sexta-feira, 29 de abril de 2011

Jerusalém - Gonçalo M. Tavares

A proximidade entre o Bem e o Mal; entre o amor e o ódio; a vida vizinha da morte – um caminho apenas. Talvez a cruz de Jerusalém, cidade e nome do livro, metáfora para o hospício Georg Rosemberg, onde Mylia e Ernst viveram, amaram e conceberam Kaas. É Mylia quem diz, citando a Bíblia: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”. E mais adiante: Se eu me esquecer de ti, Georg Rosemberg”, que seque a minha mão direita”.
Numa escrita crua, dura, directa e atraente, GMT percorre a vida de personagens-tipo, que vivem nas margens ténues da loucura normal.
Mylia, 18 anos, esquizofrénica. Casa com o médico Theodor; ele estudá-la-á sem amor. A mãe diz que ela vê almas.
No hospício, Mylia conhecerá Ernst, esquizofrénico. Desse amor nascerá Kaas. No hospício Georg Rosemberg. Ou Jerusalém. Sítio da redenção e da paixão. Do sofrimento e do amor. Da salvação e da perdição. O local de onde vem o medo, como a guerra para Hinnerk.
Mylia, 40 anos, à espera da morte. Alguns meses para viver. Procura uma igreja, na madrugada. Desesperada por um pouco de paz. A dor dilacera-a; a dor má, que a matará e a dor boa, que a faz sentir viva: a dor da fome; da fome do corpo. Naquele momento um pão era mais importante que a eternidade: a vida é uma soma de momentos, todos eles únicos.
Theodor Busbeck desposara Mylia. Ele estuda o horror; faz contas, somas, gráficos. Encontrar os padrões do horror nos tempos; o horror passado e futuro da humanidade explicados em fórmulas matemáticas.
O horror, o sofrimento e a violência são vitais para o mundo; se um dia houver equilíbrio entre os sofredores e os que fazem sofrer, o mundo perderá sentido e extinguir-se-á. Como na vida de qualquer indivíduo: sofrer ou fazer sofrer são os termos da equação. Quando se equilibrarem será a morte. Ou então, para lá desse equilíbrio, apenas a fé poderá sobreviver. Como na doença de Mylia: ela viverá depois do prazo que a ciência lhe deu para morrer. Porque os milagres existem. O sagrado é o lugar onde tudo termina. O sagrado que se encerra no nome de Theodor.
Como se vê, trata-se um livro cheio de simbolismo; mas aqui, significados e significantes acabam por ser descodificados sem esforço pelo leitor, tornando a leitura extremamente agradável. Não se trata de um livro “negro” como a capa pode enunciar; não se trata de um livro sobre a morte ou a loucura; trata-se de um livro sobre a vida nas suas múltiplas facetas; sobras as angústias do viver, do sentir, do amar e do morrer.
Não é uma obra-prima nem GMT alguma vez terá ambicionado tal; é um livro pequeno, de leitura rápida, que deixa múltiplas pistas que nos permitem antever no seu autor um talento que o poderá levar, no futuro, aos mais altos níveis da genialidade.
Avaliação Pessoal: 8.5/10

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Lendo Gonçalo M. Tavares

Jerusalém.
Mais uma surpresa. Ao contrário do que esperava (mediante o que tenho lido), trata-se uma obra muito objectiva, de fácil leitura. A dimensão simbólica dos personagens e das situações torna-se perfeitamente clara ao longo da leitura.
Numa escrita límpida e clara, GMT percorre os aspectos mais sombrios da existência humana, as suas dúvidas e angústias mais lúgubres, através de personagens-tipo, todas elas em situações-limite. Mau grado o negro das emoções que desperta no leitor, não deixa de ser uma leitura fluente e agradável.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Olhei Para Trás e Sorri - Pedro de Sá

Uma boa surpresa, este livro.
Escrito com leveza, num discurso fluente e objectivo, Pedro de Sá mostra-nos que não é preciso escrever muito para dizer muitas e belas verdades.
Olhei Para Trás e Sorri é a história de Francisco, um simples funcionário público que teve uma vida tão simples como o correr aparentemente normal do tempo. Se há um sentido da vida, ele nada tem de complexo. Francisco é gente como nós. Talvez por isso, porque nada de alucinante acontece, que vemos em Francisco um pouco de nós.
Ao olhar para trás, esperando a morte, ele sorri. Sorri talvez daquela alegria suave de um dever cumprido mas também, talvez, com o sorriso amarelo de quem não conseguiu enganar a vida; de quem não arriscou emoções maiores; de quem permaneceu nessa suave normalidade que, sem fulgores também não arrancou lágrimas de desespero. Francisco viveu e talvez essa vida suave não seja mais que uma longa espera da morte.
Poderão alguns leitores deste livro dizer que é uma bela história de amor. Talvez essa seja uma leitura óbvia do enredo. Mas não foi assim que eu o li. Francisco foi homem de uma mulher só. Por ela se apaixonou, com ela encontrou aquela felicidade que advém do corpo, com ela casou e com ela morreu. Mas, pelo meio houve Matilde. E talvez por aí o amor tivesse espreitado. Mas Francisco preferiu essa felicidade suave e “normal” que Maria Luísa que oferecia.
Avaliação Pessoal: 8/10

terça-feira, 26 de abril de 2011

Como Água para Chocolate - Laura Esquível

Quando se mistura um livro de culinária com uma história de amores desencontrados, só pode sair daí uma enorme caldeirada. Foi o que este livro, embora pequeno, me fez lembrar - uma grande caldeirada, fabricada com ingredientes peculiares: um dramalhão de amor, um livro de receitas culinárias, uns quantos terroristas da guerrilha mexicana de Pancho Villa e uns toques da fantasia literária sul-americana, encaixadas à força no romance.
Mas nem por isso se trata de um mau livro; se o fosse não teria, certamente, vendido tantos exemplares. Na verdade, o enredo é bastante imaginativo e o final é interessante pela criatividade e originalidade. Pena é que, pelo meio, os personagens vão morrendo em catadupa, pelos motivos mais variados que se possa imaginar, desde o vulgar envenenamento a um ataque fulminante de flatulência passando por uma ingestão massiva de fósforos.
Pedro ama Tita, mas casa com Rosaura. Tita ama Pedro mas acha que gosta de John e não casa com nenhum deles; refugia-se na cozinha. Gertrudis não ama ninguém mas tem um ataque de uns calores “esquisitos” e foge com os revolucionários. A mãe delas tinha um desgosto de amor (para não fugir à regra) e por isso era uma mãe malvada. Uma verdadeira Cruella. Rosaura, desgostosa por Pedro continuar apaixonado por Tita engorda até rebentar (literalmente). Como se vê, não faltam motivos de interesse para despertar a imaginação de quem lê.
O contexto histórico foi pouco explorado, o que é uma pena porque se trata de uma época interessantíssima: no México de inícios do século XX, quando os bandos armados de Pancho Villa e Emílio Zapata, lutando contra a ditadura de Vitoriano Huerta, espalharam o terror pelas propriedades agrícolas da região.
Em suma, parece-me um livro interessante mas que fica muito aquém dos grandes romances sul-americanos, em que a fantasia e o misticismo encantam quem lê. Neste caso, a culinária desvia-nos (a meu ver, é claro) desse encanto fantástico que a tradição literária da América latina tão bem soube explorar com escritores como Garcia Marquez ou Isabel Allende.
Avaliação Pessoal: 7.5/10

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril HOJE E SEMPRE

Acordem!
Deixem de pensar que outrora é que era bom! Olhem à vossa volta e vejam que é a LIBERDADE que nos permite levantar a voz!
Deixem de pensar que outrora viviamos melhor! Olhem à vossa volta e vejam que só as portas que Abril abriu nos permitem hoje o luxo de ter uma crise. Porque outrora este país foi uma única e imensa crise!
Acordem, levante-se, revoltem-se e deixem passar a poesia:

Liberdade - Sérgio Godinho

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente


Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.

sábado, 23 de abril de 2011

Lendo Laura Esquível

Depois de Murakami e Kundera, apateceu-me ler uma coisa "levezinha". Optei por uma obra que costuma ser elogiada precisamente pela facilidade com que se lê (Como Água para Chocolate).
Mas, meus amigos, aquilo é tão levezinho que chega a irritar.
No entanto, ainda vou a meio; talvez o final me leve a mudar de opinião.
Para já, começo a ficar cansado de tanta leveza.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Identidade - Milan Kundera

