cúmplice.
Para terminar deixo-vos aqui a advertência com que o autor inicia o seu livro e que diz muito do seu conteúdo:

Advertência:
Este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos.

Está tudo dito!

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Deus das Pequenas Coisas - Arundhati Roy

Só nas Pequenas Coisas residem os laivos de luz a que poderemos, talvez, chamar felicidade. Velutha, o Deus das Pequenas Coisas, intocável e Ammu, tocável amaram-se entre as coisas pequenas, na margem de um rio, entre insectos e ervas, ódios e intolerância e foram felizes nesses laivos de luz. Isto aconteceu antes de as Grandes Coisas tecerem os destinos: as castas, imposição sagrada; Deus e a Ordem; Tradição e Devoção; desgraças, destinos trágicos que só as Grandes Coisas podem dar à vida.
A Índia, terra de tradições, religião, ditaduras e outras grandes coisas é o cenário de amores proibidos. Rahel e Estha, irmãos gémeos, felizes nas pequenas coisas que o amor de irmãos envolve, desenharão destinos trágicos nos vestidos brancos, europeus, puros, perfeitos, chiques, de Sophie Mol, a prima perfeita. E todos os destinos se desenharão em torno da menina perfeita a quem os peixes comerão os olhos.
O Deus das Pequenas Coisas é um livro estranho. Numa escrita profundamente simbólica, por vezes enigmática, onde se entrevêem traços nítidos de William Faulkner, o leitor é embalado numa escrita de enredo por vezes tortuoso, de onde sobressaem algumas ideias já desenvolvidas por Aravind Adiga: as desigualdades sociais como consequência das tradições hindus, agravadas pelas consequências do sistema capitalista. A civilização europeia continua, no entanto, a ser vista como um modelo, um ideal a seguir no comportamento social, fruto de uma colonização inglesa que deixou raízes profundas, que conseguiu enquadrar a Índia no esquema de superioridade colonialista. Ao longo do livro é constante o lamento de Roy perante os graves problemas da Índia moderna: as injustiças sociais, os abusos de poder, a corrupção, a exploração e abusos de crianças, a violência sobre as mulheres, a falta de higiene pública e privada, a desorganização geral ao nível social e político, etc. etc.
Por outro lado, o marxismo e o cristianismo, aparentes instrumentos de revolta, não conseguiram pôr em causa a realidade vigente porque também eles são elementos estranhos, impostos pela velha Europa.
O amor e a história romântica de Ammu e Velutha, bem como os laços profundos de amor entre os gémeos, surgem como uma espécie de fuga para o real; um esconderijo nas pequenas coisas. Os dois gémeos vivem um mundo muito próprio, entre os encantos que a inocência infantil proporciona e um mundo reservado de segredos, de vida nos limites do permitido pelos adultos, porque só a proibição dá encanto à busca da felicidade.
Ao longo do livro, as súbitas e constantes mudanças de cenário bem como de tempo narrativo tornam por vezes a leitura difícil, sem que o leitor tire grandes benefícios desse esforço que lhe é imposto. Os saltos cronológicos parecem claramente excessivos e muitas vezes desnecessários.
Por outro lado, esta técnica narrativa torna a acção demasiado lenta. Alguns episódios, como a espera por Sophia Mol arrastam-se por dezenas de páginas sem que se vislumbrem vantagens dessa lentidão. Assim, a leitura chega a tornar-se enfadonha.
É por isso que este é um livro estranho: saturante, fastidioso mas também recheado de uma rara beleza de linguagem e com um final belíssimo, de uma beleza que só a tristeza pode proporcionar.
(Texto também publicado no blogue DESTANTE)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Primeira Noite - Marc Levy

