segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Servidão Humana - Somerset Maugham


Sinopse:
Publicado em 1915, "Servidão Humana" é a obra-prima de Somerset Maugham, considerado um dos maiores técnicos do romance e estilista da língua inglesa. Este livro conta a história de Philip, alter-ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade e fruição dos prazeres que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Mas todos os seus planos são frustrados quando se apaixona loucamente por uma jovem camareira de origens humildes.

Comentário:
Viagem às profundezas da alma humana, às catacumbas do conservadorismo britânico e às razões mais remotas da construção que fazemos da infelicidade. Philip viveu em função da liberdade até se escravizar a ela. A vida só poderia ser vivida de forma absolutamente livre. Essa seria a sua condenação. Iria Philip ter ainda oportunidade de escapar a esta prisão? Caminhamos até ao final das 541 páginas de letra miudinha para obter a resposta; mas não se pense que esta viagem de 541 passos é uma jornada penosa; pelo contrário, é uma leitura agradável e divertida tal é a forma singela e objetiva como Maugham escreve.
“Um homem que morre pela Pátria morre porque sente prazer nisso, da mesma forma que um homem come picles porque os aprecia”. Este hedonismo radical, enunciado pelo personagem Cronshaw é o extremo da liberdade.
Liberdade e felicidade são dois conceitos frequentemente incompatíveis; somos livres de procurar as situações mais gratificantes possíveis; isso leva-nos, no entanto, a uma busca interminável em que acaba por se transformar a própria vida. A liberdade de procurar ser feliz faz com que a procura se eternize. E quase nos esquecemos de viver.
Antes de Maugham talvez apenas Dostoievski tenha explicado tão bem a forma como o ser humano precisa de ser servo. E se não tem um “senhor” a quem dedicar essa servidão, então torna-se servo dele próprio. Philip tornou-se servo da sua própria liberdade, portanto, das suas próprias decisões, tantas vezes escravizadores e conducentes, afinal… à desgraça; à infelicidade.
Na parte final do livro, finalmente, Philip confronta-se com ele mesmo e não com o seu futuro. Ao mesmo tempo dá conta da realidade social que o rodeia – da miséria com que se vive na Londres civilizada do século XX.
O grande problema de Philip era “a paixão de viver no futuro”; o futuro e a liberdade por oposição ao amor e ao presente. Estas duas dualidades resumem os conflitos emocionais de Philip e, talvez, os grandes conflitos de qualquer alma humana. Talvez o sentido da vida de encontre algures entre o amor e a liberdade…
Por outras palavras... um dos melhores livros que li até hoje.

domingo, 23 de setembro de 2012

Brasil - John Updike


Sinopse:
Tristão Raposo é um jovem negro de 19 anos que vive nas favelas do Rio de Janeiro. Isabel Leme é branca, tem 18 anos e é filha de um diplomata importante. Quando se vêm pela primeira vez, na praia de Copacabana, percebem que foram feitos um para o outro e fogem para poderem viver juntos. A fuga leva-os numa série de desventuras através das regiões mais remotas do país e do lado mais obscuro do Brasil. Relatando a trágica trajetória destes amantes, da paixão imprudente à prostituição, da falsa segurança à morte irónica e brutal, Updike descreve o Brasil das últimas três décadas mostrando um país que vive num caos económico e social com uma gigantesca disparidade entre ricos e pobres. Em cenários tão variados como o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Dourados e Mato Grosso, é natural que a ação enverede por uma vertente de realismo mágico que só John Updike poderia tão bem utilizar.

Comentário:
Nunca tinha lido nada deste conceituado escritor, mas devo dizer que não me convenceu. É claro que este é considerado um dos livros menos famosos deste escritor; talvez a s suas obras primas sejam mais interessantes. Mas surpreendeu-me negativamente o imenso cliché em que cai a obra: uma abordagem do país como se este fosse um imenso exagero. Para Updike, o Brasil é o exagero. Qualquer situação humana, qualquer emoção, qualquer sentimento, se o exagerarmos, se o tornarmos quase inconcebível, então estamos no Brasil. Parece ser este o pensamento de Updike.
Talvez a minha leitura seja demasiado simplista, ma o que este livro me deixou foi um profundo desagrado perante a imagem que transporta do belíssimo país que deu título ao livro.
A própria história do casal Tristão e Isabel (referência à lenda europeia medieval de Tristão e Isolda) é um imenso cliché – o rapaz da favela, pobre e quase selvagem que se apaixona pela requintada burguesazinha, a menina ingénua que não mais o será depois de se apaixonar pelo malvado mas irresistível Tristão. Depois, juntos enfrentarão as situações mais inacreditáveis que se possa imaginar: desde assassinatos numa mina de ouro onde eles procuram fortuna até inimagináveis viagens pela floresta amazónica onde não faltam índios tirados da carta de Pero Vaz de Caminha e garimpeiros muito malvados, capazes de matar e esfolar qualquer incauto que se distraia ao longo do Amazonas.
Pode advogar-se que Updike demonstra uma fertilíssima imaginação. Isso é verdade; as situações criadas não inimagináveis por uma mente comum. Mas a imaginação desmedida facilmente conduz à inverosimilhança. É o que acontece neste livro. Tudo é exagerado. Tudo é demasiado incrível para que o nosso cérebro possa aceitar este enredo sem a inevitável sensação de impossibilidade.  

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Conspiração de Catilina - John Maddox Robert


Sinopse:
No seguimento do primeiro volume da serie SPQR, o lance do rei, John Maddox Robert com "A conspiração de Catilina" transporta-nos de novo às profundezas das conspirações romanas. Grupos de criminosos controlam as ruas assaltando indiscriminadamente patrícios e plebeus. As atrozes mortes de um antigo escravo e de um mercador estrangeiro na perigosa zona de Subura parecem não ter quaisquer consequências para a hierarquia romana, mas Décio Cecílio Metelo, o novo, não pensa dessa maneira. Contrariando a apatia oficial, subornos descarados e ameaças brutais, Décio vai pôr a nu a corrupção que grassa nos mais altos escalões do governo e faz perigar toda a estrutura político-social e a sua própria vida. As ruas estão empapadas com o sangue de cidadãos assassinados, e os rumores que circula apontam para mais atrocidades. Décio Cecílio Metelo, o Novo, investigador, está convencido de que há uma conspiração cujo objetivo é derrubar o governo - uma cabala sinistra que só pode ser destruída de dentro. Mas a entrada na sociedade traidora sai cara a Décio: a vida do seu melhor amigo e possivelmente a sua.