“Eu tenho duas caras”, afirma Chantal. Duas caras. Todos temos, não é? Duas, três ou quantas forem necessárias. Duas caras mas uma identidade; algo próprio, seja de Chantal seja de qualquer um de nós que nunca se diluirá. É por isso que um casamento, ou uma relação amorosa, por mais profunda que seja, sempre há-de esbarrar na verdadeira natureza humana. A identidade de um ser humano é composta de múltiplas facetas e só a anulação total da personalidade permitiria essa diluição que, ao que dizem, tornaria um casamento feliz. Talvez fosse esse caminho que, neste livro, Jean-Marc procurou: o da anulação da personalidade em nome de uma causa – o amor. Falhou. Falhou como Chantal ou como qualquer ser humano que não consegue (porque não pode) diluir-se nisso a que chamam amor monogâmico.
A monogamia é uma imposição social e histórica; perante ela só há um de dois caminhos: a adaptação ou a revolta. Jean Marc adaptou-se. Pelo menos tentou; ele não se inquieta; apenas se acomoda, passivamente. Acabará mal.
Ela, Chantal, necessita de desafios; necessita de ser ela; de mostrar as várias faces e assumi-las. Acabará mal, também.
O ser humano anseia permanentemente pela liberdade, pela realização do “eu”. No entanto, o amor é algo que conduz a um beco sem saída, a uma quimera que é uma espécie de liberdade a dois. Impossível. Por isso o amor é a negação da liberdade; é a despersonalização.
A verdadeira natureza humana é a do sonho: do sonho libertador, da atracção fatal da liberdade. É entre estes dois pólos (amor e liberdade) que vagueiam Chantal e Jean Marc. Kundera coloca cada um deles num dos pólos. Qual dos dois triunfa? Talvez todos os triunfos sejam provisórios e a vida humana não seja mais que uma viagem hesitante e constante entre os dois.
Trata-se portanto de um livro extremamente simples, com uma mensagem muito clara. Sem a profundidade das sua obras-primas (O Livro do Riso e do Esquecimento e A Insustentável Leveza do Ser) mas com traços de génio na forma simples e directa com que consegue prender o leitor.
Publicado no Destante, no âmbito da Leitura Conjunta.
Avaliação Pessoal: 8/10

terça-feira, 19 de abril de 2011

Crónica do Pássaro de Corda - Haruki Murakami

Nem sei por onde começar. Talvez pelo fim. Trata-se de um livro fantástico. Talvez o melhor de Murakami.
Este livro é um verdadeiro tratado.
Tudo começa com um enquadramento muito simples. Ele, Toru Okada está desempregado. Trabalhava numa firma de advogados mas despediu-se. Ela, a esposa Kumiko trabalha como editora de uma revista de dietética e alimentação natural. Um emprego vulgar e uma vida aparentemente vulgar. Viviam com um gato, Noboru Wataya, a quem tinham dado o nome do irmão de Kumiko. Um dia o gato desapareceu. E é a partir daqui que tudo começa. Mas começa o quê? Uma série interminável de episódios cada vez mais estranhos à luz das mentes normais. Acontece que não há mentes normais. Não há lógica na vida e essa é uma das coisas mais importantes que Murakami nos ensina.
As personagens vão aparecendo e desfilando perante nós, cada vez mais surpreendentes e encantadoras, quer pela bondade quer pela maldade. Tudo isso é humano. Como humanos são os sonhos e as fantasias.
Toru começa a refugiar-se num poço seco de uma casa maldita. Aí ele vive momentos encantados onde o real e o sonho se misturam. Como na vida.
Tudo em Murakami é simbólico. Mas tudo é explicado. Na mente do leitor vão-se explicando, por si, todos os signos. Eles envolvem significado e significante, que Murakami procura aclarar sem cair naquele simbolismo obscuro que muitos autores cultivaram.
À procura de um gato. Um gato que simboliza a liberdade e a personalidade; aquilo que falta ao ser humano: a coragem de desafiar destinos, de associar sonhos à realidade, de passar fronteiras.
Tudo se passa como as personagens procurassem a todo o custo chegar a situações-limite, sem as quais não há sentido para a vida. No centro do enredo encontram-se ligações às terríveis guerras que o Japão enfrentou: a invasão da Manchuria nos anos 30, com a consequente e dramática guerra sino-japonesa e a segunda guerra mundial. Situações-limite que fizeram nascer um novo Japão. Como na vida das pessoas: é preciso ir ao fundo do poço. É preciso descer ao fundo quando se desce e subir ao topo mais alto quando se sobe.
Ao longo de seiscentas e trinta páginas, Murakami leva-nos pela mão ao encontro das mais absurdas situações. E depressa descobrimos que o absurdo é aparente. Tão aparente como a lógica das coisas. Não há lógica; há apenas aparências. Tudo à nossa volta são mistérios que escondemos para enganar a vida e a consciência.
O exemplo mais notável, mais profundo encontra-se nas últimas páginas do livro. Vamos ver se consigo explicar isto evitando os malditos spoilers: alguém se encontrava sequestrado. E o sequestro acabará da forma mais bela que este humilde leitor poderia imaginar. A personagem estava sequestrada pela sua própria mente. Ela não foi raptada; ela entregara-se ao sequestrador. O que tem isto de encantador? É que de repente descobrimos que aquela personagem e aquela situação nada têm de estranho. Ela é igual a qualquer um de nós: entregara-se a um sequestro, como todos nós. As piores prisões não envolvem grades nem correntes: somos nós que as construímos.
No final do livro, como sempre, só apetece sorrir e dizer bem alto: ARIGATOU, Murakami.
Avaliação Pessoal: 9.5/10

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lendo Murakami

Crónica do Pássaro de Corda. Um livro fantástico!
Irritam-me cada vez mais as comparações que se fazem entre Murakami e Kafka. É certo que há pontos de contacto (o absurdo, as metamorfoses dos personagens, a solidão na vida moderna, a burocracia…) mas não há em Kafka este encanto, esta fantasia real e este optimismo, esta força positiva que triunfa sempre nos livros de Murakami.
É certo que o livro está cheio de referências a tragédias históricas verdadeiramente horrendas (a guerra sino-japonesa na Manchúria, a 2ª Guerra Mundial e as barbaridades de Estaline na Sibéria); é certo que aqui também está bem expresso o lado negro do ser humano; mas também é certo que a escrita de Murakami tem o imenso dom de nos fazer sonhar. E digo-o literalmente.
Amanhã opinião completa neste blogue.
Imagem daqui.

domingo, 17 de abril de 2011

Ser Como Tu - Miguel Almeida

Eu, aprendiz, me confesso: não sou perito em poesia, nem sequer fui alguma vez apreciador do género. Sobrevoei os clássicos, movido pela obrigação escolar, mais nada. Tive sempre um pequeno encanto pela Mensagem de Fernando Pessoa mas, fora disso, mantive uma distância consciente mas algo cobarde em relação aos poetas.

Um dia caiu-me do céu em pára-quedas um livro de Miguel Almeida. Li-o com esforço, dada a minha ausente (ou asfixiada) sensibilidade poética. Deixei-me levar pelo esforço e valeu a pena.
Este é o segundo livro de Miguel Almeida que leio e desta vez o esforço foi menor, talvez porque começo a ressuscitar para a musicalidade das rimas e para a sensibilidade dos versos.

Dez conjuntos de onze poemas fazem este livro em que há alegria e solidão, tristeza e intimidade, suavidade e rispidez.
Há até um auto-retrato, talvez brincadeira, servida com humor; o auto-retrato de um poeta que diz não saber se nos mente:
“Deidades! Não devoto para um só Deus o voto
Não sou esquisito. Prefiro mil, se forem mulheres
Pois ser ateu, não vem pró caso de nisto ser expedito.”

Simples, sensível, directo, positivo (sem lamechices).
Pessoal, íntimo, musical.
Suave como quem reza.

Por vezes, a solidão:
“O Caos das proximidades,
Tão próximas,
Afastam-me para longe,
Tão longe de mim.
Mas, agora, entregue a mim próprio
Tenho a sensação de estar só,
Acompanhado, na verdade fiquei tão só.”