(também publicado no blogue Destante)
Fascinante! O mínimo que se pode dizer deste livro é que se trata da prenda ideal para este ou para qualquer Natal.
Não é por acaso que Marc Levy é o escritor francês que mais livros vende, um pouco por todo o mundo.
Esta é uma obra empolgante, delicada, emocionante e cheia de significado. Não se trata apenas de um livro de aventuras nem de uma história de amor; é uma epopeia recheada dos mais belos sentimentos humanos, um livro cheio de romantismo.
O astrofísico Adrian, e Keira, arqueóloga, percorrem o mundo em busca de quatro fragmentos de um estranho objecto com quatrocentos milhões de anos. Esses achados poderiam revolucionar por completo toda a história da vida na terra e todo o rumo da humanidade. Nessa intensa aventura contam com o apoio de Ivory, um velho professor de Etnologia e Walter, gestor da Real Academia de Ciências de Londres. No entanto, uma misteriosa organização liderada pelo enigmático Lord Ashton tudo fará para os impedir.
A narrativa faz-nos viver mundos maravilhosos, como o dos antigos Sumérios, o fascinante povo da Mesopotâmia que inventou a escrita.
Por entre aventuras, desventuras, perigos e actos de heroísmo, o enredo não deixa de nos suscitar profundos motivos de reflexão: por mais que a ciência evolua, por mais rigoroso que seja o conhecimento científico, nunca conheceremos tudo. E o ser humano tem uma profunda dificuldade em aceitar a impotência do saber; daí que, muitas vezes o incompreensível seja confundido com superstição. Tudo o que contraria o saber estabelecido (que é necessariamente limitado) é visto como perigoso porque contraria as pobres verdades que o ser humano teima em considerar inabaláveis. Aquilo que Adrian e Keira descobrem é perigoso porque desafia esse conformismo.
É por isso que este livro é também um belo hino ao infinito… o nosso conhecimento talvez não seja mais que um magro tesouro que guardamos religiosamente; e nós talvez não sejamos mais que um grão de areia no Universo. Um Universo infinito como amor de Adrian e Keira; infinito como a amizade de Adrian e Walter; infinito como o fascínio que um livro como este nos desperta e nos aprisiona até ao fim…

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hoje Não - José Luís Peixoto

Todos os livros de José Luís Peixoto são diferentes. Dos outros e uns dos outros. Neste há smiles risonhos :), uma jovem freak que herda um avião comercial, gente a quem caem os dentes todos de uma vez e por mais de uma vez, um escritor falado na primeira pessoa que confessa escrever em nome de outro (sem que esse outro sequer os leia), smiles tristonhos :(, uma mulher peluda que destroça corações, uma mancha de iogurte nas calças de alguém que por causa disso arruína a sua vida, uma poetisa do Quirquistão e muito mais coisas inauditas que acontecem na vida de qualquer pessoa normal.
O livro é composto por seis contos. O primeiro deles é um verdadeiro hino ao sonho. Uma jovem herda um avião comercial e funda a Legalize Airlines. Só fará um voo. Não terá um único cliente. Não ganhará um tostão. Mas o sonho, esse, realizou-o.
O conto “:) e :(“ é uma história de amor. Uma história desgraçada. Catastrófica mas que, nem assim, destrói a esperança. Não há desgraça que sempre dure e talvez até haja desgraças maiores do que estar apaixonado. Talvez pior que o amor seja a queda de todos os dentes, como acontece com o herói do conto “Biografia sem dentes”.
Versatilidade. É a palavra chave deste livro de Peixoto, um escritor capaz de nos surpreender em cada parágrafo. Um livro pequenino, que se lê de um fôlego e sempre com um sorriso. Quem ler Cemitério de Pianos, Morreste-me e Uma Casa na Escuridão será incapaz de imaginar que Peixoto tem um sentido de humor como o que expõe aqui, brincando com o leitor, como no conto “Fantasma Escritor” em que um jovem escritor, descrito como se do próprio Peixoto se tratasse, se revela apenas um impostor que publica livros escritos por um respeitável e anónimo ancião.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(intervalo)

Olavo Bilac (Santos & Pecadores), Nuno Guerreiro (Ala dos Namorados), Tozé Santos (Perfume) e Vítor Silva - quatro grandes músicos juntaram-se para lembrar à malta que o Zeca não morreu nem nunca morrerá.
Uma letra cada vez mais actual! Para nossa desgraça, os "fachos" continuam por aí.

BOM FIM DE SEMANA!