Comentário:
Este romance histórico apresenta-nos uma leitura historicamente credível do famoso processo que deu origem às Catilinárias (célebres discursos em que o senador Cícero desmascarou a traição levada a cabo por Catilina). Catilina era o nome do chefe de uma revolta na Roma dos últimos tempos da República Romana. Viviam-se tempos difíceis em virtude dos diferentes partidos que se haviam formado vinte anos antes, durante as guerras civis entre Mário e Sila (ou Sula, segundo algumas traduções).
De uma forma um pouco simplista, Maddox associa os partidários de Sila à velha aristocracia e os de Mário aos populares; no entanto, a gravidade da conjura não tinha tanto a ver com as referências históricas destes partidos mas apenas e só com as ambições políticas desmedidas de alguns políticos romanos. Na verdade, Catilina é-nos apresentado aqui como um misto de herói e vilão. É esta ambivalência e a forma como é gerida pelo autor que constitui o aspeto mais interessante do livro. Até que ponto Catilina foi apenas um “peão” nas guerras políticas onde os verdadeiros líderes não deram o rosto? Este ponto leva-nos a uma interessante reflexão sobre a natureza do poder político: muitas vezes nós, os cidadãos comuns, nada sabemos sobre as verdadeiras intenções e até sobre a identidade dos mais poderosos.
Da mesma forma que Catilina nos é mostrado como uma espécie de herói (ou, no mínimo, de vítima), também o seu acusador, Cícero, não é aqui visto como o herói, o político brilhante que desmascarou a traição, mas apenas como mais um político ambicioso que, ao acusar Catilina, não demonstrou a coragem suficiente para procurar os verdadeiros culpados.
Certo é que a conspiração de Catilina e toda a confusão que gerou veio a dar justificação para o período de ditadura de Júlio César, ou por outras palavras, à queda definitiva da república romana, dando lugar, em definitivo, à autocracia.
Ficamos pois, com esta lição da história: Catilina ou Cícero, pouco importa, os homens destruíram a democracia ou o que dela restava para justificar o poder discricionário de um homem.



domingo, 9 de setembro de 2012

Amor e Liberdade de Germana Pata-Roxa - Fernando Évora



Sinopse:
As histórias que neste livro se contam, aparentemente sem conexão entre si, unem-se num final surpreendente. A linguagem é despretensiosa e simples, mas polvilhada de ironia (faz lembrar Eça de Queiroz, sem dúvida). Os personagens são únicos, autênticos e tendencialmente queirosianos — gente comum, com as suas fraquezas e vícios, e com a grandiosidade dos seus sonhos. Os enredos absorvem-se de um fôlego e a narrativa, descomplicada, revela grande humanismo (faz lembrar, agora, o que de melhor a literatura sul-americana nos oferece). Enfim, histórias que divertem pelo que têm de caricato e inesperado, mas que deixam uma réstia de inquietação no leitor, que inevitavelmente há-de rever-se em muitas delas, eis o que encontramos nesta obra.

Comentário:
A literatura portuguesa está cheia de olhares nostálgicos e entristecidos para o passado; este livro, pelo contrário, abre com um olhar nostálgico e entristecido para o futuro. É um olhar revoltado para um futuro onde as empresas controlam os indivíduos, roubando-lhes o sonho e até o sono; um mundo que é uma espécie de utopia invertida…
No entanto, este primeiro conto, uma espécie de exercício de ficção científica, rapidamente dá lugar a outros tons, bem mais coloridos.
No pós 25 de Abril, Fernando não passa de uma criança mas assume-se como comunista; vermelho como o Benfica. Na idílica Zambujeira do Mar assistimos à volta à Zambujeira em caricas e outras matreirices pueris, cheias de imaginação e humor.
A escrita de Évora sabe a terra. Sabe a povo. O estilo, claro, límpido, permite-nos viajar com ele ao correr das linhas, numa espécie de encenação que cada página compõe, como se se tratasse de um filme.
Numa época em que a literatura portuguesa está pejada de escuridão, de personagens sombrias que ilustram visões negras do mundo, é bom saborear uma obra como esta, em que as personagens respiram a bondade humana, o lado solar da vida.
Por detrás de cada personagem há um ser humano completo, pleno de futuro. Até os “mesquitosos” – uma espécie herdeira dos antigos bufos da PIDE, de denunciadores e que vivem à custa da miséria alheia. Trata-se de um tipo de ser humano algo peculiar que, nestes tempos de União europeia se dedica à vilanagem que por aí vemos. Apetece dizer que Portugal está cada vez mais cheio de “mesquitosos”. Digo eu. Mais requintados que os do livro, é claro… sim, porque no livro, ser mesquitoso é muitas vezes mais uma questão de aparência e, nesse caso, a condenação popular é fatal mesmo que tal condição seja apenas virtual. O preconceito faz entrar em cena a xenofobia, disfarçada de justiça.
Um dos aspetos mais interessantes deste livro é um verdadeiro encantamento que a escrita nos provoca por via do uso da linguagem popular, se bem que muito cuidada, divertida, clara e cheia de sentido de humor. Mas o humor, aqui, não é um mero recurso estilístico; é quase uma filosofia de vida – é uma forma de encarar o mundo que, decididamente, nos deixa mais felizes.
Na verdade poucos como Fernando Évora conseguem exprimir este espírito positivo sem prescindir do espírito crítico e de uma certa “intervenção social”, em que Évora não deixa de apontar os grandes males deste viver português.
Num tempo tão cinzento como o que agora vivemos faz bem ler um autor que, imagino, escreve com um sorriso igual àquele que nós estampamos no rosto quando lemos o livro. São 128 páginas que passam a voar, que se folheiam, saboreiam e digerem com um prazer requintado. E que nos deixam, ainda assim, com um imenso apetite para mais…
Serão sempre possíveis o amor e a liberdade. É com esta mensagem bem positiva que percorremos o último capítulo, um texto deveras surpreendente, em que o autor envereda, de forma genial por um “tête-à-tête” com o leitor, num enredo cheio de criatividade e em que vários personagens, provenientes dos diversos contos, se encontram neste grande final, num desfecho em que os livros são o mote e a liberdade o tema.
Para terminar gostava apenas de dizer ao narrador que é este o valor da ficção: dar à vida o tom de esperança e de sonho que não existe na realidade. Para que o faça saber ao Melguinha.
E não é com o tom sóbrio das últimas frases que Fernando Évora engana a verdade que explanou ao longo da obra: todo o livro é o retrato positivo da vida. 
O amor e a liberdade são inexoráveis como a Primavera de Neruda. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas


Sinopse
Alexandre Dumas teceu as suas ficções sobre uma trama do século XVII, misturando personagens reais das mais altamente colocadas com personagens imaginárias, conseguindo colocar uma e outras no panteão dos imortais. A sua inspiração faz agir e falar o monarca absoluto Luís XIII e o temível cardeal Richelieu, Ana de Áustria e Buckingham, reviver toda uma época em que se sucedem as aventuras dos seus heróis, D' Artagnan, Athos, Porthos, Aramis e essa fascinante Milady, à volta da qual a acção se desenrola com inegável poder dramático. Gerações de leitores renderam-se a esta obra brilhante. E hoje, passado mais de uma século, o livro conserva todo o seu interesse e continua a ser adaptado ao cinema, televisão e mesmo a desenhos animados, transformando esta numa verdadeira obra para todas as idades.