Outras vezes, o sorriso da vida:
“E há uma flor no jardim, que me (a) guarda
Esperando paciente por mim, outra vez vigoroso”.
As palavras sobrevoam a alma, as viagens sucedem-se nas nuvens dos sentimentos que percorrem os dias. E o leitor, de início hesitante, vai inspirando os sons que descem ao fundo da alma. E começa a fazer sentido: ler poesia é sentir. Sentir a poesia não é como quem lê. É como quem respira sensações e sentimentos: inspira-os, absorve-os e expira uma espécie de paz.
Ler Miguel Almeida é também uma viagem no mundo reservado da alma:
“Por que é à volta de si mesmo,
Que é mais necessário e urgente viajar.”
E para o fim da viagem há a morte, ou melhor, a vida:
“Na angústia da minha prisão,
Não como ser que nasce para a morte,
Mas como ser que existe,
Resistindo e persistindo, sobre a morte”

sábado, 16 de abril de 2011

As traduções: algumas brilhantes, muitas miseráveis

Por sistema evito dizer, nos meus comentários, qualquer coisa que desincentive a leitura. Portanto, em geral não falo das traduções. Mas a verdade é que, para além de os livros em Portugal serem dos mais caros da Europa, as traduções são geralmente más. Frases sem qualquer sentido, erros ortográficos, tempos verbais errados a fazer lembrar as traduções do Google, são marcas indeléveis de trabalhos de tradução apressados. Isto para já não falar da nítida ausência de compreensão do espírito da obra e do autor, que seria essencial para que a tradução fosse bem feita.

Evidentemente que há excepções; muitas e boas, como as obras de Murakami na Casa das Letras, a magnífica tradução de Guerra e Paz na Presença ou as obras de Auster na ASA. Nos casos de Auster e Murakami o segredo está numa estratégia bem sucedida que foi entregar todas as obras do autor ao mesmo tradutor. Um bom tradutor tem de intervir na obra, não pode simplesmente servir de dicionário. Nesse aspecto lembro-me de um caso brilhante: Jorge de Sena quase reescreveu a Condição Humana. É caso para dizer que também não é preciso exagerar…
Mas, globalmente, as traduções portuguesas são fracas e nalguns casos que me escuso de nomear são absolutamente miseráveis. Pelo que oiço por aí, isso parece que tem a ver com a forma também miserável como as editoras pagam esse serviço. Será verdade?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O melhor esritor português da actualidade

Está encerrada a votação para o melhor escritor português da actualidade. É claro que isto é apenas uma brincadeira sem qualquer pretensão. Mas este resultado vem confirmar que José Rodrigues dos Santos é um caso sério na literatura portuguesa, ao ponto de deixar em segundo lugar, em igualdade, três grandes nomes: Lobo Antunes, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares. Se não estou em erro, Rodrigues dos Santos é o escritor português que mais vendeu nos últimos anos. Curiosamente é o único desta lista que eu ainda não li. Agora não tenho desculpa :)

Obviamente, a lista que coloquei era muito reduzida, o que levou a um elevado número de votos na opção “outros”; nada menos que 9 votos. De facto, numa próxima oportunidade colocarei uma lista mais completa porque (culpa minha) faltavam aqui excelentes escritores como Lídia Jorge, Tiago Rebelo, Manuel Alegre, David Soares, Paulo Alexandre e Castro, Miguel Almeida, Afonso Cruz, Cristina Torrão, etc.
Imagem retirada daqui.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pele - Mo Hayder

Custa um pouco “entrar” neste livro. Um início algo confuso corre o risco de afastar alguns leitores menos pacientes. As várias personagens são apresentadas em catadupa e as diferentes estórias do enredo causam alguma confusão na mente do leitor. Mas chega-se ao final com a sensação de prazer que uma boa leitura proporciona.
O grande problema da literatura policial é que, desde há muitos anos, talvez desde Simenon, se tornou muito difícil superar ou sequer igualar os grandes clássicos do género: Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. Talvez por isso, parti para esta leitura sem grandes expectativas. E isso é meio caminho andado para se gostar de um livro. Surpreendeu-me pela positiva.
Ao longo do livro há um crescente de emoção, um ritmo narrativo cuidadosamente planeado para esse crescendo.
Jack Caffery procura desvendar uma série de crimes violentos (assassinatos disfarçados de suicídios) relacionados com estranhos rituais de origem africana, envolvendo tráfico de órgãos humanos. Neste contexto, as descrições de Hayder são muitas vezes verdadeiramente arrepiantes.
“Pele” foge com sucesso de todos os clichés da literatura policial; aqui não há detectives super-inteligentes e super-honestos: há uma investigadora subaquática que tenta encobrir um crime cometido pelo irmão alcoólico e um detective que recorre a estratégias fora de qualquer protocolo e mesmo desonestas. Não há também o eterno cliché da paixão “assolapada” do detective pela bela mulher-polícia; há, isso sim, seres humanos com os dilemas e os problemas das pessoas comuns. Não há sequer aquelas coincidências extraordinárias que geralmente tornam estas estórias totalmente inverosímeis. Aqui todo decorre dentro da lógica possível que há na vida.
Em suma, quem lê este livro é convidado a subir uma montanha íngreme, com alguma dificuldade, mas depois passeia no planalto de um enredo envolvente e emocionante. Vale a pena a subida.
Avaliação Pessoal: 9/10

domingo, 10 de abril de 2011

Lendo Mo Hayder

"Pele". Trata-se de um livro policial.
A literatura policial foi em tempos uma paixão. Eram os bons velhos tempos da colecção Vampiro.
Agora, muito tempo depois voltei lá.
Como diz Rui Veloso, "nunca voltes ao lugar onde foste feliz". No entanto, as primeiras setenta páginas deste livro paracem dizer-me que fiz bem lá voltar.
Trata-se de um policial bastante negro, com episódios arrepiantes, de violência crua e nua. Mas o mistério vai-se adensando e a leitura promete.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desgraça - J. M. Coetzee

Este é um dos livros de maior sucesso de Coetzee. Publicado em 1999, recebeu o Booker Prize e contribuiu para o Nobel da Literatura atribuído em 2003.
É sem dúvida uma obra de qualidade excepcional. Para o leitor comum, o maior elogio que se pode fazer é este: abordando assuntos verdadeiramente negros é, ao mesmo tempo, uma leitura extremamente agradável.
Trata-se da história de David Lurie, um professor de 52 anos, que se apaixona por uma aluna com cerca de vinte anos. Mau grado a maioridade e a colaboração da aluna, este relacionamento provoca um verdadeiro furacão de reacções moralistas, hipócritas e radicais que conduzirão à verdadeira desgraça em que se transformará a vida de David.
Ela é adulta e seduz David. No entanto, os moralistas entram em campo e ele é “crucificado”. A sociedade moderna, que cultiva a imagem e a hipocrisia, compraz-se com a desgraça alheia, como se a vida fosse uma batalha em que é necessário espezinhar os outros. A desgraça de alguém torna-se terreno fértil para a imposição de padrões de comportamento que não são mais do que instrumentos destinados à encenação de processos inquisitoriais, totalmente hipócritas.
É a sociedade a inventar limites às liberdades individuais. A liberdade é inimiga da sociedade.
A vida no campo, onde se refugiara Lucy, a filha de David, envolve os animais numa espécie de imitação da sociedade humana; eles são castigados, como os homens, por obedecerem a instintos e vontades. Mas o campo é também mais um dos palcos da violência humana. A violência é a marca do Império do Homem; sobre os animais e sobre os outros homens; o Império da morte e do esquecimento.
Na segunda parte do livro, o sexo é apresentado como, também ele, uma expressão da violência. O lado instintivo do ser humano é agora servo de um “deus” maior: o do ódio, da maldade extrema.
Afinal, tudo conduz à servidão humana.
Nesta segunda parte, reina a violência mais atroz. Coetzee oferece-nos aqui o testemunho de um país pós-apartheid, onde o desregramento social reforça toda uma concepção pessimista da condição humana, que dera o tom a toda a obra.
Lucy, a filha, representa a capacidade de adaptação como forma de resistência e até fonte de felicidade. Uma acomodação, uma certa apatia, garante a Lucy uma réstia de esperança que resiste a toda a desgraça.
Em suma, estamos perante um livro brilhante pela forma como consegue levar o leitor à reflexão sobre assuntos tão sérios como a natureza das paixões e o “encaixe” social dessas mesmas paixões, num mundo de hipocrisias, ódios e violência. Um livro genial, muito próximo, a meu ver, da categoria de “obra-prima”.
Avaliação Pessoal: 9.5/10
Este livro foi recentemente adaptado ao cinema, com o sensacional John Malkovich no papel de David Laurie:

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Lendo Coetzee

Depois de ler "Verão" fiquei com um certo "amargo de boca" em relação a Coetzee. Pensei: " o senhor até escreve bem, até nos deixa a pensar mas, caramba, é mesmo sorumbático". Na realidade, aquele livro tem mesmo um tom pesadão, melancólico, a contrastar com o título. Julguei que não ia voltar a Coetzee tão cedo.
No entanto, pouco tempo depois deparei com isto e com isto. E pensei: bem, lá vou eu ter de dar mais uma oportunidade ao "rapaz".
E a verdade é que estou a gostar muito deste "Desgraça". Parece que Coetzee gosta de nos confundir com os títulos: Verão é um livro tristonho mas Desgraça, se bem que trate de um assunto bem sério, lê-se com uma facilidade tremenda.
Dentro de dois dias aqui estará a opinião final.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Livro dos Homens sem Luz - João Tordo

Este é o primeiro romance de João Tordo, publicado em 2004 e reeditado recentemente pela D. Quixote. Trata-se de uma obra que surpreende pelo mistério mas também pela originalidade, principalmente ao nível da estrutura do romance.
Histórias cruzadas de pessoas infelizes…
Um homem vive em Londres, sozinho e o seu trabalho é contabilizar acidentes que não acontecem; mais tarde seguirá pessoas pelas ruas, sem saber porquê…
Joseph é padeiro em Londres durante a segunda guerra mundial; juntamente com Helena, é soterrado num abrigo durante um bombardeamento…
Um rapaz trabalha numa biblioteca e sofre de insónias; a sua vida é a tortura da solidão…
Estas e outras personagens, todas enigmáticas e errantes cruzam-se em episódios aparentemente dispersos, num tom de cinzento carregado.
Na contracapa desta edição pode ler-se: “Com ecos de Kafka e Auster…”. Na verdade são nítidos os elementos kafkianos: a “metamorfose” de Joseph no último capítulo; a monotonia, a rotina, como alienação; o absurdo da vida. E de Auster é notório o desespero das personagens na procura da sua própria identidade e a luta sempre inconsequente contra a solidão como se esta fosse um desígnio incontornável da existência humana.
Mas este livro é muito mais do que um repositório de influências, sejam elas de Poe (de quem também julgo descortinar alguns traços), de Auster ou de Kafka. É um livro brilhante pela construção e pela estrutura do enredo: as “pontas soltas”, largadas ao longo do livro, são depois unidas num trabalho conjunto do autor e do leitor, num esforço permanente mas que envolve um aspecto lúdico para o leitor atento. Tudo se passa como se o enredo fosse um enorme puzzle, cujas peças o leitor vai colocando no lugar, tanto no que se refere às personagens como nos múltiplos tempos narrativos. As personagens vão encontrando pontos de contacto entre si, o que surpreende constantemente o leitor, numa espécie de jogo que nos envolve até à última página.
Sem dúvida um livro belíssimo e surpreendente.
Avaliação Pessoal: 8,5/10

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lendo João Tordo...

O Livro dos Homens sem Luz...
Excelente! É o primeiro livro de JT e, por isso, quando iniciei a leitura temi que se tratasse de uma obra de principiante, um daqueles romances tristonhos e simplistas, tipo o fado do desgraçado :) Ilusão minha! É uma obra magnífica. Mais parece um enorme puzzle, cheio de mistério, um verdadeiro desafio à inteligência do leitor.
Opinião completa amanhã :)

(Aproveito para informar os meus dois ou três leitores [:)] que sempre que possível colocarei aqui um post "intermédio", a meio de cada leitura).

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Santuário - William Faulkner

Num crescente tom de absurdo, fazendo lembrar o surrealismo literário que, nessa altura despontava em França com Breton, este livro, publicado em 1930, é o primeiro grande marco na carreira literária deste monstro sagrado das letras chamado William Faulkner. Aliás, é nítido neste livro algum esforço do autor para obter sucesso. Ao contrário do que se passa por exemplo na sua obra-prima (O Som e a Fúria) neste livro há uma certa linearidade no enredo. Mesmo assim, quem lesse este livro naquela altura certamente sentiria que estava ali um génio em potência.
Santuário aborda a decadência dos estados sulistas, a solidão e a procura da identidade por parte de personagens sui-generis, como sombras que vagueiam pelo mundo sem um sentido definido, numa procura de algo que nem eles próprios identificam. Nunca sabem para onde se dirigem, o que procuram, qual o sentido dos seus rumos… Temple é o melhor exemplo deste desnorte: estudante de dezoito anos ou pouco mais, filha de um juiz abastado, abandona a faculdade e perde-se num mundo de homens desnorteados e degradados. Degradados como a casa em ruínas onde decorre a maior parte do enredo, onde vai parar Temple: a deusa no santuário das almas perdidas.
Por todo o lado, a violência entranhada na vida das pessoas;
Uma casa em ruínas – 3 homens em ruínas… 3 mortes se seguirão até ao fim do enredo…
um negro na prisão – a monotonia da normalidade
um negro condenado à morte – banal…
uma criança numa caixa de cartão – silenciosa – inútil…
uma cidade sem luz, sem alegria. Cinzenta…
mulheres, essas, sempre arruinadas, sempre perdidas no surreal da vida…
E Popeye, o fantasma, imperador da desgraça, monstruoso e protector; Popeye personifica o poder que há na violência, na força bruta. Pelo contrário, Horace, vítima do amor, é o justiceiro, infeliz, impotente…
Em suma, trata-se de uma obra complexa, profunda, sem o fôlego de outras que se lhe seguiriam mas brilhante pela forma como são descritos a solidão, a tristeza e o desespero humano.
Avaliação pessoal: 8.5/10

sábado, 2 de abril de 2011

D. Dinis - Cristina Torrão

Se antes tinha poucas dúvidas, agora não me resta nenhuma: D. Dinis foi um dos homens mais brilhantes da História de Portugal. Antes de mais nada dizer sobre este livro, fiquemos com esta certeza: Cristina Torrão confirma-nos esta verdade com uma obra literária magnífica!
Com grande cuidado na fidelidade à verdade histórica, a autora presenteia-nos com um romance histórico de rara qualidade.
No início do livro, grande parte das atitudes que viriam a nortear o comportamento do rei são ilustradas e até explicadas por alguns aspectos da sua infância. O contacto com a corte castelhana, nomeadamente com o rei Afonso X de Castela, o Sábio, despertaram em Dinis o gosto pelo conhecimento, pelas letras e pela ciência. Estávamos numa época de charneira no plano cultural: o advento da arte gótica na Península, a escola de tradutores de Toledo que divulgava a cultura clássica, a promoção das línguas nacionais, a afirmação das Universidades, etc, construíram um ambiente cultural que, num contexto de laicização crescente da cultura, anunciavam uma espécie de pré-renascimento. É nesse contexto que se há-de enquadrar o reinado de Dinis: o rei que instituiu o português como a língua a usar nos documentos oficiais, fundou a primeira universidade portuguesa e foi, ele próprio um vulto enorme da literatura portuguesa. Ele foi um dos maiores poetas da nossa língua e daí nasceu um dos seus epítetos, o de rei trovador.
Dotado de um enorme sentido de justiça, Dinis foi também um rei precursor dos grandes caminhos da história de Portugal que prepararam os Descobrimentos. Sem o crescimento e as modificações sociais e mentais do seu reinado, bem como de seu pai Afonso III, dificilmente teria sido possível iniciar, algumas décadas depois, a gesta dos descobrimentos.
A sua política foi, de facto, brilhante por ter sido “revolucionária” em três planos: político, económico e social.
Com grande clarividência política, o Rei entendeu que só modificações na estrutura social do país podiam modernizar o Estado português, tornando-o mais justo e rico. Assim, procurou centralizar o poder retirando privilégios ao clero e nobreza, através de inquirições e confirmações, leis da desamortização, fim das tenências, lei das apelações, diminuição das doações, etc. Assim, reforçaria o poder real, caminhando para o futuro estado absolutista e, ao mesmo tempo, promoveria a actividade comercial, favorecendo a burguesia e dessa forma aumentaria a cobrança de impostos.
Esta modernidade antecipada daria a Portugal um grande desafogo económico mas também geraria intensos confrontos com a fidalguia, com o clero e o próprio papa. No entanto, Dinis conseguiu sempre gerir este equilíbrio precário com grande sagacidade e coragem. Mas a parte final do seu reinado acabou por ser problemática: não conseguindo nunca conciliar o seu autoritarismo com o espírito benevolente da rainha, confrontado com as ambições dos vários filhos bastardos e o descontentamento do próprio filho herdeiro, futuro Afonso IV, Dinis teria grandes desafios a enfrentar na parte final do seu reinado, que Cristina Torrão narra com grande envolvência dramática, conferindo a este livro uma riqueza literária impressionante.
O encanto da Rainha Santa, a coragem de Dinis e a tremenda teia de interesses que se gerava nos reinos ibéricos são aspectos que Cristina Torrão desenvolve com mestria, tornando este livro indispensável a quem aprecia a literatura de qualidade. Uma surpresa muito agradável mas também um verdadeiro manual de história em forma de romance.
O contraste com o carácter rígido mas também mundano de Dinis dá à descrição da Raínha Santa um encanto especialíssmo. Chega a ser comovedora a forma como Cristina Torrão nos apresenta esta grande Raínha.
Avaliação Pessoal - 9/10