Comentário:
Escrito em 1844 e baseado em acontecimentos históricos do início do séc. VXII, Os Três Mosqueteiros é considerado um dos primeiros grandes sucessos ao nível do romance histórico. Publicada, como era costume na época, em folhetins, esta obra é um romance de capa e espada que encantou e encanta sucessivas gerações.
Esta é a magia da literatura a que alguns chamam de juvenil. Erradamente, na minha opinião, porque a grande literatura não escolhe idades; e os romances de aventuras também podem ser obras-primas.
Este é, na minha opinião, um livro portentoso. Só uma obra-prima deste quilate é capaz de proporcionar ao leitor tal evasão, tal fuga para os píncaros do sonho. É um livro que se lê devorando páginas e leitor nenhum se intimida ou se deixa vencer pelas mais de seiscentas páginas.
Mas que espécie de magia tem então este livro? Um livro genial é aquele que ultrapassa o seu género; um romance histórico que se limite ao género, ou seja, que não passe de um romance histórico, será uma obra banal. Um grande romance histórico, como este, é muito mais que isso e muito mais que um romance de aventuras; é uma inquietante reflexão sobre a natureza do poder político e sobras as fragilidades da alma humana; de como o poder e, consequentemente, a vida de todo um povo, dependem das vontades individuais, mas também dos caprichos e jogos de interesses, por vezes pérfidos. Mas, ao mesmo tempo, é um livro onde se traça uma enorme homenagem à honra, à coragem, aos valores humanos e à força da amizade. Não se pense, no entanto que os mosqueteiros são apresentados como homens perfeitos; nem o Cardeal Richelieu é retratado de forma tão pérfida como certas adaptações da obra nos levam a crer, nem os mosqueteiros são desprovidos de defeitos: Athos é dependente do álcool, Porthos é um brutamontes, D’Artagnan é um “pinga-amores”.
Mas este livro, como bom romance histórico que é, revela-nos também um cenário bem construído da França do início do século XVII, martirizada por absurdas guerras religiosas que haveriam de atravessar todo o século provocando milhares ou talvez milhões de mortos absolutamente inocentes. Por outro lado é também o testemunho das inacreditáveis diferenças sociais que colocavam a Igreja e a Nobreza acima de todos os comuns mortais, criando situações de injustiça que todos, pobres e ricos, aceitavam sem questionar.
Aliás nota-se em Alexandre Dumas um certo anti clericalismo, típico também daqueles tempos pós-revolucionários que se viviam em França. A religião é apenas um pretexto para que os seus líderes e os dirigentes políticos ponham em prática os seus planos de poder. Por exemplo, o cerco de La Rochelle, acontecimento central neste livro, é visto como um ato político e não religioso. Em causa estava mais a guerra e a rivalidade com Inglaterra do que a questão entre Huguenotes e católicos que, oficialmente, conduziu a uma verdadeira carnificina.
Em conclusão: não considero que haja livros de leitura obrigatória para quem gosta de ler. Mas se tal lista existisse, esta obra teria obrigatoriamente de lá constar.



domingo, 2 de setembro de 2012

A melhor leitura de Agosto: L'Empire des Larmes - Le sac du palais d'Étè

Num mês absolutamente dramático em termos pessoais, as leituras não foram muitas nem de qualidade excepcional.
Alguns dos livros lidos neste pouco querido mês de Agosto foram mesmo dececionantes, com destaque para dois espanhóis: um pouco amado pela crítica mas que aprecio bastante foi talvez a maior deceção do ano: Carlos Ruiz Zafón em O Prisioneiro do Céu; o outro é um "menino querido"dos críticos: Enrique Vila-Matas. Eu nunca tinha lido nada dele e... detestei este conceituadíssimo Dublinesca. É mesmo um livro para crítico ler. Ou fingir que lê.
Pelo lado positivo, dois livros que sem serem geniais são de leitura muito interessante e agradável: Ravelstein, de Saul Bellow, Revolutionary Road, de Richard Yates e, principalmente este divertido Saque do Palácio de Verão, do francês José Frèches.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Prisioneiro do Céu - Carlos Ruiz Zafón


Sinopse
Barcelona, 1957. Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas. Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria de Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.
 Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração de o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Comentário:
A saga Cemitério Dos Livros Esquecidos começou com A Sombra do Vento, continuou com O Jogo do Anjo e agora com este Prisioneiro do Céu. Na minha opinião começou de forma brilhante, com uma obra magistral dentro do género, continuou com um livro um pouco mais frágil, com uns toques de fantástico algo estafado e aparece agora com uma obra nitidamente falhada.
Foi, para mim, uma tremenda deceção, este livro. Evidentemente, porque quem sabe não esquece, continua a ser uma escrita muito agradável, a de Zafón. No entanto, o livro dececiona pelo enredo frágil, pouco trabalhado, demasiado simplista e linear, pela ausência quase total daquela emoção, daquela incerteza que caraterizou o primeiro livro e até pela fraqueza em que caiu essa personagem fortíssima que considero ser Fermin.
Resta, é certo, o encanto do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas até esse espaço místico só aparece no final do livro.
Reta também a continuação de um excelente testemunho histórico desse acontecimento fulcral da história da Europa que foi a guerra civil de Espanha: a crueldade e a estupidez do regime fascista, um regime assassino, absurdamente violento sobre os próprios espanhóis, de um ditador amigo de Salazar, o general Franco.
Em conclusão: tendo em conta a qualidade de escrita de Zafón e a qualidade dos volumes anteriores, não esperava uma obra tão insípida como esta. Foi, para mim, talvez a deceção do ano.

sábado, 25 de agosto de 2012

José Frèches - L'empire des larmes - Le sac du palais d'Été

Sinopse:
Dans les pavillons et les jardins de la Cité interdite, une rumeur court : la " Sibérienne " est de retour à la Cour et l'empereur Daoguang est retombé dans les filets de cette sublime étrangère. Elle est venue réclamer le fils né de sa liaison avec le souverain, dix-huit ans auparavant, et qu'on lui a arraché à la naissance. Cet enfant, c'est La Pierre de Lune qui, parfaitement ignorant de son illustre origine, cherche désespérément la jeune Anglaise dont il est tombé amoureux. Trouvera-t-il son âme soeur dans ce pays assiégé par les Occidentaux ? Saura-t-il forcer le destin dans la fureur qui s'annonce et conduira inexorablement au saccage du magnifique palais d'Eté, joyau de la Chine impériale?

Comentário:
Penso que ninguém exceto José Frèches conseguiu de forma tão brilhante transmitir todo o encanto e todas as misérias dessa civilização milenar que é a China. Traqta-se de um mundo que, por tão distante e diferente se nos afigura sempre como uma espécie de mundo encantado.
Neste volume Frèches aborda do período entre as duas Guerras do Ópio, em meados do século XIX, em que os países europeus, principalmente França e Inglaterra procuram a China como um território a explorar ao máximo, nem que seja à custa de lhes fornecer o ópio com que os chineses se torturam e matam a eles próprios.
Por outro lado, protestantes e católicos rivalizam entre si, disputando os chineses não só como almas mas também como fontes de recursos a conquistar. A ambição material e a ambição de poder andam sempre a par e sobrepõem-se claramente à vontade de evangelizar e proteger os autóctones. Estes vivem mergulhados na miséria e na ignorância. Assim os formou o poder político imperial: submissos e humildes. Mas também não foram os europeus capazes de acabar com esta miséria. Nem lhes interessava tal coisa.
Profundo admirador do Budismo e das tradições ancestrais do povo chinês, Fréches escolheu para título desta obra um acontecimento que só é descrito na parte final do livro; no entanto, a pilhagem e destruição do palácio de Verão, por parte dos ingleses, simboliza toda uma história de destruições e humilhações perpetradas pelos europeus, principalmente ingleses, sobre os povos orientais, de quem se pretendia apenas a exploração e o lucro. O negócio do ópio é um exemplo flagrante; ele era perfeitamente legal, praticado às claras por fidalgos e comerciantes “honrados”, mesmo sabendo-se que os pobres viciados chineses viviam em condições degradantes e morriam de forma atroz, mergulhados na dependência.
Enfim, um livro que se lê de forma muito agradável, que nos permite compreender e admirar esta civilização que se hoje é tão temida e admirada, foi durante séculos espezinhada e torturada por um colonialismo egocêntrico e materialista que se arrastou até ao século XX. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Revolutionary Road - Richard Yates


Sinopse:
O primeiro romance de Richard Yates, Revolutionary Road, tornou-se um clássico logo após a sua publicação em 1961. Nele, Yates oferece um retrato definitivo das promessas por cumprir e do desabar do sonho americano. Continua hoje a ser o retrato da sociedade americana. Um casal jovem e promissor, Frank e April Wheeler, vive com os dois filhos num subúrbio próspero de Connecticut, em meados dos anos 50. Porém, a aparência de bem-estar esconde uma frustração terrível resultante da incapacidade de se sentirem felizes e realizados tanto no seu relacionamento como nas respetivas carreiras. Frank está preso num emprego de escritório bem pago mas entediante e April é uma dona de casa frustrada por não ter conseguido seguir uma promissora carreira de atriz. Determinados a identificarem-se como superiores à crescente população suburbana que os rodeia, decidem ir para a França onde estarão mais aptos a desenvolver as suas capacidades artísticas, livres das exigências consumistas da vida numa América capitalista. Contudo, o seu relacionamento deteriora-se num ciclo interminável de brigas, ciúmes e recriminações, o que irá colocar em risco a viagem e os sonhos de auto-realização.

Comentário:
Mau grado a aparência algo “pirosa” da capa desta edição, este é um livro interessante.
É um livro sobre liberdade, sobre projetos adiados mas que iluminam uma vida. April e Frank queriam remar contra a maré; sonharam com uma vida diferente; fugir ao tédio da mediania; fugir à miserável condição de sonhadores adiados, de membros da colmeia onde todos seguem os mesmos padrões, onde todos se olham como rivais mas sempre membros da mesma “carneirada”. Frank e April sonharam ser diferentes; sonharam ser felizes; talvez não tenham conseguido. Mas sonharam. E portanto, viveram.
Publicado pela primeira vez em 1961 este livro é uma das sátiras mais assertivas que até hoje li sobre a sociedade norte-americana, tal como ela foi formada pelo neo liberalismo triunfante no período após a segunda guerra mundial.
Em causa está um modelo de vida que privilegia o formalismo burguês da classe média e o materialismo capitalista disfarçado numa redoma de moralismo conservador tipicamente americano. Na verdade o autor parece ter como alvo principal esse conjunto de ideias conservadoras e moralistas que apenas fornecem uma imagem artificial da vida.
Frank, empregado num escritório que já arruinara todos os sonhos do pai, é o primeiro a dar-se conta de como a América caminha para a loucura, produzindo cidadãos totalmente alienados, envolvidos num conceito de normalidade avassalador que não permite desvios. Ou seja, que não oferece qualquer margem de liberdade. É a América esquizofrénica, pátria privilegiada da psiquiatria.
Este olhar triste e revoltado percorre quase todo o livro; mau grado o título que promete um certo tom de esperança, a verdade é que não há esperança nem redenção. John, considerado louco, internado num hospício, é o único que concorda com Frank quando este afirma que “este país é um vazio sem esperança”. Contra este modo de pensar, John recebe intensos tratamentos com choques elétricos.
Mas a triste realidade é a dos Campbells; esses sim, são os cidadãos normais da América. O chefe de família, Shep é a imagem quase perfeita de Homer Simpson: pouco dado à higiene, ignorante, bruto, egoísta e interesseiro. É esta a América dos anos 50, como é esta a América da atualidade que, por exemplo Paul Auster nos retrata nos seus livros.
Em suma, trata-se de um livro de leitura muito fácil, agradável embora com um enredo algo sombrio. Como referi acima, merecia uma capa melhor.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ravelstein - Saul Bellow



Sinopse:
Este livro pode ser definido como uma declaração de amor, de amizade e de admiração. O personagem-título do mais novo e polêmico romance de Saul Bellow é, na verdade, Allan Bloom, professor de filosofia que influenciou várias gerações de políticos americanos e chegou a ser recebido por Reagan e Thatcher. Como um pensador da Antigüidade Clássica, Bloom era um líder para seus alunos e sua ascendência ia muito além das salas de aula. Acima de tudo, ele procurava instigá-los a pensar, levando ao limite sua busca pela liberdade de pensamento e defesa da democracia. Saul Bellow se retrata no livro como Chick, um escritor que jamais conseguiu passar do quinto lugar na lista dos mais vendidos e amigo incondicional de Ravelstein, com quem se encontra em Paris. Saul Bellow também revela no livro a homossexualidade de Allan Bloom e sugere que ele teria morrido de HIV.
(extraído daqui

Comentário:
É o primeiro livro que leio deste escritor norte-americano (embora nascido no Canadá) e posso dizer que vale a pena, a julgar por esta obra. Saul Bellow obteve o prémio Nobel da Literatura em 1976 mas este é o seu penúltimo livro, escrito em 2000 quando Bellow contava já 85 anos de idade (veio a falecer em 2005). Mais do que um romance, trata-se de um livro de apontamentos biográficos.
Este livro, embora ficcionado, não deixa de ter fortes traços autobiográficos, representando-se no enredo a amizade do autor por Allan Bloom, conhecido politicólogo norte americano, aqui nomeado Ravelstein. Eminente especialista em política externa, ele privara com os grandes nomes da história americana do século XX e estudara Keynes e Friedman. Ravelstein é um daqueles personagens fortes, dominadores que encandeiam todos os que o rodeiam. Judeu culto, rico, invejado e idolatrado, Abe Ravelstein terá um final de vida dramático devido ao HIV, contraído devido a relações homossexuais promíscuas. A ideia que passa ao leitor é que a tentativa de anular o judaísmo parece funcionar em, personagens como este como um motivo para que a sua vida seja ainda mais marcante; como se a perseguição fosse motivo para uma espécie de vingança sobre o destino: viver em força, marcando a existência de tal forma que a memória nunca se apague. A vida, vivida no limite, com uma intensidade por vezes absurda, talvez fosse uma forma de combater a ignomínia com que algumas ideias políticas tentaram encobrir e perseguir os judeus.
Um outro aspeto muito interessante nesta obra é a forte abordagem da amizade entre os dois homens; Chick, alter-ego do autor idolatra Ravelstein; trata-se de uma daquelas amizades em que alguém se deixa quase subjugar pelo outro; por aquele que admira de forma quase sagrada. E a forte personalidade de Ravelstein pactua com esta situação e alimenta-a. Até a doença de Chick se assemelhe à do seu ídolo. Questiona-se aqui até que ponto a amizade pode conduzir à despersonalização; até que ponto uma personalidade pode dominar outras pessoas de forma tão avassaladora.
Enfim, trata-se de um livro interessante, de leitura fluida, que nos deixa com vontade de saber mais sobre este autor norte americano.

sábado, 4 de agosto de 2012

Dublinesca - Enrique Vila-Matas


Sinopse
Samuel Riba considera-se o último editor literário e sente-se perdido desde que se retirou. Um dia tem um sonho premonitório que lhe indica claramente que o sentido da sua vida passa por Dublin. Convence então uns amigos para irem ao Bloomsday e percorrerem juntos o próprio coração do Ulisses de James Joyce.
Riba oculta aos seus companheiros duas questões que o obcecam: saber se existe o escritor genial que não soube descobrir quando era editor e celebrar um estranho funeral pela era da imprensa, já agonizante pela iminência de um mundo seduzido pela loucura da era digital. Dublin parece ter a chave para a resolução das suas inquietações.
Neblina e mistério. Fantasmas e um humor surpreendente. Enrique Vila- Matas regressa com um romance que parodia o apocalíptico ao mesmo tempo que reflecte sobre o fim de uma época da literatura. Um romance deslumbrante, aberto às mais diversas leituras, uma verdadeira prenda povoada de surpresas. 