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A melhor leitura do mês

Não me interessa aqui avaliar a qualidade das obras que vou lendo e a sua relevância na literatura mundial. Não sou ninguém para empreender tal tarefa.
Pretendo apenas deixar aqui o registo, para minha memória futura, das obras que me derem mais gozo ler.
E, neste mês, mau grado a excelência de, por exemplo, Nação Crioula de Agualusa, A Senhora de Avalon de Zimmer Bradley e O Jogo do Anjo de Zafón, o livro que mais me agradou foi sem dúvida O Heróico Major Fangueira Fagundes, de Luís Novais. Pela diversão mas também pela forma como nos faz pensar sobre os destinos desta Ocidental Praia e desta civilização ocidental a entrar por caminhos obtusos e manhosos.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ângelo de Sousa

Faleceu hoje um dos mais interessantes e talentosos artistas plásticos portugueses: Ângelo de Sousa.
A vida é assim: muitas vezes só se dá a conhecer após a morte. Este génio das artes portuguesas não aparecia nas revistas VIP; não frequentava os círculos mais “in”. Era um homem simples, um homem do norte, trabalhador incansável mas com uma criatividade imensa.
Os seus quadros (mono ou policromáticos) fazem-nos mergulhar no reino fantástico das cores e dos sonhos, algures entre a imensidão de Pollock e o encantamento de Kandinsky; os seus desenhos são percursos mentais que desafiam os sentidos: sinuosidades estreitas ou formas amplas rumo ao desconhecido que há em nós.
Morreu um génio. Nasceu uma estrela.
Imagens retiradas daqui e dali.


terça-feira, 29 de março de 2011

A Velhice do Padre Eterno - Guerra Junqueiro

A Velhice do Padre Eterno é, acima de tudo, um forte libelo contra a Igreja. A sátira ao clero foi sem dúvida a intenção principal de Junqueiro. Este político e intelectual dos finais do século XIX reflecte uma corrente de pensamento em que se enquadram grandes nomes das letras portuguesas desse século, nomeadamente Eça de Queirós, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, etc. Estas ideias encontraram terreno fértil nas ideias socialistas e republicanas nascentes e, associadas à simplicidade da escrita e à sua grande capacidade de comunicação, fizeram de Guerra Junqueiro um verdadeiro ícone do anticlericalismo português.
No entanto, é importante que se afirme desde já que o autor não põe em causa Deus nem a fé:
Tenho uma crença firme, uma crença robusta,
Num Deus que há-de guardar por sua própria mão
Numa jaula de ferro a alma de Locusta
Num relicário d’ouro a alma de Platão.
Por sua vez, a religiosidade popular é vista como uma ilusão ingénua, revelando uma certa simpatia pela simplicidade do povo. Os alvos da crítica são, isso sim, os charlatães da Igreja:
Eu não vos vou magoar, ó almas cor de rosa
Que inda achais neste vinho o esquecimento e a paz!
Não insulto quem bebe a droga venenosa;
Acuso simplesmente o charlatão que a faz.
A sátira ao clero provoca por vezes situações hilariantes, como a crítica à obra de Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero. Aliás, a crítica aos escritores românticos era uma das “modas” das letras portuguesas de finais do século.
A mordacidade da crítica não impede, por vezes, observações subtis:
(dirigindo-se a Cristo):
Não te bastou a Cruz,
Era preciso o altar!
Como se o altar fosse o grande sofrimento de Cristo, assim desvirtuado pelo clero.
Em paralelo com esta perspectiva crítica, não podia faltar a crítica social, de forma bastante cáustica:
A crassa burguesia, essa récua fradesca,
Opípara, animal, silénica, grotesca,
Namora a Deusa-carne e adora o Deus-milhão;
E as almas, fermentando assim nesta impureza,
Resvalam, sensuais, do leito para a mesa,
Da mesa para o chão.
Mas o maior alvo é sempre o clero, também ao nível dos costumes: as sestas, os faustosos repastos, o apego ao dinheiro, o aproveitamento da ignorância popular, etc.
Para finalizar, não posso deixar de referir as magníficas ilustrações de um dos maiores cartonistas daquela época: Leal da Câmara. É deste livro a imagem que publico, relativa ao poema “Fantasmas” em que se critica o papel do Papa.
Imagem retirada daqui.
Avaliação pessoal: 8/10

sexta-feira, 25 de março de 2011

Santa Nostalgia

O comentário que aqui fiz ao livro do Luís Novais e a notícia do lançamento do livro “Conta-me com o foi” levaram-me a pensar na força que o saudosismo tem na mentalidade lusa. Nós, portugueses, somos por natureza saudosistas. Isto não é um cliché; é uma verdade confirmada por vários estudiosos e escritores de renome, desde Oliveira Martins até Eduardo Lourenço, passando por Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, António Sérgio, etc.
O sucesso da série televisiva Conta-me Como Foi é um testemunho disso mesmo, assim como, por exemplo, o sucesso das centenas de vídeos alojados no YOUTUBE, com anúncios publicitários e programas de televisão e mesmo um blogue fantástico com um nome bem sugestivo: Santa Nostalgia (http://santa-nostalgia.blogspot.com/).
Este é um dos assuntos da cultura portuguesa que sempre me fascinou. No entanto, julgo importante distinguir três tipos de saudosismo:
- O sebastianismo, que é uma espécie de patologia: um sentimento mais ou menos patológico que nos leva, irracionalmente, a sonhar com um “Salvador” que nos livre da desgraça que, a todo o momento construímos e que se plasma constantemente em soluções politicas mais ou menos absurdas como tem acontecido nos tempos recentes. Em termos muito simplistas, podemos dizer que escolhemos os maiores “trastes” para governar e depois sonhamos com um D. Sebastião, mesmo que em forma de ditador, para nos salvar.
- O saudosismo fadista, que é, a meu ver, outra patologia grave de que sofremos: é o saudosismo chorão, melancólico que nos transporta para o passado, alimentando a apatia e a negação da vida. Mais do que patológico, este tipo de saudosismo é um verdadeiro empecilho à vida.
- A Santa Nostalgia é, na minha opinião, o saudosismo saudável: aquele que nos faz sorrir. Aquele que nos diverte. As memórias, as recordações, só são saudáveis se nos ajudarem a construir o presente ou, pelo menos, se nos divertirem.
É dentro do contexto deste saudosismo saudável que eu gostava de deixar aqui bem clara a minha admiração pela série de televisão e pelo magnífico blogue que sigo diariamente:

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Heróico Major Fangueira Fagundes, com todolos seus anexos - Luís Novais

Depois de Quando o Sol se põe em Machu Pichu e de Os Parricidas, Luís Novais parece ter alcançado a maturidade literária com este “O Heróico Major Fangueira Fagundes com todolos seus anexos”; um grande título para um excelente livro.
A primeira coisa que me parece bem conseguida neste livro é a sua estrutura: há um narrador à maneira de cronista, que não dispensa uma belíssima linguagem em português antigo e múltiplos narradores/personagens que surgem como autores de anexos.
Também os nomes dos personagens são escolhidos criteriosamente e com um sentido de humor notável: desde logo Epifânio Fangueira Fagundes: é óbvia a aliteração “Fangueira Fagundes” mas o realce vai para o nome, que aliás é omisso no título da obra: Epifânio. Ele, o nosso herói, é na verdade, pelos actos “heróicos” que realizou, a personificação de uma epifania. Ele nasceu redentor, abençoado pelo Anjo, procurador do Céu “em um auto” vicentino. Por isso ele é Epifânio.
Um dos aspectos que mais impressiona neste livro é o contraste entre páginas de delicioso humor satírico e outras onde imperam o drama e a revolta interior, numa abordagem crítica e mesmo cáustica ao sistema político e socioeconómico em que vivemos. Um sistema que é um caldeirão de injustiças; um caldeirão que ferve em ebulição permanente, onde o político corrupto, empresário desonesto e o banqueiro ladrão sugam o suor e o sangue do povo. E a escrita de Novais, límpida e directa, surge como a voz de um trovão no silêncio das raivas contidas. Na minha opinião, é esta perspectiva crítica, por vezes descarada, sentida e brutal, que dá uma força extraordinária ao livro.
Mas esta voz brutal é também a voz (ou o clamor) da Liberdade. Não a liberdade mas a Liberdade! Porque só pode ser Livre quem for Criador. Qualquer conceito de liberdade não passará de uma ilusão se não envolver o acto de criar. Numa perspectiva marcadamente nietzschiana, Novais faz aqui uma clara distinção entre os diversos sentidos que o termo pode envolver: em termos políticos, a liberdade pode ser uma arma, um discurso ou uma ilusão. Assim, na Ocidental Praia, metáfora de Portugal, um país desgraçado, vive um povo nas mãos de políticos pacóvios ou ladrões e revolucionários bêbados. Um país onde a crítica e a capacidade de rir de nós mesmo parece andar perdida desde Oliveira Martins e que Novais (tão heroicamente como Fagundes) parece querer fazer renascer, pela pena de um cronista que poderia chamar-se Luís Fernão Novais Lopes, ou de um Eça revisitado na cáustica dissecação das tropelias do Traques, o político de Cidade Grande.
Mas para lá da sátira e das alegorias, do livro brotam também sinais de uma angústia latente. A angústia de um passado perdido, que não é pré-sebastianista, mas antes pré-capitalista. E essa angústia está plasmada num belíssimo texto que é o anexo quinto: um hino à natureza e ao homem do Minho profundo. E não é sebastianismo que aqui leio em Luís Novais; é a urgência da renovação; é o apelo à Revolução, não dos capitães nem de majores mas do Homem no seu todo. É de um novo Homem que precisamos; um Homem novo que restaure a Liberdade do ancião de Vilar dos Fornos.
Este caminho da libertação é o caminho da Utopia, não o da ilusão da Cidade Grande, onde novas escravaturas se emaranham num todo que é o progresso, ou o capitalismo selvagem, ou a tirania do Estado dito democrático.
E em cada anexo lemos um novo alienado, um tuga comum, homem sem presente que se multiplica por um passado pouco heróico e nada pátrio mas sempre escravizado: pobres anónimos e funcionários amestrados mas também empreiteiros, banqueiros e políticos escravizados às manhas e artifícios com que escravizam os outros: motoristas, bibliotecários, jornalistas, prostitutas, vendedores de seguros ou a licenciada que serve cafés… todos eles dentro da roda dentada onde se moem de tanto girar; nós de um emaranhado de fios de fantoche sem ponta visível. E todos eles cantados em forma de crónica, auto, cantiga de escárnio e maldizer. Todos aprisionados excepto talvez o super-homem, talvez apenas escravo da Liberdade.
Para lá de tudo isto fica a revolução: a utopia. A esperança. A ilusão de que é feita a vida do comum dos mortais. Mas é essa ilusão, essa esperança, que não morrerá enquanto houver utopias.
Enfim, estamos perante um livro que nos surpreende e encanta; uma obra que poderá marcar a epifania de um nome que um dia poderemos colocar ao lado dos maiores da actual literatura portuguesa, como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo. Assim os deuses da literatura portuguesa (críticos literários e mestres de marketing) o permitam.
Avaliação pessoal: 9/10

segunda-feira, 21 de março de 2011

A Senhora de Avalon - Marion Zimmer Bradley

Como já tenho afirmado, não gosto de literatura fantástica. Não que não lhe reconheça méritos, mas porque entendo a literatura como uma forma de expressão da vida em todas as suas dimensões e não apenas no aspecto onírico.
No entanto, gostei muito deste livro. Talvez porque ultrapassa em muito a literatura fantástica. Aliás, penso que poucas vezes se misturou história, mitologia e ficção de forma tão feliz e genial.
Segundo a crença, foram os antepassados da Atlântida que construíram os círculos de pedras a que hoje chamamos cromeleques (como o famoso monumento megalítico de Stonehenge). Curiosamente, essa crença explica da mesma forma os primeiros monumentos proto-cristãos. Isto é muito significativo porque aponta, desde logo, para a universalidade do pensamento religioso: a concepção das forças do Bem como forças universais, independentemente dos nomes atribuídos aos deuses. Por oposição, este livro apresenta-nos o nascimento da ortodoxia católica, autêntico travão à tolerância religiosa, em percurso contrário à crescente tolerância manifestada pelo Império Romano.
Por outro lado, este livro é também um importante testemunho histórico; ele divide-se em três partes que acompanham três momentos fundamentais da história do ocidente: o momento de afirmação do Império Romano, no primeiro século da era cristã; o nascimento do chamado Império Britânico, com o Imperador Caráusio e, finalmente, o tempo das invasões bárbaras com o estertor do Império e o terror imposto por Saxões, Anglos e outros povos germanos que viriam a provocar a mescla de povos das actuais ilhas britânicas.
Intrinsecamente ligadas a este percurso histórico, o mítico povo de druidas e feiticeiras de Avalon surge como o reino maravilhoso onde a história se alicerça na mitologia céltica. Mito e História, crença e realidade, sonho e tragédia, guerra e misticismo, são os elementos com que se compõe esta maravilhosa narrativa, capaz de nos fazer sonhar e reflectir sobre os destinos que a humanidade impõe a si própria.
Mas o âmago do maravilhoso é o que está para além de toda a realidade: é o misticismo de uma mitologia baseada na natureza, na terra-mãe. Uma mitologia onde o mundo é Deus e Deus é a Terra, o vento e o mar; onde o Bem emana da terra; onde a paz está ao alcance do espírito.
Avaliação Pessoal: 9/10

sábado, 19 de março de 2011

Desafio

Não costumo (mais por preguiça que outra coisa) aderir a estes desafios mas desta vez achei piada.
Resposta à questão nº1
A Saga de Um Pensador de Augusto Cury (inesquecível)
Resposta à questão nº 2
D. Quixote de Cervantes (um colosso)
Resposta à questão nº3
Guerra e Paz de Leon Tolstoi (um mundo)

Era suposto passar este "desafio" a 10 blogues, mas deixo em aberto a todos os que quiserem entrar na "brincadeira" :).

O blogue que me indicou foi o blogue da Paula http://viajarpelaleitura.blogspot.com/.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Luís Novais

Luís Novais é um escritor bracarense que obteve os seus primeiros êxitos literários com a publicação de dois romances, na Esfera do Caos. Trata-se de Quando o Sol se põe em Machu Pichu e Os Parricidas. Estas obras foram já comentadas neste blogue.
Agora, Luís Novais presenteia-nos com uma obra, a julgar pelo título, bastante diferente: O Heróico Major Fangueira Fagundes, Com Todos os Seus Anexos.
A obra será apresentada no próximo domingo, na Fnac de Braga, às 17.00, pelo professor catedrático Vitor Aguiar e Silva.
O Blogue do autor:

quarta-feira, 16 de março de 2011

Revisitando João de Melo

Às vezes gosto de pegar num livro já lido há muito tempo e folheá-lo vagarosamente, tentando reavivar memórias.
Foi assim que hoje me veio parar às mãos um livro de João de Melo, “O Meu Mundo não É deste Reino”.
João de Melo (cuja obra mais conhecida é Gente Feliz com Lágrimas) nasceu na freguesia de Achadinha, em S. Miguel, nos Açores. E é em Nossa Senhora do Rosário da Achadinha que decorre a narrativa, em que se viaja pela história e pela alma desse povo magnífico que é o povo açoriano, filho de navegadores e aventureiros.
A escrita, fantástica, delicia-nos com uma prosa poética que se afasta do real para o sonho, do tempo real para a imensidão da eternidade, ou do corpo para a alma.
Um livro escrito com sentimento, com a sensibilidade de um filho do povo e da terra.
Para reler.
Opinião sobre o livro aqui.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Cartas a Sandra - Vergílio Ferreira