Comentário:
Riba é um editor desiludido.
Gutenberg vencido pelo Google; a imagem da decadência e da morte lenta da grande literatura.
Em torno de Ulysses de James Joyce, expoente máximo da era Gutenberg, Riba decide ir a Dublin fazer o funeral da era da imprensa, convidando para isso três amigos: Javier é uma espécie de contraponto de Riba: não gosta do intelectualismo de Joyce. Ricardo tem uma espécie de dupla personalidade; tenta equilibrar os dois lados: a intelectualidade e a vida. Finalmente, o jovem Nietzky. Um nome que faz referencia a Nistzsche; um jovem que Riba admira; grande admirador de Auster, como Riba. Ele será o cérebro da expedição.
Como no filme de Cronemberg (Spider), Riba personifica “a incomunicabilidade de um solitário com um mundo inóspito”. Riba é um solitário que admira Paul Auster, nomeadamente no seu livro “Inventar a solidão”; é nessas viagens pelo mundo interior que Riba imagina e planeia a viagem a Dublin, como se fosse uma espécie de santuário onde executará o requiem à grande literatura.
Em grande parte, este é um livro negro. O autor revela um tremendo desencanto em relação ao rumo da literatura atual; logo no início do livro, Riba apresenta-se como o editor fracassado porque se recusou a editar livros góticos, com vampiros e sangue.
Todo o enredo da obra se baseia nesta crítica, por vezes demasiado enfática, envolvendo mesmo os leitores: numa perspetiva algo elitista, bem do agrado dos críticos literários mais cinzentos, o autor considera que já não há bons leitores: os leitores atuais preferem encontrar nos livros imagens daquilo que eles são, recusando ideias alternativas. Tudo o que lhes é minimamente estranho, é rejeitado. Trata-se, a meu ver de uma perspetiva demasiado sombria e pessimista que não beneficia em nada esta magnifica arte que é a literatura; não é derrotando os leitores que a literatura triunfa.
Trata-se de um livro que me despertou sentimentos contraditórios: por um lado um desencanto perante esta perspetiva híper criticista e elitista, representante típico desta conceção de cultura que rejeita tudo o que pode ser considerado divertido e simples; para Vila-Matas, como para muitos dos intelectuais mais destacados da nossa praça, a cultura tem de ser bem chata, bem cinzenta. E triste; muito triste.
Mas há o outro lado, o sentimento contraditório que despertou em mim o interesse, precisamente, por algumas ideias de Vila-Matas, explanadas num estilo original e com algum bom humor. O funeral em Dublin tem qualquer coisa de surreal, qualquer coisa de vagamente místico que nos deixa presos à leitura sem que nos apercebamos do real motivo desta atração pela leitura. Não há dúvida que Vila Matas escreve muito bem; não é dúvida que é criativo e original; no entanto, esta mensagem cinzenta, esta perspetiva sombria e esta envolvência algo elitista da cultura literária tornam o livro pouco agradável para quem, como eu, encara a literatura como um dos aspetos mais agradáveis, oníricos e divertidos da vida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Melhor leitura de Julho - A Sala de Vidro

A Sala de Vidro, de Simon Mawer.
Um livro em forma de obra de arte ou uma casa em forma de livro; letras como se fossem paredes transparentes ou vidros como se fossem frases ou versos em prosa.
Este livro é uma verdadeira obra de arte e tem aquilo que cada vez é mais difícil de obter: originalidade no estilo sem se tornar excêntrico.
Além de tudo mais estamos perante um excelente retrato da época que precede a segunda guerra mundial.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Ouro do Rei - Arturo Pérez-Reverte



Sinopse:
Este é o livro número 4 das aventuras do Capitão Alatriste, figura criada por Arturo Perez-Reverte e que já vendeu mais de CINCO MILHÕES de exemplares!
De regresso a Espanha, (após a Conquista de Breda) o capitão Alatriste vê-se envolvido numa missão de vida ou de morte…
Sevilha, 1626. No seu regresso da Flandres, onde participaram no assédio e rendição de Breda, o capitão Alatriste e o jovem pajem Íñigo Balboa recebem a incumbência de recrutar um pitoresco grupo de bravos e espadachins, entre eles, Saramago, o Português, para uma missão perigosa, relacionada com o contrabando do ouro que os galeões espanhóis trazem das Índias. O submundo da turbulenta cidade andaluza, o Patio de los Naranjos, o calabouço real, as tabernas de Triana, os areais do Guadalquivir, são os cenários desta nova aventura, onde os protagonistas reencontrarão traições, lances e estocadas, na companhia de velhos amigos e de velhos inimigos.

Comentário:
A literatura espanhola passou já a ser, para mim, um mundo misterioso e de uma beleza artística extraordinária. No entanto, cada livro de Reverte já não é uma surpresa mas mais uma confirmação. Neste caso específico, trata-se de mais um episódio de uma série que Reverte escreveu na fase inicial da sua carreira, sem grande profundidade literária mas com um traço de génio que lhe permitiu vender mais de cinco milhões de exemplares em todo o mundo, em mais de 30 traduções.
Ler um destes livros é regressar à adolescência em que todos nós nos deixámos deleitar por livros e filmes de capa e espada. É deixarmo-nos levar pelo entusiasmo do picaresco, da emoção de um duelo, do encantamento dos espadachins a fazer lembrar os mosqueteiros de Dumas.
Mas este Capitão Alatriste tem algo de ainda mais interessante: um suave tom quixotesco, tanto no idealismo quase épico do herói como na tonalidade humorística com que todo o livro é polvilhado. Alatriste é herói e anti-herói, justiceiro e vilão. Esta dualidade deriva de uma outra, bem mais profunda que perpassa toda a obra literária de Reverte: o patriotismo bem latino em paralelo com uma tremenda dimensão crítica face à história de Espanha.
Na realidade, este génio espanhol da literatura não deixa nunca de apontar o dedo aos defeitos estruturais da alma espanhola, bem similar à portuguesa: apesar da vocação marítima, o governo sempre tendeu a desprezar aqueles que, de facto, revelavam talento, em favor dos seus protegidos. A corrupção não é, de facto, exclusivo de Portugal nem dos tempos atuais.
Por outro lado, o mal eterno da Espanha como de Portugal: “aquela riqueza acabou por ser aproveitada por todos menos pelos espanhóis: com a Coroa sempre endividada, gastava-se antes de receber.”
Mas não é pelas interpretações históricas que este livro nos deixa agarrados à leitura; é pela emoção, pela incerteza no desenlace.
A parte final do livro é verdadeiramente emocionante, com o assalto ao navio que pretendia desviar o ouro da coroa espanhola. É nesta fase que entra em cena um personagem português, o Saramago, que mais não é que uma belíssima homenagem de Reverte ao imortal José Saramago. Às vezes, de Espanha também veem bons ventos…
Em suma, não é uma obra-prima porque não é um livro que nos ofereça pontos de vista originais ou nos surpreenda de qualquer forma. Mas é uma leitura tão agradável como qualquer clássico de capa e espada. Penso que só isso já é suficiente para valer a pena percorrer esta primeira fase da escrita deste que é, em minha opinião, o melhor escritor espanhol da atualidade.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Sala de Vidro - Simon Mawer


Sinopse
Situada na Checoslováquia, no cimo de uma colina, a Casa Landauer é uma maravilha de aço, vidro e ónix, construída especialmente para os recém-casados Viktor e Liesel Landauer, um judeu e uma gentia. Mas a retidão resplandecente dos anos 30 que a casa, com a sua invulgar Sala de Vidro, parece emanar, rapidamente perde o brilho à medida que se congregam as nuvens de tempestade da II Guerra Mundial, e a família acaba por ter de partir, acompanhada pela amante de Viktor e a filha desta. 
Porém, a história da casa está longe de chegar ao fim e, à medida que esta vai passando de mão em mão, dos Checos para os Russos, o melhor e o pior da história da Europa Central é de certa forma encarnado e talvez encorajado pelas belas e austeras superfícies e pelos planos tão cuidadosamente concebidos, até que os eventos completam o círculo da narrativa


Comentário
Eis um livro surpreendente. A ideia, genial, é traspor para a escrita uma obra de arte arquitetónica. Por outras palavras: escrever um livro em que sejam expostas as características fundamentais na chamada Nova Arquitetura, que marcou os anos 20 e 30 da história da arte.
O resultado desta ideia é um livro brilhante.
A casa que dá origem ao livro é um exemplo típico da Nova Arquitetura, cujos expoentes máximos foram os arquitetos Le Corbusier e Frank Loyd Wright.
A casa é absolutamente geométrica. Traços ortogonais. Da mesma forma, o livro é traçado de uma forma simples, linear. É tempo de dizer que um grande livro pode ser simples e fácil de ler; um grande livro não tem de ser enigmático e cheio de arabescos como a arquitetura barroca. Um grande livro, como este (e como a casa) é belo por ser simples, sem nunca perder aquela dimensão simbólica que nos faz encará-lo como uma verdadeira obra de arte.
Logo nos primeiros capítulos fica claro que a enorme sala de vidro que preenche a zona mais importante da casa revela uma transparência que se estende do vidro à vida das personagens; assim como a casa se “vê por fora” também os personagens são visíveis mesmo nos aspetos mais íntimos das suas vidas. Como se nada nem ninguém pudesse esconder ou esconder-se.
Talvez nunca na história da literatura uma obra de ficção se assemelhasse tanto a uma obra de arquitetura; o livro lê-se como quem contempla aquela casa. Geometria e transparência. Vidro e páginas; linhas retas, ortogonais e páginas simples, vidas gizadas a régua e esquadro.
Com a invasão alemã (a ação decorre na atual República Checa) os nazis transformam a casa num laboratório científico. O autor, de forma bastante sagaz, coloca-nos perante a velha questão da ciência e da arte como paradigmas fundamentais da vida humana; os nazis, na sua ânsia de obter as coordenadas da raça perfeita apresentam-se em contraponto com a paz dos anos 30, em que a família Landauer encarou a casa como o exemplar perfeito da arte. A arte aparece assim associada à paz, à beleza, à felicidade e a ciência associada às necessidades e contexto da guerra.
Na fase final do livro a ação perde algum fulgor. O leitor fica com a sensação que o autor teve necessidade de abreviar o enredo, talvez pela dimensão que a obra já revelava. O pós-guerra é apresentado de uma forma algo abreviada, com uma incursão rápida até à época de ruina do sistema soviético, num ritmo narrativo completamente diferente da primeira parte do livro. Esta assimetria de tempos narrativos prejudica um pouco o livro, deixando o leitor algo desapontado pela forma quase precipitada como o autor caminha, apressado, para o desfecho.
Mesmo assim, estamos perante uma verdadeira obra de arte que nos leva a querer ler mais deste autor que, pessoalmente, desconhecia.

sábado, 28 de julho de 2012

D. Dinis de Cristina Torrão - opinião de Sara Barros

Se bem se lembram, o primeiro e único passatempo até agora realizado neste blogue ocorreu em Dezembro passado e saiu vencedora a nossa leitora Sara Barros. Vencido o passatempo e lido o livro, o Sara presenteou-nos com a sua opinião. Aí vai ela então, na íntegra:


Todos nós conhecemos algo sobre D. Dinis: que foi o sexto rei de Portugal casado como Isabel De Aragão, mais tarde tornada santa, que mandou plantar o célebre pinhal de Leiria ou que fundou a primeira universidade. Talvez alguns se recordem das Flores de verde pino, ou outras cantigas daquele que também ficou conhecido como o rei-poeta.
Tudo isto vem nos livros de história, juntamente com mais uns quantos factos e uma infindável lista de datas. Ora, Cristina Torrão dá-nos uma visão diferente deste monarca: ela tira-o do pedestal e atribui-lhe uma dimensão humana.

Esta é a principal qualidade do romance: a transformação das figuras históricas que todos conhecemos em pessoas, que até se assemelham a nós em certos momentos. Mais do que um rei, D. Dinis era um homem que além do governo da nação também tinha que se debater com problemas comuns…Assim, mais do que factos impessoais a autora dá especial destaque à esfera privada de D. Dinis: a relação conturbada com Isabel, tão ascética e tão pouco dada aos prazeres da vida, a relação com o irmão sempre a cobiçar-lhe o trono…
Uma verdadeira trama familiar descrita com grande sensibilidade. Alguns trechos são particularmente comoventes, por exemplo, o encontro de D. Dinis, ainda criança, com o seu avô Afonso X em Toledo ou a chegada de Isabel a Trancoso com apenas doze anos, mas de cabeça erguida “como se passeasse todos os dias pelo Castelo de Trancoso”.
Isabel desce também um pouco do pedestal de Santa é retratada como uma mulher que apesar de tentar suportar tudo com penitência também sente ciúmes e se enfurece, especialmente quando vê que o filho não recebe aquilo que lhe devido… Como qualquer mãe. Muito interessante a recriação do milagre das rosas: em frente a um grupo de mendigos Isabel pede que lhe cheguem o cesto do pão, mas por engano alguém lhe dá um cesto com rosas. Talvez mais credível que D. Dinis se ter postado em frente à rainha com um ar temível perguntando o que levava ela no regaço. O facto é que não existem bons e maus, como acontece na historiografia em que tudo parece muito linear (basta ver que na nossa história temos as rainhas “boas” e as rainhas “más”, por exemplo).
Neste romance temos pessoas com várias facetas que enfrentam situações mais ou menos tensas. Temos personagens com profundidade e perceber isto torna a leitura muito agradável.
Isto não quer dizer que a autora descure os factos, pelo contrário…Há bastantes pormenores históricos para serem assimilados, sobretudo no que toca à política. No entanto, a leitura nunca se torna maçuda. A autora consegue intercalar bem os momentos de decisão política com os momentos de fora mais pessoal. Da mesma forma há uma perfeita intercalação das várias facetas de D. Dinis: o lado de estratega com o lado boémio…As certezas com as dúvidas. Todos estes pormenores se tornam necessários para perceber o contexto em que o rei se move…Como tentar entender uma personagem se não se conhecer o contexto em que esta se insere? Assim, além de um retrato humano, Cristão Torrão fornece também um retrato de época marcado por  guerras, tratados que se quebram e voltam a fazer, caminhos diplomáticos tortuosos.
Em suma trata-se de um romance histórico onde o lado humano é o mais valorizado e por isso nos prende às suas páginas. Não estamos perante figuras distantes que sintam coisas que nos sejam desconhecidas. Estamos perante invejas, pequenos e grandes ódios, amores, traições…E quem não tem uma família que não dê dores de cabeça, nem que seja por uma vez?
É realmente gratificante ler num romance sobre a nossa história, tão rica em toda a espécie de episódios dos trágicos aos caricatos. Em especial quando se trata de um romance de grande qualidade como este.
Sara Barros