Paulo (alter-ego do autor) passa os últimos dias da sua velhice escrevendo cartas a Sandra, esposa há muito falecida, recordando a sua vida em comum bem como a sua relação com Xana, a filha que muito cedo abandonou a casa de família.
Trata-se do testemunho pungente, mesmo desesperado de um homem apaixonado a quem faltou vida para desafiar a morte da mulher amada. Para Paulo o tempo estacionara na morte de Sandra. No entanto, o amor perdurou para lá da sua morte, como um espinho cravado no seu coração. À procura de paz na memória de Sandra, Paulo encontra mais e mais sofrimento. Essa memória é sempre incompleta porque é por Sandra, por toda ela que Paulo clama. Pelo seu espírito, pelo seu amor mas também pelo seu corpo e pela sua vida. Assim, o tom melancólico, por vezes quase tenebroso, destas cartas constitui a imagem acabada da solidão; uma imensa solidão.
Cartas a Sandra constitui, por outro lado, um documento importantíssimo para compreender a personalidade do autor, na sequência do romance auto-biográfico Para Sempre. Assinadas por Paulo, elas são o retrato de uma vida sofrida pela perda dos pais na infância, os anos promissores da universidade, na idade de todas as esperanças, mas também, mais tarde, o abandono por parte da filha, Xana, e a morte trágica de Sandra. Restou uma imensa solidão que marcou os seus últimos dias.
Depois de tudo (da morte até) restou o amor; mas um amor sofrido e excessivo:
“havia em ti divindade bastante para estar certo o que me doesse”…
Avaliação Pessoal: 7.5/10

sábado, 12 de março de 2011

Nação Crioula - José Eduardo Agualusa

Mais um belo livro deste grande escritor, narrador e “poeta” do encanto africano.
O título é herdado de um navio que existiu realmente, um barco negreiro que transportava escravos capturados em Angola para os canaviais brasileiros.
Nesta obra, Agualusa recupera essa magnífica personagem criada por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão que é Fradique Mendes, imaginando-o a escrever uma série de cartas ao próprio Eça, à sua madrinha Madame Jouarre e à mulher amada, a encantadora negra ex-escrava Ana Olímpia. É através dessa correspondência que Fradique, um abolicionista bon-vivant viajante e humanista, descreve as “façanhas” dos pérfidos comerciantes negreiros que ainda prosperavam em Angola nos anos 70 e 80 do século XIX.
Num tema que Agualusa desenvolve em outros livros, fala-se da miscigenação em Luanda; dos portugueses que lá foram parar como desterrados, condenados pela justiça lusa e acabaram por encontrar em Angola terreno fértil para grandes oportunidades de enriquecimento, à custa do sangue, suor e lágrimas dos negros. Fala-se também dos negros que aproveitaram para trair o seu povo colaborando com estes oportunistas. E fala-se, sempre, desta estranha atracção por África, onde a missão civilizadora que os brancos defendiam não é mais do que um acto de dominação, oportunista e cruel. Diz Fradique: “Desgraçadamente, Portugal espalha-se, não coloniza. Somos assim, enquanto nação, uma forma de vida mais rudimentar que o bacilo de Koch. Pior: uma estranha perversão faz com que os portugueses, onde quer que cheguem, e temos chegado bastante longe, não só esqueçam a sua missão civilizadora, isto é, colonizadora, mas se deixem eles próprios colonizar, isto é, descivilizar, pelos povos locais.” (página 130).
Fala-se ainda da aberração histórica que foi a escravatura, abençoada por Deus, ou melhor, por quem as suas vezes quis fazer; e no meio de tudo isto a paixão de Fradique Mendes por Ana Olímpia.
Em suma, um belo livro, que se lê sem nenhum esforço, numa linguagem simples e por vezes divertida, por mais trágico que seja o assunto. Talvez esta aparente descontracção no tratar do tema se explique pela familiaridade com que o povo africano se habituou a lidar com o sofrimento e a injustiça, numa História de Portugal que, neste aspecto, mais não é do que a história da injustiça e da crueldade.
Imagem retirada daqui
Avaliação Pessoal: 9/10

quinta-feira, 10 de março de 2011

Inês de Castro - Maria Pilar Queralt del Hierro

A lenda (e/ou a história) de Inês de Castro contada por uma escritora espanhola. Foi a curiosidade por conhecer uma versão castelhana que me levou a ler este livro. E em boa hora o fiz. Depois de tantas vezes contada, era difícil fazer algo diferente sem fugir à realidade histórica e à “verdade” que a lenda perpetuou. Mas Queralt del Hierro” consegue-o de forma muito interessante.
O que mais me encantou nesta forma de contar a história foi o facto de a autora ter incidido toda a narrativa no papel feminino.
Na minha opinião, a melhor narrativa desta lenda foi feita por João Aguiar (Inês de Portugal) e nessa obra, o grande romancista português centra todo o enredo na figura do rei D. Pedro, na sua paixão violenta, no seu carácter justo mas irascível e na amizade com o seu escudeiro Afonso Madeira.
Esta escritora espanhola, pelo contrário, escolhe para epicentro da história a relação de amizade entre D. Constança e Inês; uma amizade pura e intensa que, de facto, não havia sido suficientemente esmiuçada pelas versões portuguesas. Esta análise chega a ser de uma profundidade psicológica notável, recuando até à infância das duas para melhor explicar as paixões que haveriam de determinar os seus destinos.
D. Constança é vista neste livro como uma verdadeira heroína que manteve até ao fim a fidelidade a uma amizade de infância. Só isto explicaria um dos grandes enigmas que a lenda deixara em aberto: porquê o interesse permanente de D. Constança em ter Inês perto de si, mesmo sabendo da paixão que esta nutria pelo seu esposo, paixão aliás correspondida? Na verdade, só a amizade justificaria tal conduta.
Mas a incidência deste livro no feminino não fica por aqui: é interessante verificar como a autora encara as freiras de Santa Clara como verdadeiras heroínas do amor ao condescender com o amor carnal que Pedro dedicava a Inês, pactuando com os seus encontros escaldantes em plenos aposentos do convento.
Um outro aspecto interessantíssimo é a forma como Del Hierro introduz na história Teresa Lourenço (a última paixão de D. Pedro, após a morte de Inês). Esta mulher viria a ser a mãe do grande herói da história de Portugal que foi o rei D. João I, Mestre de Avis) e entra nesta narrativa como uma autêntica heroína, ao lado do rei justiceiro.
Em suma, trata-se de uma versão original e muito interessante de um dos temas mais encantadores da História de Portugal. Vale a pena ler, se bem que esta edição de 2004 já ande um pouco perdida pelas estantes mais recônditas das livrarias. É pena…
A Belíssima imagem acima reproduzida foi copiada daqui
Avaliação Pessoal: 8.5/10

terça-feira, 8 de março de 2011

O Grande Gatsby - 3 edições, 3 sentenças

O Jornal das Letras dá-nos conta de um facto muito curioso: três editoras decidiram lançar, quase ao mesmo tempo, reedições de O Grande Gatsby: Clube do Livro, Presença e Publicações Europa-América. Isto tem uma explicação: neste ano a obra entra em domínio público, o que facilita imenso a publicação e aumenta os lucros.
Mas o que me faz escrever este texto é a forma tão diferenciada como, segundo o JL, esta obra é apresentada nas três edições:
Na edição do Clube do Livro, o prefaciador (Pinto Balsemão) destaca no livro “o devido lugar ao amor, aos sentimentos e aos enganos que ele provoca”
Na versão da Presença, na contracapa diz-se que este livro é “o mais expressivo retrato da era do Jazz”.
E na Europa-América a obra é encarada como uma sátira ao sonho americano e aos turbulentos anos 20.
Quer dizer: três interpretações completamente diferentes.
E o que há de encantador nisto é que são 3 interpretações absolutamente verdadeiras. É este o encanto da grande literatura: cada leitor com o seu olhar, como se um livro fosse um quadro de Kandinsky ou de Picasso.
É por isso que continuo a afirmar: a literatura é liberdade!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Manhãs Gloriosas - Diana Peterfreund

Myzon.tv é um canal da grelha digital da Zon. É o canal zen da Zon. A programação é algo peculiar: uma câmara filma uma paisagem natural, por exemplo uma praia deserta numa ilha tropical onde nada acontece a não ser o soprar do vento e um ou outro pássaro de passagem. O telespectador pode escolher, para acompanhar a imagem, uma música relaxante, os sons naturais ou um texto zen lido numa voz suave. O livro Manhãs Gloriosas fez-me lembrar este canal de televisão. Porquê? Porque nada acontece. Nada.
Não se deduza da comparação que acabo de fazer que o referido canal da tv cabo é uma inutilidade sem interesse. Pelo contrário; o que se pede a um canal zen é que seja mesmo assim: feito de paz e sossego. Mas a um livro pede-se exactamente o contrário: que perturbe os espíritos, que transmita ideias inquietantes e faça o coração bater mais depressa. Neste livro não acontece nada disso; apenas páginas e mais páginas de diálogos estéreis, acontecimentos banais e ideias ocas. Ia dizer que o enredo está cheio de clichés. Ia dizer asneira. A verdade é que o livro todo é um imenso cliché. Um lugar-comum gritante, feito da história mil vezes contada da jornalista incompreendida que é despedida injustamente, sendo posteriormente contratada por outra empresa onde faz um sucesso enorme, após ter enfrentado colegas invejosos e traições de telenovela. Para completar o ramalhete não podia faltar a paixão assolapada pelo jovem brilhante e encantador, o príncipe encantado das estórias cor-de-rosa.
Trata-se de um romance tipicamente americano, escrito para entreter pessoas pouco exigentes na leitura, que exijam coisas bem simples e lineares. Não há uma única ideia original, não há um único traço que distinga este livro dos mais vulgares romances de cordel. Antes de virar cada página podemos facilmente tentar adivinhar o que vai acontecer a seguir e acertamos sempre.
No entanto, nem tudo é mau neste livro: ele tem uma qualidade muito apreciável como entretenimento; lê-se sem qualquer esforço e muito depressa. Podemos até distrair-nos durante várias páginas que voltamos a “apanhar o fio à meada” sem qualquer dificuldade. Este livro pode até ser muito útil naquelas fases em que precisamos de descansar o espírito. Aqui chegado o meu raciocínio até descubro que, no fundo, pode cumprir a mesma função do canal zen; podemos ler o livro como quem vê uma paisagem agradável. Porque no fundo a “paisagem” do livro até é engraçada: conseguimos imaginar uma mulher bonita que produz um programa de televisão, apresentado por uma outra mulher bonita com um encantador mau génio e um jornalista da velha guarda que imaginamos como uma espécie de Mário Crespo. O problema é que não saímos disto a não ser no final feliz que todos prevemos e esperamos desde as primeiras páginas.
Avaliação Pessoal: 5/10
Mais opiniões na leitura conjunta do Destante, aqui

domingo, 6 de março de 2011

O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón

Depois de A Sombra do Vento, neste livro, Zafón volta à Barcelona dos anos 20 para nos contar a história de Daniel Martin, um jovem escritor a quem um misterioso editor (Corelli) encomenda um livro que pretende fundar uma nova religião. Mas a encomenda será apenas o ponto de partida para uma intrigante sequência de descobertas e mistérios em que Martin se vê envolvido. A intriga leva-o de novo ao encantador Cemitério dos Livros, um locar de refúgio dos livros perdidos que já nos tinha sido apresentado em A Sombra do Vento.
A par desse enigma, o nosso herói defronta um desafio terrível: o seu protector e amigo (Don Pedro Vidal que o tirara da miséria) apaixona-se pela sua amada. O romance não podia faltar e Zafón não resiste ao cliché. Mas não se pense que a intriga romântica retira interesse ao livro; pelo contrário, a escrita jornalística e cinematográfica de Zafón agarra-nos até ao fim do livro mau grado as suas 570 páginas.
Embora não seja um livro de grandes ideias ou reflexões, é uma obra que nos presenteia com alguns aspectos muito interessantes: o enigmático personagem Andreas Corelli é-nos apresentado como um ser ambivalente, uma espécie de anjo que tanto pode ser negro como branco; Deus ou o Diabo, duas faces da mesma moeda.
Outro aspecto interessante desta obra é que o suspense, o mistério, reside mais nas atitudes e na dimensão mental dos personagens do que em acções do acaso ou de circunstância; tudo se passa como se o mundo dependesse apenas das interpretações que fazemos do real e não do real em si. A vontade humana e as suas interpretações do mundo comandam, em última análise, todo o desenrolar dos acontecimentos.
Tal como acontece em A Sombra do Vento, tudo se desenrola em torno dos livros. É a escrita de um livro que despoleta todos os mistérios, se bem que, mais uma vez, Zafón deixa que o enredo vá desembocando invariavelmente em crimes sangrentos, dando à obra algum aspecto de “dramalhão” que, a meu ver, não a beneficia.
O aspecto mais original e interessante desta obra é, na minha opinião, o toque de fantástico que Zafón dá ao enredo. Pessoalmente, não sou adepto da literatura fantástica. Mas aqui o fantástico é integrado na perfeição nos comportamentos e atitudes humanas e não retira humanismo ao enredo. Pelo contrário: o misticismo e a fantasia são determinados pela mente humana; pelos seus dramas e medos; pelos sonhos, em última análise.
Em suma, trata-se de uma obra que se lê com facilidade, que diverte. Afinal de contas, que mais podemos pedir a um livro?
Avaliação Pessoal: 8.5/10

sexta-feira, 4 de março de 2011

Os Filmes da Minha Vida

“As Asas do Desejo”, de Wim Wenders.


O primeiro filme que me marcou, na idade das borbulhas, foi este filme alemão, que já procurei por todo o lado em DVD e não encontrei. Recordo-o como um filme extremamente poético e além dessa memória vaga, apenas me resta a certeza de ter adorado o filme. Restam também dois trechos no Youtube:

O trailler:



E esta monumental declaração de amor:





“Amadeus”, de Milos Forman

Também nos anos 80, vi e deliciei-me com esta maravilha. Um filme portentoso que explora da melhor maneira o génio musical e a vida atribulada de Mozart:




Cinema Paraíso

Este filme é um marco na minha vida. Por todos os motivos e também pelos que são apenas meus. Um filme que não consigo descrever por palavras vulgares:




A Vida é Bela, de Roberto Benigni

Nunca ninguém imaginou como possível que se contasse a história do Holocausto num filme cómico. Trata-se de um filme genial porque consegue contar uma história trágica, mantendo um sorriso. Um filme sobre uma catástrofe monstruosa e que é, ao mesmo tempo, um sopro de esperança e um motivo para manter o sorriso. É aí que reside a sua genialidade.





Bom dia Vietnam

Outra tragédia, outra comédia. Agora com uma intepretação monumental de Robin Williams. Inesquecível!




A Vida de Brian

Este filme é, para mim, a melhor comédia de todos os tempos. Um filme divertidíssimo sobre um assunto muito sério. Dos inesquecíveis Monty Python:





Feios, Porcos e Maus

Mais uma comédia, esta no impagável estilo realista italiano, de mestre Ettore Scola: a pobreza, a miséria extrema, a injustiça… e um sorriso sarcástico.





O Nome da Rosa

Na minha opinião, o livro de Umberto Eco é um dos melhores romances históricos da literatura mundial. E o filme, de Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery, é o único caso que recordo em que gostei ainda mais do filme que do livro. Acho que isto diz tudo.





O Fantasma da Ópera

Este filme de Joel Schumacher foi, para mim, uma descoberta recente. Fiquei literalmente apaixonado por esta maravilha. Pela música, pelo encanto da cantora, pelo enredo, pela beleza em geral…





Outros filmes que adorei: Magnólia, Gandhi, Os Amigos de Alex, O Fabuloso destino de Amelie, Zorba o Grego, O Exorcista, o Carteiro de Pablo Neruda, Che…

quinta-feira, 3 de março de 2011

Alteração do nome do Blogue

Como sabem, há uma revista intitulada "Os Meus Livros". Para evitar confusões decidi alterar o nome do meu blogue, se bem que este seja mais antigo do que a dita revista. Seja como for, admito que a mudança de nome lhes desse um pouco mais de trabalho :)

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Melhor Leitura de Fevereiro

Foi um mês pouco produtivo em quantidade mas muito bom em qualidade.
O pequeno livro de Luís Sepúlveda, muito autobiográfico, quase intimista, é uma leitura divertida e sentida. Um livro agradável e que nos ensina muito sobre a América do Sul e sobre as lutas que o autor travou pela justiça social e pela ecologia.
Melhor ainda, na minha opinião é Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Um livro triste, muito triste mesmo, mas terrivelmente real. Uma escrita profunda, poética e filosófica.
Mas o melhor mesmo, foi uma bela surpresa: um escritor para mim desconhecido, espanhol de nascimento radicado no Canadá, chamado Yann Martel. O livro é A Vida de Pi. Um livro absolutamente fantástico. Uma história comovente e emocionante.