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Caminho de San Geovanni - Italo Calvino



Sinopse:
Os cinco textos reunidos neste livro fazem parte da série de "exercícios de memória" em que Italo Calvino trabalhava quando morreu. Escritos entre 1962 e 1977, são heterogêneos na forma e na intenção: podem ser descritivos, poéticos, reflexivos, críticos, constituindo narrativas de caráter fortemente espacial e visual. Longe da autocomplacência comum nos relatos autobiográficos, e mais do que narrar eventos e revelar fatos da história pessoal, são quase ensaios sobre o imaginário da infância e da adolescência do autor, ou sobre temas banais como o lixo doméstico. Mas em Italo Calvino nada é prosaico. Nada é trivial para esse escritor que inventou, a partir das imagens da infância em San Remo, um "lugar geométrico do eu" e, desse lugar, pôs-se a ver o mundo.

Comentário:
Esta não é, nem nunca pretendeu ser, uma das mais brilhantes obras de Italo Calvino; não tem nada a ver com a fantasia e criatividade de As Cidades Invisíveis, com a graça e delicadeza de Palomar nem muito menos com a genialidade poética de Se Numa Noite De Inverno Um Viajante… este é apenas um exercício de escrita que apelam às memória do autor.
Na contracapa desta edição da Teorema diz-se que se trata de um conjunto de “exercícios de memória”; eu diria antes que se trata de exercícios de escrita, sem qualquer ambição, sem qualquer intuito de criar uma obra de arte literária, tão só textos que parecem ter sido escritos para o próprio escritor, como uma espécie de devaneio literário.
No entanto, é precisamente nessa ingenuidade literária que reside o grande mérito destes escritos.
Trata-se de cinco textos que abordam temas absolutamente triviais. Que autor desprovido de génio teria construído sobre estes temas algo de literariamente belo? Nenhum! Só mesmo um génio como Calvino.
O primeiro texto fala-nos do caminho para a feira, que o autor trilhou com pai durante a sua meninice. O segundo debruça-se sobre os filmes que o autor viu na adolescência e juventude. O terceiro é o único conto que nos fala de algo que foge à referida trivialidade; descreve, de forma dramática e poética, uma batalha da segunda guerra mundial em que o autor participou. O quarto texto, o meu preferido, fala, imagine-se, dos sistemas de recolha de lixo doméstico em Paris! O último conto é um puro exercício de escrita sobre a relatividade do espaço e das formas; algo que fica a meio caminho entre o barroco da linguagem e o devaneio filosófico.
Enfim, um livro que se lê facilmente, sem grande interesse literário mas importante para quem quiser compreender um pouco melhor a biografia, as ideias e a carreira literária deste grande génio da literatura europeia. 

sábado, 21 de julho de 2012

A Confissão da Leoa - Mia Couto


Sinopse:
O enredo desenvolve-se numa aldeia do norte do Moçambique, onde se vive uma pobreza absoluta. Trata-se de uma das regiões mais pobres de África. Aí vive uma comunidade atacada pelos Leões. A jovem Mariamar e o caçador Arcanjo Baleiro são os personagens principais.
Um acontecimento real – as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique – é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.
A Confissão da Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português.


Comentário:
A relação entre o homem e o mundo natural, as tradições nativas bem como o papel da mulher na comunidade africana são os temas que Mia Couto transporta para esta bela estória de ficção, onde se fala de uma mulher que é um monumento à alma africana: Mariamar.
Logo a primeira página deixa-nos extasiado com a poesia a que este autor já nos habituou: “Deus já foi mulher” é a frase de abertura do livro. Depois: “Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. (…) Todos sabemos, por exemplo, que o Céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.”
A linguagem poética de Mia Couto é, de facto, avassaladora e até os nomes dos personagens são reveladores: Arcanjo, por exemplo, é o nome do matador. Ou melhor, do caçador, porque caçar não é matar; é participar da natureza.
A mão de Mariamar (Anifa Assula) diz que a aldeia é um cemitério vivo para as mulheres. Por isso prefere fazer amor sozinha; é a única forma de vencer os homens. Este é o ponto de partida para uma crítica acérrima à relação entre e mulheres de que falarei adiante.
Quando Mariamar se encontra de frente com a feroz leoa que ataca a aldeia, diz a narradora (Mariamar): “a leoa saúda-me, com respeito de irmã”. É a identificação total, o cruzamento de destinos entre leoa e mulher. Aquela é a leoa assassina, perante a qual os homens, mesmo caçadores e guerreiros “todos se prostraram, escravos do medo, vencidos pela sua própria impotência.
Um aspeto interessante desta magnífica personagem, é que Mariamar sabe escrever, ao contrário de muitos dos outros habitantes da aldeia. Ela não aprendeu com os missionários mas sim com os bichos selvagens. Eles ensinaram com fábulas porque só eles sabem distinguir o bem e o mal. “foram os animais que começaram a fazer-me humana, afirma Mariamar.
A natureza do poder político perante a pobreza em África é outro tópico desenvolvido pelo autor. Quando o administrador chega à aldeia com o caçador de leões, um camponês questiona porque é que eles querem saber como morremos, se nunca quiseram saber como vivemos? Perante a fome e a miséria, pouco interessa à autoridade a vida deste povo…
O povo acredita que foi a guerra que chamou os leões. A guerra (ou a colonização) alterou o equilíbrio que havia entre homens e bichos. O pior é que terminada a guerra, a situação ainda piorou. Lamenta-se Genito: Aqui não há polícias, não há governo. E mesmo Deus só às vezes.
Algumas tradições locais são vistas por Mia Couto como sementes de violência – as mulheres exploradas, as crenças que resultam em autênticos crimes, um machismo aterrador que justifica até o incesto, etc. Tudo isto o homem branco não soube resolver, mas o homem negro também não.
E paulatinamente, o livro vai-se transformando numa crítica brutal aos costumes ancestrais do povo africano. Sem qualquer indício de racismo, note-se. Pelo contrário: com um imenso respeito pela cultura africana naquilo que ela representa de harmonia entre o homem e a natureza, sempre que a estupidez humana não a impede.
Mariamar, neste mundo miserável, injusto e violento é a vítima sacrificial e a heroína nesta luta terrível, não contra as feras da selva mas contra a estupidez, a ignorância, o preconceito.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ver: Amor - David Grossman


Sinopse:
Na década de 1950, em Israel, o menino Momik, filho de judeus sobreviventes do Leste Europeu, interpreta à sua maneira os silêncios e fragmentos de conversas dos adultos sobre o que viveram na 'terra de lá' (a Europa dominada por Hitler). Convencido de que a 'besta nazista' é, literalmente, um monstro horrendo, resolve atraí-la a um galpão no fundo de sua casa para poder destruí-la, com a ajuda do avô Anshel Wasserman, que aparentemente ficou louco num campo de concentração. Já adulto, e agora romancista, Momik recria literariamente a história de Bruno Schulz (1892-1942), escritor polonês morto por um soldado nazista no gueto de Drohobycz. Na variante inventada por Momik, porém, Schulz foge para Dantzig e se atira no mar do Norte, em cujas profundezas vive uma aventura fantástica e alegórica. Outra história dentro da história é a do avô Wasserman, ele próprio autor, na década de 1910. Em 1943, prisioneiro de um campo de concentração, Wasserman se transforma numa espécie de Sherazade às avessas - ao descobrir que é invulnerável às inúmeras formas de assassinato praticadas pelos nazistas, ele conta a cada noite novas histórias ao comandante do campo, e em troca este tenta matá-lo. Narrado em várias vozes, fundindo gêneros e estilos, 'Ver - amor' cobre de modo não linear praticamente todo o século XX, tendo como núcleo a experiência indizível do Holocausto.
(in: http://www.skoob.com.br)

Comentário
Realidade – Sonho – Loucura – Fantasia total. Podia ser este o percurso da obra, os quatro pilares dos quatro capítulos em que o livro de divide.
As memórias do Holocausto, num “país de Lá” do qual é preferível não falar, dão lugar a percursos de sonho, pela voz do avô Anshel Wasserman “Sherazade”, escritor, contador de estória, o homem que não podia morrer.
Momik, o neto e narrador, constrói um mundo de total fantasia, em torno de dois grandes sonhos: ser escritor e capturar a Besta Nazi. Na primeira fase do livro é enternecedora a amizade entre Momik e o avô. Depois o enredo desenvolve-se em flashback, até à segunda guerra mundial, durante a qual o avô tinha sido o judeu misteriosamente preferido do sanguinário comandante do campo de extermínio.
Momik, entretanto, descobre que a Besta tinha dominado por completo o espírito dos judeus; compreende que a Besta só poderia ser derrotada com o retorno do tempo, o mesmo é dizer com o sonho e a fantasia.
Já casado com Rute, mais tarde, Momik escreve a história de Bruno, vítima dos nazis. Numa linguagem profundamente poética, Grossman leva-nos a conhecer a vida de Bruno após a morte – navegando nos mares, entre os salmões, com uma missão: conhecer a vida.
Entretanto, à medida que se torna adulto, Momik torna-se infeliz e vive atormentado pela memória. A memória da besta. O amor está ausente. Até da esposa e do filho. E de toda a humanidade. Todos os dias Momik dá duas bofetadas ao filho para que ele esteja preparado para a tristeza do mundo. O filho não aprenderá a amar como Momik nunca aprendera.
Entretanto, Momik assume um novo sonho: escrever a Enciclopédia do Holocausto para a juventude. Não aprendeu nem ensinou o amor mas pode ensinar o ódio. Para que a memória do ódio prevaleça.
A Besta trouxe o ódio e o povo judeu preservou-o. Guardou-o e repartiu-o. Numa espécie de crítica radical da violência, Grossman é perentório: “Somos assassinos responsáveis, preocupados com o nosso bem estar, dedicados e cheios de consideração, mas apesar de tudo assassinos.” “O medo e o ódio reinam entre nós, esses dois fórceps com que arrancam a mínima migalha de ternura e amor”. (página 221).
No campo de extermínio os Nazis não conseguem matar Anshel; todas as balas falham o alvo e nem o gás o mata. É com as suas estórias para crianças “os meninos do coração de ouro” que Anshel consegue comover o horrível comandante Niegel. Surge até uma espantosa amizade entre os dois porque o medo desaparecera. No final, o derrotado será Niegel. Antes disso, Anshel não podia morrer. Nem antes que a estória dos meninos de ouro tivesse o seu desfecho. Até lá a missão de Anshel era, todas as noites, contar a Niegel mais episódio da estória dos meninos.
A estória dos meninos com coração de ouro derrotará os nazis porque fala de amor. Só o amor seria capaz de tal façanha, ou então o sacrifício total, como o do louco de Varsóvia que se deixou torturar até à morte sem oferecer a verdade ao torturador. São estas as duas vias: o sofrimento e o amor.
Com a estória de Anshel, até Niegel se torna capaz de amar. Daí a sua desgraça, a sua derrota: porque era impossível servir o Reich e, ao mesmo tempo, ser humano.
A última fase do livro poderia intitular-se “o triunfo da morte”. A morte como solução, como triunfo também. E o triunfo de Wasserman, o homem que venceu a morte; o judeu que personifica todo um povo condenado à imortalidade.
Em conclusão: um livro muito elaborado, duro, por vezes difícil de compreender, mas que resulta numa obra literária de grande dimensão humana, numa linguagem poética e cheia de sentimento. 

domingo, 15 de julho de 2012

O teu rosto será o último - João Ricardo Pedro


Sinopse?
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. 
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. 
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?


Comentário:
Um dos principais méritos desta obra é que envolve uma avaliação curiosa e historicamente bastante correta da revolução de abril e do antigo regime. Estão aqui expostos de forma clara muitos dos problemas gerados pela ditadura na mentalidade e nas estruturas da vida portuguesa no século XX.

Sentido de humor bem à portuguesa, com muito calão pelo meio. Esta opção do autor pode ser controversa e já gerou, certamente, reações adversas. No entanto, neste caso, o calão parece-me bem enquadrado. Por um lado confere à leitura esse sentido de humor bem português e por outro transmite um certo realismo ao enredo.
Por outro lado, o relato dos costumes, acontecimentos e realidades típicas da história contemporânea de Portugal, é bastante sugestivo, de leitura fácil e muito agradável, fazendo lembrar a série Conta-me Como Foi. Assim, o livro capta com facilidade a atenção dos leitores de uma faixa etária acima dos 35 anos. Um dos exemplos mais bem conseguidos é o da Volta a Portugal em bicicleta, com todo o folclore, toda a emoção que a corrida envolvia noutros tempos, antes da invasão do ciclismo pela mentalidade capitalista. No extremo oposto, na zona cinzenta das desgraças lusas, está a guerra colonial, esse monstro que devorou o Portugal salazarento após 1961 e que aqui é ilustrado pela desgraçada vida de António, o pai de Duarte: uma vida sacrificada por nada, tal como milhares de outras, vítimas do capricho anacrónico de um regime fascista apodrecido pelo ódio e pela insanidade.
O autor revela também uma extrema sensibilidade no tratamento dos assuntos mais sérios, como a doença da mãe de Duarte, assim como a prisão e assassínio do pai dela. Um cuidado e uma delicadeza que deixam o leitor entusiasmado com a forma sentida como o sofrimento humano é exposto. A sensibilidade da escrita é, nestes capítulos, notável.
Pessoalmente penso que o livro perde um pouco com a tentativa de adensar o mistério em torno da morte de Celestino, que torna o desfecho algo confuso.
Seja como for, estamos perante um autor com qualidades suficientes para garantir o sucesso no panorama literário português.